O mapa do novo hip hop brasileiro

Do flow de Lampião ao trap amazonense. Plataforma conecta mais de 750 MCs e mostra: movimento se espraiou e tornou-se rica expressão da cultura popular no país. Sudeste concentra metade da produção. Amapá tem vibrante cenário

Acesse o mapa interativo aqui

Por Carin Carrer Gomes, na coluna Outras Cartografias

As bases técnicas e culturais do mapeamento

Campinas é um município que conjuga um massivo investimento na produção de tecnologias da informação e comunicação e uma profunda desigualdade socioespacial, onde a vida da maioria é ainda empobrecida, racializada e criminalizada. É nessa levada que em 2020 surge a Brasil Collab, uma plataforma de mapeamento colaborativo open source, sustentada pelos desejos e necessidades dos artistas para a promoção e divulgação dos seus trabalhos. Também impulsionada pelas colaborações dos hunters (literalmente “caçadores”, pessoas que procuram e convidam artistas para a plataforma) e dos embaixadores (outros artistas participantes que também são influencers, pelo número de seguidores em suas redes sociais), essa nova prática colaborativa traduz uma das atuais relações de trabalho e do mercado no meio cultural.

A idealização da Brasil Collab vem da sociedade de três jovens com diferentes formações, entre desenvolvimento de software e jornalismo e, em comum, a inspiração no universo do hip hop. Fábio de Lima, Brener Pompêo Rodrigues e Otavio Lopes, animados com as bases open source, fundaram um precioso recurso e abrigo informacional: o mapa de uma das culturas pretas mais populares da atualidade.

Em entrevista, Fábio de Lima explica que hoje no mapa já existem mais de 750 MC’s cadastrados em todos os estados do Brasil e mais 7 países. “É uma ferramenta muito importante, capaz de evidenciar a diversidade e pluralidade dos artistas do hip hop brasileiro, principalmente dos interiores dos estados”.

Conversaram com a coluna os artistas Bizum, Fat Cool Guys e Shamilla do Rio de Janeiro, Maichriz e Luíza Schilling de São Paulo, Mc Marix da Bahia, Ka Duarte do Paraná e Ondo Obiang Hansy, imigrante francês originário do Gabão. Todos afirmam sobre o uso da plataforma Collab como um meio de conexões com todo o Brasil e, mesmo, com os artistas do próprio município, considerando os raros fomentos estatais para a produção e divulgação das suas artes em suas próprias quebradas.

O hip hop é um movimento do período da globalização no Brasil. E passado quase 50 anos da sua vida nas quebradas dos grandes centros urbanos brasileiros, a Brasil Collab revela que atualmente ele está difundido por todo o território nacional.

Outros CEPs: com termos em inglês e pés no chão

Se antes nas introduções das músicas de rap se ouvia a descrição das quebradas de São Paulo e outros centros urbanos, hoje se ouve sobre Ji-Paraná em Rondônia, Ipixuna no Amazonas, Terenos no Mato Grosso do Sul, Porangatu em Goiás, São José de Mipibu no Rio Grande do Norte, Bayeux na Paraíba, Rio Largo em Alagoas, Amargosa na Bahia, Dom Pedrito no Rio Grande do Sul, etc. Esses e outros são territórios dos artistas do hip hop possíveis de se aproximar e localizar na plataforma Brasil Collab.

Nesses outros CEPs eles também reforçam as denominações em inglês como o flow, beatmaker e trap, traduzidas na cultura local. Como no “flow da vira lata” da Mc Íra: “cuidado com a rua que a rua te pega, pega, esculacha e te põe na reta, não olha pro lado, olha para a minha cara, não gosto dos fardas, (…) não sabe um terço, eu faço o dobro, trancada no estúdio, garanto o retorno, mudando o quadro eu mudo o jogo (…)”. Íra é também DJ, artista visual, fotógrafa e produtora do Battle Girl Power, batalha para mulheres, tudo isso diretamente do bairro da Marambaia em Belém da Pará. Rapper braba!

Outras adaptações estão em Itabaiana com o Mc DW Forasteiro para quem “o estúdio é o seu quilombo”, na música “Soul Pest” e com as rappers Bruxas do Cangaço que perguntam “para que serve negro, cozinha ou cela?” e respondem “racismo reverso, tá de brincadeira? Pantera negra tá com fome e vai comer homem branco”. Em Satuba tem o gangsta Alagoano Jerry Loko cantando “fogo nos blazers e nas Blazers”. E de Aracaju vem o “Flow do Lampião” sergipano com o NG, para quem “a vida não é Netflix”. O rapper se apresenta na Collab também como produtor antirracista.

Imagem do vídeo clipe “Flow do lampião” do NG, com Direção de Luan Allen. Este trabalho traduz a mais elegante relação estética entre a internacionalização do hip hop estadunidense com a histórica tropa do cangaço, construindo um sertão moderno, com o aprofundamento da desigualdade socioespacial e das resistências

Dos muros aos inimagináveis suportes do nordeste brasileiro

Da Cohab 1 de Jaboatão dos Guararapes em Pernambuco, a grafiteira Nathê Ferreira, arte-educadora e graduanda de licenciatura em Artes Visuais na UFPE, apresenta as suas artes na Collab como representações da imagem da mulher negra na rua, na academia e na rede digital.

Imagem do instagram “desbravandoalemmar” de Nathê Ferreira, grafite para o Pro-Recife: Cooperativa de catadores e catadoras de materiais recicláveis. Foto de Bruna Pontual
Imagem do instagram “desbravandoalemmar” de Nathê Ferreira, grafite “La furia negra”

Georeferenciado na Lagoa do Pium na região de Natal, Rio Grande do Norte, Daniel Necro Ellzee transcende os famosos bombs – um dos estilos do grafite – geralmente encontrados nos trens e muros das grandes capitais com seus espaços globais e seus espaços empobrecidos para o suporte de um barco abandonado em uma paisagem na zona da mata nordestina.

Imagem do instagram “necro.ell.zee13” de Daniel Necro Ellzee, grafite Pêxēpáquētə
Imagem do instagram “necro.ell.zee13” de Daniel Necro Ellzee, grafite Aerosol stickers na ribeura _ benção & maldição (ossos do vício)

Esses exemplos da produção de alguns grafiteiros no Brasil mostram que sua área é o suporte necessário para o desenvolvimento de seus trabalhos e, paradoxalmente, essa presença é o recurso que sustenta as redes ou as plataformas digitais. E, mais uma vez cheios de contradições, esses suportes garantem outras racionalidades da cultura global que é o hip hop e, infelizmente, ainda mostram as desigualdades no acesso de meios para as produções da maioria, pois alguns instrumentos das artes visuais e os espaços de fomento e exposição público e privado continuam profundamente seletivos e para alguns privilegiados.

O Hip Hop do Amapá: a jóia nortista

O Amapá é uma das localizações em que a cena mais pesada do atual hip hop brasileiro aponta para uma outra globalização, outros discursos e usos sobre as desiguais bases técnicas do período informacional, como fazem alguns dos artistas: Mc Deeh, Mc Yanna e Malária.

“Somos a maioria, crias de mãe solteira, que merecem coroa de ouro, casarão e dinheiro na gaveta”, canta Mc Deeh feat Pretogonista no rap “Julgamento”.

Julgamento”. Mc Deeh feat Pretogonista. Imagens do video clipe oficial produzido por Malária. Com uma estética visual dos grandes produtores dos EUA, as imagens e os discursos dizem respeito às questões socioespaciais da maioria dos brasileiros e certamente se confudem com as letras dos pretos estadunidenses

De Macapá, Mc Yanna congrega em seu rap e breaking as faces que representam a mulher brasileira em todas suas pluralidades: preta, amazônida, lésbica, evangélica, da umbanda, do candomblé, católica, pobre, periférica, dama da rua, bandida, nortista, rapper e b.girl. A artista é também idealizadora do evento de hip hop “Urban Movement”, como mostra em seu release no mapa da Collab. As imagens e discursos, na escala 1:1 no mapa da produção cultural Amapá, são refinadíssimos.

Faces da madrugada” de Yanna Mc. Imagens do video clipe oficial produzido por Saturação. É o clipe brasileiro com o retrato mais fiel da maioria e tradicional família brasileira. Como ela define na Brasil Collab, a sua música bate de frente com o racismo e a lgbtfobia.

Ao aproximar e localizar no mapa o produtor Malária no Amapá, clicar e ouvir os beats para a música “Lento amanhecer” do rapper Zion, a noção de outros tempos e outros espaços se configuram no fone, desaceleram as batidas cada vez mais velozes da música na atualidade e propõem uma subversão dos relógios, dos barulhos urbanos vertiginosos do mundo da globalização e nos fazem imaginar o “tempo lento” – termo cunhado pelo geógrafo Milton Santos – das desiguais ruas pelo Brasil.

O hip hop nortista é extraordinário e é um dos processos e produções contraditórios da globalização no Brasil, não só as produções culturais de São Paulo ou do Rio de Janeiro.

A área concentrada

São Paulo, a capital do hip hop no Brasil, Campinas e Rio de Janeiro ainda concentram o maior número de artistas do movimento. O Sudeste comporta mais da metade dos artistas, seguido do Nordeste, Sul, Centro-Oeste e Norte brasileiro.

Com a mixtape “Contrastes” de 2017, o carioca Bizum apresenta em seu release o trap “como a mistura de um swing pesado e uma atitude pé na porta”. Em entrevista ele conta que sua área está em suas produções pelas gírias e pelos lugares retratados. No bairro do Grajaú em São Paulo, vive o Mc Zero Onze, com o seu sample de Luiz Gonzaga da música “Me Erra” mostra o chão ou raiz para as bases do seu som, além das imagens da favela no vídeo da música “Cerol”.

Dj MayJuv, de Cubatão e residente em Rio das Ostras, onde faz faculdade de Produção Cultural pela UFF, se apresenta na plataforma como “caiçara do mangue”. Suas bases para o Bailão da quarentena, que dá nome a uma de suas playlists, misturam as batidas com trecho do funk da Mc Dricka: “seu lado abusivo só me traz constrangimento (…) não pode deixar o feminicídio ter seguimento”. Ela conta em uma conversa com a coluna que já trabalhou como hunter para a Collab.

Do interior de São Paulo, mais precisamente de Campinas, O Criador de Flows que odeia burguês contesta que não só o sertanejo tem de ser respeitado, o rap também, como ele e o próprio movimento assinalam como “a música de preto”. Em toda a letra da “Flow kaipira” ele ironiza: “Não sou herdeiro (…) nós tá de quemersse, rolê de rodeio” e questiona: “já viu negro que tem latifúndio?” e responde “estou ocupando, não estou invadindo (…) negro-negrócios”.

Por fim, a plataforma Brasil Collab permite uma reflexão que não é de fácil compreensão, mas importante: que o hip hop é uma das grandes culturas populares pretas do país, pela sua volumosa demografia, ou seja, sua quantidade de artistas, por ser feita pela maioria brasileira: preta, e, ainda, popular por seu rhythm and poetry não abandonar o seu chão, seja o nortista ou o sulista. A mesma face popular do hip hop significa um movimento que tenta agarrar as bases técnicas do período da globalização, com as mãos forjadas nas bases culturais da luta contra o modelo cívico escravocrata que persiste e se aprofunda com o capitalismo.

Confira a dissertação da autora: “O uso do território paulistano pelo hip hop” (2008)

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também:

2 comentários para "O mapa do novo hip hop brasileiro"

  1. Doutor Sinistro disse:

    Achei interessante e pertinente a matéria… Para mim é uma novidade até porque eu com os meus poucos recursos tecnológicos, hoje que tomei conhecimento do assunto…
    Espero poder participar, ou me cadastrar, ou mesmo, acompanhar….

  2. Gabriela disse:

    Matéria interessante, mas cadê a cena do Hip Hop de Teresina-Piauí??

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *