Elogio à sensorialidade da Cultura

A pandemia consagrou o virtual: cursos, telas, compras online. É forçoso, mas não deve durar. A reflexão exige a vitalidade das aulas presenciais; a carnalidade dos livros e bibliotecas; a diversidade e burburinho das ruas de comércio

Por Antonio Lafuente | Tradução de Simone Paz Hernández | Imagem: Pablo Picasso

Ler numa tela virou um ato pouquíssimo inocente. É uma atividade que envolve tantas conotações políticas, que, talvez, precisemos revisá-la. Por isso escrevemos este texto, na esperança de que a chamada nova normalidade não piore ainda mais as coisas. O coronavírus expõe um ganhador invicto: as grandes plataformas que paralisam as redes e que tentam transformar a internet numa constelação de condomínios fechados, bairros com vigilância, reservados, privatizados e ensimesmados. Ler na tela tem suas consequências — e elas não são nada banais.

Da mesma forma, também não há inocência em comprar online ou em dar aulas pela internet. Sabemos disso e não é exagero relembrar: estamos vivendo uma situação de emergência e tudo isso foi um improviso para solucionar alguns problemas. Enfim, só fazemos o que conseguimos. E se migramos para a cultura de plataforma, afetados pela Covid-19, é porque não tínhamos outra saída. O importante é que não nos acostumemos a isso sem sequer impor um pouco de resistência.

O perigo é que aquilo que começou entre hesitações, como se fosse o menor de nossos males, torne-se um hábito do qual não desejemos mais nos separar ou prescindir. Comprar online é o equivalente a contar aos fornecedores o que acontece dentro de nossa casa. É como se disséssemos a eles o que comemos, o que assistimos e, de modo geral, o que compartilhamos com os outros neste espaço seguro e privado que chamamos de lar — e que, a cada dia que passa, fica mais vulnerável. A crise da pandemia foi a desculpa perfeita para entregar às grandes plataformas — neste caso, às da educação — esse outro local sagrado que é a sala de aula: um espaço onde os professores possuem liberdade, a liberdade da cátedra, para garantir uma diversidade de estilos e uma pluralidade de visões.

Na sala de aula sempre aconteceram coisas que não estavam no manual de instruções, não planejadas, que não entram nas oposições, não podem ser protocolizadas e que são decisivas. Para nossa sorte, todos já fomos estudantes e não precisamos de um oráculo para entender uma coisa tão óbvia. Ensinar não é transmitir informação. Mas como explicar isso aos administradores da educação, sempre empenhados em reduzir custos e simplificar processos? E há mais coisas que precisamos pensar urgentemente, porque esse hábito de levar as crianças para a escola todo dia também pode estar em risco de extinção. Mas voltemos à questão da leitura, que foi o primeiro costume que se viu na situação de ter que escolher entre a cultura do papel e a cultura de plataforma

Ler pode ser um ato muito político se, em vez de comprar online, fizermos a compra na livraria do bairro. Com isso, não só protegemos a nossa intimidade, ao não deixar rastros daquilo de que gostamos, desgostamos ou do que nos emociona. É que reservar nossa intimidade para os momentos e as pessoas mais especiais não só faz de nós seres únicos, mas também livres. Sermos reservados com relação aos algoritmos faz de nós melhores pessoas e cidadãos. Nossas pegadas são utilizadas para saber qual produto funciona melhor, e isso, inevitavelmente, ajudará a produzir somente aquilo que é vendável. No fim das contas, entre todos nós, conseguiremos destruir tudo o que não for canônico, majoritário, bonito ou consumível. A cultura sofrerá uma mutilação degradante

Transitar numa plataforma significa compartilhar, com aqueles que só têm interesse em nós como clientes, informação que lhes dá poder e, simultaneamente, nos torna mais frágeis. Mais vulneráveis, porque, na melhor das hipóteses, eles só tentarão nos comprazer, dar respostas previsíveis e soluções verificadas, exatamente o oposto daquilo que precisamos quando queremos ensaiar novas práticas, ou, como dizia o mestre Kundera, outros egos experimentais.

Em termos mais urbanos, não só a leitura digital tem suas consequências, também a compra online contribui com a desaparição dos pequenos comércio de bairro, incluindo as livrarias. Nossas cidades, então, vão se tornando mais homogêneas, pela destruição da diversidade que era construída pelos transeuntes entre mercearias, livrarias, sapatarias, padarias, lojas de ferragens, papelarias, lojas de brinquedos, empórios ou cabeleireiros. Nem tudo se resume a bares e restaurantes. Livros, brinquedos, discos já não estão mais próximos. Há importantes problemas de desemprego, mas o fato para o qual queremos chamar a atenção hoje é o do triste empobrecimento da vida urbana

Livrarias e bibliotecas são lugares incríveis. São espaços nos quais sempre conviveu todo tipo de personagens, discursos e estilos. Nenhum espaço público representa melhor do que a biblioteca do bairro a vontade de construir uma sociedade tolerante e aberta. Cada biblioteca local é um monumento à tolerância e à vontade de conviver. Nossas praças estão cheias de esculturas que lembram personagens ou eventos que colaboraram com a construção de um país onde todos coubessem: uma mátria que cuida de nós, com nossas diferenças, fragilidades e complexidades. Esses marcos urbanos operam como faróis que emitem sinais que, por um lado, não nos desafiam mais e, por outro, nos transformam em simples espectadores

Entendemos suas origens, mas também sua existência meramente monumental, ornamental e descomunal. Por isso é que as bibliotecas locais são tão importantes e, por isso, deveríamos lutar contra o seu desaparecimento. Todos os eventos largados ao esquecimento estão lá dentro, bem como as muitas interpretações que foram feitas de seu significado e que explicam os inúmeros pontos de vista que nos diferenciam, às vezes em conflito, e que configuram o que chamamos de espaço público.

Talvez o pecado das bibliotecas seja o de serem espaços silenciosos demais, com organização excessiva, mais tranquilos do que vibrantes, mais para depósitos de livros do que para laboratórios de ideias e experimentos. Proust dizia que um livro permitia o milagre da comunicação mesmo em solidão. E mesmo isso sendo verdade (provavelmente, todos nós já vivenciamos isso alguma vez), essa afirmação não exclui o fato de nada ser mais prazeroso do que compartilhar as coisas que aprendemos, ou ouvir o que outras pessoas sentiram. O maior cúmplice do livro é o clube de leitura. E nenhum lugar é mais apropriado para isso do que uma biblioteca ou uma livraria de rua

Bibliotecas são espaços únicos. Elas se esforçam em preservar os livros, como se o próprio objeto fosse sacralizável. Entendemos essa atitude em momentos passados ​​de escassez, mas hoje é um pouco exagerada. Muitos meios de comunicação passaram a dividir com o livro as tarefas de entretenimento, informação, instrução, exploração, imaginação ou educação. E as bibliotecas sabem disso, e é por isso que (quase) todas elas têm uma seção de jornais, videoteca, internet, salas de reunião e espaços para silêncio.

Aos poucos, todas elas vão começando a entender que sua função não é a de preservar objetos como se fossem incunábulos, e sim valorizar as culturas do aprendizado, seja por meio do livro como instrumento, ou por meio de outras ferramentas baseadas na imagem, na palavra falada, no código de programação, etc. As bibliotecas não deveriam se dedicar à preservação de uma herança, elas precisam ser espaços de produção e deveriam transitar para a incorporação da cultura de maker, seja usando as palavras ditas ou as imagens roubadas, seja usando práticas artesanais ou iniciativas de hackers. As bibliotecas de bairro não deveriam imitar os grandes espaços dedicados ao patrimônio livreiro. As bibliotecas locais — entendidas como espaços informais de aprendizado, criação e produção — têm um grande futuro em nossas cidades.

O livro é uma caixa que nunca conseguiremos elogiar em excesso. É uma ferramenta tão perfeita, versátil, plástica e adaptável, que é muito pouco provável conseguir imaginar outro objeto de design com o qual teríamos uma dívida maior. Tudo o que sabemos e tudo o que sonhamos está ali dentro, entre versos ou equações, entre demonstrações ou divagações. Todas as línguas, todos os olhos, todas as experiências encontraram seu cantinho. É depositário do que somos e do que poderíamos ser. Mas também é uma tecnologia para transmitir esse conhecimento e aumentá-lo. Não é difícil entender que temos tanta devoção a ele. É por isso que as livrarias são um setor de comércio tão especial e relutamos em vê-las desaparecer. A noção de livraria está associada à de livros impressos e, portanto, a uma maneira particular de ser afetado por seu conteúdo. Para muitos, não é indiferente ler no papel ou numa tela. Temos muitos textos para argumentar. Os mais nostálgicos dizem que ler no livro é como dormir em casa, enquanto se você o lê no formato de ebook, contenta-se em passar a noite num hotel de beira de estrada

Os mais cabeçudos nos lembram que a leitura é uma atividade relativamente recente, e que, como não há nada de natural nela, nosso cérebro teve de se adaptar para poder administrar com eficiência o que é dito, o que é evocado, o que é insinuado e o que é ocultado entre as linhas. Nosso cérebro consegue ler o que é dito e o não dito. Temos muitas evidências nas quais confiar, mas nenhuma é melhor do que a mais utilizada: os taxistas de Londres desenvolveram melhor a parte do cérebro que gerencia a inteligência espacial e se ativa continuamente para escolher o caminho a seguir. Mencionamos Londres porque foi lá que descobriram como o cérebro se adapta à esta função, mas essa constatação vale para qualquer motorista experiente. Há também experimentos que mostram que os cérebros dos músicos são diferentes. Mas queremos chegar no fato de que nossos cérebros e os livros têm um relacionamento próximo. Sabemos disso porque ainda existem muitos analfabetos no mundo e seu cérebro funciona de maneira diferente. Também sabemos que ler em uma tela não é o mesmo que ler em papel — e há muitas evidências neurofisiológicas e psicológicas que confirmam isso

A transição do livro para o ebook terá consequências que ainda não sabemos avaliar. Os defensores dos livros não se cansam de expor argumentos que falam dessa diferença. Dizem que a leitura não é uma atividade mental, mas envolve todo o corpo, pois é uma prática cognitiva, afetiva, fisiológica e perceptiva. Se estamos dispostos a aceitar que somos o que fazemos, certamente também admitimos que a forma como fazemos isso importa muito. Não estamos discutindo a importância do resultado, mas é normal que desejemos reivindicar a importância dos processos.

Acho que não há pedagogos, psicólogos ou antropólogos discutindo essa questão. Mas, alguns sociólogos avaliaram uma atitude diferente entre os leitores de tela e os de papel. Parece que tudo na tela acontece a uma velocidade que reduz a capacidade de deliberar ou meditar. Shirley Turkle expressou isso com uma bela anedota. Conta que certa vez uma filha estava discutindo com o pai e que ele, desesperado e teimoso, pegou o celular para verificar quem estava certo. Nesse momento, a filha o repreendeu, dizendo que ela não estava lá para verificar dados, e sim para dividir sentimentos.

Nas redes, tudo é muito fácil, rápido e inseguro. O problema não é incerteza, mas a velocidade. Não menos importante é o fato de a rede nos tirar da realidade e nos transportar para espaços abstratos. Ou, se preferir, você pode dizer isso de forma diferente. O que acontece conosco deixa de estar intimamente associado ao que está próximo, ao que é imediato, ao que é carnal. Eembora ainda seja real, torna-se algo mais distante, retórico ou intangível

Chamamo-no de livro, mas não é. Um ebook não é um livro, embora o conteúdo coincida. É um objeto navegável, fragmentável, reconfigurável, e com o qual é possível fazer muitas coisas. O ebook é uma desculpa para outros objetivos. Já falamos sobre os rastros que deixamos e, portanto, o que parece acontecer é que conquistamos novos recursos durante a navegação. E é verdade, porque podemos dividir e recortar um livro de tantas maneiras que não há mais necessidade de lê-lo inteiro para conhecê-lo e apropriá-lo. Mas nunca devemos esquecer que, enquanto estamos navegando, somos navegados e examinados. Somos transformados em uma mercadoria que as plataformas sabem como monetizar. Eles se preocupam pouco com o conteúdo, os autores, as nuances e os detalhes. A única coisa que vale na plataforma é o que contável, o que pode ser monitorado: importa apenas o que pode ser contado, o que os algoritmos sabem codificar como dados. As plataformas não negociam com livros, mas com bits. Elas não vendem palavras, mas dados

Plataformas são interfaces que conectam a demanda por palavras à oferta dos autores, mas não são mediadas por livros, editoras ou livrarias, pois a única coisa que importa é o tráfego de dados. O Uber conecta a necessidade de deslocamento que as pessoas têm com uma oferta abundante e informal de motoristas que trabalham a preços muito competitivos, mas em condições precárias e exigentes. É muito parecido com o transporte de táxi, mas são coisas muito diferentes e é por isso que estamos em uma situação de alarme. O Airbnb conecta a necessidade de acomodação a uma oferta informal de quartos que põem em perigo o setor hoteleiro e de pousadas e ameaçam com a turistização de nossas cidades. Para as duas plataformas, o ideal seria acabar com as associaçõs de editores, hoteleiros e taxistas, que passaram a ser tratados como meros intermediários que não agregam valor e que, em vez disso, atuam como extratores de riqueza. As plataformas vão destruir o mundo como o conhecemos. Restam poucas lojas de rua e, entre plataformas e grandes redes, nosso mundo está se tornando cada vez menos diversificado e mais monótono

Apropriaram-se do universo dos livros e agora parece que estão mirando o mundo das aulas. Já não sei o que mais precisa acontecer para que a gente reaja e se imponha. Não se trata só de impostos, mas de soberania e liberdade. As livrarias só serão salvas se as bibliotecas locais passarem a se importar com elas. Não estamos falando de expropriação, mas de transformar seu potencial em um ativo local. As bibliotecas só deveriam comprar livros em seu próprio bairro e comprar muitos, tudo o que as pessoas exigem. Não para acumular bens de consumo e salvar um negócio que, sem dúvida, merece outra chance, mas para salvar o bairro e as culturas de aprendizado. Certamente existem livreiros interessados ​​neste pacto contra a cultura da plataforma e a favor do bairro como plataforma cultural localizada. E os livreiros deveriam deixar à disposição do público seu amor pelos livros, seu conhecimento dos leitores e dos setores mais vibrantes do bairro, aqueles que incluem as comunidades afetadas, grupos de cidadãos e movimentos sociais. Se conseguirmos salvar o livro, talvez vençamos o coronavírus em mais uma batalha: a da sala de aula. Não podemos perder nossa saúde mas, de modo algum, podemos aceitar o sacrifício das salas de aula como forma de derrotar a covid-19.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também:

Um comentario para "Elogio à sensorialidade da Cultura"

  1. Sonia Diemer disse:

    Fomos feitos para o abraço, para folhear um livro e ler com todo o sabor. Fomos feitos para vivermos sem máscaras. Fomos feitos para vivermos sem medo de vírus, bactérias seja o que for … Fomos feitos para viver cada dia com suas surpresas e aprendermos a lidar com todas. Fomos feitos para a liberdade com responsabilidade, com hábitos que nos tragam qualidade de vida e com certeza não é uma máscara que vai nos salvar de algo ou impedir que aconteça o que é para nós. Viver é sorrir, respirar, se expressar, do contrário já estaremos mortos….

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *