Bifo Berardi: pandemia cria também um dilema afetivo

No plano político, disputa será entre mais igualdade e poder ainda maior do 0,1%. Ela se refletirá no plano erótico: perpetuando o receio do contato, ou, ao contrário, esgotando o fascínio do online e revalorizando a presença, o beijo e a carícia

Entrevista a Luisa Duartele Vitor Gorgulho, no El País Brasil

Desde o início da pandemia do novo coronavírus, inúmeras vozes da filosofia têm compartilhado, em textos e diários virtuais, seus diagnósticos acerca das mudanças impostas pela covid-19 em todos os âmbitos da vida social. Entre elas, uma de destaque certamente é a do italiano Franco “Bifo” Berardi, 70 anos. Veterano de Maio de 1968 e importante figura do movimento operário italiano da década de 1970, o italiano é o autor de títulos como Depois do futuro e Asfixia, ambos publicados no Brasil pela editora Ubu.

Questões exploradas há décadas na pesquisa do filósofo —as mudanças de paradigma em nossa capacidade de imaginar o futuro, a automação da linguagem frente a hiperconectividade e a virtualização das relações e do corpo— parecem, agora, mais urgentes do que nunca. Em Asfixia, estão dois de seus ensaios recentes mais importantes, Inssurreição (2011) e Respiração (2018). O segundo toma como mote para reflexão a frase “não consigo respirar” (“I can’t breathe”), repetida oito vezes pelo norte-americano Eric Garner antes de morrer, em 2014, vítima de violência policial em Nova York. Em uma brutal repetição do episódio, há poucos dias, George Floyd, outro cidadão negro norte-americano, foi morto por asfixia após abordagem policial no Estado de Minnesota. Suas últimas palavras foram precisamente as mesmas de Garner, o que despertou levantes e protestos em diversas regiões dos Estados Unidos e no mundo.

Para Berardi, a dificuldade contemporânea em respirar é tanto literal quanto alegórica. É, a um só tempo, fruto do curto-circuito de uma época que combina a precarização da vida, a bancarrota dos regimes neoliberais e a complexidade atrelada a pandemia de um vírus que atua como um “recodificador” de nossas vidas.

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Você fala em um “psicovírus”. Está posta aqui a ideia do vírus como um agente de mutação “biológica, cultural e linguística”, “criaturas” que se proliferam coletivamente. É possível aferirmos uma leitura alegórica da relação entre a dificuldade contemporânea de respirar, a tal “asfixia”, e o fato do vírus atacar não só, mas principalmente, o sistema respiratório do corpo humano?

Antes de mais nada, ao nível do biovírus, podemos tirar uma conclusão: que a poluição do meio ambiente e o consequente enfraquecimento do corpo respiratório, particularmente os pulmões das pessoas que vivem nas áreas metropolitanas, abrem caminho para novas infecções. Portanto, seria idiota retornarmos à aceleração e à poluição geradas pela energia fóssil. Mas também estou interessado no lado metafórico da respiração: a harmonia na relação entre os organismos respiratórios e a felicidade que se baseia no compartilhamento comum das vibrações respiratórias entre os corpos. Penso que o efeito psicológico do bloqueio e, acima de tudo, a internalização erótica da dimensão contagiosa do corpo —os lábios, os fluidos corporais― será um grande problema para a geração jovem e para todos nós, de uma maneira ou de outra.

Em seus diários escritos durante a quarentena você afirma: “O imprevisto que esperávamos: a implosão. O organismo superexcitado do gênero humano, depois de décadas de aceleração e de frenesi, depois de alguns meses de convulsões gritantes sem perspectivas, fechado em um túnel cheio de raiva, de gritos e de fumo, finalmente se vê afetado pelo colapso”. Podemos tentar usar a implosão causada pela pandemia como uma chance para uma reformatação da mente de outra natureza?

Nada é certo, é claro, e não escrevo sobre qual será o próximo cenário. Não haverá apenas um cenário, mas sim muitos, contraditórios e até conflitantes. De repente, a pandemia reativou o futuro como um espaço de possibilidade, pois os automatismos —tecnológicos e financeiros— que desativaram a subjetividade política nestas últimas décadas de neoliberalismo foram quebrados. O cenário econômico e social que iremos descobrir quando sairmos da quarentena é difícil de ser imaginado. Não se parecerá com as recessões passadas porque será simultaneamente uma crise da oferta e da demanda, e também porque o colapso está expondo a perspectiva de estagnação que já era visível nos últimos dez anos, apesar dos esforços de revitalização econômica. Ao longo das últimas décadas, o crescimento diminuiu a ponto de se tornar uma espécie de utopia ruim. A desaceleração econômica não foi o efeito de uma crise provisória, mas sim fruto da exaustão dos recursos físicos do planeta e do aumento tecnológico da produtividade. Paradoxalmente, não conseguimos ver a possibilidade de reduzir o tempo de trabalho porque estávamos obcecados com a ideia de cultivar produtos nacionais, o que não é uma maneira de medir a quantidade de coisas úteis que estávamos produzindo mas sim uma medida da acumulação de valor monetário. Agora este feitiço está quebrado. Obviamente, a queda que a pandemia provocará exigirá um esforço de reconstrução, mas estamos na condição de decidir o que queremos reconstruir e o que queremos esquecer. Podemos abandonar o modelo extrativista, a extração poluidora de petróleo e adotar tecnologias não poluentes.

Uma coisa agora é clara: a principal causa da angústia atual é a primazia do lucro privado sobre o interesse social. Os destruidores neoliberais do sistema de saúde são responsáveis ​​pelo pesadelo europeu dos dias de hoje. O regime autoritário neoliberal cortou um quinto das unidades de terapia intensiva. Um terço dos clínicos gerais. As clínicas privadas investiram em terapias caras para os ricos, enquanto o empobrecido sistema público abandonou a produção de máscaras sanitárias. Nove por cento dos médicos italianos foram infectados porque foram obrigados a trabalhar em condições impossíveis. Portanto, vejo as condições para uma reformatação igualitária e transidentitária da mente social, mas sei que esse processo será ambíguo, incerto e, por vezes, contraditório.

O que podemos esperar de uma imaginação coletiva capaz de forjar outros futuros — ou “futurabilidades”, como você coloca em meio a esse momento de aberturas e fechamentos, medos e possibilidades que a pandemia instaura? Como esperar mais da imaginação se uma das causas de sua atrofia está na hiperconectividade, e talvez nunca tenhamos estado tão conectados nas redes como agora, em quarentena?

O vírus atua como um “recodificador”: antes de mais nada, o biovírus recodifica o sistema imunológico dos indivíduos e depois das populações. Mas o vírus opera traduções da esfera biológica para a psicosfera, o efeito do medo, do distanciamento. O vírus transforma a reatividade de um corpo em relação a outro, reformulando o inconsciente sexual. Já vimos esse processo nos anos da AIDS, que afetou profundamente a disponibilidade erótica e a solidariedade afetiva entre as pessoas. Em segundo lugar, temos uma disseminação do vírus na mídia: as informações são saturadas pelas epidemias, a atenção do público é polarizada. Mas, simultaneamente, uma nova sensibilidade pode surgir: o passado é percebido de uma maneira diferente e o futuro é revertido. O passado da conexão perpétua aparecerá na memória como um sintoma de solidão e ansiedade, e a dimensão online será inconscientemente internalizada como algo ligado a doença. Para elaborarmos o efeito do psicovírus de uma maneira consciente e não dolorosa, precisamos de uma elaboração coletiva, utilizando-nos de sinais, gestos linguísticos, sugestões subliminares, convergências subconscientes. E isso se dá propriamente no espaço da poesia, uma vez que ela é o campo em que novas disposições de sensibilidade podem ser moldadas.

Ao longo das últimas décadas assistimos a uma contínua desaparição do corpo vivo, analógico, enquanto ganhava protagonismo o que você chama de um corpo digital zumbi. Em alguma medida a pandemia provoca um retorno do corpo, somos lembrados novamente que temos um. Entretanto, esse retorno acontece mobilizando o medo da morte e o temor quanto a proximidade do outro, potencial agente de contaminação. Como você vislumbra o lugar do corpo no futuro pós pandemia?

Os efeitos estéticos e eróticos da “conectivização” (ou virtualização da comunicação) embaçaram e, às vezes, colocaram em risco a esfera da sensualidade e também a esfera da interação social em geral. Esse tem sido o tema principal do meu trabalho nos últimos vinte anos: a mutação do modo conjuntivo para o modo conectivo de comunicação, e também da percepção estético-erótica. Agora vejo uma espécie de divisor de águas, uma espécie de salto em uma nova dimensão que é simultaneamente perigosa e desafiadora, mas também reveladora. Literalmente apocalíptica. O isolamento está relacionado à inevitável expansão da atividade online, da experiência online. Ficaremos assustados com a proximidade, ficaremos incapazes de beijar os lábios de uma pessoa que deseja ser beijada? Ou, ao contrário, estaremos cansados ​​das trocas online e desejosos de ternura, sensualidade e solidariedade social? Não tenho respostas para essa pergunta, é claro. Mas a resposta não pode ser determinística. As transformações técnicas deste período de passagem serão importantes, mas não serão determinadas em nenhum sentido. Depende de um trabalho político essencialmente psicanalítico e também estético.

A ideia de uma “batalha final entre humanos e transumanos como o grande jogo geopolítico do século” parece um cenário verossímil e ao mesmo tempo a sinopse de um filme de ficção científica. A ficção especulativa está cada vez mais próxima da realidade ou é o noticiário que nos parece beirar mais e mais a ficção?

Nos anos 80, li muita ficção científica, particularmente esse tipo de ficção científica mentalista, na fronteira com o cyberpunk, que estava particularmente interessado em assuntos que hoje se tornaram realidade. Eu li muitos escritos de William Burroughs e Philip K. Dick. Dois escritores prolíficos, apesar de caóticos, que eram principalmente fascinados por um tipo de realidade alternativa que era de alguma forma distópica e conceitualmente densa. Em 1979, Burroughs publicou um pequeno romance intitulado Blade Runner (Ridley Scott usou esse título para o filme que é, na verdade, extraído do romance de Dick, Androides sonham com ovelhas elétricas?). O mote da narrativa de Burroughs é a epidemia de um câncer contagioso que, ao mesmo tempo que é fatal para a pessoa afetada, dá a ela uma enorme energia sexual. As instituições médicas proíbem, então, a difusão do câncer que é transmitido pela cidade pelos blade runners, espécies de mensageiros que comercializam drogas e outros antídotos. Um texto totalmente delirante, publicado em Berkeley em 1979, mas quase desconhecido do grande público. Nesse delírio, no entanto, existe uma intuição que é proposta novamente pelo autor em Ah Pook is here!, também publicado em 1979: a infecção viral como metáfora da mutação cultural. Ah Pook termina com uma visão apocalíptica: “o ovo mortal maia libera o Vírus-23, que emerge do distante mar do tempo morto e se espelha pelas cidades do mundo como incêndios em florestas”. Para entender o ponto filosófico que emerge dos textos de Burroughs, devemos ler também as páginas de Playback from Eden e The Electronic Revolution, onde o autor explica, com sua lucidez alucinógena, que a linguagem humana é apenas um vírus que se estabilizou no organismo do animal humano, atravessando-o e transformando-o no que ele é agora. Burroughs imagina uma metrópole distópica de doença e toxicidade, onde os blade runners incessantemente circulam com drogas pelas ruas e pelos canais de mídia, mantendo o sistema nervoso em permanente estado de excitação e medo, uma adrenalina eletrônica.

A medicalização de cada fragmento do sistema econômico, a falência dos institutos financeiros e da instituição política: esse pesadelo burroughsiano é o contorno do planeta após o fim do bloqueio do coronavírus. Não o retorno ao mundo normal, mas um salto em uma dimensão em que o perigo da pandemia —e, mais amplamente, o perigo da extinção— se torna a motivação fundamental, o alfa e o ômega de toda troca, de toda produção. Será a extinção o novo horizonte do ser humano?

“A sensibilidade, a capacidade de entender o que não pode ser verbalizado, tem sido uma das vítimas da fractalização do tempo. Para que possamos reativá-la, a arte, a terapia e a ação política terão que unir forças.” Você pode nos falar sobre como essa trinca pode vir a atuar para um retorno da sensibilidade entre nós?

Tenho a impressão de que uma explosão poética está ocorrendo de maneira fragmentada, esporádica, disseminadora e rizomática por todos os circuitos da rede. A Internet, que temos criticado com frequência nos últimos anos, também mostra nesta ocasião sua potência de solidariedade e libertação. A partir das postagens que tenho lido no Facebook e de mensagens que leio em emails, está surgindo uma forma refinada de minério. É óbvio, as pessoas têm mais tempo e não podem ir ao café conversar com os amigos, portanto ficam na frente do computador e digitam. Quero dizer: elas não digitam, elas escrevem. E isso é interessante. Elas podem estar pensando na maneira de contar um evento microscópico que acontece em sua vizinhança ou podem estar tentando elaborar um fato enorme que assistiram na TV. O fato é que milhões de pessoas estão gravando fragmentos de seu tempo neste “limbo”, fazendo pequenos filmes, usando imagens e palavras para expressarem suas próprias experiências. Eles estão tecendo o tecido do cosmos que pode se tornar reconhecível para além deste limbo, do cosmos que está divergindo “cismogeneticamente” da armadilha caótica das regras que mantinham o mundo unido pela destruição. Em uma enorme escala, uma pesquisa coletiva está em andamento, uma pesquisa que é simultaneamente psicanalítica, política e estética. Na extrema laceração do tecido do significado, estamos passando por uma máquina de escrever que tenta reativar a sensibilidade mesmo dentro da esfera de sensibilização da conexão. Um imenso poema “cismogenético” está sob composição; a intenção deste poema é produzir a forma harmônica da mutação.

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