No Saara, vida que teima em resistir

Exposição fotográfica virtual retrata o drama do povo saharaui: expulso de suas terras no Marrocos, há 45 anos, e forçado a viver no deserto, em campos de refugiados. Frente ao silêncio da ONU, resta a solidariedade internacional

Viagem aos campos de refugiados saharauis. Exposição fotográfica virtual de Berenice Bento.

Texto e imagens de Berenice Bento

O deserto é uma distopia. Espaço imaginado de purgação, pena, perambulação. Uma mistura de narrativas bíblicas e contos fantásticos. Assim eu imaginava este espaço. A vida ali só seria possível pela condição nômade. Jamais um povo poderia viver, fixando-se, no deserto. Depois de conhecer os/as exilados/as saharauis que vivem espalhados/as em cinco gigantescos campos de refugiados no deserto do Saara (na parte argelina), a certeza da impossibilidade de vida humana no deserto ainda me persegue.

Os primeiros campos começaram a se formar em 1975 quando houve uma corrida para deserto para fugir dos ataques da Mauritânia e do Marrocos. O território do povo saharaui, o Saara Ocidental, foi colonizado pela Espanha até 1975. Quando a Espanha saiu do território, depois das lutas do povo saharaui pela autodeterminação, Marrocos e Mauritânia se apresentaram como donos daquele território. A Mauritânia foi derrotada pelos combatentes da Frente Polisário, representante política do povo saharaui. Marrocos, no entanto, segue ocupando os territórios saharauis e explorando suas riquezas.

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Parte do povo saharaui vive sob a ditadura do reino de Marrocos, outra, nos campos de refugiados e em outros países. Separando as famílias que vivem nos campos e nos territórios ocupados há um muro construído por Marrocos de 2.700 quilômetros e milhões de bombas subterrâneas espalhadas nas cercanias do muro. Já se passaram 45 anos e Marrocos, sob o silêncio cúmplice da ONU, segue oprimido e espoliando os recursos do povo saharaui.

O impossível, diante dos meus olhos, também pode ter outro nome: indignação. E quando a indignação é vivenciada coletivamente, temos uma arma potente em nossas mãos, também chamada de “solidariedade internacional”. A exposição de fotografia é uma expressão deste meu desejo mais profundo de contribuir com a luta do povo saharaui em voltar para suas terras.

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