Municipalismo, alternativa à crise da representação?

Buscar a experiência coletiva no espaço da cidade. Libertar a vida dos códigos capitalistas, sem cair na armadilha do isolamento pessoal. Como a luta nos territórios, onde a relação de forças tem a concretude dos corpos, pode criar nova política

O Anti-Édipo, livro de Gilles Deleuze e Félix Guattari, tem uma sacada muito interessante sobre três tipos de formação social e suas superfícies de registro: a sociedade primitiva em que tudo se inscreve na terra, o corpo se registra nela e a ela tudo conduz; a sociedade despótica em que tudo se inscreve no corpo do déspota, a ele tudo pertence e ele exige tudo para si como de direito; e a sociedade capitalista em que tudo se inscreve no corpo desterritorializado e fluido do capital, toda a vida se orienta a ele, se organiza para ele e com ele, fora dele quase não há vida, ele codifica o desejo, talha o corpo aos seus moldes, ao ponto de fazer coincidir a noção de liberdade com sua própria reprodução.

Não há entre estas três formas sociais uma linha progressiva que leva de uma a outra. As duas primeiras não desapareceram e suas virtualidades persistem nas sociedades capitalistas, se atualizando de diversas formas. E em cada uma dessas formações há sempre algo que escapa aos seus códigos. O que é sempre arriscado quando as próprias formas de estar vivo se inscrevem em suas superfícies de registro. Considerar essas características das formações sociais nos ajuda a pensar sobre nossas lutas para reinventar a vida hoje.

Como liberar a vida dos códigos capitalistas? Como criar as condições de experiência da liberdade para além do dinheiro se até o amor, o charme e a libido são suscitados pela riqueza? Como não deixar a própria consciência ser subjugada pelo trabalho tendo a honestidade como valor de apelo último em que o pobre tenta justificar a pouca autonomia que tem? Todas essas questões passam pela luta de produzir a si mesmo, mas isto não vai muito longe se seguir o mesmo esforço individualizante de conquistar a liberdade através do dinheiro.

Não devemos reduzir a conquista da liberdade a uma concepção do sujeito livre como um self-made man, pois este não passa de alguém que foi bem disciplinado a cumprir bem as funções que lhe foram impostas para sobreviver e isto não é autodeterminação.

Ok, autodeterminação pode ser sempre uma ilusão se consideramos que nossa ação ou vontade é sempre resposta a algum conjunto de causas obscuras que quase nunca temos consciência e muito menos algum controle. Como para alguns aceleracionistas que acreditam que tudo que fazemos é efeito das causas do próprio capital agindo sobre nós e qualquer coisa que fizermos contra ele só o levará a aprimorar seus modos de reprodução de si e controle de sua própria entropia. Mas então, como produzir causas dentre estas causas? Posso tentar exercer uma autodisciplina estoica, mas sei que a qualquer momento posso sucumbir a uma sociedade que distribui desigualmente a precariedade, as dificuldades e o fracasso.

Portanto, a pergunta deve ser sobre uma causa comum da liberdade. E a própria pergunta deve nos incitar a buscar os meios de nos reconectarmos coletivamente, considerando que as redes de solidariedade que criamos entre nós permite condições que possibilitam o exercício da autonomia, tais como mais segurança, hospitalidade, afetuosidade e cuidado mútuo, compartilhamento do uso comum de alguns bens, compreensão e acolhimento, dentre outras coisas sem as quais viver se torna um caminho ainda mais solitário e estreito.

Precisamos de um conceito de liberdade como partilha e o mais desafiador para isto talvez seja recriar entre nós a confiança mútua e o desejo de estarmos juntos. Isto pode não ser o suficiente para reestruturar toda uma sociedade, mas com certeza é imprescindível para tornar este caminho possível. Essa confiança não surge como a consciência de um valor em relação ao qual as forças sociais devem se adequar, mas através da propagação do desejo pela experiência coletiva de se misturar e estar junto.

Uma organização sociopolítica é antes de tudo uma articulação a partir de um lugar de desejo que se multiplica pelas bordas. É nisto que compreendemos que toda produção desejante é imediatamente produção social. Para que um coletivo consiga se difundir socialmente, ele precisa fazer funcionar suas capacidades de fabulação e de delirar o campo social, suscitando e fazendo passar um fluxo de desejo que é o combustível de produção dos seus ajuntamentos coletivos. O desejo tem aí uma função conectiva e dispersiva ao mesmo tempo.

Com os recentes governos populistas da extrema direita, tudo parece uma grande máquina de simulação que nos incapacita de se orientar em relação ao Estado. As polêmicas contínuas desses governos parecem ser mobilizadas para nos manter nesse estado paranoico e manter suas bases aquecidas, como um sistema cibernético que controla seu próprio grau de intensidade.

Em seu livro 21 Lições para o Século 21, o escritor Yuval Harari diz que:“Os políticos são um pouco como músicos, e o instrumento que eles tocam é o sistema emocional e bioquímico humano [e um pouco mais!]. Eles fazem um discurso — e há uma onda de medo no país. Eles escrevem uma mensagem no Twitter, e há uma explosão de ódio”.

O grande lance dos atuais governos populistas de direita é que eles aprenderam a manipular esses efeitos. Entenderam as relações de causa e efeito dos seus próprios discursos e tratam a opinião pública como um termostato, controlando os graus de agitação, atenção, intensidade etc. É o caso, por exemplo, de uma empresa como a Cambridge Analytica, uma empresa que desenvolveu um método para observar os dados e informações do comportamento do público nas redes sociais e antecipar quais novos outputs liberar a partir de uma previsão de probabilidade das reações.

Mas isso confunde nossa capacidade de discernir e decidir mais em relação às escolhas que nos impõem no nível institucional e representativo. Penso que é possível, ainda, um tipo de ação que se desprenda de ter que responder ou se posicionar em relação aos malabarismos das figuras representativas do poder como governo. Talvez um pouco de indiferença em relação ao governo possa fazer bem à capacidade de autodeterminação das nossas práticas políticas.

Para sair dessa situação sempre reativa da ação, que nos obriga a sempre ter que responder o mais rápido possível aos estímulos paranoicos da representação, é interessante pensar num tipo de mobilização incondicional do desejo de experimentar a democracia. Isto não quer dizer que seja uma mobilização sem estratégia, mas sim uma estratégia que não é articulada em reação às posições do governo, mas em relação às condições concretas que nos permitem ou não agir e construir uma experiência compartilhada dos modos de produzir nossa vida. O municipalismo pode ser uma via pra isso na medida em que toma o espaço da cidade como lugar desta experiência corporal e coletiva da democracia.

Quando digo “compartilhada” quero dizer transindividual. Recuso uma ideia de sujeito coletivo que estabelece uma identidade a partir da qual se inclui ou exclui. Também recuso uma ideia de indivíduos autônomos e atômicos. Essa liberdade (capacidade de agir sobre nós mesmos) partilhada se dá pelo que passa entre nós. Ou seja, é uma proposta de pensar a partir das relações que estabelecemos e o que elas permitem. É também uma proposta para pensar o desejo que nos arrasta, que nos leva a dizer isso ou aquilo, a nos reunirmos com este ou aquele grupo, a compartilharmos isso ou aquilo, independente de um centro de difusão que concentra tudo.

É essa capacidade de mobilizar o desejo e a crença que precisa ser reconquistada para sermos capazes de fazer da política uma experiência diferente do que é esse lenga-lenga de tiro ao alvo entre coronéis que brigam entre si. O maior obstáculo para isso talvez seja realmente abandonar a estratégia que gira exclusivamente em torno do poder e suas urgências e se deslocar para uma estratégia indiferentista em relação aos personalismos da política, se movendo para um modo mais impessoal de fazer política.

Quando falo de uma prática política impessoal imagino um tipo de ajuntamento e de ações difusas e simultâneas que interagem entre si, que não tem como condição para existir a vinculação a um centro ordenador. Um nome pessoal aqui seria no máximo uma metonímia para um conjunto de pautas e demandas. Pautas e demandas são os nomes concretos que os desejos ganham e produzem em política. É isso que deve ser feito possível. 

O municipalismo pode ser um caminho, mesmo que mais difícil e arriscado, porque é no espaço que a política se faz relação de força e experiência corporal – e não há por que opor local e global porque nas atuais condições sociotécnicas que existimos já estamos sempre conectados e as experiências locais estarão sempre dialogando e fazendo trocas com outras de um modo translocal. E é no espaço também que encontramos o poder enquanto relação de força exercida mutuamente entre os corpos. Nisto talvez nos desvencilhemos das figuras representativas do poder como governo que nos mantém nesse estado paranoico de servidão a algum senhor.

Relações de força se dão em todo lugar. Mas pensar o poder de modo espacializado permite perceber essas relações de força sendo exercidas de modo concreto e diferente do nível representativo que na maioria das vezes só encena enquanto quem manda mesmo nunca aparece e só paga pela atuação.

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2 comentários para "Municipalismo, alternativa à crise da representação?"

  1. Excelente ensaio. Parabéns.
    Me lembrou da ideia de sistema de conselho proposta por Hannah Arendt – “[…] parece-me, deve haver algo a ser descoberto, um princípio de organização completamente diferente, que começa de baixo, continua para cima e afinal leva a um parlamento”. (Crises da República, 2013, p.198-201).

  2. Achei pertinente a proposta. Bate com minhas reflexões de vinte e poucos anos – tempo que estive na área da Cultura do Estado do Paraná. No meu caso, trata-se de uma proposta de estímulo à produção artística em escolas públicas de nível médio. Tratando-se de uma iniciativa de educação emancipadora, que se choca com as forças dominantes que atuam sobre a escola – dirigentes públicos, políticos, pais e professores, todos imbuídos de garantir que o processo seja predominantemente domesticador, tratar-se-ia eleger interesses e prioridades, mediante pesquisa participativa, na forma que exponho, sucintamente adiante. (1) Inicialmente, eleger um determinado território, com cerca de cinco escolas, com facilidades de transporte público entre elas. Para, também de início, negociar com as respectivas direções, a formação de um ‘complexo escolar’, que permita intercâmbio de alunos e depois, circulação de eventos culturais entre elas, produtos futuros dos seus respectivos processos de desenvolvimento artístico. (2) Para a sustentabilidade desses processos, cada uma deveria formar um cooperativa escolar cultural. (3) Os focos do desenvolvimento estariam, a princípio, entre as áreas de artes cênicas, literatura, música, artes plásticas e áudio-visual. Cada uma das cinco escolas do complexo, formaria um núcleo voltado para uma dessas áreas, também objeto de negociação, com as respectivas comunidades escolares (direção, professores, alunos, pais e familiares), além de artistas voluntários e eventuais facilidades dos seus respectivos entornos – como escolas especializadas no desenvolvimento das artes. (4) Essas ações se dariam em contra-períodos, começando por iniciativas simples e demandadoras de poucos recursos, com por exemplo, sketches teatrais com adaptações simples de textos, concursos literários, sessões de percussão na música, ações articuladas de desenho-pintura-escultura, tudo a ser registrado e divulgado, em algo como uma rádio-pirata, em jornal-mural e nas redes sociais, sob a responsabilidade do núcleo de áudio-visual. Ainda de início, há que se dispor de um mínimo de recursos para o desencadeamento das ações – pesquisa e articulação dos primeiros passos, os quais demandariam algum treinamento e orientação técnica em cada uma das áreas propostas. (5) Esse desencadeamento monitorado externamente por algo como uma ONG (sem a presença de órgãos públicos da área), desdobrar-se-ia por cerca de 4 a 6 meses, preferencialmente com alunos da série inicial do ensino médio, encaminhando-se para a realização de eventos em cada escola e posteriores festivais ‘do complexo’, ciclo que este que se reproduziria sucessivamente, dentro de um pressuposto de sustentabilidade – cada iniciativa deverá ‘caminhar com suas próprias pernas’ – em outras tantas escolas, podendo gerar, na sua sequência, festivais intercolegiais, municipais ou regionais.

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