Onde você mostra o seu machismo?

Ninguém é imune a ele: a diferença está em como reagimos. Um teste para homens e mulheres avaliarem suas atitudes

Por Marília Moschkovich, em Mulher Alternativa

Em 2004, cerca de quarenta organizações da sociedade civil, entre ONGs e movimentos sociais, uniram-se numa campanha chamada “Diálogos Contra o Racismo”. Foram produzidos artigos, cartazes e vídeos, disponíveis num website. O mote inicial da campanha é muito sagaz: “Onde você guarda o seu racismo?”. A resposta é ainda mais: “Não guarde, jogue fora”. A ideia é que não há racismo sem racistas. Quer dizer, além de uma série de políticas públicas pró-igualdade racial, ainda é preciso levar de fato as pessoas a refletirem sobre seu próprio racismo.

Por mais que ainda haja muito (e muito mesmo) o que avançar na luta anti-racista, é evidente que algumas pequenas vitórias já podem ser observadas. As mais significativas são, na minha opinião, o fato de muita gente hoje se envergonhar de ser racista e os desdobramentos dete fato: O CONAR  puniu e retirou do ar (ainda que de forma limitada) propagandas de teor racista. Há cotas em diversas universidades brasileiras, mesmo que este ainda seja um assunto polêmico.

O mesmo não acontece, infelizmente, com o machismo.

Não cabe, neste artigo, comparar historicamente machismo e racismo, nem colocar estas duas formas de opressão simbólica e concreta em diálogo. Sobre isto escreveram diversas autoras, como Verena Stolcke (leia “O enigma das Interseções: classe, raça, sexo, sexualidade”), Mariza Corrêa (leia “A invenção da mulata”) e Laura Moutinho (leia “Raça, sexualidade e gênero na identidade nacional”). Venho propor a leitores e leitoras um caminho semelhante ao caminho da campanha anti-racista mencionada.

Todas e todos nós somos parte de uma sociedade que tem o machismo em sua estrutura. Significa que somos machistas sem perceber, sem fazer de propósito, sem pensar. Significa que ter uma atitude machista é algo a que todas e todos estamos sujeitos – mesmo, acreditem se quiser, as militantes do feminismo (como eu). A diferença entre alguém anti-machista e alguém machista, portanto, acaba aparecendo na forma de lidar com essas atitudes individuais, num primeiro momento (deixo as políticas públicas para outro texto, outro dia).

Pessoas anti-machistas (e também feministas) estão dispostas a enxergar seu próprio machismo, autocriticar-se, policiar-se para não repetir atitudes ou preconceitos discriminadores. Já seres humanos machistas sustentam aquele comportamento, opinião, visão de mundo como o correto ou o melhor. Quer dizer, em alguns momentos, machistas somos [email protected] A questão é: o que fazemos com o nosso machismo?

Sugiro às leitoras e leitores colocarem para si mesmo este tema. Para ajudar elaborei, uma curta lista de questões (inspiradas no teste da Cynthia Semiramis – “Você é feminista?” ). As respostas “sim” indicam sinais de machismo cotidiano, seja você homem, mulher, feminista, de esquerda, militante, conservador, direitoso, libertário.

1. Você acha que existe “mulher pra casar” e “mulher pra transar”?

2. Quando você fica irritado/a com uma pessoa e ela é mulher, você usa os termos “vadia”, “biscate”, “puta”, como xingamento?

3. Você tem menos consideração por mulheres quando a roupa delas é curta? (por exemplo, acha que ela deve ser “burra” ou nem chega a puxar papo)

4. Você tem mais consideração por mulheres quando a roupa delas é curta? (por exemplo, acha que ela deve estar querendo dar pra alguém, ou vai conversar com ela por causa disso)

5. Você acha engraçadas piadas que dizem alguma das seguintes coisas sobre mulheres: a) que elas são burras; b) que elas são traiçoeiras; c) que elas só estão atrás de grana; d) que elas devem cuidar das tarefas domésticas?

6. Você acredita que a amizade entre mulheres é impossível?

7. Você acredita que a amizade entre uma mulher e um homem é impossível sem que haja conotação sexual e atração em nenhum momento?

8. Sendo homem, quando você lava a louça ou faz alguma tarefa doméstica, considera que está “ajudando” a mãe/esposa/irmãs/avó/etc? Sendo mulher, quando um homem lava a louça ou faz alguma tarefa doméstica, considera que ele está “ajudando” você?

9. Você acha que a Lei Maria da Penha é um “privilégio” para as mulheres?

10. Você acha que hoje o feminismo não é mais necessário porque as mulheres e homens já estão em condição de igualdade social?

11. Você pensa que a igualdade social nunca vai existir porque homens e mulheres são diferentes biologicamente?

12. Você acha que as mulheres dirigem mal?

13. Você acha que as mulheres são melhores na realização de tarefas ou profissões que exigem “cuidado”?

Eu poderia passar mais páginas e páginas elaborando frases e exemplos, mas nem eu nem vocês temos o dia todo pra isso. No fim das contas, espero que possam compartilhar nos comentários a impressão que tiveram ao responder o “teste”: e aí, vocês são, nas atitudes cotidianas, mais machistas ou menos do que imaginavam?

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40 comentários para "Onde você mostra o seu machismo?"

  1. Andre disse:

    Minha resposta é NÃO a todas as perguntas acima, mas continuo achando que, no cômputo geral e considerando não a média mas as elites de cada categoria, mulheres são melhores motoristas e homens são melhores cozinheiros.

  2. Regina Navarro Lins disse:

    Aí vai o vídeo do governo do Equador contra o machismo > http://bit.ly/eOpLog

  3. Jonas de Castro Gitz disse:

    Oi,
    Olha ateh achei legal a idéia, o tema em si tb, porém na hora de elaborar o teste, achei que vc acabou pisando na bola, ficou muito bobo e sem precisão… A idéia de machismo como qualquer preconceito, é se ter uma idéia de algo sem ser através de vivência própria, e sim por outros, né?
    Então se em liberdade alguém forma o conceito de algo, não deve ser um preconceito, é sim um preconceito citar: …se vc pensa isso vc é isso…
    Vc esta mostrando algo praticando o mesmo. Estou errado?
    Abraços

  4. Luciana Fujii disse:

    Eu respondi sim pra 3. Não costumo puxar papo, mas quando puxo sei bem dos meus preconceitos. Mas eles não são exclusivos com mulheres, eu só tento puxar papo com gente que parece comigo.
    Uma outra pergunta que foi a que me fez cair a ficha do quanto eu ainda sou machista:
    – Você é mais exigente com mulheres? Por exemplo, você cobra mais das amigas que tenham tempo pra você ou sejam compreensivas do que dos amigos?
    Me deparei com essa pergunta escutando um áudio de “women studies” sobre o mito da fraqueza masculina.Até então eu não tinha percebido que fazia isso e o quanto aceitava a desculpa da fraqueza masculina inconscientemente. Tem sido difícil jogar esse preconceito fora, mas todo dia jogo um pedacinho..

  5. Marcelo disse:

    Perdoe-me a autora, mas considero os ítens 5, 8, 9, 10 e 13 ou preconceito invertido ou simplesmente pouco eficientes na distinção de machismo.
    Por exemplo, de acordo com seu critério, não sou machista em nenhum dos outros ítens.
    Agora, piada, para mim, é boa se faz rir. Acho muito perigosa a tendência politicamente correta de censurar as piadas. Muitas vezes, são só piadas! Cansam? Cansam, sem dúvida, mas se seguirmos esse ritmo, acabamos por retirar todo o humor de nossa sociedade.
    Com relação a ajudar em casa, eu enxergo que é ajuda sim, e ela é mútua. Um ajuda o outro a deixar a casa melhor. Por que não pode ser visto assim?
    A Lei Maria da Penha é muito importante, mas para haver justiça social tem de haver a contrapartida. Ou será que mulher não pode ser violenta?
    Por fim, acho que toda mulher tem condições de fazer o que bem entender na vida, mas negar que haja profissões em que mulheres se dão melhor do que homens e vice versa é uma bobagem tão grande quanto assumir que o corpo e o cérebro da mulher são iguais e funcionam da mesma forma que o dos homens.

    • Hilda disse:

      Com relação a “ajudar em casa”, se você parte do principio que “ajuda”, é porque entende que não é uma obrigação sua e sim uma gentileza.
      Se a casa é dos dois, a obrigação também. E o serviço é em beneficio próprio.

  6. Está claro que você é machista, Marcelo. E pelo que parece não está muito disposto a refletir sobre seu machismo.

  7. Carlos disse:

    O próprio questionário é contraditório.
    “9. Você acha que a Lei Maria da Penha é um ‘privilégio’ para as mulheres?”
    “11. Você pensa que a igualdade social nunca vai existir porque homens e mulheres são diferentes biologicamente?”
    A Lei Maria da Penha não é um privilégio porque a violência geralmente parte do homem e não da mulher, por serem diferentes biologicamente. Uma mulher mesmo que queira, dificilmente (salvo algumas exceções) conseguirá agredir um homem da mesma maneira que ocorre no caso inverso.
    Ou seja, homens e mulheres são diferentes sim e precisam ser entendidos dentro dessa diferença. A Lei Maria da Penha é um exemplo disso.
    Além disso, tem outras bem questionáveis…

  8. Olha pra dizer a verdade, eu acho que não está fácil pra ninguém. O homem “macho” tem cada vez menos espaço no mundo. Por mais que persistam diferenças de salário e casos de “legítima defesa da honra” pelo sertão adentro, o fato é que nós vivemos cada vez mais em sociedades baseadas em comunicação e networking, características essencialmente femininas.
    Os homens de sucesso atuais são aqueles que sabem conversar, tem muitos contatos e vão à manicure. Habilidades como força, destreza, agilidade, resistência e outras características essencialmente masculinas são vistas cada vez mais como atividades menores, típicas de pessoas “inferiores”, sem estudo e sem cultura – salvo raras exceções no esporte (e mesmo assim são discriminados por muita gente).
    As mulheres atuais podem votar, trepar, trabalhar e se divertir sem qualquer necessidade do homem. Muitas mulheres ocupam cargos de liderança com extrema competência e são responsáveis pelas políticas salariais das empresas. A pessoa mais poderosa do país, eleita presidenta por ambos os sexos, é uma mulher. O papel de provedor já não existe há muito tempo e o tal “macho” de hoje se vê cada vez mais perdido, sem saber como exercer uma postura “oposta” ou “complementar” à da mulher. Afinal ela faz tudo que ele fazia, muitas vezes bem melhor. Quem é que precisa de um caçador…?
    Na minha opinião chegou a hora de encerrar a disputa sexista e aceitar o fato de que a competência individual de cada um é responsável pelo próprio sucesso. Até porque os homossexuais estão ai firmes e fortes p/ provar que os padrões tipo bloquinhos de antigamente já não fazem o menor sentido…

    • Priscila disse:

      Mateus,
      Entendo seu ponto de vista. Acho sim, que existem várias conquistas e que os valores de patriarcado tem perdido espaço. Mas não acredito que isso quer dizer que existe igualdade. Talvez por ser homem nunca tenha pensando que embora uma mulher tenha sido eleita presidenta, nunca xingamos de puto, biscate os presidentes anteriores. Também nunca vi adesivos pra se colocar no carro, com os presidentes anteriores de pernas abertas pra se colocar gasolina… Há avanços, mas há muito em que se avançar quando o assunto é desigualdade entre homens e mulheres.

  9. Carlos. disse:

    Vejam eu entendo que machismo, racismo e outros são formas milenares da exploração do homem pelo próprio homem. Daí colocar estas questões sem colocar a questão da revolução, começando da francesa, é perda de tempo.
    As mulheres foram as que mais conquistaram no nosso século, devido sobretudo ás vira voltas políticas deste século. Cumpre ressaltar, a revolução iluminista tem que continuar. Creio que as mulher são o pelotão da primeira fila, na incansável busca da liberdade e amizade dos indivíduos. Vamos à luta.

  10. Minéia disse:

    Tive 2 sins e confesso que me surpreendi, pois sou mãe de dois garotos e não gostaria de reproduzir o machismo no processo de educação. Como exemplo pra eles tenho que tomar cuidado com minhas atitudes, principalmente as veladas como as piadas.

  11. Pé de Pano disse:

    2.Sim do mesmo jeito que uso “filho da puta” (não quer dizer que literalmente a pessoa tenha a mãe na zona). E pra mim essas características são negativas (mas depende da definição da palavra).
    3. Claro que acho que ela é burra, do mesmo jeito que quando vejo um mendigo não acho que ele seja doutorado em física. Sempre tentamos julgar o todo pela parte (machista=babaca), faz parte da nossa essência.
    4. Sim, porque por estatística, mulheres que usam saia curta (dependendo do contexto) estão usando pra atrair um parceiro.
    5. Piadas são piadas, elas são feitas com esteriótipos (homem é vagabundo, infiel, machista ). É burrice achar que uma piada mostra a verdadeira opnião de alguém sobre o assunto.
    O preconceito não é o problema, o problema é não perceber que tem preconceito.
    7. Por experiência própria, é impossível (exceto quando a sua amiga é feia). Eu sou homem (ah vá!) e sinto atração por minhas amigas (nunca conheci ninguém que não fosse assim, mas sempre tem exceções, eu acho).
    12. Só pra não parecer que sou totalmente “babaca”, tive aulas de direção com uma mulher, e ela dirigia muito bem.
    13. Se por cuidado, você quis dizer, sei lá, atenção maior à detalhes, eu acho que sim, assim como eu acho que homens são melhores na realização de tarefas que exigem força física (mas sempre existem exceções).
    Essa foram as perguntas que me pareceram mais do tipo “Se você não concorda comigo então é machista”, só que elas possuem interpretações diferentes do que essa simplificação.

  12. claudia mendes disse:

    lugar de mulher e na cozinha mesmo e olha que sou mulher
    soufeliz assim

  13. Valeria disse:

    Bom. Respondi com 3 positivos. Más vamos as explicações: Na pergunta 3. Você tem menos consideração por mulheres quando a roupa delas é curta? (por exemplo, acha que ela deve ser “burra” ou nem chega a puxar papo). Respondi sim, pq mulher deve se valorizar, homem não sai mostrando todo o corpo pq nós mulheres temos que andar com decotão, minisaias que quase aparece a calcinha e etc, acho até o contrário mulher que usa roupa muito curta é que é machista pq acha que tem que mostrar corpo e não essência.
    7. Você acredita que a amizade entre uma mulher e um homem é impossível sem que haja conotação sexual e atração em nenhum momento? Respondi sim. Pq pela minha experiência em algum momento da amizade com homem, ele acaba demonstrando um interesse maior como atração, mas da pra reverter a situação e mostrar que é so amizade mesmo. Homens e mulheres pensam e atuam diferente, as vezes vc so quer ser amiga mas o homem entende errado.
    11.Você pensa que a igualdade social nunca vai existir porque homens e mulheres são diferentes biologicamente? Sim, acho uma utopia achar que um dia homens e mulheres terão os mesmos direitos e deveres. A mulher saiu pra trabalhar mas ainda assim a sociedade lhe impõe que seja excelente dona de casa, cuide dos filhos e os homens nesse aspecto não mudaram quase nada.

    • Julia disse:

      Valéria, homens não saem por aí mostrando o corpo???? ELES ANDAM SEM CAMISA! E já parou pra pensar que eu posso estar usando só um top PORQUE ESTOU COM CALOR??? eu ein.. E outra, eu não preciso “me valorizar” eu já tenho meu valor independente na minha roupa. Também não preciso “me dar o respeito” porque o respeito já é meu! Moça, você é machista…

  14. yume disse:

    “4. Você tem mais consideração por mulheres quando a roupa delas é curta? (por exemplo, acha que ela deve estar querendo dar pra alguém, ou vai conversar com ela por causa disso)”
    Recomendo que a autora assista o documentário “Miss Representation”( disponível no youtube,sobre a hiper sexualização da mulher nos EUA),que mostra claramente as consequências da auto-objetificação particadas pelas mulheres.E se nós nos reduzimos á objetos sexuais,como vamos querer que os homens não nos trate como um? É muito hipócrita afirmar que que nos nos vestimos inocentemente assim como taxar de machista quem se recusa a ser objeto sexual.É muito mais anti-mulher sair pregando que temos o “direito” de nos reduzir a um.

  15. Brutus disse:

    Sou machista e daí?

  16. Eu participei do diagnóstico e criamos o Onde você guarda seu racismo? Sem dúvida poderámos perguntar: Onde você guarda seu preconceito? São tantos ainda…mas vamos avançandos…Respondendo suas perguntas me senti pouco machista…mas resquícios acho que todos temos.até para além das suas perguntas. O desafio continua para todos os preconceitos, com a nossa incapacidade de viver a diversidade.

  17. Thaddeus Gregory Blanchette disse:

    Meu problema com tais questões ("Onde você guarda seu ——?"), é que parecem situar problemas sociais como se esses fossem desvios psicológicos. As vezes, parece que estão confundindo preconceitos (um problema psicológico) com exclusões sociais.
    Quero dizer, entendo o intúito de tais questionamentos: vamos fazer as pessoas contemplar atitudes que podem ter, sem os perceberem.
    Mas o problema mais grave do racismo e machismo é que são incorporados dentro the estrutura sócio-econômica the sociedade. Ter ou não ter as atitudes descritas acima não quer dizer nada, necessariamente, sobre o comportamento social do indivíduo.
    Vou dar um exemplo bem conheicdo e estudado vindo do campo do racismo, nos EUA.
    Alguns anos atrás, fizeram uma série de estudos sobre a segregação racial naquele país. Em particular, queriam saber pq as famílias brancas costumavam abandonar um bairro logo após the entrada de uma família negra. A hipótese inicial era que os branco eram preconceituosos.
    O que a pesquisa revelou, porém, era uma ausência relativa de preconceitos. Os brancos que abandonaram o bairro não eram notávelmente anti-negro. Em muitos casos, tinham amigos e colegas negros e nada indica que suas ações eram motivadas pelo ódio racial. Muitos até afirmaram que a segregação residencial era algo injusto e horrível.
    Pq, então, estavam se mudando logo após que uma família negra comprava uma casa em seu bairro?
    Os brancos SABIAM que vivem num universo imobilário segregado e tinham investido muito dinheiro em sua casa. Sabiam que a desvalorização imobiliário sempre acontecia nos bairros onde os negros moravam. Então, para proteger seu patrimônio, vendiam suas casas tão logo que o bairro dava sinais de se integrar.
    Cada venda, é claro, reduzia os preços das outras propriedades, colocando mais pressão por cima dos outros brancos para vender. Logo, todos os brancos estavam doidos para se livrar de sua propriedade e os preços cairam dramaticamente, promovendo, é claro, ainda mais migração.
    O resultado final era um bairro segregado de negros. A própria estrutura econômica racista do mercado criava essa situação sem nenhum subsídio necessário de atitudes pessoais racistas (i.e. "preconceitos"). Quem não vendia sua casa, de fato, acabou perdendo a metade de seu valor. Agindo estritamente de acordo com suas interesses pessoais, então, e sem necessariamente demonstrar nenhum indício exagerado de preconceitos, os brancos recriavam um padrão de habitação profundamente racista.
    Para com sexismo, posso dar um exemplo semelhante, se alguém quiser.
    Como jovem sociólogo nos EUA na década de '80, fui ensinado que estes "-ismos", por serem parte the estrutura social, simplesmente não são remediáveis através de ataques contra atitudes pessoais. As vezes, me assusta que essa maneira de pensar o racismo e sexismo parece estranho para as ciências sociais brasileiras, que continuam em enxergar essas questões através the ótica do preconceito.

    • Rodrigo Farias disse:

      Interessante. Que tal postar no Grupo Zero também?

    • Erik Munne disse:

      Tem mais: todo mundo esquece o quanto o machismo cobra do homem. Ao passo que houve avanços para as mulheres nos últimos 40 anos, o homem continua com a cobrança do antigo machismo (OK, atenuada, mas continua) mais a cobrança para ser o 'novo homem'.

  18. jaspion disse:

    DESTRUINDO o mito de que houve MACHISMO
    http://migre.me/ddoOT
    ….

  19. Artur disse:

    Doutrinação feminista…
    Se você acha que os homens são assim como você falou e os condena por pensar assim, a femista aqui é você!
    Algum dia, ainda vão desmascarar essa praga do fascismo feminista!

  20. Lourival Almeida de Aguiar disse:

    As perguntas são ótimas para animar a crítica e a autocrítica ao machismo e ao feminismo (ao citar os dois não quero equipará-los como se machismo e feminismo fosse duas faces da mesma moeda; eles são coisas muito qualitativamente diferentes, claro).
    Penso que se está construindo, nesses debates, e na vida real, um novo conceito e uma nova maneira do ser “masculino” e do ser “feminino”, caminhando-se, nesse processo, para a superação do preconceito discriminatório e opressor do machismo e da homofobia.

  21. Ana Kairalla disse:

    Variação para a pergunta 2:
    “Quando um homem casado/comprometido sai com outra mulher, você se refere a ela como ‘aquela vagabunda’?”

  22. Fernando disse:

    O machismo é mais uma variação do Poder, dominador(a) e dominado(a).
    Essa é a essência do seres humanos. Hoje é o machismo e amanhã pode ser qualquer outra denominação. A relação de poder existirá enquanto existirmos, nossa extinção é a solução.

  23. André Saggin disse:

    Oi Marília,
    Respondi “sim” para boa parte das perguntas. Não tenho muitos problemas com isso, sei que tenho um grande viés machista principalmente devido minha criação.
    Mas duas perguntas ainda me incomodam …
    Na 8° pergunta não acho incomum pensar em ajudar as pessoas em tarefas domésticas.
    Não tenho uma boa noção no que esse sentimento de que estou ajudando é machista. As tarefas são divididas na minha casa (de forma “convencional”), mas sentimento de ajudar meu pai a cortar a grama é o mesmo de ajudar minha mãe a lavar a louça.
    Na 11° pergunta é algo que sempre me intrigou. Não acredito que a diferença biológica impossibilita qualquer tipo de atividade, mas é uma coisa que existe apesar de eu negar. Eu nego a existência de TPM e que homens são fisicamente mais fortes ou qualquer coisa deste tipo, mas me vejo em desacordo quando observo como as coisas são a minha volta.
    Não espero uma resposta complexa…gostaria de ler mais coisas sobre o assunto (se você puder me indicar alguns artigos).

  24. Pedro Filho disse:

    Eu respondi NÃO a todas as perguntas, o que me deixou feliz, porém desconfiado. Sei que esse questionário pode ter trazido epifanias para muitas pessoas (homens e/ou mulheres) mas ainda acho ingênuo colocar a questão de gênero (assim como outras questões de opressão) sem localizar os agentes e os passivos das situações, ou, como diria Foucault, os “espontâneos” e “receptivos”, que no caso do machismo às vezes não coincidem com o sexo da pessoa em questão. Minha mãe teria respondido tudo ou quase tudo sim, e ela é mulher…Sem escamotear o real machismo a que somos todos condicionados, a questão do poder é mais grave. O sujeito acima que argumenta que isso é “da natureza humana” ou o outro que cita o exemplo (bizarramente racista e capitalista, como não podia deixar de ser) do mercado imobiliário americano, ambos poderiam também ter respondido somente não a este questionário, e seus argumentos não se contradiriam. Acho que precisamos, todos, enfocar a dinâmica dos poderes para podermos abordar as questões de opressão de forma menos ingênua. Dito isso, acho válido levantar essa pelota assim como acho positivas as discussões suscitadas pelo artigo.

  25. Ney Gomes disse:

    Sou machista, mas tento, dia após dia, não o sê-lo…
    Também tenho meus preconceitos, e busco reconhecê-los e não os alimentar…
    Mas faz parte de um caminhar na vida… todas as vezes que me chamam a atenção por uma atitude machista ou preconceituosa, eu paro e penso sobre. Muitas vezes eu pedi desculpas, mesmo não tendo percebido onde estava o machismo, mas em respeito à pessoa que o havia identificado.

  26. Camila Minuzzi Zanchetta disse:

    Respondi sim para 2 e 7 kkk
    2- Eu rio das piadas, tipo de loira burra, português. Não acho de verdade que essas pessoas são burras, na verdade as piadas são feitas sobre estereótipos, que nem sempre condizem com a realidade. Mas se a piada for engraçada, eu rio mesmo kkk.
    7-Não é que eu acredite, é fato. A maioria dos homens não sabe separar amizade de romance. Acham que, se vc é legal com eles, é porque está a fim. A maioria dos amigos héteros que tive na vida, em algum momento, deu em cima ou se declarou para mim. Na maior parte das vezes, diante da recusa, respeitaram. Alguns, entretanto, não conseguem manter a amizade, pois ficam tristes e com orgulho ferido. Ou realmente gostam da gente e não conseguem mais conviver como amigos ¬¬ Eu não vejo isso exatamente como machismo, pq tbm acontece a situação inversa, a guria gostar do cara. Quem nunca se apaixonou por um amigo(a) uma vezinha na vida? Muitos casais nascem de amizades tbm^^
    Amigo homem é: gay, namorado de amiga ou uma minoria de héteros q nunca vai dar em cima da gente, pq a maioria dá, é fato :~
    Fiquei feliz de ter dito não a todas as outras^^ Sobre o lance das roupas, eu não costumo julgar mulheres pela forma como se vestem. Reconheço que há pessoas deselegantes para a ocasião em que estão, mas isso se aplica a homens tbm. Mini saia é bonita na balada, mas é feia no escritório. Camisa de time é bonita no bar, e feia no trabalho. Roupa se refere a contexto tbm^^ E tem roupa q é brega mesmo e a gente acaba rindo, independente do sexo de quem veste kkkk

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  28. O problema com essa lista de perguntas é que mistura juízos de facto com juízos de valor. Responder «não» no que diz respeito aos juízos de valor é fácil para quem não quer ser machista; mas responder «não» no que diz respeito aos juízos de facto pode ser impossível para quem procura ver o mundo tal como ele é. Ninguém devia ser posto na posição de ter que sacrificar a sua integridade intelectual às suas posições políticas.

  29. Eu acho que algumas pessoas não entenderem bem o questionário.
    *Primeiro
    Exemplo, o item 9 – Maria da Penha, privilégio ou não?
    Então, a questão não é que devia ter uma lei pro homem também ou não. Que mulher nunca é violenta.
    A questão, é que a lei não é um privilégio, é uma conquista. Elas foram atrás disso. Conquistaram isso.
    Se isso foi a melhor conquista ou não, aí é um debate à ser feito, até para encontrar soluções talvez melhores.
    Se o homem também deveria ser protegido da mesma forma (o que pra mim não é o caso), então que eles saiam à procura da sua conquista, como elas foram.
    A conquista da mulher não é injusta, apenas porque os homens não estão fazendo suas próprias conquistas.
    Se você, por exemplo, vai atrás de um emprego incrível, se matando de estudar, se especializando, e saindo cedo, se planejando, e finalmente conquista, palmas pra ti. Você não é culpado por aquela pessoa que preferiu não se arriscar, ou não se planejou certo, e acabou num emprego de merda.
    Uma falta de conquista, não anula a importância da conquista dos outros.
    *Segundo
    Item 11 – Igualdade SOCIAL, vai ou não existir por que homens e mulheres são diferentes BIOLOGICAMENTE?
    Gente, intérprete os texto.
    Não está questionando que homens e mulheres são ou não diferentes biologicamente. Está questionando se isso é motivo para haver diferença como cidadão de um país democrático.

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