Cultura cidadã, agora projeto mundial

Num convênio firmado com Francisco, ideia radical: e se milhões de jovens trocarem o serviço militar por um ano de ações em Cultura, Artes e Comunicação?

Captura de tela de 2016-02-19 17:51:27

Por Celio Turino

“You may say, I´m a dreamer

But I´m not only one

I hope someday you´ll join us

And the world will live as one.”

(John Lennon)

Imagine.

E se, para além de jovens recrutas em formação militar, o mundo também oferecesse formação civil, cidadã? Imagine jovens de todo o mundo, durante um ano, se exercitando em um serviço-aprendizagem nos campos da cultura, artes, comunicação, educação popular, ambiente, lazer, cidadania; 24 horas de atividade por semana (12 em formação específica e 12 em trabalho comunitário), durante 12 meses, recebendo o mesmo soldo de um recruta militar e trabalhando para suas próprias comunidades. No lugar de quartéis teriam a formação em organizações comunitárias espalhadas pelo mundo. Imagine se este programa envolvesse 10 milhões de jovens por ano, em todos os países; e para que estes milhões de jovens percebessem que não estão sós, também haveria encontros criativos entre eles e entre as entidades. E no ano seguinte mais 10 milhões, e mais dez…; em 20 anos seriam 200 milhões de pessoas preparadas, envolvidas e comprometidas com uma nova lógica de cooperação e criatividade. Imaginou?

Imagine todas as pessoas vivendo a vida em paz, felizes por saberem quem são, por conhecerem a sua potência e vivenciá-la em uma rede de afetos, exercitada por meio da arte, do respeito à natureza e ao próximo e do compromisso cidadão. Isso muda o mundo. E é possível. E para já!

Em 3 de fevereiro, tive a honra de assinar convênio neste sentido, junto ao programa Pontifício Scholas Occurrentes. Foi no Vaticano, sob a inspiração e presença do Papa Francisco. Para além de intenções, é um convênio prático. E com propostas experimentadas. Em 2004 o governo do Brasil iniciava o programa Cultura Viva e os Pontos de Cultura, potencializando mais de 3.000 entidades culturais com base comunitária, atuando pelos mais distantes rincões deste vasto país, de aldeias indígenas a grupos comunitários em favelas, assentamentos rurais, coletivos artísticos, jovens da cultura digital, bibliotecas e museus comunitários. Em cada Ponto, 3.000 pessoas eram beneficiadas diretamente, sendo 300 em atividades regulares. Em paralelo, coletivos culturais da América Latina iniciavam uma rede para Arte e Transformação Social, depois, Plataforma Puente. Se encontraram. A partir de 2011 começa o movimento Cultura Viva Comunitária, hoje presente em 19 países, congregando milhares de entidades e milhões de pessoas, já tendo realizado dois congressos latino-americanos, inúmeros intercâmbios e aprovação de leis. O Scholas Occurrentes também vem de uma experiência prática, a Escola de Vizinhos, implantada na periferia de Buenos Aires, na época em que Jorge Bergoglio era arcebispo. O convênio não implica em uma fusão institucional, até porque as redes e entidades seguem autônomas e só participarão se assim desejarem, mas se inspira nas múltiplas experiências, teoria e prática do Cultura Viva.

Imagine todas as pessoas partilhando todo o mundo, via Pontos de Encontro, Agentes Jovens de Cultura Cidadã e Entornos Criativos para novas pedagogias, cruzando educação formal e não formal. Este é o objetivo do convênio. Um convênio sustentado em teoria e prática testada e comprovada, experimentada em milhares de comunidades, algumas com práticas consagradas e seculares. Práticas tradicionais ou contemporâneas, alicerçadas em ideias construídas desde baixo, pela solidariedade, pelo encantamento da arte (e, por que não, pelo reencantamento do mundo), pela generosidade e inventividade da alma popular. Por isso tudo, é possível afirmar com segurança: vai dar certo!

O custo médio para cada Ponto de Encontro, com capacidade para estruturação, formação e acompanhamento do serviço-aprendizagem de 50 Agentes Jovens de Cultura Cidadã, durante o período de um ano é de US$ 45 mil (US$ 3.750/mês). Para os Agentes Jovens de Cultura Cidadã, o custo unitário médio mundial (com variação por país) será de US$ 150/mês (US$ 5/dia), totalizando US$ 1.800/ano. Aos Entornos Criativos ainda se estuda um custo.

É um sonho, tem custo e ele é viável. De onde viriam os recursos? Em 2014 o conjunto dos países do globo gastou a cifra recorde de US$ 1,8 trilhão (exatamente) em despesas militares. Se apenas 1,5% deste valor (apenas isso) fosse dedicado a este programa, teríamos um fundo global de US$ 27 bilhões/ano. Este valor seria suficiente para garantir o pagamento anual de 10 milhões de Agentes Jovens de Cultura Cidadã e 200.000 Pontos de Encontro a serem distribuídos por todo o mundo.

Imagine se, ao invés de Campos para Refugiados de Guerra ou Catástrofes Climáticas, em que multidões de desesperados, por vezes centenas de milhares de pessoas, aglomeradas e comprimidas e controlados por cercas e soldados, vivendo em guetos sem recurso algum, dependentes apenas de doações externas, fossem transformados em Assentamentos da Paz. Campos gestionados sob os princípios da autonomia, do protagonismo e do empoderamento social, com base na Permacultura, na cultura da permanência e na busca de recursos a partir do próprio ambiente em que as pessoas vivem, com produção local de energia, saneamento, produção de alimentos saudáveis (ao menos em parte), economia solidária, trabalho compartilhado e comércio justo. E isto em ambientes de acolhimento, cultura e alegria. Mesmo que provisórios, enquanto durarem os motivos para o refúgio, os Campos da Paz podem se transformar em ambientes de resiliência e experimentação para novos valores e práticas sociais. Os Pontos de Encontro e os Agentes Jovens de Cultura Cidadã funcionariam como potencializadores desta transformação.

Imagine se o Vale do Rio Doce, destruído pela ganância das mineradoras Samarco, Vale e BHP, pudesse contar imediatamente com a criatividade e potência de Agentes Jovens de Cultura Cidadã e Pontos de Encontro. Por exemplo: 10 mil Agentes Jovens de Cultura Cidadã e 200 Pontos de Encontro, com ênfase em ambiente e cultura; custo anual: US$ 27 milhões, muito pouco em relação a tudo que estas empresas deverão pagar ante a magnitude da catástrofe que provocaram. A proposta seria colocar os jovens e comunidades de áreas atingidas por catástrofe como agentes de sua própria recuperação. É tão possível e necessário que nem temos direito de perder mais tempo para colocá-la em prática.

E afora situações extremas, o programa tem que estar presente em todos os lugares, de favelas a universidades, de escolas a museus, de afastadas vilas a grandes metrópoles. E todas as soluções surgindo de baixo para cima, de dentro para fora, semeadas e cultivadas nas próprias comunidades e potencializadas na relação em rede. Imagine no que tudo isso despertará em termos de capacidades criativas. E o melhor de tudo, é viável.

Sem a necessidade de ganância ou fome, uma irmandade de homens e mulheres, é o que pretendemos. E vamos chegar lá!

O convênio assinado com a benção do Papa Francisco também prevê outras iniciativas. A primeira, igualmente assinada no encontro no Vaticano, prevê um filme documentário a ser dirigido por Silvio Tendler e um livro a registrar mais de perto 12 experiências emblemáticas, espalhadas por toda América Latina. Também haverá um encontro para a sistematização destas experiências, na cidade de Medellin, Colômbia; além de residências criativas entre os Pontos de Encontro. Em maio de 2017, o Congresso da Harmonia – a arte do encontro, a ser realizado na cidade do Vaticano, incluindo a Praça de São Pedro. Será um congresso de reflexão, análise e compromissos financeiros, políticos e práticos, com composição inter-religiosa, laica e convite a chefes de Estado e agentes de governo, incluindo ministros militares. E com encantamento, puro encantamento (quem participou das primeiras Teias dos Pontos de Cultura no Brasil, sabe a que me refiro)! Imaginem a Praça de São Pedro tomada por refugiados e artistas do mundo, gente do povo, jovens, peregrinos, moradores de Roma, turistas; uma Orquestra com músicos de diversos países, junto a músicos de rua e artistas populares, realizando a mais bela sinfonia, harmonizando sons e sentidos; jogos, brincadeiras, campo de futebol de rua, exposições; teatro, dança, circo; um cortejo de artistas, do Alasca à Patagônia, do Curdistão à terra Mapuche, da África, da Europa, da Oceania e Ásia, atravessando a avenida da Concórdia e adentrando na Praça de São Pedro para se darem as mãos em dança circular. Imaginem! É possível e vai acontecer.

PS – Escrevi este artigo em forma de carta porque, como em toda carta, espero resposta e espero que um dia você junte-se a nós e o mundo viverá como um só.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também:

8 comentários para "Cultura cidadã, agora projeto mundial"

  1. Oi, Célio, gostaria de mais informações sobre o projeto e como participar. Compartilho dos seus pressupostos, achei muuuuito interessante a sua proposta de ação! Abraços, Celina Mitie Fujii

  2. Paulo Gachet disse:

    Celio Turino, Estamos Juntos! Abraço Fraterno.

  3. marcio ramos disse:

    … tá facil…

  4. Piassa disse:

    Diz que quem crê verá o impossível acontecer… Não haveria de ser diferente com o Históriador e Escritor Celio Turino, ético focado e dotado de um Espírito revolucionário que o faz estar a frente de seu tempo usando da Diplomacia e da Palavra faz o seu fronte, quebrando fronteiras e unindo Povos e Nações em torno da sua revolução silenciosa… Mas isso é só o começo, ainda a muito a nos apresentar, que não duvidem os céticos, muitos se curvarão perante a rampa que ele subira. Ontem era o Embaixador da Cultura Brasileira, hoje nos meios acadêmicos é considerado o Embaixador da Cultura da América Latina, mas o Vaticano e Papa Francisco o vê como Embaixador Mundial da Cultura entre Nações, é isso meu caro avante ao seu tempo com à ousadia de acreditar no impossível!
    Piassa®
    Studio&Piassa® By 信 神 Spirit Piassa® By★Magazine Piassa® By ▣ Club Piassa® By Piassa®

  5. Dentre tantas noticias negativas, tantos projetos sem pé nem cabeça, tanto desespero e desesperança lemos essa carta do estimado Celio Turino e nosso coração se enche de esperança e fé. Envio-lhe energias positivas e o mais profundo sentimento de Respeito, Amizade, Fraternidade e Sucesso para seus projetos Celio.
    Forte abraço,
    Ricardo Garcia
    #RedeSBC

  6. Renato Ihu disse:

    Célio querido sou o Renato Ihu, da Associação Cultural Cachuera. Tive a honra de conhece-lo mais perto quando foi falar sobre sua trajetória desde os tempos em que viva com seus pais e morava na vila até esse seu trabalho no Ministério da Cultura, foi na Ação Educativa com o grupo de arte e educação Poronga Há mais ou menos vinte anos que estou nesse caminho, trabalhando com as comunidades que preservam as culturas tradicionais afrobrasileira da região do sudeste do Brasil, tais como o jongo, os batuques de umbigada, os congadas, as irmandades do rosário dos homens pretos, os ticumbis e por ai vai.Me coloco plenamente a disposição para somar com essa idéia sinto meu sonho revelado nas suas palavras e possibilidades de concretização dessa empreitada. Estamos juntos. Grande abraço.

  7. Rose Victory disse:

    Como capacitar pessoas para inserir este projeto em centros comunitário de minha cidade? São José dos Pinhais – Paraná

  8. Azra disse:

    Sr. Celio, necessito urgente do seu contato para agendamento de reunião com o Padre Haroldo em Campinas.
    Aguardo. Obrigada.
    Azra

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *