Cultura dentro e fora dos congressos

Pouco representativo, mas bem intencionado, congresso reuniu em Mar del Plata políticos, ativistas e atores culturais da América Latina, Espanha e Portugal

Pouca gente ficou sabendo, mas, na cidade argentina de Mar del Plata, entre os dias 14 e 17 de setembro, aconteceu o IV Congresso Íbero-Americano de Cultura. As edições anteriores tiveram lugar no México, Brasil e Colômbia. Seus temas foram, respectivamente, cinema, transformação social e música. Em 2011, por inicitiva de Buenos Aires, as discussões giraram em torno da política e da participação popular.

O secretário de Cultura da Argentina, Jorge Coscia, lamentou que muitos ministros não compareceram aos debates. Assim como existem fóruns internacionais que reúnem os titulares de Economia ou Defesa, e que sempre estão cheios, o governo argentino tinha a intenção de fazer com que o IV Congresso fosse uma espécie de reunião de cúpula das máximas autoridades culturais de cada país.

Alguns foram: Costa Rica, Guatemala, El Salvador, Uruguai. Mas muitos — como a brasileira Ana de Hollanda — ficaram de fora. “Depois reclamamos que não temos políticas conjuntas no terreno da cultura”, queixou-se Jorge Coscia. “Existe uma indissolúvel relação entre política e cultura.”

Embora as “políticas culturais” sejam terreno dos governos, todos sabemos que a Cultura é feita por todos. Nesse sentido, o IV Congresso também reuniu agentes culturais — quem, na realidade, deram o tom das discussões e das conclusões.

É complicado dizer que as atividades foram representativas da realidade latino-americana. A mesa que se dedicou a discutir “povos originários e afrodescendentes”, por exemplo, não tinha um só indígena. Um par de ministros centro-americanos falou alto sobre as “excelentes” políticas que estão realizando em seus países para incluir as populações ancestrais. Ouviram aplausos, apesar do narcotráfico estar promovendo matanças em território guatemalteco, inclusive contra os índios. E a deputada brasileira Benedita da Silva insistiu na importância do carnaval sem mencionar o tema da ocupação militar nos morros cariocas.

No debate que pretendia abordar o protagonismo geopolítico da América do Sul nas operações da ONU no Haiti, apenas uma haitiana. Um veterano diplomata argentino traçou o histórico da exploração ocidental sobre a ilha e esboçou algumas lágrimas lembrando de como os haitianos recém-emancipados do domínio francês acolheram Simón Bolívar e cederam soldados para sua campanha independentista na América do Sul. Mas nenhuma crítica condundente à ação da Minustah — apenas elogios, mesmo com soldados uruguaios sendo acusados por estupro.

No extremo oposto, as discussões sobre integração hemisférica foram uma reunião de amigos pregando contra o Império sob ovação constante da juventude kirchnerista, que compareceu em massa e, vai-se saber com que legimitidade, teve espaço exclusivo dentro do IV Congresso. Não que o fim da ALCA ou a estruturação de uma nova arquitetura financeira sul-americana não tenham que ser comemorados. Mas discutir é muito mais saudável que torcer. Seria interessante, por exemplo, ver a um representante do estabilishment econômico tentando contestar as ideias do economista equatoriano Pedro Páez Pérez — presente para defender o Banco do Sul.

A modo de conclusão, cabe destacar a reivindicação de que os governos dediquem pelo menos 1% dos PIB nacionais para a implementação de políticas públicas que fortaleçam as culturas comunitárias, autogestionárias e independentes que estejam inseridas na valorização do local, do comum e da sustentabilidade.

Os jovens, não só os kirchneristas, também pediram maior participação nas decisões políticas aplicadas à cultura, destacando o papel crescente da internet — seu território por excelência — na definição de comportamentos e circulação de bens culturais. Quanto às crianças, foi constrangedor assistir a um menino de 11 anos lendo um manifesto em que exigiam os direitos de los niños à ideologia.

A música e o cinema íbero-americanos pediram mais fomento, mais intercâmbio e a criação de organismos supranacionais que possam potencializar a produção e a distribuição dos bens audiovisuais — claro, a partir de novas formas de entender os direitos de autor. Finalmente, os representantes universitários reafirmaram o compromisso das universidades públicas — e do ensino público em geral — com a inclusão e ascensão social: “as políticas educativas são políticas culturais”, disseram.

O próximo Congresso Íbero-Americano de Cultura será realizado em 2012 na cidade de Zaragoza, na Espanha, e terá a tecnologia como tema central dos debates. —Tadeu Breda

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