Em jogo ruim, bola dividida

Clubes europeus de futebol enfrentam FIFA/UEFA, numa disputa que pode mudar campeonatos, mas arrisca reduzi-los ainda mais a mero negócio

Por Irlan Simões, colaborador de Outras Palavras

O primeiro semestre do ano de 2011 marcará a história do futebol brasileiro como o período que viveu um dos maiores conflitos entre os grandes clubes do país, organizados em torno do Clube dos 13, e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Após uma série de idas e vindas, a última palavra pertenceu mais uma vez à maior empresa de comunicação do Brasil, a Rede Globo, que conservou o poder quase pleno que mantém, há quase vinte anos, sobre o esporte mais amado do país. Essa disputa de interesses, no entanto, não é exclusividade do futebol brasileiro.

Nos meses de Junho e Julho de 2011, o mundo presenciou o momento mais tenso de outra guerra que se arrastava há anos: o conflito entre os interesses dos grandes clubes europeus, em contraste com os desmandos arbitrários da União Europeia de Futebol (UEFA) e a Federação Internacional de Futebol (FIFA). A importância de compreender os fenômenos políticos que se manifestam hoje no futebol europeu é imensa, uma vez que as transformações protagonizadas pela Europa acabam chegando ao futebol brasileiro, embora com atraso atraso de anos.

A associação entre os grandes clubes

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O ponto de partida para entender o atrito é a criação do “Grupo dos 14” (G14), que reuniu os maiores clubes europeus, na tentativa de mudar as normas de regem as transações internacionais de atletas. Capitaneado pelo mirabolante presidente do Real Madrid, Florentino Pérez, o grupo chegou a um primeiro acordo de paz com a FIFA em 2008.

De lá para cá, muita coisa mudou. Os principais clubes ingleses, por exemplo, foram todos privatizados. As cifras do mundo da bola continuaram a crescer consideravelmente. FIFA e a UEFA envolveram-se em sucessivos escândalos de corrupção. Como afirmou o antigo presidente do G14, Thomaz Kurth: “os clubes estão muito mais fortes” e as entidades que governam o futebol “deram demasiadas justificativas para que se questionassem suas medidas”.

A articulação dos grandes clubes, aliás, não se limita ao G14. Também em 2008, formou-se a Associação dos Clubes Europeus (European Clubs Association, a ECA), que reúne 197 membros, coordenados por nove entre os mais destacados (Real Madrid, Barcelona, Milan, Internazionale, Liverpool, Manchester United, Chelsea, Arsenal e Bayern Munich).

Este grupo tem crescido em notoriedade e agressividade. Uma Assembleia da ECA em Genova, no início do ano de 2011, discutiu as intenções da FIFA, de expandir os jogos amistosos internacionais entre seleções e de promover a Copa do Mundo do Qatar 2022, no inverno do hemisfério norte. Os clubes consideraram seus interesses serão feridos por tais propostas, uma vez que serão obrigados a manter os pagamentos dos jogadores utilizados pelas seleções nacionais, mesmo correndo o risco de perdê-los por lesões.

Baluartes da ética?

A ECA passou a reivindicar participação direta dos grandes clubes na definição dos rumos do futebol. FIFA e UEFA buscam, de fato, perpetuar, em seus postos de comando os grupos lá encastelados há muitos anos. Para fazê-lo, oferecem mais vagas para certos continentes na Copa do Mundo, ou para clubes de alguns países na Liga dos Campeões europeia – e asseguram o voto das federações contempladas.

Este caminho é percorrido em meio a irregularidades. Só nos últimos dois anos, nove membros do conselho executivo da FIFA foram banidos, por envolvimento com atividades ilegais no comando da Federação. Mais recentemente, o presidente da federação norte-americana e centro-americana de futebol (a Concacaf), caiu, após denúncias sobre suborno de árbitros.

A ECA explora este desgaste. Seu presidente, o ex-jogador alemão Karl Rumenigge, articulou para outubro uma reunião entre a entidade e os ministros dos Esportes de 27 países europeus. Os clubes querem discutir diretamente com as autoridades nacionais a “boa governança dos esportes”.

Especula-se abertamente sobre uma possível desobediência aberta à UEFA. Em 2014, expira o acordo que obriga os clubes a disputarem competições agendadas pela entidade. Aventou-se que surgiria, do rompimento entre ECA e UEFA, a Superliga Europeia de Futebol. Assim como já ocorreu na Inglaterra, os clubes romperiam com a entidade governante e passariam a gerir o seu próprio torneio. O torneio teria 20 equipes, muito menos que a atual Champions League, cujo calendário extenso incomoda os gigantes europeus.

Acontece que, de alguma forma, a tática da ECA parece ter mudado. Ou por julgar que o momento ainda não é propício, ou por ter blefado desde o coemço, Rummenigge afirmou, em 4 de Agosto, que o rompimento, “tornou-se uma idéia não mais viável”. Alguns afirmam que teria pesado o receio dos clubes de menor porte, que temem ser banidos de suas federações nacionais.

Os reais motivos da guerra

Muito dinheiro”. Foi assim que Matt Scott, repórter esportivo do jornal britânico The Guardian, definiu o eixo central dessa guerra que move o futebol europeu, em um artigo muito pertinente para o jornal britânico The Guardian (link). Trabalhando no coração do futebol-negócio, Scott enxerga como mudou, nos anos recentes, o perfil dos grandes investidores e proprietários de clubes.

Ele conta que antigos nomes como Silvio Berlusconi – dono do Milan e premiê italiano – e Roman Abramovich – proprietário do Chelsea e dono de um imenso conglomerado de empresas na Russia – tinham, nos clubes de sua propriedade, interesses políticos ou mesmo de ordem pessoal. Mas não se preocupavam com os balanços negativos registrados, ano após ano, nas receitas dos seus “brinquedinhos”.

Num outro polo estão dirigentes-capitalistas como Malcolm Glazer, norte-americano proprietário do gigante Manchester United (além de magnata do petróleo). Ele vê o futebol como máquina de gerar lucros e os torcedores, como simples consumidores. Ao invés de reinvestir no Manchester os lucros que obtém com o clube, transfere-os para outros negócios. É um dos motivos que tem levado torcedores do clube a lutar pela sua saída.

O futebol, já extremamente mercantilizado e privatizado passou, a partir da era Glazer, a ser fonte direta de acumulação de riquezas de grandes grupos econômicos. Empresários de países sem tradição em futebol passaram a investir bilhões na compra de clubes do futebol inglês, o mais aberto do mundo. Hoje, a grande maioria deles é de chineses, árabes, canadenses, russos em especial norte-americanos.

Organizados em torno da ECA, os donos de grandes clubes europeus desejam abocanhar também a grande soma de recursos que é gerada no futebol, mas transferida para entidades como a FIFA e da UEFA. A começar pelos bilhões de dólares despejados pelos anunciantes em publicidades de todo tipo – desde placas no campo, até exclusividade na venda de produtos durante as partidas. Entre 1997 e 2009, a FIFA saltou de uma arrecadação anual de 22,5 milhões de dólares para a impressionantes cifra de 1 bilhão.

Outro ponto fundamental reivindicado pelos grandes clubes é participar da decisão sobre a quantidade de participantes nas competições. O aumento do número de participantes na Copa do Mundo e Champions League acarreta mais custo para os clubes, mas ainda mais renda para as entidades governantes. Assim como a convocação de jogadores de salários astronômicos, que não são pagos pelas federações nacionais, mas geram lucram para estas. Só a Copa do Mundo de 2010 garantiu 3,7 bilhões de dólares para a FIFA, que repassou apenas US$ 40 milhões como compensação para os clubes que cederam seus craques.

A venda dos direitos de imagem, para os meios de comunicação, acirra ainda mais a disputa. Numa época em que o futebol é vendido como espetáculo para todos os cantos do planeta, os valores são quase incontáveis.

Mas seria possível esperar algo de bom desta rebelião dos clubes? “A ECA é o cavalo de Tróia do futebol moderno”, afirma Fred Elesbão, economista, colaborador do site Torcida Ganha Jogo. “Funciona mais ou menos como a máfia do Clube dos 13 no Brasil. Uma instituição criada pelos ricos para defender o interesse dos ricos”.

Fred é torcedor do Náutico, um dos clubes renegados do C13. Morou na Alemanha e acompanhou de perto o futebol local, Endossa a argumentação de Malcolm Clarke, presidente da Federação dos Apoiadores do Futebol (Football Supporters Federation), que representa mais de 180 mil torcedores europeus: “A única coisa que podemos concordar com a ECA é que a FIFA precisa ser democratizada”. Clarke também aponta como os clubes de menor porte acabam por se tornar reféns dos gigantes dentro da Associação, ganhando menos que os clubes centrais, mas receosos de estar fora da instituição e “perder a boca”.

A batalha parece, portanto, uma escolha entre o ruim e o pior. O problema central é que ainda não há uma organização que reúna em massa os torcedores e seja capaz de colocar em cena os que veem o futebol como jogo e arte.

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Irlan Simões

Irlan Simões é jornalista, orgulhosamente nordestino, escreve para a coluna Futebol Além da Mercadoria. Também colabora com a Revista Rever.