Para frear a Rússia, ataque à Armênia

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Vitórias de Moscou na Síria e Ucrânia perturbam Ocidente. Ataque ao Karabakh armênio, pelo Azerbaijão, pode ser espécie de vingança, praticada por governo aliado à Turquia e EUA

Por Hugo Albuquerque

Dois acontecimentos bombásticos, aparentemente sem ligação, ocorreram há pouco. O primeiro foi a retomada da cidade histórica de Palmira, na Síria, pelo exército local com apoio russo e iraniano, depois de meses de domínio do Estado Islâmico (ISIS); o segundo, é o ataque do Azerbaijão contra a população de Karabakh, um enlcave de maioria armênia situado bem no coração de seu território, acendendo mais uma fogueira no espaço pós-soviético, justo no mês que o genocídio armênio completa 101 anos. O Estado Islâmico e o Azerbaijão nutrem relações no mínimo ambivalentes com a Turquia — e ambos estão, em cada caso, desafiando o interesse russo. Nada é por acaso.

Voltemos a Novembro de 2015. O mundo assistiu atônito à derrubada de um caça russo pela força aérea turca. Foi o pior incidente envolvendo forças russas e um país membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) desde o fim da Guerra Fria. Na ocasião, a aeronave russa bombardeava posições do ISIS no norte da Síria, mas ao sobrevoar uma área próxima à fronteira turca, acabou surpreendentemente interceptado pela aviação turca.

Os turcos, que também estão na Síria, em tese deveriam estar lá pelo mesmo fim dos russos, ainda que estejam em intervenções distintas. O resultado do incidente foi uma série de declarações fortes dos líderes russos, o reforço do sistema de radares da missão russa na Síria e inúmeras restrições e sanções econômicas.

TEXTO-MEIO

A hostilidade dos turcos perturbou os observadores menos atentos: se todos estão lutando na Síria contra os terroristas do ISIS, por que atacar a força aérea russa? Ocorre que a simples existência de duas intervenções internacionais distintas — porém simultâneas — na Síria demonstra, por si mesma, que há uma disputa geopolítica em curso. Não se trata apenas de uma divergência sobre como lutar, mas contra o que lutar. Para muito além da retórica usual.

Intervenções e interesses distintos na Síria

A grande coalizão da qual faz parte a Turquia é liderada pelos EUA — e, por sinal, une países da OTAN e seus aliados do Golfo Pérsico –, tendo por missão, iniciada em 2014, realizar ataques aéreos para “estabilizar” e pacificar os conflitos no Iraque e Síria.

Ocorre que no primeiro caso, a coalizão atacou o ISIS com o apoio do exército iraquiano no solo, mas no caso sírio, ao contrário, ela deu cobertura aos variados grupos rebeldes antigoverno no contexto da Guerra Civil que assola aquele país.

O objetivo da missão ocidental é claro: manter o governo xiita de Bagdá e derrubar, no mesmo gesto, o presidente sírio, Bashar Al-Assad. Isso levou a um fortalecimento aparentemente indesejado do ISIS, uma vez que sua presença na Síria ganhou um salvo-conduto tácito. E também a manutenção da sangrenta guerra civil síria, a qual já dura quase cinco anos.

Os números desse guerra já apontam para mais de quatro milhões de refugiados, quase oito milhões de deslocados internos e uma cifra incerta de mortos, que varia entre 250 e 470 mil mortos — uma quantidade impressionante de vítimas, para um país que até 2014 registrava 18 milhões de habitantes.

Os russos, pelo contrário, iniciaram sua missão em setembro de 2015, quase um ano depois das forças ocidentais, mas seus alvos eram notadamente o ISIS e a manutenção do governo sírio. Apenas com a intervenção russa cobrindo as tropas terrestres da Síria foi possível impor derrotas ao ISIS.

Bons exemplos disso são a reversão do quadro de Aleppo, a maior cidade síria, ou a já referida retomada de Palmira, vitórias simbólicas que atestam o êxito das forças russas e sírias, mudando um panorama que parecia culminar com a transformação da Síria em uma bisonha teocracia.

A situação atual, inclusive, gerou o surpreendente início da retirada russa da Síria, tanto quanto sua entrada, depois de quase dez mil missões aéreas e a destruição prática da estrutura do ISIS.

Putin e seu poderoso ministro da defesa, Serguei Shoigu, ao decidirem se retirar da Síria não se orientaram apenas pelos êxitos da intervenção russa na Síria, que deixou Califado gravemente debilitado e manteve Assad no poder, nem somente pelas pesquisas de opinião internas que aprovam a missão, mas entendem que já é hora de encerra-la.

A decisão aponta para uma necessidade estratégica de Moscou: redirecionar o poderoso material bélico até então voltado para a Síria — sem perder o elemento surpresa a seu favor. A Síria é só parte de um grande jogo no qual a Rússia se encontra, a bem da verdade, desde a Primeira Guerra Mundial.

Estado Islâmico e Turquia

No entanto, a referida estratégia ocidental, que poderia se parecer apenas com uma postura oposta à russa em relação o regime sírio, se mostrou algo um tanto pior: e a intervenção russa serviu para demonstrar, com perfeição, isso em menos de um ano de existência. Da Turquia para Síria passam jovens combatentes vindos da Europa, além de armas e dólares; da Síria para a Turquia, passam caminhões com o petróleo sírio contrabandeado pelo ISIS — em cenas dignas de Mad Max.

Se a matriz religiosa do ISIS é a doutrina wahabita da Arábia Saudita, por outro lado, nenhum outro país no mundo atuou tão vigorosamente a seu favor quanto a Turquia, apesar de sua participação cínica em uma coalizão antiterror na Síria e no Iraque.

Enquanto mantém a operação em curso, sem maiores crises de consciência, o governo turco está mais preocupado com os curdos  — outro inimigo em comum que une Ancara ao Califado.

As missões russas foram, justamente, bombardear essas linhas de contrabando de petróleo entre ISIS e Turquia, usar dos poderosos mísseis da sua frota naval no Mar Cáspio para acertar, atravessando a Turquia, os bem protegidos campos de treinamento e fortalezas do Califado, assim como alinhar-se com as forças curdas.

Por que o líder turco, Erdogan, chegaria a tanto? Porque a existência de Estados árabes fortes, no que foram as antigas possessões otomanas ao sul é, por óbvio, ameaça à reconstituição de uma grande Turquia — ou mesmo de uma zona de influência.

Nesse sentido, o ISIS como força beligerante contra os curdos interessa enormemente a Erdogan: se os curdos conseguirem edificar seu país, cujo território englobaria o sul da Turquia, norte da Síria e do Iraque bem como o noroeste do Irã, não é só um caso de Ancara perder uma parte do seu território, mas enfrentar um Estado organizado que serviria como linha defesa imediata para conter sua eventual expansão.

Ao norte, o que impede a Turquia de construir um arco pelo Cáucaso que chegue às portas de Irã e Rússia é, precisamente, a pequenina Armênia. Porque da mesma forma, o Azerbaijão, lar nacional da etnia azeri, é um país de cultura similar, língua mutuamente inteligível e afinidades diplomáticas com Ancara.

Não à toa, as relações entre Turquia e Azerbaijão não poderiam ser melhores: nas palavras de um ex-presidente do Azerbaijão, trata-se de um quadro onde há “uma nação com dois Estados”. Turquia e Azerbaijão formam um arco que permite a Ancara ter hegemonia sobre o Cáspio e o sul do Cáucaso — e aumentar sua zona de contato com o Irã, cuja maior minoria são, precisamente, os azeris.

Por sinal, há mais azeris no Irã do que o Azerbaijão — e eles vivem no exato noroeste do Irã, próximos à fronteira com o Azerbaijão. Mas a conexão contínua da Turquia com o noroeste do Irã se dá por meio do Cáucaso e chega até lá. Toda a fronteira turco-iraniana é habitada por curdos. E entre o Azerbaijão iraniano, o Estado da Azerbaijão e a Turquia existe o sul da Armênia.

Aí o enigma se fecha. Estamos no mês em que o genocídio armênio completa 101 anos e jamais houve admissão dele por parte dos líderes turcos. Não é à toa. A Turquia nega o primeiro genocídio do século XX, justamente praticado por ela contra o povo armênio, justamente porque conserva uma disposição geopolítica à expansão. É o mesmo que norteia sua aparentemente insana ação na Síria — que, contudo, parece bem calculada.

A Turquia, uma nação que há bem pouco reivindicava a modernidade, volta-se para o Oriente como a mesma fome do velho Império Otomano, mas sem a mesma pragmática. Nesse sentido, sua postura é exatamente a da República de Ataturk: assimilar ou eliminar os povos sob seu domínio, algo que até mesmo os velhos sultões hesitavam em fazer.

Mas o que permite a pequenos Estados, e até mesmo a povos sem Estado, resistir a tal ímpeto? A Rússia. Simples assim. Com suas bases na Armênia e na Síria ou mesmo pela sua aliança com o Irã.

E o que faz com que as nações integrantes da OTAN autorizem tamanha agressividade, haja vista que a Turquia integra a aliança militar? A Rússia, pois a Turquia é o único Estado capaz de rivalizar e conter, em um primeiro momento, um eventual avanço russo para o Oriente Médio e para a Ásia Central.

Portanto, nada a espantar quanto a reação turca contra o caça russo. O novelo de lã necessita de mais alguns movimentos para ser desembaraçado.

Rússia versus Turquia

Boa parte do empenho russo para impedir a queda do regime sírio, ainda que com a inegável legitimidade conferida pela natureza perversa dos “rebeldes”, deve- ao fato que ela possui no litoral daquele país sua única base naval em todo Mar Mediterrâneo, Tartus — assim como a base áerea de Latakia

É lá que os russos abastecem sua poderosa frota naval do Mar Negro, quando esta cruza os estreitos turcos — de Bósforo e Dardanelos –, o que permite sua entrada nos mares Egeu e Mediterrâneo, um acesso vital da marinha russa para águas quentes.

A frota russa do Mar Negro, por coincidência, está sediada na República Autônoma da Crimeia, que recentemente decidiu se desmembrar da Ucrânia para se filiar à Federação Russa — tudo na esteira de eventos da atual crise ucraniana.

Enfim, por uma coincidência maior ainda, nos últimos anos, dois espaços vitais para a Rússia foram quase perdidos por Moscou em dois episódios nos quais, veladamente ou não, os EUA e seus aliados atuaram.

E sequer pode se dizer que a Rússia se usou do seu poder no Mar Negro e nas bases sírias para intervir. Na verdade, ambas as manobras serviram para Moscou não perder dois espaços cuja falta pode inviabilizar a existência do país. Apesar de ser o maior Estado em extensão territorial no mundo, a Rússia só conseguiu existir como país unificado a partir do desenvolvimento da marinha por Pedro, o Grande.

Foi graças ao desenvolvimento naval que a Rússia superou a Suécia no Báltico e, pouco mais tarde, foi capaz de superar as forças navais do Império Otomano no Mar Negro e consequentemente no Egeu (o que se consolidou com a tomada da Crimeia em 1783). E só aí, apenas cem anos antes de o Brasil se tornar independente, que a Rússia pode nascer.

O enorme poder naval russo, contudo, contrasta com seu acesso limitado ao mar. Caso o perca — e a Crimeia e a Síria são essenciais para que isso não ocorra — a Rússia fica praticamente cercada por terra e gelo. Isso em um cenário no qual a OTAN avançou sobre os antigos países do Pacto de Varsóvia, reforçando um cerco que dura quase cem anos — e remonta.

Com a Ucrânia neutralizada pela Rússia, e o ISIS quase derrotado, a Turquia avança a leste. E aí voltamos ao Nagorno-Karabakh, o enclave armênio no que é, do ponto de vista formal, território do Azerbaijão e foi por ele atacado.

Uma nova tensão no Cáucaso é a possível resposta à derrota iminente da OTAN na Síria e na Ucrânia, um movimento de uma guerra de posições sem sentido na qual a Turquia é peça central.

Na falta de bloquear as saídas para o mar da Rússia, o alvo volta a ser o Cáucaso, cuja localização permite influenciar nos mares Cáspio e Negro. Só que no caminho há, novamente, a Armênia.

Portanto, os quase cem anos de cerco à Rússia e os mais de cem anos do genocídio armênio se entrelaçam no novo avanço turco — que no passado, por sinal, se justificou pela cínica alegação de que os armênios estariam a serviço do expansionismo russo. Nada de novo sob o Sol.

TEXTO-FIM
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Hugo Albuquerque

Hugo Albuquerque é jurista, mestre em Direito Constitucional pela PUC-SP, sócio da Saccomani, Albuquerque & Biral Sociedade de Advogados e editor da Editora Autonomia Literária.