Assassinato em Dubai: a conexão europeia

Robert Fisk afirma: países da UE participaram, por omissão voluntária, da execução de líder do Hamas, praticada por agentes de Israel

Voltaram a surgir, ontem, informações surpreendentes, relacionadas ao assassinato, em 19 de janeiro, de Mahmoud al Mabhoud, um operador de alto nível do Hamas, que vivia em Dubai. No meio da semana, ficou claro que o crime foi praticado pelo Mossad, serviço secreto israelense e esboçou-se uma crise diplomática (ver Outras Palavras). Agora, o jornalista britânico Robert Fisk aponta, com base em diálogos com uma fonte, a provável cumplicidade de diversos serviços secretos “de inteligência” europeus. Publicado no diário britânico The Independent, o texto foi traduzido por Caia Fittipaldi e publicado no blog do Grupo Beatrice. Está copiado a seguir:

Explicações inglesas viciadas. É hora de falar claro.

18/2/2010, Robert Fisk, The Independent
http://www.independent.co.uk/opinion/commentators/fisk/robert-fisk-britains-explanation-is-riddled-with-inconsistencies-its-time-to-come-clean-1902994.html

Colusão [■ substantivo feminino. Rubrica: termo jurídico. 1) concerto entre partes para enganar e prejudicar terceiros; conluio; 1.1) dolo das partes que litigam, simuladamente ou não, com o fim de enganar o juiz ou em prejuízo de terceiros (Dicionário Houaiss, em http://houaiss.uol.com.br/busca.jhtm?verbete=colus%E3o&stype=k&x=15&y=13)]. A palavra é essa. Colusão.

Os Emirados Árabes Unidos suspeitam – atenção: até agora, nada está provado – que a “colaboração para segurança” entre Europa e Israel ultrapassou os limites da legalidade, agora q ue pode ter acontecido de passaportes britânicos (e de outros países da União Europeia) terem sido usados para mandar agentes israelenses para o Golfo, com a tarefa de matar inimigos de Israel.

Ontem à tarde, às 15h49 (horário de Beirute; 13h49 em Londres), meu telefone libanês soou.

TEXTO-MEIO

Era uma fonte – impecável, conheço-o bem, fala com a autoridade que sei que tem em Abu Dhabi –, para dizer que “os passaportes britânicos são autênticos. Não são falsificações. Há os hologramas com o selo biométrico. Não são falsificações. Os nomes lá estão. E, se o holograma ou o selo biométrico foram falsificados, sabe-se de onde saíram.”

A voz – conheço bem o homem e a voz – quer falar. “Há 18 envolvidos no assassinato de Mahmoud al-Mabhouh do Hamás. Além dos onze já conhecidos, há também dois palestinos que estão sendo interrogados; outros quatro e uma mulher. A mulher fez parte do grupo que vigiou o lobby do hotel.”

Duas horas depois, chega um SMS ao meu telefone de Beirute, de Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos. É a mesma fonte.

“HÁ MAIS UMA COISA,” diz a mensagem em letras maiúsculas, e continua em letras minúsculas: “A sala de comando da operação foi montada na Austria (sic, de fato, tudo é sic, nesse relatório)… o que significa que, quando estavam aqui, os suspeitos não falavam uns com os outros, mas através da sala de comando, em linhas separadas para não serem detectados e para não se conhecerem ou ligarem-se uns aos outros (…) mas foram detectados e identificados OK??” “OK?” pergunto eu!

Minha fonte está ao mesmo tempo zangado e ansioso; e insiste: “Mandamos detalhes dos 11 nomes para a Interpol. A Interpol fez circular as informações em 188 países – mas por que os britânicos não alertaram as demais nações de que esses nomes têm passaportes ingleses?” E muito mais estava chegando.

“Identificamos cinco cartões de crédito em nome dessas pessoas, todos emitidos nos EUA”. O homem não deu as nacionalidades dos outros cinco cidadãos da União Europeia – de fato, há duas mulheres envolvidas no assassinato de Mabhouh. Disse que há países da UE que colaboram com os Emirados Árabes Unidos, entre os quais a Grã-Bretanha. “Mas  nenhum dos países com os quais já falamos notificou a Interpol sobre os passaportes. Por que não?”

A fonte insistiu que um dos nomes num dos passaportes – o nome de um homem que nega saber sobre o uso do passaporte – viajou de fato com ele à Ásia (provavelmente à Indonésia) e a países da UE durante o ano passado. Os Emirados Árabes têm prova de que um cidadão norte-americano entrou nos EAU em junho de 2006 com passaporte britânico emitido em nome de um cidadão britânico que já estava preso nos Emirados. Os Emirados lembram também que o passaporte de um agente israelense enviado à Jordânia para matar um líder do Hamás era genuíno passaporte canadense emitido para um canadense-israelense de dupla nacionalidade.

As agências de inteligência – que, na humilde opinião desse correspondente são quase sempre bem pouco inteligentes – usam há muitos anos passaportes falsificados. Oliver North e Robert McFarlane viajaram ao Irã (para tentar a libertação dos reféns norte-americanos no Líbano), usando passaportes que haviam sido roubados da embaixada irlandesa em Atenas.

Mas as novas informações que chegam dos Emirados Árabes Unidos assustarão alguns governos europeus e podem deixá-los sem ar. Em todos os casos, melhor que tenham respostas na ponta da língua para as questões que surgirão. Os serviços de inteligência –árabes, israelenses, europeus ou norte-americanos – sempre têm atitude de extrema arrogância em relação àqueles dos quais querem manter-se escondidos. Assim sendo, como os árabes conseguirão investigar a participação do Mossad nesse atentado? Só o tempo dirá. Veremos.

Colusão é palavra que os árabes entendem bem. Faz lembrar a guerra de Suez em 1956, quando Grã-Bretanha e França cooperaram com Israel para invadir o Egito. Londres e Paris sempre negaram participação no golpe. Mentiram e mentem.

Mas para um país do Golfo Árabe que suspeite que seus ex-senhores (que suspeite dos britânicos, para falar bem claro) estejam envolvidos no assassinato de alto representante do Hamás e hóspede do Estado, a coisa pode ter ultrapassado os limites do suportável. E há muito mais, nessa história, que logo virá à tona. Agora, esperemos para ver que resposta aparecerá, se aparecer, da Europa.

TEXTO-FIM
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Robert Fisk

Robert Fisk é um premiado jornalista inglês, correspondente no Oriente Médio do jornal britânico The Independent. Fisk vive em Beirute há mais de 25 anos. Considerado como um dos maiores especialistas nos conflitos do Oriente Médio, Fisk contribuiu para divulgar internacionalmente os massacres na guerra civil argelina e nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, no Líbano; os assassinatos promovidos por Saddam Hussein, as represálias israelenses durante a Intifada palestina e as atividades ilegais do governo dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque. Fisk também entrevistou Osama bin Laden, líder da rede terrorista Al-Qaeda (em 1993, no Sudão, em 1996 e em 1997, no Afeganistão).