"É tudo culpa dos russos"

Wikileaks revela ligações de Hillary com indústria armamentista, oligarquia financeira, velha mídia, petroleiras. Ela reage como nos tempos do macartismo

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Wikileaks revela ligações de Hillary Clinton com indústria armamentista, oligarquia financeira, velha mídia, petroleiras. Ela reage como nos piores tempos do macartismo — e tenta destruir Julian Assange

“O governo do Equador respeita o princípio de não intervenção nos assuntos internos de outros Estados. Não interfere em processos eleitorais externos e nem o faz a favor de qualquer candidato em particular.”

Imagine. Esta frase faz parte de uma nota oficial na qual o Equador, um país latinoamericano com 15 milhões de habitantes e sem moeda própria – a moeda lá é o dólar – nega interferência nas eleições presidenciais do Estado militarmente mais poderoso do planeta. Os Estados Unidos. A nota foi publicada no dia 18 de outubro para explicar por que o governo do Equador cortou, dois dias antes, o acesso à internet de Julian Assange, asilado em sua embaixada em Londres. “Durante as últimas semanas, o WikiLeaks publicou uma grande quantidade de documentos que têm um impacto sobre a campanha eleitoral nos Estados Unidos. A decisão de tornar essas informações públicas é de exclusiva responsabilidade da organização”, escreveu o governo do Equador.

As informações publicadas pelo Wikileaks são milhares de emails trocados entre os principais dirigentes do Comitê Nacional do Partido Democrata entre janeiro de 2015 e o final de maio deste ano, além de emails de John Podesta, coordenador da campanha de Hillary Clinton. Assange havia anunciado em julho, em entrevista para a rede britânica ITV, que o Wikileaks tinha emails relacionados a Hillary Clinton e iria publicá-los.

“O que você está dizendo, o que você está publicando, atinge Hillary Clinton. Você prefere que Trump seja presidente?”, perguntou então o entrevistador. A resposta foi que Trump é um fenômeno imprevisível, que “não se pode prever o que ele faria na presidência”. Em seguida, Assange acrescentou uma informação que tem relação com a autodefesa do Wikileaks. Os documentos já publicados, disse, “mostram que Hillary recebe notícias constantes sobre minha situação pessoal. Ela fez pressão pela abertura de um processo contra o Wikileaks, que ainda está em curso. Então achamos que ela é um problema para a liberdade da imprensa, de maneira geral”.

Assange está asilado na embaixada para não ser extraditado aos Estados Unidos e julgado em um processo obscuro, iniciado sob responsabilidade de Hillary Clinton, no qual mesmo as pessoas interrogadas recebem GAG orders (não podem contar que foram intimadas e que depuseram). Isso comprova sua afirmação sobre ameaça à liberdade de imprensa, recomprovada agora pelo corte de da conexão à internet. O governo norteamericano não assumiu o que deve ter sido uma enorme pressão sobre o Equador, mas a nota oficial do país latinoamericano diz explicitamente que cortou a internet para impedir interferência na disputa pela presidência dos Estados Unidos. O que é espantoso porque o objetivo de toda boa impresa é exatamente publicar informações para que cidadãos formem sua opinião e interferiram em decisões políticas.

No material divulgado pelo Wikileaks, até agora, há declarações relevantes de Hillary Clinton: “Vamos cercar a China com defesa antimísseis”, “Quero defender o fracking”; ativistas contra o aquecimento global deveriam “achar o que fazer”; “você precisa ter duas posições [a respeito de políticas], uma pública e uma privada” e “meu sonho é um mercado comum hemisférico, com comércio livre e fronteiras abertas”. As publicações começaram no dia 22 de julho, quando o Wikileaks iniciou a “Série Hillary Leaks”. No primeiro lote, foram divulgados 19,2 mil emails trocados entre os principais dirigentes da campanha democrata entre janeiro de 2015 e o final de maio deste ano – e que mostraram dirigentes do Partido Democrata depreciando um dos pré-candidatos do partido, Bernie Sanders, e considerando a possibilidade de usar sua crença judaica para atacá-lo. Esta é a base de dados do Comitê Nacional do Partido Democrata.

Apesar do corte da conexão de Assange, o Twitter do Wikileaks segue atualizando o segundo conjunto de mensagens, os “Podesta emails”, iniciado dia 7 de outubro. Além de atual coordenador da campanha de Hillary, Podesta foi chefe do estado maior do presidente Bill Clinton entre 1998 e 2001 e é dono do Podesta Group, uma empresa de lobby. Na primeira leva foram publicados 2,06 mil emails com foco em mensagens relacionadas a energia nuclear e doações de empresas mineradoras e envolvidas com a questão nuclear para a Fundação Clinton.

Mesmo a contragosto, imprensa norte-americana vê-se obrigada a repercutir as informações vazadas. Possíveis candidatos a vice analisados por Hillary Clinton. A íntegra de seus discursos em eventos com banqueiros de Wall Street em que foi remunerada para falar. “Lotes anteriores dos emails incluíram exemplos de conluio entre a campanha e a mídia, comentários depreciativos sobre Bernie Sanders e cópias de discursos proferidos perante banqueiros de Wall Street, incluindo Goldman Sachs”, escreve hoje o blog financeiro Zero Edge – que tem publicado textos sobre os e-mails vazados. “E entre as mais dramáticas revelações há mais confimações de concluio e coordenação com a mídia (…), uma revelação chocante sobre os conflitos de interesse de Bil Clinton na consultoria Teneo, e o elo perdido dos e-mails que Hillary apagou, confirmando que ela havia instruído a exclusão de e-mails desde o início e refutando seu testemunho anterior.”

Ontem, no debate com Donald Trump, Hillary Clinton reiterou sua versão para esses vazamentos. Foram os russos, ela afirma. “O governo russo se envolveu em espionagem contra americanos. Eles invadiram sites americanos, contas particulares, contas de instituições. Em seguida, deram essa informação para o Wikileaks com a finalidade de colocá-la na internet. Isto veio dos níveis mais altos do governo russo, claramente de Putin em pessoa, em um esforço, como dezessete de nossas agências de inteligência confirmaram, para influenciar nossa eleição. Então, realmente acho que a questão mais importante desta noite é se Donald Trump vai finalmente admitir que os russos estão fazendo isso e condená-los.”

Hoje o Wikileaks, ironiza a pergunta em seu Twitter, notando que entre 17 agências de inteligência americanas estão a Guarda Costeira, a Inteligência Naval, o Departamento de Energia, que provavelmente nada têm a dizer sobre o assunto. “As 17 agências de inteligência dos EUA de Clinton pode ser a maior mentira, mais imediatamente refutável, já dita intencionalmente durante um debate”, publicou o Wikileaks.

No site do Wikileaks há uma resposta mais direta à acusação. A organização nega o desejo de tomar partido nas eleições dos EUA, afirma que é independente de governos e que a alegação de que foca exclusivamente no “Ocidente” é falsa. “O Wikileaks publicou mais de 650 mil documentos críticos relacionados à Rússia sob Vladimir Putin. Expôs as listas negras de censura da China. Publicou 2,3 milhões de emails expondo o regime de Assad. O próprio diretor da Inteligência Nacional dos EUA, James Clapper, confirmou que no que diz respeito às agências de inteligência norteamericanas não há evidência de que a Rússia foi a fonte dos emails do Comitê Nacional do partido Democrata e que a especulação da mídia de que a Rússia estaria por trás desses vazamentos é ‘hiperventilação’”.

O fato é que as informações publicadas trazem para o debate os impactos das decisões do governo americano na política mundial, como escreveu o filósofo e ativista Srećko Horvat na Counterpunch. “O que o WikiLeaks está fazendo é revelar esta luta brutal pelo poder, mas, como diz o velho ditado, ‘quando um sábio aponta a lua, o idiota olha para seu dedo’. Em vez de olhar para o dedo que aponta a Rússia, deveríamos estar olhando para as informações vazadas.”

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10 comentários para ""É tudo culpa dos russos""

  1. iincass disse:

    excelente, Patrícia, parabéns!

  2. Idalvo Toscano disse:

    Muito bom, Patrícia!
    As estruturas instituições comtemporâneas nunca deram conta dos interesses populares; agora, ainda mais.

  3. O Wikileaks está claramente tentando interferir no processo eleitoral dos EUA. Está liberando documentos que não são relacionados ao Estado. São emails do coordenador da campanha, o que inclui também comunicação privada.
    Acho preocupante o fato de que um indivíduo, o Assange nesse caso, tenha tamanho poder. Não acho que haja nada de transparente na escolha de seu alvo, nem nos seus objetivos, ou os objetivos das fontes que obtiveram os documentos. É puro poder discricionário de um círculo pequeno de pessoas, que agora tem o poder de escolher qualquer alvo e atacar, um poder que é global, não conhece fronteira nem tem qualquer regulação. É pura vontade de meia dúzia de supostos iluminados.
    Ou seja, o Wikileaks tem todos os elementos para se transformar numa instituição de vigilância global a qual todos nós estamos expostos. Para isso, basta o Assange colocar uma etiqueta nas nossas costas.
    Se a Hillary Clinton não tem como se proteger desse tipo de exposição, quem tem?

    • Rita Lama disse:

      Os Clintons são famosos pelos atos criminosos que lideraram (Bill enquanto Presidente, e Hillary enquanto Secretária de Estado – equivalente a Ministro das Relações Exteriores), na defesa dos interesses unipolares dos EEUU, da elite dominante daquele país, da qual fazem parte. Os Clintons são fazedores de guerras – para expandir a hegemonia dos EEUU e o lucro que seus capitalistas, como resultado. Agora, uma minoria extremamente competente de especialistas em computação está mostrando ao mundo, corajosamente, o que eles têm escondido de todos. Milhões de pessoas morreram como resultado das políticas externas americanas ditadas pelos Clintons. Chamá-los de nazistas seria justificado!

    • Sandra disse:

      “…como escreveu o filósofo e ativista Srećko Horvat na Counterpunch. “O que o WikiLeaks está fazendo é revelar esta luta brutal pelo poder, mas, como diz o velho ditado, ‘quando um sábio aponta a lua, o idiota olha para seu dedo’. Em vez de olhar para o dedo que aponta a Rússia, deveríamos estar olhando para as informações vazadas.””

      • Eu acho que o idiota também não vê quando um poder autoritário está se formando bem na frente do seu nariz, só porque hoje esse poder está atacando os seus inimigos. Quando esse poder se voltar contra ele, o idiota percebe que tarde demais para criticar.
        Aliás, achar que a Rússia ou o Putin é algo muito diferente dos EUA e dos Clintons é ingenuidade demais ou má-fé demais, não sei qual dos dois. Os objetivos da Rússia também não são nada transparentes e não sei se uma aliança entre Wikileaks e um estado mafioso como o a Rússia é alguma vantagem para o mundo ou é uma relação já corrupta.

  4. erno disse:

    Eu não queria dizer isso mas, tomara que o neo-fascista Trump se eleja. A Hillary vai começar a 3ª Guerra Mundial.

  5. Jorge disse:

    – Quem tem acesso a mais informações, o Wikileaks ou as agências de inteligência dos EUA?
    – Quem espiona e controla mais as informações? O Wikileaks ou o governo dos EUA?
    – Quem utiliza mais as informações que possui para alcançar seus objetivos/interesses? o Wikileaks ou o governo dos EUA?
    – Quem usa as informações que tem de forma a controlar, inclusive, governos de países, fomentando Golpe das mais diversas matizes, o Wikileaks ou o governo dos EUA?
    As respostas para essas 4 perguntas devem ser suficientes para esclarecer a qualquer um qual Estado seria o mais mafioso e quem quer permanecer idiota…

  6. Jorge disse:

    Ou, talvez, nem fosse preciso olhar para a Lua…

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