Papa tenta enquadrar as Universidades Católicas

Campus da PUC do Peru: O terreno de combate

Campus da PUC do Peru em Lima: O campo de batalha

Em ofensiva liderada pelo próprio Bento XVI, Vaticano quer punir PUC do Peru por seu pensamento livre

Por Hugo Albuquerque

As medidas são duras. Num ato bombástico, anunciado em 21 de julho por seu próprio secretário de Estado, Tarcísio Bertone, o Vaticano decidiu romper com a Pontifícia Universidade Católica do Peru (PUCP). Quer impedi-la de conservar os nomes “Católica” e “Pontifícia”, pelos quais é conhecida há quase cem anos. Apoiando-se no contrato de doação do terreno, que previa sua destinação exclusiva para a construção e manutenção de uma universidade católica, a Igreja pretende, após a retirada unilateral do título, apoderar-se de seu patrimônio — inclusive prédios e o terreno do campus.

As decisões foram adotadas em sintonia com a Arquidiocese de Lima e seguem-se a visitas realizadas à instituição no final de 2011. Nelas, os inspetores papais teriam constatado que professores e alunos da PUCP mantêm diferenças ideológicas com as posições defendidas pela Igreja Católica…Divergir do Vaticano seria suficiente para desencadear reação tão drástica? Estariam também ameaçadas, então, universidades católicas que ocupam papel destacado na produção do conhecimento, em todo mundo? Infelizmente, a resposta a estas duas questões parece ser sim.

A base para a perseguição contra a PUCP foi lançada há vinte anos, quando o papa Karol Wojtyla (João Paulo II) comemorava uma grande vitória política – a desintegração do mundo soviético, para a qual a Igreja e ele próprio contribuíram ativamente. Em 1990, a Igreja aprovou a constituição apostólica ex-corde ecclesiae.Claro e duro, o documento estabelece, para as universidades católicas, parâmetros pouco compatíveis com instituições plurais e abertas ao debate de ideias. Devem, por exemplo (item 13), refletir “à luz da fé católica” sobre “o tesouro crescente do conhecimento humano” e, mais importante ainda, ter “empenho institucional ao serviço do povo de Deus e da família humana no seu itinerário rumo àquele objectivo transcendente que dá significado à vida.”

Mas a aplicação de tais normas só ganhou real efetividade nos últimos cinco anos, com a ascensão de Joseph Ratzinger (Bento XVI) ao posto de Papa. Num discurso recente, proferido na Universidade Católica de Milão, ele atacou “a cultura contemporânea” por relegar a dimensão religiosa “à esfera do opinável e do privado”. Sugeriu, portanto, que o catolicismo deve ultrapassar os limites do privado e do que pode ser questionado.

Não é casual que a PUCP tenha sido a primeira vítima. Principal universidade de seu país, é conhecida por sua excelência acadêmica e viés humanitário e democrático. Elege diretamente seu reitor. Tem, também, enorme importância histórica e simbólica. Lá lecionou, por anos, Gustavo Gutiérrez Merino, sacerdote dominicano considerado, por muitos, fundador da Teologia da Libertação, movimento nascido da abertura gerada pelo Concílio do Vaticano II, voltado para as causas sociais e democráticas, hoje, confrontada pela hierarquia da Igreja no presente refluxo conservador.

É evidente que, se bem sucedidos, os ataques à autonomia e espírito libertário da universidade peruana podem se espalhar pelo mundo. Não são fatos isolados, percebe-se, agora, episódios como os duros ataques que o recém-falecido bispo emérito de Guarulhos lançou, no início deste ano, contra o caráter laico e democrático da PUC-SP. Ou a presença, no pleito para reitor deste ano, de uma candidata para a qual o caráter católico da instituição deve sobrepor-se à liberdade cátedra.

Felizmente, a PUCP resiste. Seu reitor, Marcial Rubio, tem lembrado que Direito Canônico rege apenas as relações internas à Igreja. A universidade segue as leis peruanas: as mesmas que regem a vida de todos os cidadãos e sobre as quais a hierarquia católica, felizmente, não tem jurisdição alguma. Mas trata-se de um embate duríssimo, cujo resultado é central para o futuro das universidades católicas pelo mundo e para as demandas gerais por laicidade na vida contemporânea.

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11 comentários para "Papa tenta enquadrar as Universidades Católicas"

  1. Conservadorismo dando tiro no pé

  2. A PUC é propriedade da Igreja , logo ela tem direito sobre o patrimônio e ideologia na universidade….se os "mauricinhos revoltados" se incomodarem a "porta é serventia da casa"…..

    • Hugo Albuquerque disse:

      Na verdade, as PUC's – seja a do Peru ou a de São Paulo – não se constituem em propriedades da Igreja, uma vez que não se tratam de bens dela, e elas tampouco são empresas: a primeira é uma associação constituída de acordo com o direito civil peruano e a segunda uma fundação de direito privado, segundo as leis brasileiras, ambas se regendo segundo suas respectivas constituições nacionais e pelas normas infraconstitucionais que tratam de educação. O que você pode discutir é a natureza do título de pontifícia ou católica de ambas, que aí sim pertencem a Igreja e podem ser revogados, mas sem produzirem maiores efeitos caso isso se dê de maneira unilateral por parte do Vaticano, como no caso em tela.

  3. Vilmar Nicolau disse:

    As universidades particulares e sem orientação religiosa aguardam ansiosamente pelos alunos das PUCs.

  4. Caynã Conti disse:

    certeza que teremos reflexo disso aqui na PUC-SP…em menor escala já temos na verdade.

  5. Arthur Araujo disse:

    Quanto mais o catolicismo vai perdendo terreno entre as populações, mais essa cambada reacionária da igreja tenta impor idéias tão utilizadas há duzentos anos.

  6. Isso vai longe, pode apostar !!!

  7. Alexandre J. Monnerat disse:

    Para mim a universidade tem que ser livre. É muita falta de sabedoria essa de querer por regras onde não precisa e não deve ter regras. Conhecimento é sinônimo de liberdade!

  8. Uma Universidade verdadeira dispensa adjetivos. Danem-se o Pontifícia e o Católica. A Universidade é um núcleo de geração e disseminação de conhecimento para a sociedade como um todo e não para um "patrão" "indicado por Deus". O que é isso, gente.

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