A Espanha desafia a democracia de fachada

Uma frente de esquerdas desponta como candidata ao governo. Conservadores e El País alarmam-se. E se os eleitores ousarem desobedecer?

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Líder da Izquierda Unida, Alberto Garzón, e do Podemos, Pablo Iglesias

Por Nuno Ramos de Almeida

Quando Paul Bremer desembarcou no Iraque, depois da invasão das tropas dos EUA, vestia paletó e gravata com botas da tropa. Declarou que a intenção da administração Bush era democratizar o país: liquidar a estrutura da ditadura de Saddam Hussein e convocar eleições livres. “Totalmente livres?”, perguntaram, excitados, os jornalistas presentes. “Totalmente”, respondeu o novo homem forte do território e acrescentou, sorrindo: “Toda a gente pode concorrer, toda a gente pode ganhar, menos os fundamentalistas.”

A situação na Europa tem respeitado nos últimos anos este maravilhoso procedimento democrático: os cidadãos têm todo o direito a expressar-se livremente sobre as políticas de integração europeia desde que não as questionem. Os europeus podem votar nos seus governos desde que eles sejam robôs-zumbis do arco do governo Berlim-Bruxelas. Toda a vontade popular será devidamente castigada se não respeitar essa ordem. As sanções europeias, como relembrou o desastrado presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, não são para quem violou os tratados: a França já ultrapassou o teto dos 3% de déficit 11 vezes desde que existe o euro. Mas, apesar disso, escapou sempre às sanções previstas nos pactos orçamentais europeus. O presidente da Comissão Europeia explicou o fenômeno numa entrevista à televisão do Senado francês: as sanções não foram aplicadas “porque é a França”, afirmou Jean-Claude Juncker. “Conheço bem a França, os seus reflexos, as reações internas, as suas múltiplas facetas”, explicou Juncker, citado pela Reuters, acrescentando que as regras orçamentais não podem ser aplicadas “cegamente”.

A declaração do presidente da Comissão Europeia, que esteve envolvido no escândalo LuxLeaks [procedimento das autoridades do Luxemburgo que permitia às grandes multinacionais fugirem aos impostos], causaram escândalo e levaram o presidente do grupo do euro, o holandês Dijsselbloem, dizer  que a Comissão tem de ser mais inteligente para ser credível. O problema, para o grupo do euro, nunca esteve na política assimétrica em que uns países são filhos e outros são enteados; o que não pode acontecer é que o presidente da Comissão Europeia seja tão estúpido que o admita publicamente aos jornalistas. Até porque o ministro das Finanças alemão,  Wolfgang Schäuble, quer ter margem pública para “castigar” Portugal e a Espanha se tentarem fugir da prisão das políticas de austeridade, por mais tímido que seja esse desvio.

No final do mês temos eleições na Espanha e o referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia, aproximam-se as eleições presidenciais em França e, em 2017, as legislativas na Europa, os tipos que mandam na Europa e a sua política do TINA (there is no alternative) jogam o tudo por tudo. Por isso, não é de admirar que o principal diário espanhol, “El País”, esteja em campanha contra a coligação Unidos Podemos.

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“Ganhar é uma aspiração legítima dos partidos democráticos; o problema é que desconhecemos os verdadeiros planos do magma populista e radical (sic) formado por Podemos e Esquerda Unida. Exasperados pela crise econômica e política, muitos votantes parecem querer abrir passo a uma opção de ruptura sem reparar nas enormes incertezas que pendem sobre ela”, lamenta-se o editorialista do jornal espanhol, sem perceber as enormes incertezas que vive a esmagadora maioria dos espanhóis, num país onde mais de metade dos jovens não conseguem emprego e a classe política no poder está completamente enredada em esquemas de corrupção sistêmicos.

O fato de as sondagens darem que a nova coligação está em condições de disputar o primeiro lugar nas legislativas de 26 de junho com o Partido Popular de Mariano Rajoy está assustando as elites espanholas e europeias. Durante muitos anos, as forças antissistema e a esquerda antiausteritária contentaram-se com o papel de miss simpatia: diziam um conjunto de verdades, mas não se esperava que ganhassem.

A crise mundial e europeia abriu a possibilidade de mudanças no poder mas, como se viu na Grécia, não basta ganharem forças políticas novas: elas têm de ter a ambição de ganhar as eleições, mas não podem prescindir da radicalidade que as levou ao poder. A esquerda anticapitalista tem de ter o desejo de vencer e a arte de fazer as coligações o mais alargadas possível que levem a uma mudança no poder e nas políticas. Mas só conseguirá transformar vitórias simbólicas em mudanças reais se não abdicar da radicalidade e se afirmar que o poder não é um simples objetivo: é um meio para transformar a sociedade. Se não o fizerem, apenas tiraram a gravata às moscas.

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3 comentários para "A Espanha desafia a democracia de fachada"

  1. Roldão Lima Junior disse:

    O articulista descreve a apreensão da burguesia europeia diante da possibilidade da esquerda anticapitalista chegar ao poder sem que esteja preparada para exercê-lo. Defende que a esquerda anticapitalista deve fazer as mais amplas coligações para manter-se no poder sem abandonar o radicalismo no objetivo de transformar a sociedade. Isto é uma contradição uma vez que radicalismo não combina com ampla coligação política pela diversidade de opiniões que poderão existir. O articulista também explora um viés muito interessante que nos leva à reflexão bem rasteira sobre o mecanismo de conquista do poder pela esquerda nacionalista europeia, sempre acossada pela direita xenófoba. O nacionalismo permeia a esquerda e a direita europeias. Na prática, o esquerdismo anticapitalista só existe nos discursos populistas usados para capturar o voto dos cidadãos ignorantes ou desesperados pela crise financeira na qual estão mergulhados e que não enxergam solução ao curto prazo. Ao chegar ao poder, essas esquerdas vêm se mostrando incompetentes para transformar a sociedade, como foi no caso da Grécia, na Europa, e das republiquetas da América Latina, como é o caso do Brasil. Na Grécia, o Syriza “pagou o maior mico” da história do berço da democracia. A sua ascensão ao poder foi com o discurso contra a austeridade. Engambelou a todos os gregos – atenienses e espartanos, indistintamente – com promessas de manutenção de aposentadorias, aumento da oferta de empregos, maior intervenção do Estado na economia, revisão das condições de permanência na Zona do Euro e outras mazelas a que os conterrâneos de Aristóteles estavam acostumados a usufruir do estado paternalista. Uma vez no poder, a esquerda anticapitalista grega teve que ”arriar as calças” para o FMI que obrigou o governo a adotar severa política econômica de austeridade sob a ameaça de exclusão do país da Zona do Euro. Foi o maior estelionato eleitoral da terra de Platão. Foi um vexame. No Brasil foi diferente. Em 2003, a Nova Esquerda alcançou o poder pela via pacífica com discurso anticapitalista. Uma vez encastelada no poder, passou a fazer “amplas coligações” com a burguesia capitalista para por em prática o seu projeto de transformar a sociedade brasileira. Abandonou o discurso anticapitalista. Esse conluio foi tão fértil que a Nova Esquerda brasileira passou à acumulação de riqueza, em benefício da militância partidária e de seus “coligados”, apoderando-se criminosamente de recursos públicos, mediante a prática de corrupção em larga escala. Adotou a prática do “toma-lá-dá-cá”, do suborno de políticos da pseudo-direita, da dilapidação do patrimônio público com a prática de “mensalão” e de “petrolão”. Nesse ínterim, o Brasil, além de ser chamado de “país de merda” pelo Jihad John de plantão do Estado Islâmico, ganhou a medalha de ouro olímpica de corrupção na visão da imprensa internacional. Em síntese, a nossa pseudo-esquerda nunca foi esquerda anticapitalista. Muito pelo contrário, ao chegar ao poder, amancebou-se com a pseudo-direita brasileira para, em conjunto, proceder à dilapidação do Erário Público, abandonando “na maior cara-de-pau” o discurso anticapitalista. Enquanto isso: DEIXA O MORO TRABALHAR!!!

    • Edgar Rocha disse:

      “A esquerda anticapitalista tem de ter o desejo de vencer e a arte de fazer as coligações o mais alargadas possível que levem a uma mudança no poder e nas políticas. Mas só conseguirá transformar vitórias simbólicas em mudanças reais se não abdicar da radicalidade e se afirmar que o poder não é um simples objetivo: é um meio para transformar a sociedade. Se não o fizerem, apenas tiraram a gravata às moscas.”
      Que sirva de aprendizado a experiência brasileira. Quem muito se abaixa, acaba mostrando os fundilhos. Coligação ampla, sim! A máxima possível. A-MÁXIMA-POSSÍVEL!!! E o possível é limitado pelos princípios. Se estes não forem respeitados, deixa de ser coligação e passa a ser subjugação, no mínimo. Pra não dizer traição, quando a prática da esquerda já não se diferencia da dos direitistas.
      Quanto ao colega Roldão Lima Junior, acredito que o senhor deveria acompanhar melhor as postagens deste excelente site. O senhor veria que deixar “o Moro trabalhar” em nada tem a ver com contribuir para a melhoria da política no país. Se considerar todas as informações já disponíveis sobre a Lava-Jato e sobre o próprio Moro, poderá tirar inúmeras conclusões. Mas, duvido que alguma delas seja congruente com alguma esperança de mudança a partir da atuação do referido juiz.
      tenho certeza que sua capacidade analítica não permitirá que o senhor continue incorrendo neste equívoco, caso tenha as informações necessárias para uma conclusão mais exata. Com todo respeito, acredito que suas fontes não sejam as mais confiáveis ou, ao menos, mais completas. Se o senhor tem alguma boa vontade em relação ao Brasil e ao povo brasileiro, tenho certeza que mudará de ideia.
      Meus respeitos.

  2. Guilherme disse:

    Depois de uma bela aula de retórica, e algumas críticas de fato pertinentes à esquerda parlamentar, “DEIXA O MORO TRABALHAR!!!”, ele grita. =)

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