Um auto de natal brasileiro

A criança pede carne ao Papai Noel, diz o jornal. E provou do leite da bondade humana. Que mau exemplo deste gastãozinho! E se, em um país onde o teto de gastos não pode ser destelhado, toda criança fantasiosa botar a boca no mundo por filé?

Por Airton Paschoa | Arte: Candido Portina

Um menino de sete anos, estampa a manchete, pede carne ao Papai Noel… Que estado, Altíssimo, o da educação no país! Ninguém falou pro guri que Papai Noel não existe? Ao mesmo tempo, devia saber o deseducando, questão de lógica primária, como haveria de conhecer dela, não sendo de carne o espeto velhinho…? ou já teria virado churrasco pela balda de entrar por lareira. Como quer que seja, provou do leite da bondade humana o esganado. A família recebeu uma nota preta em doações, prossegue a notícia, e matou a gula de comer carne — pelo resto da vida, rezo. Não posso porém deixar de pensar: e se pega a moda de Natal? se vira auto? se toda criança fantasiosa e malcriada bota a boca no mundo e só sai filé, filé? Haja leite! haja vaca! Não dá pra apostar na educação, ensina o episódio, quer na escola, quer em casa, a qual, em vez de enjeitar in limine os donativos, levando o gastãozinho a saborear a lição de economia acerca dos limites do orçamento doméstico, e por extensão do Orçamento desta grande família que é a União, cujo teto de gastos não pode ser destelhado deste lado, sob pena de cair na nossa cabeça, incluindo a pecha de irresponsáveis fiscais, em mau exemplo às células-mães do organismo social, a casa do pequeno comilão o que faz, Senhor? explora sem vestígio de vergonha a ternura de nosso coração. Por tocar n’Ele, aliás, com todo o respeito, tocar de fala, não de mão, de língua, o Altíssimo lá de cima (o deste papel, claro) nada tem que ver, pelo contrário, com o estado da educação, baixíssimo. Bem como, e repito, nada tem que ver com bife o vovô nevado, seja a cavalo, seja a rena. Pedisse pipa o pedinchão, mais à mão, menos cara, não passávamos tamanho carão. Eduquemos, pois, oro e imploro, eduquemos nossas crianças, futuro do Brasil!

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