O custo intangível do fracasso europeu

Junto com trilhões de euros, desaparecerá projeto coletivo de um continente decisivo para criação dos estados nacionais e do capitalismo

Junto com trilhões de euros, desaparecerá o projeto coletivo de um continente que foi decisivo para criação dos estados nacionais e do capitalismo

Por José Luís Fiori

“Se fosse possível hierarquizar sonhos, a criação da União Européia

estaria entre os mais importantes do século XX.

Depois de um milênio de guerras contínuas, os estados europeus decidiram

abrir mão de suas soberanias nacionais, para criar uma comunidade econômica e política,

inclusiva, pacífica, harmoniosa, sem fronteiras, sem discriminações e sem hegemonias.

Um verdadeiro milagre, para um continente que se transformou no centro do mundo,

graças à sua capacidade de se expandir e dominar os outros povos,

de forma quase sempre violenta, e muitas vezes predatória.”

José Luís Fiori: “Os sinos estão dobrando”,

Os sinais de desagregação são cada vez maiores e freqüentes, e já não cabe duvida que o processo de “unificação européia” entrou num beco sem saída. É quase certo o calote da dívida grega, e é cada vez mais provável a ruptura da zona do euro, que teria um efeito em cadeia, de grandes proporções, dentro e fora do Velho Continente. Ao mesmo tempo, a vitória da França e da Inglaterra, na Líbia, aumentou a divisão e aprofundou o cisma alemão dentro da OTAN. Por outro lado, os governos conservadores europeus estão em queda livre, e sua alternativa social-democrata não tem mais nenhuma identidade ideológica. Os intelectuais batem cabeça e a juventude busca novos caminhos um pouco sem rumo. O próprio ideal da unificação européia tem cada vez menos força, entre as elites, e dentro de sociedades em que se dissemina a violência e a xenofobia. Parece iminente o fracasso europeu.

Em tudo isto, chama a atenção que o avanço da catástrofe anunciada venha sendo acompanhado por uma consciência cada vez mais nítida e consensual a respeito das causas últimas, econômicas e políticas, da própria impotência européia. Do lado econômico, todos reconhecem a falta de um Tesouro europeu com capacidade unificada de tributar e emitir dívidas, junto com um BC capaz de atuar como emprestador de última instancia, em todos os mercados, garantindo a liquidez dos atuais títulos soberanos nacionais que deveriam ser extintos e substituídos por um único título publico unificado, para toda a zona do euro. E quase todos já reconhecem a impossibilidade de uma moeda soberana e de um BC eficaz, sem um estado que lhes dê credibilidade e poder real de ação, em particular nas situações de crise. Uma posição que só poderia ser cumprida, neste momento, pela Alemanha, que não quer ou não pode fazê-lo, ou por um estado central que ninguém aceita.

Da mesma forma, pelo lado político, o aumento da fragilidade e da fragmentação da Europa, vem sendo atribuído pelos analistas, de forma quase consensual, ao fim da Guerra Fria e à unificação da Alemanha, junto com o aumento descontrolado da UE e da OTAN, que passaram da condição de projetos defensivos, para a condição de instrumentos de conquista territorial e expansão da influencia militar e econômica do ocidente, dentro da Europa do Leste, e já agora, também, na Ásia Central e no Norte da África. O alargamento em todas as direções, da UE e da OTAN, aumentou suas desigualdades sociais e nacionais, e reduziu o grau de homogeneidade, identidade e solidariedade que existia no início do processo de integração, quando ele era tutelado pelos EUA, e tinha um inimigo comum, a URSS.

Agora bem, quando os analistas da crise européia se dedicam a traçar cenários futuros, quase todos calculam o tamanho da desgraça em termos estritamente econômicos, em bilhões e trilhões de euros. E pouco se fala dos custos intangíveis do fracasso europeu no campo das idéias, dos valores e dos grandes sonhos e símbolos que movem a humanidade. Um verdadeiro impacto atômico sobre duas pilastras fundamentais do pensamento moderno: a crença na viabilidade contratual de um governo ou governança mundial; e a aposta na possibilidade cosmopolita, de uma federação ou confederação de repúblicas, pacíficas, harmoniosas, e sem fronteiras ou egoísmos nacionais. Duas idéias europeias que foram concebidas num continente extremamente belicoso e competitivo, mas que foi o grande responsável pela criação e universalização do sistema de estados nacionais modernos e do próprio capitalismo. Agora os europeus estão experimentando na pele a impossibilidade real de suas utopias, ao tentarem construir um governo cosmopolita e contratual a partir de estados nacionais extremamente desiguais, ponto de vista do poder e da riqueza.

O problema grave e insanável é que a falência do “contratualismo” e do “cosmopolitismo”, deixa os europeus sem mais nenhum sonho ou utopia coletiva. Em poucas décadas, no final do século XX, eles enterraram o seu socialismo, e agora, no início do Século XXI, estão jogando na lata do lixo, o seu “cosmopolitismo liberal”. E estão deixando o resto do sistema mundial, sem a bússola do seu criador, porque o sistema seguirá em frente, mas o seu “software” europeu está perdendo energia e está se apagando.

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8 comentários para "O custo intangível do fracasso europeu"

  1. erton disse:

    muito dramático. Eles não tem saida a nao ser aprofundando a integração.

  2. Lara disse:

    Essa é uma abordagem muito pessimista da crise. Acredito que muitos jovens crescidos na realidade da União Europeia assimilaram muito bem os ideais de cosmopolitismo e pacifismo.
    É claro que o alerta dado aqui é de extrema relevância, mas não deixemos de acreditar na força de jovens comprometidos com grandes valores.
    Somos tentados a destacar situações tristes: violência, xenofobia, desigualdades. Não estou dizendo que o mundo é um mar de rosas, muito pelo contrário, mas da mesma forma que é difícil educar um povo com ideias de liberdade, justiça, solidariedade, é difícil também tirar esses valores dele. O que me leva a crer que, apesar da crise, o povo europeu não abondonará a utopia coletiva.

  3. Norbert Fenzl disse:

    concordo com erton… muito dramatico… diria até apocaliptico!!! quem teria dito em 1945 que em 2000 haverá uma UE com uma moeda commun????? ninguem… a humanidade é um sistema de alta complexidade cujo futuro não pode ser previsto.. podemos fazer cenarios… é que o autor está fazendo.. um cenario de um pessimismo sombrio… da mesma forma eu poderia pintar um cenario totalmente oposto e dizer que esta crise é a grande oportunidade para dar proximo passo da integração europeia que evidentemente é necessario… e poderia dizer que a moblização dos povos europeios (que é completamente subestimada neste artigo) demostra um novo nivel de consciencia politica e atingiu uma amplitude nunca visto na Europa.
    ou seja: ser pessimista ou otimista é uma questão de personalidade e foro intimo… Se o cenario do autor se torna realidade… então vamos todos para a praia pedir uma gelada e aproveitar os ultimos dias da humanidade…. Por sorte sou muito mais otimista…:-)

  4. Heloisa Bellini disse:

    Li o artigo, achei uma abordagem interessante, mas apenas mais uma.
    Basta ler os comentários para sentirmos que todos foram práticamente unânimes em achar que o autor tem uma visão “sombria” e “pessimista” ao abordar a crise econômica de alguns países europeus da zona do EURO. Recordo as palavras do emérito Prof.Umberto Eco em recente entrevista À TV italiana, na qual dizia mais ou menos assim: “…não devemos subestimar a força dos jovens que mesmo em meio a toda esta “crise” sabem exatamente o que querem e estão aprendendo com ela renovadas lições para um futuro novo e melhor”.
    Ressalto aqui, o ótimo comentário do Prof.Norbert Fenzl, meu eterno “inspirador” pela lucidez e fé no que virá… 🙂

  5. Antônio Carlos Viard disse:

    Três considerações:
    1. os europeus resolveram viver em paz por conta de um sonho, ou por conta de sua incapacidade de fazer a guerra? Lembremo-nos do fiasco que foi a tentativa de resposta militar da Inglaterra e da França à nacionalização do Canal de Suez e como tiveram de recuar, com o rabo entre as pernas, ao veto estadunidense e soviético. Mais ainda da total incapacidade britânica em impedir a ruína de seu império colonial e das derrotas sofridas pelos franceses em Dien Bien Phu e na Argélia. E vejam, recentemente, a “triunfante visita” de Sarkozy e Cameron à Líbia: levaram mais de seis meses para desincumbir-se da missão secundária que lhes foi delegada pelos EUA;
    2. devemos lamentar a derrocada de que Europa? A Europa burocrática construída em Bruxelas, sob os escombros de referendos que lhes foram contrários? A Europa rendida ao neoliberalismo, de um Zapatero ou de um Papandreou que jogaram a social democracia no lixo?
    3. Não será essa crise a oportunidade de construir uma real Europa dos Povos? Ou será que a esquerda européia agora tem medo de crises? Como bem lembrou Zizek, quem propugna alguma proposta radical deve lembrar-se da máxima de Mao: – Tudo sob o céu está um caos? Ótimo!

  6. Maurício disse:

    Acho difícil imaginar tamanho recuo, quando sua saída é um ambiente tão sombrio. Protelar uma decisão difícil, quando ela implica rever toda a ideia que se tem de si mesmo, é compreensível, mesmo que ela tenha seu ônus. Mas duvido mesmo que, na hora extrema, a Europa abra mão do que conquistou para cair num modelo que pode ser mais simples de administrar para cada ente mas que é bem menos rico para o conjunto. Os europeus vão reconstruir aduanas, rearmar suas fronteiras, repostar seus exércitos? Duvido.

  7. waldemar disse:

    The elections in Denmark. The Obama model.
    As I stated earlier, everything changes even not changing anything.
    The coalition government of three parties:
    1. The Radicals, ensure the continuation of neoliberal policies.
    2. The sociademocracia as usual ensures continuity of capitalism with social words.
    3. The Socialist People’s SF, is a party that turned away fromcommunism and today defends neoliberal policies.
    The three games are refracted electoral promises:
    1. The rich and kleptocracy not pay taxes.
    2. Helps banks.
    3. Speculative gains and tax havens will be protected.
    4. The policy dictated by US / NATO / SION is continued and reinforced.
    5. Increased cost of living.
    6. Pensions will be cut. Except for the rich, of course.
    7. They protect property speculation. More people will live on the street. The quality of construction continue to worsen.
    8. But privatization of hospitals. Hospitals were closed. For the first time in the history of nurses and doctors Dk are unemployed.
    9. Continuation of the privatization of transport. Will benefit theautomobile and oil industry.
    Summing up the coalition Pathetic Trio: RSSF inheritedneoliberal crisis and may not have long-term in power since R is preparing for a future collaboration with the neoliberal and conservative group, now in opposition. On the other hand, thecrisis will increase with or without pathetic trio. It’s about powerkleptocracy and war.
    As mentioned above, new faces, lots of smiles, people morepresentable .. something like Obama in the beginning.

  8. Marly disse:

    Gente!! Desde o inicio do mundo ja existia as crises, é óbvio que
    com a falta de Cidadânia , de uns e outros ela iria se propagar. Nós mesmos Brasileiros ja enfrentamos momentos assim.Qtas vezes ja trocamos nossa moeda? Eu creio que o homem necessita democratizar mais e guerrear menos. Mas infelizmente não é assim. Um dia eles aprendem. Temos que ser ótimistas , crer que ainda exista pessoas do bem, governantes do bem.. è isso ai Prof. Luiz vamos ser ótimista. e Parabéns pelo comentário.

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