Juan, menino-peixe

Parecia uma característica comum na aldeia: um amadurecimento precoce, uma relação incomum com o tempo. A criança aprendeu, com a história oral passada dos avós aos pais e aos filhos, a antever tempestades, catástrofes e bonanças

Um conto de Roberta Traspadini, na coluna Diálogos Pedagógicos | Desenhos: Cecilia Angileli | Arte do vídeo: Karen Dias

Juan R. é um menino de poucas palavras e muito saber, dos altos de seus 12 anos de vida. Desde muito cedo aprendeu o ofício secular de sua família: a pesca. Viviam em uma aldeia – Boa Esperança — entre o continente e o oceano atlântico. Aprendeu, com a história oral passada dos/das avós aos pais/mães e dos pais/mães aos filhos/filhas, a antever tempestades, catástrofes e bonanças.

Em um dos trabalhos que desenvolvi na aldeia, como fotógrafa social – oi, sou Tina M. — aprendi muito com as histórias desta família. O olhar de Juan era o que mais me interessava, pois pareciam interpelar a história o tempo todo.

Chamava a atenção como aquela criança, amadurecida pela vida, parecia compreender como ninguém, os processos de prazer e de dor materializados em seu corpo e seus sentidos.

Juan é o filho do meio do casal Maria e José. Seu irmão mais velho – Marin — rebelou-se desde cedo, contrário a seguir no ofício da família. Odiava os cheiros da pesca, dos pescadores e da aldeia. Para a tristeza de José que queria repassar ao primogênito toda a bagagem que trazia ao longo de seus 30 anos de vida. O avô paterno das crianças, seu Arnaldo, com apenas 50 anos havia perdido a visão, uma outra história que nos contará Juan tempos depois, após tomar mais confiança na relação estabelecida.

Parece ser uma característica comum na aldeia: um envelhecimento precoce. Crianças tornam-se adultos, adultos apresentam-se como mais velhos ainda. Como se o tempo machucasse os corpos por insistirem em viver da produção e realização de suas necessidades, sem a preocupação cronológica do tempo da mercadoria.

Tenho uma paixão de infância com a pesca artesanal, e todos os demais trabalhos vinculados à produção de vida não necessariamente mercantil.

Juanito criou, pouco a pouco, uma cumplicidade comigo, mediada por silêncios e sorrisos. Ele adorava quando lhe repassava minha câmera fotográfica. E tirava boas fotos. Afinal, o olhar que traz do além mar, guarda muito de uma indagação filosófica sobre a história. Ao longo dos últimos 3 anos, trabalhando como fotógrafa na aldeia, o menino dos olhos distantes foi rompendo a desconfiança e abrindo-se ao encontro.

Em um desses ricos dias de trocas de saberes o menino-peixe, filósofo, contou dois importantes acontecimentos vividos em sua família, em sua aldeia.

Tomei assento na areia, ajeitei o encaixe das cadeiras e me posicionei avistando o mar enquanto lhe era toda ouvidos.

Os preparativos para a pesca e para o nascimento de Luna

Diz Juan que o dia em que Luna nasceu — sua irmã mais nova, hoje com 5 anos — houve um acontecimento que transformou a vida na aldeia. Seu pai, dono do barco Navegações, sairia as 3h30 da madrugada, acompanhado de três outros marujos, para ir longe atrás de grandes peixes.

Juan conta que naquele dia, o mar estava incrivelmente manso. José era um astuto conhecedor do tempo e do prazer de desfrutar a vida após a pesca. No dia anterior à navegação, ficou animado com a calmaria oceânica. E disse a Maria — que o olhava sentada ao seu lado na esteira acompanhada de Juan –, enquanto ambos o observavam com muito afeto e atenção: — amanhã vou cedo para o alto mar. Volto assim que enchermos o barco, pois a maré está para peixe. Logo que chegar, iniciaremos os preparativos para receber Luna pelas mãos de minha mãe Nastácia.

Maria, acariciou, como era de costume, os cabelos crespos de José e afirmou com um sorriso, que assim seria, enquanto o pai de Luna mexia na barriga com a mão direita, à espera da resposta da filha que o aguardaria, e cutucava Juan com a mão esquerda, fazendo cosquinhas em sua barriga. O único ausente da despedida familiar era Marin, que apesar do nome em homenagem as águas e ao ofício ancestral, parecia ter um rancor danado de seguir provinciano. Odiava, dizia ele, o atraso, queria inserir-se na modernidade, ir embora para a cidade grande, relata Juan.

Quando os quatro homens entraram na embarcação, o horizonte os convidava à calmaria. Mas Juan previa que aquela harmonia era uma antessala perigosa, guardava uma falsa sensação de segurança. E antevia isto devido à observação da debandada das garças que, em um ritmo alucinado voavam rápido e raso para o lado Sul (suleavam). As aves, sabe Juan, sempre anunciam o que vem de longe e não somos capazes de ver/perceber, mas o menino criado na aldeia, conhecedor da vida marinha, era sensível e convicto sobre a importância, para sobreviver, da observação cuidadosa dos sinais da natureza.

O menino astuto tentou avisar a mãe de que a calmaria guardava uma surpresa desagradável, enquanto o pai enrolava cuidadosamente a rede que levaria no Navegações. Mas estavam todos tão atarefados e êxtase com a última saída antes da festa do nascimento ao regresso da pesca, que não prestaram atenção. Foram-se os marujos do Navegações. Junto com eles saíram outras cinco embarcações.

A chegada da tempestade: apreensão na aldeia, marujos voltam perdidos

No início da tarde, enquanto as crianças e mulheres da aldeia faziam os ajustes na praia para receber as embarcações, o tempo fechou abruptamente. Maria começou a sentir fisgadas de contração inesperadas pois a menina Luna estava preparada para vir ao mundo duas semanas depois desta última pesca em alto mar, segundo o conhecimento secular de parteira tanto de Nastácia como de Maria. Juntas, estas mulheres haviam trazido ao mundo, mais de 150 crianças nos últimos 15 anos, relata o pesquisador jovem da aldeia, Juanito.

Um dos processos mais bonitos da vida nesta aldeia é a força que a cultura popular dá ao conhecimento prático. Parteiras, benzedeiras, curandeiras, são todas entendidas e vivenciadas como ciências da vida. E quanto mais experiência, no fazer fazendo, mais renomadas ficam estas mulheres, estes homens. Daí nasceu minha paixão por esse lugar e nossos vínculos para a vida.

Menciona Juan, que no movimento das contrações de sua mãe, fortes e altas ondas se formaram, fazendo com que a mansidão desse lugar desse passo à tempestade, com fortes rajadas de ventos.

A tempestade em alto mar

Enquanto isso — segundo os relatos de seu pai tempos depois — a tempestade os pegou forte no Navegações. A experiência na arte de navegar e dominar as águas parecia não contar naquele dia. O desespero e a presença da morte na vida dos quatro fazia-se real. Era como se tivessem feito algo de mal e precisassem pagar por isso.

Das poucas coisas que contou José, foi de que depois de lutarem por mais de 30 minutos, veio a exaustão. Entre muita água e muito balanço parecia que os quatro marujos não tinham como resistir. Desistiram. A última coisa que José se lembra é de ter gritado no barco: chega! silenciemos e agradeçamos pois é o nosso fim. Nenhum dos quatro chorou, mas fecharam em sintonia os olhos. Ao menos assim é como recordam a história estes quatro homens unidos pelo M do morte, e o M do mar.

Quando acordaram, estavam, novamente, na calmaria do oceano e avistavam a aldeia. José não tem a menor ideia do que ocorreu. Entre a última fala e o retorno, que não sabem bem de onde, os quatro homens criaram uma cumplicidade que somente entende quem viveu junto o que eles viveram.

Juan conta, ainda, que os olhos do seu pai e dos três marujos pareciam ter voltado iguais, hipnotizados, sem alma, com uma expressão de olhar além, de nunca mais viver o aqui e agora. Era como se tivessem conhecido um outro plano que os havia transformado em outros seres, presentes em um mesmo corpo, mas sem alma. Um triste destino de uma vida sem cores, sem sabores, repleta de vazios.

Dizem as pessoas mais velhas da aldeia que quem volta vivo de uma tempestade, ou nunca mais entra no mar ou, se entra, nunca mais é o mesmo ser. Essa parecia ser a saga dos quatro marinheiros. Dois deles meteram-se na bebida como refúgio seguro dadas suas inseguranças traumáticas. Os outros dois continuaram seu ofício, sem no entanto, demonstrar prazer. José foi um deles.

A tempestade vista do continente o nascimento de Luna

Juan conta que ao viver do continente a tempestade, acompanhava sua mãe gritar de dor. Nada a acalmava. Era um grito maior do que o da dor do parto. Um grito que anunciava a proximidade da viuvez prematura. Ao lado dos gritos de Maria, ouvia-se também os lamentos de Nastácia com o não retorno do filho. Duas mulheres da aldeia com histórias e vidas cruzadas, à espera do nascimento de Luna, mas com os olhos bem distantes dali, na verdade, como se tivessem pressa que a ocasião terminasse logo e pudessem chorar a falta dos marujos.

Na aldeia as crianças eram mestres na arte de ouvir e ver pelos buracos os nascimentos realizados pelas parteiras. Mas Juan intuía que os gritos de sua mãe anunciavam as dores do corpo, da alma, próprias de quem sente que o amor de sua vida não mais voltará.

Os gritos revelavam que Luna a rasgava por inteira, devido a um tipo de dor do corte do cordão que as uniria para toda vida, em dois amores: a José e a aldeia. Luna e Maria, acompanhadas de Nastácia, trabalhariam duro ao longo da vida para efetivar esses dois amores.

O último toque de José em Luna, foi aquele da despedida, antes da viagem. E nunca mais se repetiu. Luna teve um pai presente em carinho e ausente na alma. Juan sabe, por ser mais velho, o que Luna jamais experimentaria: um José vivo, risonho, calmo e lúcido. Um pai educador da aldeia.

Luna e a carga social

Dava pena em Juan o desejo de Luna em agradar o pai que estava com o olhar vazio desde que a menina nasceu. Sentia doer em Luna a ausência de vida presente nos olhos de José. A menina com o nome dos movimentos da maré, Luna, reconhecia a voz, nas poucas vezes que o pai falava, mas nunca encontrou, nestes cinco anos de vida, seu olhar afetuoso. Era injusto isto pois Luna era uma criança que fazia jus ao nome: era doce, brilhante, repleta de cores, cheia de movimento.

Quando José chegou à praia, sem peixes e com os olhos vazios, Maria não o reconheceu. Foi a primeira vez que ela olhou para ele, sem avistar a companhia amorosa de sua vida. Nastácia chorava agradecida pelo mar ter trazido seu filho de volta. Mas, assim como Maria, percebeu, de cara, que os marujos voltaram sem alma.

Juan conta que aquele dia ficou registrado no calendário de Boa Esperança como o dia de respeito ao mar. Nenhum pescador ou pescadora, no dia 29 de junho, ousava entrar no mar, fosse para pescar ou para jogar. Era um dia de prestar homenagens aos mais diferentes cultos desde o continente. A volta dos mortos vivos.

Também não sabiam mais, tamanha a preocupação com os homens, se naquela noite havia lua cheia, ou nova. Parecia ser crescente os minguantes sonhos que se apresentavam em pleno momento do nascimento de Luna e de algum sentido de morte de José.

Juan, que era de poucas palavras, naquele entardecer perdia o fôlego de tanto falar. Como se precisasse colocar para fora as angústias que trazia, há anos dentro de si. Era uma confusão de sentimentos, sentidos, razões e sensibilidades. Mas ele insistir, no ritmo do seu coração, em dizer que as calmarias sempre antecipam tempestades.

Juan cresceu entre esses dois mundos. Implorando a presença educativa de pescador do pai, ao mesmo tempo em que via crescer a tristeza de Luna com a ausência paterna e a fuga de Marin do que ele entendia ser uma vida miserável.

Chama a atenção como Juan, com apenas 12 anos, tem uma capacidade de memória e de registro das histórias vividas na aldeia, em pormenores. O menino dos peixes, dos ventos, das águas, sabia tudo daquela ciência, mas não entendia porque as coisas mudavam tão rapidamente, interferindo de forma real na vida da aldeia.

Para Juan, Luna era o ponto de ligação entre o mar calmo e o mar revolto; entre a lua cheia e a lua nova, entre os olhos de José presentes ou vazios para o amor. Luna fundia entre os membros da família a data em que tudo mudou. Apesar da tristeza de Luna representar a saga da aldeia, Juan sabia não ser possível descolar os dois eventos: a calmaria e a tempestade que trouxeram o vazio dos olhos e da vida de José.

Luna: a menina dos sonhos e dos apagamentos. A menina da ausência e da presença. A conexão entre o que foi e o que não mais será. A menina em contínua busca de afetos.

Juan, os registros da história e da memória

Juan, enquanto termina as histórias da história, olha fixo para o oceano como indagando sobre os sentidos da vida. É uma criança que faz perguntas com os olhos, fala com os silêncios, indaga com um choro que nunca corre no rosto, ainda que esteja bem presente na tristeza que traz no corpo.

A filosofia da vida ensinava ao menino da aldeia que havia muitos mistérios entre o céu e a terra. E que ele precisaria, ao longo de sua existência, decifrá-los caso quisesse sobreviver às tempestades que vem depois das calmarias.

Ao final Juan ameaça chorar. Mas parece ser que nessa aldeia, cuja cumplicidade vem de longe e vai longe, chorar não é permitido, ao menos aos homens. Como se os acontecimentos vividos tivessem engessado as cores daquele lugar sempre festivo. Nos últimos três anos, foi sempre José quem içou o mastro, jogou o óleo para a brincadeira que faria a aldeia gargalhar por horas, ao som da boa música em volta da fogueira no dia de todos os santos, dia em que a aldeia amanhecia colorida em tributo à beleza e à dádiva da vida em torno do mar.

Entre o pôr do sol e o silêncio de Juan, ouvimos ao longe o chamado de Maria no assovio similar ao canto do sabiá. Juan olhou fundo nos meus olhos, tocou de leve meu cabelo e correu para casa, como resposta ao chamado da mãe.

Passei mais um tempo a olhar a calmaria do oceano e a indagar sobre minhas tempestades. Deixei a água salgada lavar minha alma chorosa, dada a tristeza da história concreta, recebida como presente pela cumplicidade com o menino peixe.

Antes que Juan desaparecesse do meu campo de visão, consegui registrar sua corrida para casa. E não pude me conter em apontar no caderninho que trago grudado em meu corpo há anos, foto 265: menino-peixe, fraturas em movimento.

Em homenagem a:
Juan Rulfo; Tina Modotti, Nastácia um mulherão que não cabe no papel pequeno que Monteiro Lobato lhe deu.

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Um comentario para "Juan, menino-peixe"

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