Apenas na velocidade dos dedos

Integral, vitalícia, ou outro nome que ganhe, a macrobiótica mantém-se presente no cotidiano das grandes cidades brasileiras há mais de 50 anos

balancaO senhor sentado ao meu lado mastiga cuidadosa e reflexivamente sua porção de arroz integral. Utiliza-se do rachi e parece mesmo imperturbável diante da comida lentamente deglutida. Algumas crianças pedem pão integral à mãe; no salão, os comensais agradam-se da frase e, no geral, o ambiente é tranquilo e soa familiar.

Espera.

É suposto que tal cena não se daria em alguma loja de conveniência, lanchonete de supermercado ou balcão de comida rápida espalhados pelo mundo. Verdade. O restaurante onde clientes se cumprimentam e, sem pressa, os serventes desempenham suas funções, está no Bairro da Liberdade, em São Paulo, e oferece alimentação macrobiótica sob a atenção do Professor Tomio Kikuchi.

Há mais de 50 anos, Kikuchi introduziu o conhecimento sobre a dieta macrô no País. Além da alimentação do corpo, a mente e o espírito são levados em conta em sua proposta para o humano. Autor de livros na área da educação, a Escola de Nutrição Satori criada por si já fez muitos discípulos e alimenta até Gilberto Gil em suas andanças pelo Recife.

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Pergunto pelo professor ao atendente, que também cuida da pequena mercearia. “Ele mora aqui perto. Já veio hoje. Vem todo dia”.

Atualmente, disse o mestre em entrevista ao UOL, prefere o termo “auto-educação vitalícia” à “macrobiótica”. Alimentação Integral e Ecológica são nomes que também vem sendo empregados.

A prática oriental na busca do equilíbrio com a combinação de alimentos, levando em conta uma diversidade de temas – textura, temperatura, valor nutricional, espiritualidade – tem na (ainda) macrobiótica uma experiência fundamental em tempos de alimentos industrializados e níveis nutricionais duvidosos estampados em embalagens não recicláveis.

O sushi, sashimi – que tantas vezes se confundem com yakisoba e chop-suey na cabeça do brasileiro – abriu espaço no imaginário mundial quando se fala em comida oriental.  A macrobiótica acabou, por tabela, ganhando alguma notoriedade. Foi por muito tempo vista como “comida ruim”, “que só tem arroz” e outros preconceitos alimentares corriqueiros. Chegou a compor parte da um folhetim divertido às sete da noite na TV, entre 1985 e 1986.

Não há dúvida: o arroz integral empapado, para comer com os ‘palitinhos’, é bem cozido com pouco sal, nunca refinado, levemente temperado com gersal ou gergelim, é carro-chefe na dieta. Aquele mesmo senhor lá de parágrafos acima já tinha uma caixa de sorvete cheia dele, no caminho certo da casa.

Não sendo de todo vegetariano, pois o consumo de peixe e ovos é praticado, os vegetais e legumes são cozidos em sua maioria e dispõem-se à visão de forma simples. Dentre as correntes alternativas, há quem defenda a Comida Crua como sendo mais saudável.

O bom senso entre as formas de preparo  acaba sendo a encruzilhada dos ocidentais anciosos por novas práticas e sabores.

“Você é o que você come/você não é nada quando está com fome”

<Ben Charles>

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Antonio Martins

Antonio Martins é Editor do Outras Palavras