Literatura dos Arrabaldes: Territórios culturais

Em obras de Walner Danziger e Sergio Vaz, subjetivas cartografias de campinhos, vielas, escolas e rolês culturais. Nelas, o bairro é um lugar-personagem — e, mais que o trabalho, é elemento para a construção coletiva de sentimentos

Compartilho neste texto minha leitura dos livros Confraria dos perdedores & crônicas de 2ª, de Walner Danziger e Literatura, pão e poesia, de Sergio Vaz. As obras foram publicadas em 2015 e 2011, respectivamente, e são experiências de escrita fora do gênero ao qual os autores estão mais habituados. Walner é dramaturgo e Vaz é poeta. Por se tratar de crônicas, ainda que tanto um quanto o outro tenham alguns contos, são registros bastante pessoais sobre temas e situações demarcadas no tempo e no espaço. Esse aspecto favorece o tipo de leitura que faço, por meio da qual procuro captar nas obras certas estruturas de sentimento1 que estão presentes no contexto em que foram publicadas. Observei que a ideia de território como expressão de um sentimento coletivo de pertencimento é recorrente nesses livros, embora em tons diferentes.

Essa estrutura de sentimento é uma representação do que passamos a chamar de cultura de periferia, uma definição que emergiu nos anos 1990 com o Movimento Hip Hop e que ressalta o CEP de quebrada como um triunfo a ser saudado. Mas na tensão entre o vivido e o elaborado, notamos que essa valorização tem variações de padrão. É um impulso modulado pela contenção que é o protesto contra a violação de direitos nesses territórios periféricos e o tom é de resistência ativa. O território, portanto, se define como campo afetivo, vulnerável e de luta. Na obra desses autores que são da mesma geração, ambos suburbanos, embora de perfis e trajetórias distintas, o território se expressa como articulador de movimentos culturais, do futebol de rua e a da Escola. Mapeei esses elementos conectados entre si para compor uma análise dos livros.

Walner Danziger

Confraria dos Perdedores é um livro econômico em seus para textos. Publicado pela Edições Incendiárias, selo criado pelo próprio autor, as 44 crônicas estão distribuídas equilibradamente em 129 páginas. O livro tem formato 14 cm x 21 cm. Não há texto de orelha, pois elas não existem. Tampouco há prefácio ou apresentação. Na última página do livro fica a biografia do autor: nasceu na cidade de São Paulo, escritor, dramaturgo e diretor de teatro. É editor e autor de quatro livros até aquela data. Essa descrição concisa de sua trajetória é uma característica recorrente em suas obras, exceto na primeira edição de seu primeiro livro Entre a Fome e a Fúria. Naquele texto, também curto, ele se deixa revelar um pouco mais. Ao se apresentar ele enfatiza ser do Jabaquara, para além de ser paulistano, credencial que ele cita em outras obras também. Mas não é só isso.

Walner se refere ao ano em que nasceu por conta de dois acontecimentos de caráter e proporções distintas, mas que para ele deve ter uma simetria: a chegada do homem à Lua e a visita de Jean Genet ao Brasil. Ao colocar no mesmo plano tais acontecimentos ocorridos em 1969, é possível supor que o dramaturgo francês, como ele também escritor e poeta, seja uma referência artística muito importante para sua formação. Walner acrescenta que é geminiano, fanático por futebol e batuqueiro de Escola de Samba. Não se trata de um cara de quebrada como é Sergio Vaz, mas um suburbano que circula e é bem-quisto no circuito cultural de periferia onde tem fama de bom escritor, editor e de ser boa companhia para conversa de mesa de bar.

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Sergio Vaz

Literatura, pão e poesia é o sétimo livro de Sergio Vaz e o primeiro de prosa2. Publicado em 2011 pela Global Editora, a obra integra a Coleção Literatura Periférica inaugurada em 2007 com o relançamento do quinto livro do autor, a coletânea Colecionador de Pedras. De lá para cá ele lançou apenas mais um livro: Flores de Alvenaria que mistura contos, crônicas e poesias. Temos, portanto, uma obra que é um divisor na bibliografia do autor, pois ampliou seu campo de exploração literária passando a se arriscar no conto e, especialmente, na crônica.

Diferente de Walner, Literatura, Pão e Poesia tem apresentação e um posfácio do qual um trecho foi reproduzido na contracapa. Os referidos textos foram escritos por celebridades das letras: Heloisa Buarque de Hollanda e Eliane Brum, respectivamente. O livro tem formato 18 cm x 12 cm e 184 páginas. A biografia do autor vem acompanhada de uma foto e destaca o fato de ele ser um dos fundadores do Sarau da Cooperifa, movimento criado em 2001 e que até hoje reúne centenas de pessoas semanalmente no Bar do Zé Batidão. Acrescento que Sergio Vaz nasceu em 1964 em Minas Gerais e com quatro anos de idade, migrou para a periferia da zona sul de São Paulo. Estreou em 1988 com o livro Subindo a Ladeira mora a Noite em parceria com Adrianne Mocciolo. Coleciona diversos prêmios que reconhecem sua importância como ativista cultural.

Confraria dos Perdedores & outras crônicas de 2ª

As crônicas de Walner são quase todas do mesmo tamanho como se fossem escritas para uma coluna de um jornal que exige rigidez no formato. Todas são datadas, um aspecto relevante para o gênero. Essa precisão denota uma disciplina do autor que parece bem profissional na execução de seu ofício de escrever. E ele escreve muito. Tem oito livros publicados e até criou um selo editorial para dar conta da produção e difusão de sua obra que tem um vigor e rigor que fazem da leitura uma experiência prazerosa. Walner tem já uma forma estética consolidada e suas crônicas parecem ser um bom cartão de visitas para conhecer sua literatura que joga em todas as posições: romance, conto, poesia, crônica e teatro.

O campo temático de suas crônicas é amplo. Mas em apenas três delas aborda o teatro, ofício que parece ser sua credencial mais importante em face da projeção pública que tem como dramaturgo. Em uma dessas crônicas, Walner relata dois encontros que teve com Plinio Marcos. No primeiro deles, final dos anos 80, muito jovem, pediu, sem sucesso, autorização daquele autor para encenar uma de suas peças num festival em Guarulhos. À revelia, ele encenou a tal peça que teve relativo sucesso naquele festival periférico de teatro. No outro, poucos anos depois, já mais seguro de si, abordou o Plinio na porta do Teatro Oficina para comprar um de seus livros que ele costumava vender de mão em mão.

Num terceiro texto ele relata que ao sair de um Teatro na Praça Roosevelt no qual uma peça sua estava em cartaz, topou inusitadamente com o compositor Geraldo Vandré que invadiu a padaria em que estava acompanhado de amigos. Trajado de roupão, o cantor paraibano causou no recinto dando uma lição de moral num adolescente que pedia dinheiro aos fregueses. Quem disse que se tratava do autor de Disparada, foi o garçom sob o olhar incrédulo do dramaturgo. Finalmente, Walner, num texto intitulado Ganha Pão, se queixa de pessoas sem noção, mas com grana, que pedem para encenar suas peças sem lhe pagar o devido direito autoral. No seu arroubo, ele derrapa no machismo, aspecto recorrente nos seus textos, muitas vezes sutil, mas neste aqui foi assertivo.

Um outro bloco de textos trata de aspectos bem pessoais do autor, especialmente sua família abordada quase sempre na infância. Os avós paternos aparecem duas vezes, sempre contextualizados na Luz onde moravam, um bairro que já teve seus tempos de glória. Num deles há uma hilariante história do uso que a vizinhança nordestina fazia do telefone de sua vó, serviço raro nos anos 70. Um deles, certa vez, depois te ter falado com a família quase toda numa interminável ligação, pede notícias de seu jegue. Sua avó quase tem um ataque de nervos. Já os avós maternos, são de Ribeirão Preto e para lá ele ia regularmente passar férias. Eles moravam num casarão que depois virou imobiliária até ser demolido deixando um vazio no coração do homem feito, revelando com sensibilidade, o quanto uma casa organiza a memória afetiva das pessoas.

Os dilemas, manias, traumas e outros conflitos pessoais, aparecem em alguns textos nos quais há uma citação recorrente que pontua suas reflexões mais íntimas que é uma incapacidade de “arrumar as gavetas de meias e cuecas”. Tal expressão sempre está colocada quando ele se questiona ou é questionado sobre sua maturidade ou falta dela. Entradinha, Um cálice de dor e Maioridade são crônicas reveladoras da personalidade do autor que não se abre muito, mas dá pistas como essa da gaveta, embora a expressão só apareça em uma dessas três crônicas, acima citadas.

Com base na leitura de suas crônicas, Walner não parece ser uma pessoa de temperamento fácil. Arruma encrenca e destila muita raiva e ressentimento fazendo uso de algumas crônicas, para mandar recados a desafetos. Em Para uma desconhecida no dia internacional da mulher relata a saia justa em que se meteu ao ser rispidamente advertido por uma mulher desconhecida na saída do banheiro feminino no qual entrou por engano. O cara deve ter ficado muito indignado na ocasião e fez essa irônica homenagem na qual deixa escapulir seu machismo que aqui beira a misoginia.

Mas seu ressentimento é exposto em alta voltagem na crônica em tom de manifesto que dá título ao livro e acaba por sugerir um contorno a sua personalidade artística e provavelmente pessoal. Mas tal ressentimento lhe confere um charme de loser que na verdade é aquele que não ganha fácil, pois não segue as regras do jogo que lhe são impostas. Walner é fã de Plinio Marcos e Jean Genet, dois cascas-grossas e, embora em nenhum momento ele tenha citado, me parece muito próximo de Charles Bukowsky e João Antonio. Este inclusive tem na sua bibliografia um livro chamado “Abraçado ao meu rancor”.

O tema da política não tem destaque no livro, mas há um texto emblemático para se entender o autor. Engulho é o título de uma crônica onde ele expressa em tom rancoroso sua descrença na política partidária, institucional. Ele relata ter iniciado seu engajamento na Campanha das Diretas Já em 1984 e no mesmo pique viu a Erundina ganhar as Eleições para a Prefeitura de São Paulo quatro anos depois. Mas suponho que ele nunca foi militante de partido, posto que foi mesário nos escrutínios eleitorais por muitos anos.

Não se sabe quando a desilusão com a política se apossou dele, mas como o texto foi escrito em 20/10/2012, portanto, no calor das eleições municipais, talvez seja por conta da esdrúxula aliança que o PT fez para aquele pleito com o então deputado federal Paulo Maluf, razão pela qual a também deputada Luiza Erundina abandonou a chapa petista na qual seria vice do Fernando Haddad. Se essa interpretação fizer sentido, isso pode explicar o neologismo do título, uma mistura de engolir e entulho, pois Maluf, Sarney, Antonio Carlos Magalhães (citado de modo cifrado num texto em forma de conto) e outros dessa estirpe eram classificados como entulho autoritário, figuras civis remanescentes da Ditadura Militar.

O tema, porém, mais recorrente no livro é o samba que é abordado em várias facetas, sendo o desfile de carnaval a principal delas. São oito textos onde o tema é central e tangencia outros como um em que, ao tratar de sua fixação por bares de tipo pé sujo, encontrou um no Rio de Janeiro que havia sido frequentado pelo ator Mario Lago que é autor de sambas-canção clássicos como Amélia. O tema do samba cruza com o do território que revela a estrutura de sentimento que identifiquei na sua obra em análise conjunta com a de Sergio Vaz.

Mas o samba aqui aparece não apenas como gênero musical, mas como uma cultura. Por meio do samba o autor fala de artistas que se foram ou que estão em estágio avançado da vida. Jair Rodrigues, Jamelão além do citado Mario Lago estão na galeria dos falecidos, já Murilão, um célebre compositor, recebeu flores em vida. Danziger dá mais destaque para a Escola de Samba em seus textos o que me remete ao seu bairro, a Vila Campestre, no Jabaquara e dessa forma ele articula o samba, como movimento cultural com o território que também conta com outras camadas como o futebol de rua.

Mas Danziguer não cita o nome da Escola de Samba da qual faz parte. Na região dele tem duas escolas mais conhecidas: Barroca Zona Sul e Flor de Liz. Mais recentemente, o ator Ailton Graça levou para a região a Lavapés, tida como a primeira escola de samba de São Paulo e que ficava no bairro do Cambuci. Esse dado corrobora o papel da escola de samba como elemento articulador da noção de território, pois como a própria informação acima denota, o Jabaquara é pródigo em agremiações carnavalescas. Trata-se também de um bairro com forte presença negra, razão pela qual há um centro cultural público na região dedicado a cultura de matriz africana. A fama da região como polo do samba é também atribuída ao Samba da Laje, roda de samba que tem cerca de 20 anos na Favela Alba e é uma grande referência local. Walner atua nesse circuito, mas sua Escola, na qual está há 23 anos, fica em outro território demarcado pelo samba: o Bixiga.

O tema do território aparece também em oito textos de modo mais central e associado ao samba em alguns. Em dois deles a história se passa fora de São Paulo, como é o caso da crônica Renascença que narra sua visita ao famoso Samba do Trabalhador, no Andaraí, Zona Norte da Cidade do Rio de Janeiro que tem como sede um velho clube, cujo nome dá título à crônica. Walner nos conduz até esse local e o movimento de chegada do forasteiro acentua a força do lugar, pois ele é descrito como uma comunidade que estabelece em torno do samba o laço de pertencimento que lhe dá sentido como território cultural.

Nos demais textos desse bloco, prevalecem narrativas do cotidiano de seu bairro suburbano. Ele fala de três garotos que eram craques no futebol de rua, muito praticado em seus tempos de criança. Os três cresceram e nenhum virou jogador de futebol. Um é catador de reciclável, outro, taxista e o terceiro é egresso do sistema prisional. Em Cowboys da Periferia, trata de dois homens, Seu Chico e Seu Zé que eram sujeitos arredios e mau encarados, figuras folclóricas do bairro. Um era militar (Seu Zé), já o outro não tem profissão especificada, identificado como “Bigodon”. O policial era agressivo com os filhos e com a mulher. Quando ficaram mais velhos, o policial truculento adoentou-se até morrer de demência, mas antes de bater as botas, sofreu a vingança da mulher que lhe devolveu os sopapos que tomou ao longo da vida. Já seu Zé amoleceu e faz ginástica na praça.

É por meio de figuras assim, míticas ou caricatas, todas homens, que o autor desenha o universo de sua aldeia. Mas há também a bandidagem atuante nas favelas (O inferno pode ser doce) que existem no bairro, três delas aparecem com frequência na imprensa sensacionalista. Mas o autor se ressente da falta de notícias no “papel de embrulhar peixe” sobre coisas boas do cotidiano no subúrbio. Para exemplificar, ele relata uma prestação de serviço público de alta qualidade feita por dois gentis operários da companhia de água. Os trabalhadores fizeram um reparo na tubulação subterrânea junto à casa de um morador em pleno período de festas de final de ano.

Literatura, pão e poesia

Publicado em 2011, os 57 textos do livro de Sergio Vaz foram escritos entre 2006 e 2010, sendo a maioria deles no biênio 2007 – 2008. São textos em prosa, quase todos fiéis ao gênero da crônica. Há seis que se estruturam como conto, pois são narrativas curtas de ficção. Não há divisão em capítulos, mas há blocos de textos delimitados por pequenos poemas, alguns de dois versos apenas. Durante a leitura é possível perceber que nesses blocos, as crônicas guardam uma aproximação temática entre si.

Os poemas, todavia, têm vida própria e sua função na obra não se limita a intercalar os textos em prosa. São flashes poéticos de forte apelo afetivo muito inspirados, capazes de acionar o sentimento de quem os lê, mesmo distraidamente. Talvez por isso, muitos deles viraram lambe lambes colados pela cidade numa intervenção poética que Vaz fez com o apoio a Prefeitura de São Paulo durante a gestão de Fernando Haddad. “Você é aquilo que faz quando ninguém está vendo”, é um deles.

É difícil ficar indiferente a tal provocação. Mas essa mensagem em forma de poema nos remete a algo que já ouvimos falar com outras palavras em algum momento da nossa vida. O mesmo acontece com esse outro: “revolucionário é todo aquele que quer mudar o mundo e tem a coragem de começar por si mesmo”. Ele quis dizer a mesma coisa que Ghandi ao proferir a famosa frase: “Nós somos a mudança que queremos”. Ou seja, se você prega o que não pratica, você é uma farsa. Essa cobrança por coerência é uma constante na obra de Sergio Vaz, não só neste volume de crônicas.

Os dois textos que abrem o livro têm essa pegada e parecem aforismos dado seu conteúdo moral em pequenos parágrafos como poemas em prosa. “Pior que arrogância é a falta de humildade” prega em Novos Dias. No mesmo texto, diz: “quer saber quem são os outros? Pergunte quem é você”. No texto seguinte, Felicidade, ele segue a mesma toada: “O que adianta uma boca grande e um coração pequeno?”. Mais adiante, no mesmo texto, fala: “Tenha amigos. Se não tem, seja. Eles virão”. Sergio Vaz, no entanto, não se coloca como palmatória do mundo; seria arrogante. Talvez por isso, ele adverte o leitor: “E não acreditem em poetas. São pessoas tristes que vendem felicidade”.

Todas as crônicas de Sergio Vaz se passam na região do Piraporinha, Parque Santo Antonio, Jardim São Luiz e Jardim Guarujá, no extremo da zona sul de São Paulo e em Taboão da Serra, cidade de Região Metropolitana cuja divisa com São Paulo abrange os bairros do Campo Limpo e Capão Redondo que ficam na mesma região. Por essa razão a demarcação do território é muito precisa nos textos dele e serve de moldura para suas histórias. Assim como Walner, o território é articulador de um movimento cultural, no caso aqui, o famoso Sarau da Cooperifa por ele criado em 2001. Mas há também o futebol de rua, que aparece também como saudosa recordação de sua infância. Diferente, porém do autor do Jabaquara, Vaz acrescenta um terceiro aspecto muito importante no território: a escola. Esses três temas estão presentes em mais da metade dos textos do livro.

Entre os textos que tratam da Cooperifa e o movimento cultural na zona sul, Literatura das ruas, descreve o surgimento do Sarau da Cooperifa a partir de uma reflexão sobre a literatura. Dá um sentido classista para o movimento cultural ao associar a poesia da Cooperifa com uma árvore que é regada com “a água com que o povo lava o rosto depois do trabalho”.A poesia dos deuses inferiores é um texto na forma de conto estruturado com referências a vários livros da literatura periférica publicados naquele tempo (maio/2008), a começar do título que se refere a uma de suas obras. No final relaciona os títulos citados com seus respectivos autores como referência bibliográfica que serve mais como glossário para não iniciados no assunto.

A Cooperifa aparece também na crônica que dá título ao livro e no texto Amigos dão sorte que é o último do livro e faz um balanço da trajetória do autor que se divide antes e depois da Cooperifa. Já o movimento cultural mais amplo do seu território está presente com destaque em duas crônicas: Mil graus na terra da garoa e no Manifesto da Antropofagia Periférica. Este último virou um clássico com versos de grande potência como: “A arte que liberta não pode vir da mão que escraviza” ou “Por uma Periferia que nos une pelo amor, pela dor e pela cor”.

O futebol está associado à infância do autor e era praticado nas ruas e campinhos quando terrenos baldios eram abundantes nas periferias. Por ironia do destino, o campinho de terra deu lugar ao cemitério do Jardim São Luiz no qual depois foram enterrados muitos jovens que naquele espaço corriam atrás da bola quando criança. O cemitério hoje é um demarcador do território não pela brincadeira de outrora, mas pela violência que assolou aquela região nos anos 90 e permanece até hoje. Esse aspecto do futebol está em dois textos de nomes muito sugestivos: Gol contra e Dia de Finados.

Em um outro texto intitulado Sobre kichutes e chuteiras, ele trata da dor e da delícia de ser criança no Dia das Crianças. Lembra do encantamento dos pequenos com presentes por mais simples que fossem, especialmente quando era uma bola, capaz de alegrar um bairro inteiro. Mas ele termina o texto se lamentando de pais que não sabem brincar com seus filhos e que nessa indiferença são capazes de agredi-los ou até matá-los. No diapasão da alegria, o autor fala do futebol jogado de pés descalço nas ruas sem asfalto. Em guerreiros da chuva, ele lembra que o toró, ao invés de interromper o jogo, levava ao delírio a criançada que se lambuzavam de barro.

A Escola aparece em dois planos. Um é ele como estudante displicente com os estudos e disciplinado para a bagunça. O recreio era a matéria de que mais gostava. A Escola era essencialmente um espaço de sociabilidade, de fazer amigos e inimigos também. Dos professores ele aprendeu a gostar depois de ter concluído o correspondente ao Ensino Médio. Mas por um, pelo menos, ele nutriu apreço desde sempre: o professor Said a quem dedicou a crônica: Ao mestre, a eternidade. Ele aprendeu a admirar os docentes quando por meio deles voltou à escola como poeta, autor de livros.

No livro há inúmeras histórias saborosas sobre suas oficinas e palestras não só em escolas, como em CRAS (Centro de Referência da Assistência Social) e na EJA – Educação de Jovens e Adultos. Sergio Vaz criou sua própria didática e por meio dela consegue despertar o gosto pela poesia e pela leitura em pessoas de todas as idades. Sua pedagogia está exposta numa crônica cujo título é autoexplicativo: Oficina de poesia. E no texto Caminhos poéticos da periferia, narra a incrível façanha de uma turma de adolescentes de um CRAS que produziu um livro coletivo de poemas. O poeta que não tem diploma de ensino superior virou mestre no ensino de literatura.

O território como protagonista

A questão do território na literatura de periferia foi captada pela professora Heloisa Buarque de Hollanda que, ao comparar essa produção literária com aquela feita pelos poetas ditos, marginais dos anos 70 no Rio de Janeiro, observou esse elemento que emerge como “lugar-personagem”. Aquele poetas hippies eram nômades, ainda que tivessem seus pontos de encontro. Já o movimento atual periférico paulistano finca uma estaca no seu bairro e a partir dele, por meio dele, fala para o mundo. ‘É um local eloquente, um fator literário textual forte tão importante quanto seus habitantes”, afirma a pesquisadora no texto de apresentação do livro, corroborando a minha percepção de que o sentido afetivo do território é estruturante na literatura de periferia. As duas obras aqui analisadas expressam, ainda que distintamente, essa questão como uma ideia coletiva compartilhada por uma geração de escritoras e escritoras que surgiram na aurora do século XX nos arrabaldes paulistanos.

Trata-se de uma literatura que veio para incomodar, como diz Walner: “Não sou o único. Tem um batalhão de acamaradas como eu infernizando por aí” (Violino e marionete) ou como defende Vaz: “um artista a serviço da comunidade, do país. Que, armado da verdade, por si só exercita a revolução” (Manifesto da Antropofagia periférica). É a convocação da irmandade, da fratria dos Racionais MC’s: “apoiado por mais de 50 mil manos!”. Território, portanto, é o significante e o significado são as pessoas que nele habitam, sem as quais seria apenas um espaço no mapa.

O traçado da cartografia do território para os autores é dado pela subjetividade. O território afetivo não obedece divisas e fronteiras burocráticas como distrito, jurisdição ou comarca. O território para eles é definido pelos campinhos e vielas onde se joga bola descalço, a escola (de ensino formal ou de samba) e o agito cultural. Território, para eles, vai até onde os afetos alcançam, onde é possível se irmanar. Território é assim uma construção cultural coletiva encharcada de sentimento. Talvez por isso, o trabalho, fator estruturante na vida das pessoas, não seja um elemento dessa subjetividade coletiva.

Walner transita e carrega seu território no coração. Em andanças pelo centro da cidade, no rolê no Rio de Janeiro, cidade que é tema de algumas de suas crônicas ou mesmo em Buenos Aires de onde emitiu uma mensagem de pesar pela morte do cantor Jair Rodrigues (Cachorrada). Ainda que sua escrita seja carregada de um certo ceticismo, dado o teor crítico, por vezes arredio, com que lida com as pessoas e situações descritas em algumas de suas crônicas, ele carrega no peito o amor por sua quebrada e a confraria (uma irmandade de ofício) que está pronta para defendê-la. “Tire seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor”, verso de um samba de Nelson Cavaquinho (A Flor e o Espinho) expressa bem a pegada de Walner, aliás, um sambista que poderia muito bem, se fosse vivo, integrar a sua Confraria dos Perdedores, mas dela, certamente será um sócio emérito, como Plinio Marcos, Jean Genet e outros célebres perdedores.

Vaz, por sua vez, não sai de sua quebrada. Salvo engano, todas as crônicas (os contos não têm um espaço definido) se passam na região do Jardim São Luiz, Jardim Ângela, Capão Redondo e Campo Limpo na capital, e nas Cidades vizinhas de Taboão da Serra e Embu das Arte, como já foi dito aqui. Esse território não respeita nem a divisa de cidade. “É tudo nosso!”, diz o poeta no bordão com o qual abre o Sarau da Cooperifa. Ali ele montou a academia das letras que ao invés de chá das 5, tem sarau às 21h regado à cerveja e torresmo; criou sua FLIP que é a Mostra Cooperifa, seu cinema de belas artes na laje do Zé Batidão. E se já não tem mais os campinhos de rua, ele arregimenta os times de várzea trazendo-os para os recitais de poesia. A tríade de seu território se completa com os professores aos quais dá formação continuada em literatura ao fazer oficinas com seus alunos.

Os dois autores alternam padrões de impulso, inibições e tons na representação que fazem do território como sentimento de pertencimento à periferia. Aproveitando uma metáfora de Nelson Cavaquinho presente na canção acima citada, a periferia é uma flor que tem sua beleza nas pétalas, é refratária com seus espinhos, mas é vulnerável. Sergio Vaz resolve do ponto de vista simbólico e político essa expressão: “por uma periferia que nos une pelo amor, pela dor e pela cor”, anunciando aqui o tom de resistência ativa ao qual me referi.

1 O exercício consiste em mapear as recorrências de abordagens que estabelecem aproximações entre as obras. Para se chegar a essa compreensão procuro perceber o pensamento como é sentido e o sentimento como é pensado. Tal percepção é possível de se alcançar observando o movimento da consciência prática que é o impulso, contenção e tom na fala dos personagens e dos narradores. Este procedimento foi criado pelo sociólogo britânico Raymond Williams (1920 – 1989) autor dedicado aos estudos da cultura, do teatro e da literatura, fundador dos Estudos Culturais e expoente do movimento New Left que renovou o marxismo na metade do século passado. Sua obra mais conhecida no Brasil é Cultura e Sociedade, publicada pela Editora Vozes.

2 Ele publicou em 2008 o Livro Cooperifa – Antropofagia Periférica pela Aeroplano Editora, Rio de Janeiro que é uma autobiografia com ênfase na trajetória como agitador cultural.

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