Boulos: Educação sob Estado de sítio

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O ovo da serpente está sendo chocado em Goiás, na forma de militarização do ensino. Gestão militar das escolas adestra os jovens de hoje para a gestão militar da sociedade

Por Guilherme Boulos

Neste momento há 31 estudantes e professores presos em Goiás por protestarem pela educação pública. Dentre eles, 13 menores. Na última segunda-feira (15), a PM goiana entrou violentamente na Secretaria de Educação — que estava ocupada — e prendeu o grupo.

Antes disso, o governador Marconi Perillo (PSDB) já havia despejado os estudantes secundaristas de 28 escolas ocupadas em uma onda de protesto contra a privatização do ensino estadual.

Tudo começou com um decreto do governador no final do ano passado repassando 30% das escolas goianas para gestão das famigeradas Organizações Sociais (OS). A iniciativa prevê a terceirização de serviços escolares, a contratação privada (sem concurso) de até 70% dos professores e 100% dos funcionários, dentre outras medidas.

Trata-se evidentemente de uma privatização “branca” do ensino. O próprio Ministério Público do estado recomendou nesta semana o adiamento do edital das OS, por estar repleto de ilegalidades, incluindo o repasse de recursos do Fundeb para a iniciativa privada. Nas palavras do promotor Fernando Krebs: “Chegamos à conclusão que o projeto referencial é inconstitucional. Vai piorar a qualidade da educação. Vai promover a terceirização, a privatização às avessas da escola pública”.

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Foi este despautério que motivou a mobilização de estudantes e professores, reprimidos com violência e prisões pela PM.

Mas não é de hoje a paixão do governador Marconi Perillo por tratar a educação como caso de polícia. Desde 2014, seu governo tem implementado um inacreditável processo de militarização das escolas, que também foi alvo das manifestações.

A polícia militar já havia assumido até o ano passado a gestão de 26 escolas, tornando Goiás o estado com o maior número de colégios militares no país. Sob os princípios da “hierarquia e da disciplina”, oficiais da PM estabelecem a regra do medo, mandam e desmandam no ambiente escolar.

Nas escolas militarizadas passou a ser exigido o uso de farda militar por todos os alunos. Os meninos precisam ter cabelo curto e as meninas são obrigadas e prenderem os seus. As gírias foram proibidas, assim como o esmalte de unha, o beijo e os óculos com armação “chamativa”. A continência tornou-se obrigatória na entrada, para os professores e também entre os alunos.

Para completar foram inseridas novas disciplinas no currículo, como a “Ordem unida” – sabe-se lá o que seja isso, coisa boa não é. Assim como a “sugestão” de uma taxa de matrícula de R$100 e de mensalidade de R$50, em valores de 2014, possivelmente já reajustados nos dias de hoje. O governo pretende militarizar mais 24 escolas neste ano.

O capitão Francisco dos Santos, diretor da escola Fernando Pessoa, exalta numa matéria da BBC o fim da violência no colégio. Também pudera. Impondo estado de sítio e intimidação permanente o resultado seria esse. O preço é rifar o futuro, jogando o pensamento crítico e a democracia na lata do lixo. A gestão militar da escola adestra os jovens de hoje para a gestão militar da sociedade.

A repressão ao movimento dos estudantes secundaristas por essa mesma polícia é expressão cabal disso.

Perillo seguiu o exemplo de seu colega de partido Geraldo Alckmin ao tentar remodelar o ensino à força, sem qualquer debate com a sociedade. Que, enquanto é tempo, siga novamente Alckmin, desta vez para recuar das medidas perante o rechaço da comunidade escolar. É preciso libertar imediatamente os 31 presos e recuar do projeto de privatização e militarização das escolas.

Caso contrário, Goiás será lembrado como o laboratório da barbárie na educação brasileira.

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8 comentários para "Boulos: Educação sob Estado de sítio"

  1. Pedro Gontijo disse:

    na ordem unida se aprende a marchar, agrupam-se em pelotoes e marcham, fazem posiçao de ”sentido” ”descansar” ”apresentar armas” e etc. Exige-se que tenha movimentos cadenciados e rigorosamente sincronizados para as apresentaçoes em ordem unida…

  2. welbi disse:

    Com a paralização das aulas, prejudicaram milhares de outros alunos que não puderam terminar o ano letivo. A “brincadeira” gerou, até agora, um prejuízo R$ 2 milhões, fora os atos de vandalismo. Nenhum deles protestou contra o corte de Dilma de 10% na verba para educação. Prova que os atos tinham motivação política. Queriam apenas colocar a população conta o governador Geraldo Alckmin. E a imprensa ainda os tratam como celebridades.

    • Thiago disse:

      Quero ver vc provar aí que essas pessoas que estão protestando contra essa privatização velada não protestaram tbm contra os cortes do governo federal…

  3. Como sempre, os críticos dependentes exageram no negativo… Porém, essa experiência militar nas escolas é uma das melhores coisas para mostrar a má educação dos filhos, em lares permissivos. A criança completamente deseducada em casa está levando indisciplina e maus costumes para a escola. Os militares mostram uma forma explicita de manter disciplina e bons costumes em quaisquer situações, inclusive na escola. Aliás, uma escola numa cidade do Amazonas, sob o “guante” dos militares tirou os primeiros lugares nas avalições realizadas no Estado. Na verdade, sem ordem, disciplina e autoridade nada funciona bem. Não adianta, e os militares sabem muito bem incentivar e aplicar o sistema. E isso poderia ser generalizado, pois o exercito é mestre em mostra o que é autoridade e impor e incentivar disciplina e ordem seus recrutas. Além do mais, todos aqueles que permanecem algum tempo no exercito, saem agradecidos por essa aprendizagem. E ainda mais, por que só agora, os militares estão sendo criticados? No exercito pode, na escola não?

  4. Dr. phil. Sônia T. Felipe disse:

    Juventude hitlerista. Começou pelos adolescentes. Dezoito anos mais tarde, foram esses treinadinhos que empunharam as primeiras pistolas para acabar com a vida dos deficientes. Dois anos depois, já bem treinados, empunharam as pistolas para dar o tiro na nuca dos prisioneiros judeus nos campos de concentração, os que haviam cavado as grandes valas onde seus corpos caíam com os tiros. Os atiradores começaram a enlouquecer. Daí inventaram o chuveiro de gases mortais. Mas, antes dos chuveiros, esses treinados jovens também mataram mais seis milhões de opositores políticos, leia-se, os que queriam a democracia e os que queriam também o comunismo. E de ciganos. E de homossexuais. Sempre as crianças só são treinadas com gosto para viver uma existência rígida. Por que não usam tanto amor à educação para ajudar as crianças a viverem uma vida de plena expressão de suas almas?

  5. É óbvio que a militarização iria melhorar a educação em Goiás. O estado é completamente entregue às traças no quesito educação (aliás, nao só nisso). Quando falta planejamento e incentivo à escola o resultado só pode ser o que a gente via mesmo, desinteresse, violência e evasão escolares. E eu posso falar com propriedade pois estudei em escolas em Goiânia e vi o completo abandono causada pela inação do estado. E no interior e Entorno é 10x pior. Colocar nas mãos da PM vai melhorar o nível em relação ao que era antes pq antes nao havia modelo de gestão educacional algum.
    O que o imediatismo e o individualismo nao permitem perceber é que o militarismo leva um aumento do conservadorismo político, em primeiro lugar, e mais pra além disso temos uma situação de privatização das esferas públicas, diminuindo a possibilidade de participação popular e aumentando a quantidade de parcerias escusas do Governador (que, lembremos, quase foi cassado recentemente), além de simplesmente não ser o melhor modelo educacional de modo algum, pq nao recupera o adolescente ‘rebelde’ (como se isso fosse algo ruim). Apenas o expulsa da escola em questão

  6. Arthur Araujo disse:

    Notar como alguns defendem a militarização e a privatização da educação pública, demonstra quwe os mesmos (as) nada entendem da questão. Pior ainda, demonstram uma concepção reacionária de sociedade que nunca, em tempo algum gerou bons frutos no sentido de alcançar uma sociedade mais justa, menos desigual e livre.

  7. Rita Lama disse:

    Com ou sem ‘impeachment’, o ‘Brazil’ esta sendo OCUPADO pelo imperio – trata-se de um novo estilo de imperialismo, sob o comando dos neocons…

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