Como mergulhar em Blow-Up

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Clássico de Antonioni, que volta aos cinemas, retrata turbulentos anos 1960, mas também tensão entre realidade e imagem. E, mais atual que nunca, expressa tempos de imprecisão, instabilidade e incompletude

Por José Geraldo Couto, no Blog do IMS

Há duas maneiras, não necessariamente excludentes, de ver Blow-up (1966), a obra-prima de Michelangelo Antonioni que volta em cópia restaurada aos cinemas brasileiros (inclusive no IMS-RJ) no ano em que completa meio século de idade.

A primeira abordagem atentaria para aquilo que, no filme, serve como retrato de sua época: a moda extravagante e psicodélica, o rock dos Yardbirds, figuras icônicas como a modelo Veruschka e a atriz e cantora Jane Birkin, a liberalidade sexual, as cores vivas da cultura pop. Uma visão, em suma, daquilo que está, de modo até ostensivo, em sua superfície. Visto exclusivamente dessa maneira, Blow-up seria apenas um documento histórico, uma encantadora peça de museu.

TEXTO-MEIO

Mas há um modo mais produtivo, a meu ver, de mergulhar nesse filme imenso e buscar as razões de sua persistente vitalidade. Vamos a ele.

Primeiro, há que lembrar que Antonioni inspirou-se no conto “As babas do diabo”, de Julio Cortázar, mas retendo do texto original apenas a ideia central, a de um homem que fotografa uma cena bucólica e, ao revelar e ampliar sua foto, descobre que pode ter havido um crime. Da ilha de Saint-Louis, em Paris, onde se passava a história de Cortázar, o cineasta transferiu a ação para a swinging London dos anos 1960.

A futilidade e a crítica

No filme, o protagonista Thomas (David Hemmings) é um fotógrafo cool, ao mesmo tempo inquieto e entediado, que oscila entre a futilidade das revistas de moda e o desejo de registrar uma visão crítica da realidade social. A ação toda se concentra em um dia na vida desse personagem, acompanhando de modo fragmentário seu périplo pelos mais diversos ambientes: um abrigo de mendigos, um estúdio fotográfico, uma loja de antiguidades, um parque quase deserto, um show de rock.

Em meio a esse caleidoscópio de ações truncadas ou incompletas, eclode de modo surdo, sem ênfase, o acontecimento central. Thomas fotografa num parque o que parece ser o encontro idílico de um casal de amantes. Ao ver-se fotografada, a mulher (Vanessa Redgrave) o interpela, exige sem sucesso que Thomas lhe entregue o negativo. Ao revelar e ampliar (o sentido de blow up) uma das fotos, ele capta algo estranho no olhar da mulher, ou antes na direção deste, e, numa sequência de ampliações crescentes de detalhes da imagem, conclui que houve ali um crime, talvez um assassinato.

Esse núcleo dramático do filme é também sua chave formal. Dos fragmentos de uma imagem bidimensional e fixa, com inteligência e imaginação, o fotógrafo recria toda uma cena viva. Analogamente, Antonioni, da fotografia, faz cinema. Na decomposição/recomposição da imagem congelada, ele lança mão de alguns dos procedimentos básicos da linguagem cinematográfica: o campo/contracampo, a panorâmica, o close.

A imagem em questão

Há aqui algo de muito profundo e atemporal, que transcende lindamente o quadro histórico-cultural da produção: uma reflexão sobre a imagem, sobre o que ela mostra e o que ela esconde, sobre o quanto projetamos de nós mesmos naquilo que vemos, sobre a tênue fronteira entre o objetivo e o subjetivo. Numa palavra: sobre o cinema.

Voltemos, agora com outro olhar, à “superfície” do filme, à sua tapeçaria de referências de época. Como todo grande artista, Antonioni não se limita a registrar o que vê, mas questiona seu sentido e aponta tendências. Alguns dos temas então emergentes – a intersecção entre arte e moda; a superação dos “suportes” para a criação artística e o consequente surgimento de “instalações” (sintetizado no episódio da hélice usada como elemento de decoração); o fetichismo da cultura pop de massa (a briga histérica por um braço escangalhado de guitarra); as intervenções artísticas de rua (a trupe de clowns) – seriam lugar-comum nas décadas seguintes. Aqui, como aperitivo, a emblemática sequência do show dos Yardbirds, com a presença de dois guitarristas que ficariam célebres, Jimmy Page e Jeff Beck:

A narrativa lacunar, aos saltos, com cenas que parecem terminar antes de se completar, a cenografia truncada, com ambientes imprecisos quanto à sua função (moradia, ateliê, escritório), os diálogos lacônicos, a expressão impassível do protagonista, a enigmática cena final, tudo parece confluir para a sensação de imprecisão, instabilidade, incompletude, oscilação de sentido. É difícil imaginar um filme mais moderno.

TEXTO-FIM

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.