América Indígena, precursora do mundo 2.0

Surpresa: práticas comunitárias dos povos pré-colombianos anteciparam atitutes de colaboração e compartilhamento que marcam a nascente cultura pós-capitalista

Surpresa: práticas comunitárias dos povos pré-colombianos anteciparam atitudes de colaboração e compartilhamento que marcam a nascente cultura pós-capitalista

Por Bernardo Gutierrez* | Tradução: Daniela Frabasile

A economia compartilhada está em alta. O croud sourcing (compartilhar um trabalho colaborativo com uma multidão que atua em rede) já é conhecido. O croud funding (financiamento coletivo) chegou com muita força em setores como a cultura. A sociedade P2P (peer-to-peer, de pessoa a pessoa) — mais horizontal, participativa e menos fixada em retribuições econômicas, como definem Yochai Benkler ou Michel Bauwens — ilumina o túnel, como uma das possíveis saídas pós-capitalistas. O commons – o bem comum e os bens coletivos – está em pauta. O co-working já não é tendência: é realidade. Infelizmente, há quem só acredite nessas novas práticas e realidades se um guru do Vale do Silício fala sobre elas. E se existe um termo em inglês…

Surpresa: se estudarmos as práticas da América pré-colombiana veremos que todos os indígenas praticavam o crowd funding, crowd sourcing ou as dinâmicas participativas da era 2.0. A chegada dos povos africanos, com uma forte origem coletiva, também transformou a América (principalmente a latina) em um grande território do comum (commons territory, para aqueles que preferirem). A América pré-capitalista era chic, cool e 2.0, não é mesmo? E ainda é. Os indígenas anteciparam-se em vários séculos no que diz respeito à chamada economia do compartilhamento (sharing economy). A mega crise mundial está pressionando a produção a uma mudança irreversível. E o pós-capitalismo tem algumas de suas raízes naquele pré-capitalismo da América indígena.

Nota aos incrédulos: preparei uma rápida revisão de alguns termos e práticas colaborativas dos povos indígenas da América Latina. Que cada um complete e atualize a lista como queira, porque sem dúvida é apenas uma aproximação.

Tequio. É uma forma de trabalho em prol do coletivo muito enraizado na cultura zapoteca. Os integrantes de uma comunidade fornecem material ou sua força de trabalho para realizar uma obra comunitária. Pode ser uma escola, um poço ou uma estrada. O indivíduo não pode ser nunca o único a ser beneficiado pelo tequio. Tem um toque de crowd sourcing, um pouco de crowd funding e muito de commons. O tequio ainda funciona em alguns estados mexicanos. Em Oaxaca, está protegido por uma lei estatal. Existem outros termos para práticas similares, como gozona e o trabalho a mano vuelta.

Potlatch. As tribos indígenas do Pacífico, nos Estados Unidos e Canadá, praticavam um ritual de troca que, na essência, é igual à troca de arquivos peer-to-peer da era digital. O potlatch, usado pelos povos Haida, Tlingit, Tsimshian, Salish, Nuu-chah-nulth, e Kwakiutl, é o peer-to-peer em estado puro. O potlatch não era um escambo. Os povos distribuíam alimentos (principalmente carne de foca e salmão) e riqueza para outras tribos que não tinham vivido um bom ano. Um detalhe importante: alguns colonizadores europeus enriqueceram-se graças ao potlatch. Exatamente como os cantores famosos que, segundo estudos, beneficiam-se da troca de arquivos entre usuários — que alguns empenham-se em chamar de pirataria…

Guelaquetza. A tradição de guelaguetza, do estado mexicano de Oaxaca, lembra uma mescla do tequio e do potlatch. A palavra significa “troca recíproca de presentes e serviços”. Sua prática se tece entre as relações recíprocas que unem as pessoas. É a base de uma rede de cooperação entre famílias e até entre povos e municípios. A guelaguetza deriva também de uma celebração sincrética que acontece na cidade de Oaxaca.

Minga. É um termo quechua que define um mecanismo ancestral de trabalho coletivo, muito comum no norte do Peru e no Equador. O objetivo da comunidade está acima de qualquer benefício individual. A colaboração, acima da competição. É 100% commons economy + crowd sourcing. Não é coincidência que a Cultura Senda, que trabalha com a cultura de rede, tenha realizado recentemente, em Quito, um seminário chamado Open Minga. A minga, segundo o texto da Cultura Senda, “implica no desafio de superar egoísmos, protagonismos, desconfianças, preconceitos e inveja; males que muitas vezes espreitam o trabalho coletivo e a mobilização social”. Além disso, “implica em aprender a escutar e obedecer propondo”.

Ayni. Trata-se de algo com significado muito próximo da minga, que define um sistema de trabalho de reciprocidade familiar entre os membros da ayllu (uma comunidade que trabalha com a propriedade coletiva). O mais comum é trocar trabalhos na agricultura, pastoreio, cozinha ou na construção de casas. Essa tradição continua viva não apenas em muitas comunidades camponesas, mas também na população mestiça no Equador, Bolívia, Peru e Chile. Os bancos de tempo, para troca de serviços no movimento espanhol 15-M por exemplo, têm muito de ayni.

Mutirão. É um termo de origem tupi, usado no Brasil para definir uma mobilização coletiva baseada na ajuda mútua não remunerada. A definição de mutirão na Wikipedia é bastante redonda: “uma expressão usada originalmente para o trabalho no campo e na construção civil de casas populares, em que todos são beneficiários e se ajudam, com um sistema rotativo e sem hierarquia”. É muito usado para ações coletivas não remuneradas como limpeza de parques, ruas , escolas… Para esta prática de ação comunitária existem muitos sinônimos: muxirão, muxirã, muquirão, putirão, putirum, pixurum, ponxirão, punxirão ou puxirum.

Córima. O povo mexicano rarámuri, que vive nas montanhas de Chihuahua, usa o termo córima para definir um ato de solidariedade com alguém que está passando mal. Não oferecer córima a alguém que precisa de ajuda é considerado uma violação de uma obrigação e uma ofensa. A definição também inclui a “prática do bem comum”. Não é muito relacionada à caridade, já que os rarámuri estão longe da moral católica. A máxima autoridade das decisões desse povo é a assembleia, como nos movimentos como 15M, Occupy Wall Street e o mexicano #YoSoy32.

Maloca. É uma casa comunitária utilizada pelas tribos indígenas da região amazônica do Brasil e da Colômbia. Nela, diferentes famílias convivem, Compartilham o lugar de trabalho, da mesma forma que os espaços de co-working. A propriedade é coletiva, como as ocupações (squatter communities) na Europa. O commons dita o dia a dia. De noite, a maloca é um centro de conhecimento. Contam histórias, mitos, lendas. As tendas da campanha da praça Tahir, no Cairo; na Puerta del Sol, de Madri; ou de Zuccotti Park, em Nova York, durante o Occupy Wall Street, poderiam ser a versão tecno dessas casas coletivas na Amazônia.

Bernardo Gutierrez (@bernardosampa) é jornalista, escritor e consultor digital. Pesquisa o mundo P2P e as novas realidades da cultura open source. Fundador da rede de inovação Futura Media.net

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7 comentários para "América Indígena, precursora do mundo 2.0"

  1. jonas nunes dos santos disse:

    Francamente,o autor (ou editor do boletim) utiliza fotos de indias usando (voluntariamente ou sugeridas?) calcinhas bem capitalistas para defender idéias pós-capitalistas.É, no mínimo, um ato falho; o capitalismo (americano) tem no “soft-power” – dominação pela cultura – um dos seus pilares.Assim, nesta ilustração infeliz, além de evidenciar uma submissão (talvez inconsciente) aos valores culturais do criticado capitalismo, há, ainda, o viés moralista e altamente conservador de um sexismo obscurantista que censura a exposição de povos pré-capitalistas em sua forma de vida natural, ou seja, nús…
    Jonas Nunes dos Santos

    • Caro Jonas Nunes dos Santos, há um sinuoso engano e certo preconceito em seu comentário.
      Este traje não são “calcinhas capitalistas”, como o senhor imagina ou vê. Os enfeites fazem parte da vestimenta usada no ritual feminino Yamurikumã de aldeias do alto do Xingu, mais precisamente da etnia Kamayurá. Rituais que as etnias Mehináku e Waurá também costumam participar.
      Sobre o ritual Yamurikumã
      A casa das flautas, no centro da aldeia, esconde instrumentos que as mulheres podem ouvir, mas não podem ver. As flautas ficam penduradas na viga central do teto e podem ser tocadas a qualquer momento, por um grupo de três homens no interior da casa. De noite, quando as mulheres se recolhem, podem sair para o pátio. Também saem ao ar livre por ocasião de tarefas coletivas masculinas, retribuídas com alimentos por aquele a favor de quem são realizadas. Nessas ocasiões, as mulheres têm de se trancar em suas casas.
      Mas as mulheres invertem essa situação no rito de Yamurikumã (na terminologia kamaiurá, mais difundida na região), realizado na estação seca, no qual elas atuam com armas, movimentos tipicamente masculinos e ornamentos de penas e chocalhos nos tornozelos, que normalmente são usados por homens; lutam, inclusive, o huka-huka.
      Recebendo convidadas de outras aldeias, que ficam acampadas nas proximidades (como no Kwarup), as participantes entoam canções que se referem à sexualidade masculina. Há vários tipos de canções, algumas mencionam os eventos de origem dessa cerimônia, muitas reproduzem a estrutura das performances masculinas com as flautas, e outras simulam explicitamente a sexualidade agressiva dos homens diante de certas mulheres. Os homens, que podem ser agredidos, se retraem.

  2. Arlindo M. Freire disse:

    Mais uma confirmação de que a cultura indígena continua sendo a causa
    para o conhecimento dos civilizados posteriores ao século 14 e 15, objetivamente nas Américas, especialmente em se tratando do trabalho e produção coletivos, segundo o que foi realizado pelas tribos anteriores, sem os conhecimentos semelhantes aos de hoje em dia, quando se repetem os diversos modos de trabalho com outras designações sempre relacionadas, diretamente com o processo dos homens e mulheres primitivos das sociedades originais em fase de extinção.

  3. Ricardo C.-S. disse:

    Que bobagem!!!! A idéia do texto é interessante, mas sua realização não passa de uma caricatura subenciclopédica, como a daqueles velhos linguistas que pretendiam exaurir sumariamente o significado dos conceitos pela sua etimologia.
    As palavras não existem sem os contextos. Descuidar disso é incorrer numa fetichização da mercadoria léxica.
    Que os contextos ameríndios oferecem fórmulas lógicas alternativas que possam ser (ou parecer) socialmente mais “virtuosas” que os vícios liberais, não há dúvida, mas isso é mediado pelo filtro da inteligibilidade e do reconhecimento de legitimidade dessas fórmulas em contextos sociais outros que não os ameríndios.
    É evidente que as sociedades se comunicam, apesar dos maus-entendidos majoritários — e disso também é feita a comunicação.
    E é por conta dessa comunicação que, ao invés de listar enciclopedicamente categorias exóticas, submersas na suspeição de não passarem de coisa arqueológica, talvez fosse mais interessante a qualquer um que pretenda abordar a idéia desse texto, voltar-se para suas formas vivas, e questionar-se, por exemplo, como a ordem jurídica de um país como o Equador acolheu recentemente noções indígenas, para reconhecer aquilo que nós chamamos de natureza como um sujeito de direito.
    Seria mais interessante olhar para o movimento das idéias nos países andinos, por exemplo (coisa que o Brasil desconhece sobejamente), e observar a forma como uma agenda política indígena alçou à condição de termo de regulação social a ideia (pouco domesticável, aliás, pela lógica política ocidental) de sumaq kausay (“buen vivir”).
    E seria bom também se deter um pouco sobre os contrastes conjunturais, notando como a institucionalidade do Estado em um país como o Brasil vem, nos últimos anos, sistematicamente solapando os direitos indígenas assentados sobre a gramática dos direitos coletivos, ao invés de buscar aprender algo com eles.
    De fato, Lévi-Strauss já dizia que as sociedades só sobrevivem porque aprendem umas com as outras. Mas esse processo é bem mais complexo do que a simples récita de emblemas fetichizados (como gostam de fazer certos indianistas fundamentalistas bastante simplórios).
    No que diz respeito a intercâmbios culturais possíveis, o buraco é muitíssimo mais em baixo. Não fosse por isso, e apenas para citar um exemplo, não haveria antropólogos se debatendo com esse imbroglio há um século e meio.
    De resto, tomar a economia como uma naturalidade evolucionária que alcança o capitalismo e que, daí, só poderia se dirigir a algo que seria um incógnito “pós-capitalismo” é, de fato, aprisionar outros mundos possíveis no museu das banalidades, quando muito curiosas, eventualmente apimentadas, ou então sedutoras como uma mítica ambrosia olímpica.
    Karl Polanyi, um economista que muito se inspirou na antropologia, via as muitas economias possíveis como realizações contemporâneas e alternativas, onde o que importa é a diferença entre elas e não uma eventual lógica da dominância.
    No mais, no que diz respeito às palavras quéchuas listadas pelo nosso esforçado enciclopedista, estão ambas equivocadas: ao invés de “minga” e “ayni”, os termos são “minq’a” e “ayñi”. Em quéchua isso faz uma enorme diferença.

  4. Podemos complementar a lista, contudo, aguardemos, que mais revelações virão – não do que estava oculto – mas do que foi desprezado – virão mais e mais!

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