Literatura dos Arrabaldes: O decreto e o levante

Dois jovens poetas da periferia, um chamado à resistência do povo negro – sem panfletarismo. Em um, a tática de quilombagem e acumulação de forças; noutro, a rebelião. Em comum, a ideia de que margens fortes ditam os rumos dos rios

Fragmento de Angola Janga, de Marcelo D’Salete

Por Eleilson Leite, na coluna Literatura dos Arrabaldes

A leitura dos livros de poemas de Andrio Candido e Vagner Souza, respectivamente, Dente de Leão (2017) e De lágrimas, revides e futuros (2016) revelam uma estrutura de sentimento1 que expressa a tensão entre o combate frontal às forças de opressão, especialmente as de Estado representada pela ação militar e a defesa e garantia de direitos. É o pêndulo entre a bala e a caneta; entre o decreto e o levante. Os dois autores são radicais na denúncia, convocam o povo oprimido, mas o combate se dá também na arena institucional, pois é ali, ainda, onde é possível angariar conquistas, uma vez que no confronto direto, o povo será ainda mais oprimido.

Os dois poetas negros são de quebrada. Andrio é de São Miguel Paulista, Zona Leste e Vagner é da Brasilândia, Zona Norte. Ambos nasceram na década de 1980 e têm quase a mesma idade. Vagner é sociólogo e poeta. Andrio, além de poeta é ator e os dois são educadores com experiência no ensino de arte em medida socioeducativa de internação. Eles sabem bem o que é confinamento, especialmente dos adolescentes, uma causa que os mobiliza. A poesia dos dois fala muito do sofrimento e da luta do povo pobre, preto e periférico mas há muito encanto na escrita como sugere o título do livro de Andrio, que é uma planta bela e delicada com nome do animal mais feroz da floresta, especialmente da selva africana.

Vagner Souza

De Lágrimas, revides e futuros, tem 31 poemas, uma parte deles de pequeno formato, alguns ao estilo de haikais. Publicado pela Edições Incendiárias, a obra tem tamanho 12 cm x 18 cm e 47 páginas. O dramaturgo e editor, Walner Danziger, assina o texto de apresentação. O livro tem orelhas, mas nelas não há textos. Numa há um Laroyê que é uma saudação a Exu, orixá que abre os caminhos, dado importante, pois o poeta é iniciado na Umbanda. Na outra orelha há uma foto do autor cortada ao meio numa diagonal, estabelecendo uma relação com o recurso gráfico da capa que tem o desenho de um feto envolvido na placenta que está igualmente cortado ao meio, uma ilustração de Jardélio Santos. Versos de José Martí, poeta cubano, servem de epígrafe do livro numa sinalização muito relevante sobre a pegada da obra.

Vagner é nascido e criado na Brasilândia e nutre por seu território uma identificação visceral. Alguns o chama de Vagnão da Brasilândia. Criou há cerca de 12 anos o Sarau da Brasa que se tornou um dos principais recitais de poesia da periferia paulistana. Publicaram inúmeras coletâneas nas quais Vagner foi exercitando sua pena até chegar a este que é seu primeiro e único livro solo. Há anos se dedica à militância em defesa dos direitos humanos, especialmente do ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente.

Andrio Candido

Dente de Leão é uma publicação independente produzida, editada e diagramada pelo próprio autor. Tem licença Creative Commons, uma raridade entre os livros da literatura periférica. O projeto gráfico do livro explora o sentido duplo do título: a flor e o feroz felino que lhe dá o nome. A arte é de Robson Luna que suponho ser autor dos desenhos, pois essa informação não está precisa na ficha técnica. Com formato 19 cm x 15 cm, o livro tem 35 poemas distribuídos em 73 páginas. A fonte se assemelha a de máquina de escrever. Todas as ilustrações e fotos são em preto e branco. O prefácio é assinado pelo escritor Rodrigo Ciriaco e o texto da orelha é do próprio autor.

Andrio Candido é um poeta ator, pois não é possível separar as duas linguagens na figura desse artista encantado com a condição de pai de uma linda menina. Como ator dedica-se mais ao cinema independente e ganhou destaque com o filme Um salve, doutor. Dente de Leão é seu primeiro e único livro solo. Participou de várias coletâneas, sendo a principal delas a Antologia Marginal – Baseado de Ponta publicado pelo Coletivo Marginaliaria em 2011, obra da qual extraiu dois poemas para o livro atual. Como Vagner, Andrio é também muito identificado com seu bairro periférico ao qual se refere pelo nome indígena que lhe dá origem: Ururaí. É filho de Ogã e frequenta as festas de terreiro desde menino, mas não é iniciado no Candomblé.

De lágrimas, revides e futuros

Os poemas do livro de Vagner Souza, como o próprio título sugere, podem ser agrupados em três blocos, porém, não exatamente como está anunciado na capa da obra. Classifiquei-os da seguinte forma: poemas de denúncia, bloco no qual a ação policial fardada ou à paisana tem amplo destaque. Um segundo bloco é composto por poemas líricos que abordam reflexões e dilemas pessoais. Por fim, há o grupo de poemas de combate no qual a exaltação do povo negro e da periferia se faz presente com mais centralidade.

O primeiro poema do livro, sem título, já traz a denúncia da ação genocida e racista da PM em contraposição à fala negacionista de uma “madame” também chamada de “moça” por meio da qual chama a atenção para o racismo velado: “onde mora o seu racismo? Os pretos morrem na bala e na caneta”. Anuncia que seus versos nunca deixarão de abordar o tema: “só vou descansar o verso/quando cantar a liberdade”. Em Por los que se fuerón, a violência policial é abordada pela ação paramilitar, das milícias que promovem chacinas. As mortes quase sempre nas bordas; as vítimas: quase sempre jovens; os jovens: quase sempre pretos. Remete à Palmares: violência do chicote e do cassetete. Exige Justiça e não Paz, antecipando aqui o grito que se ouviu nos protestos recentes nos EUA por conta da morte de um homem negro por um policial branco: “No Justice! No Peace!”

“Em terra de Bolsonaros/um homem armar outro homem/ é um ato revolucionário” é um haikai que já anunciava a forte presença das ideias do então deputado federal, Jair Bolsonaro na sociedade. Mas com a chegada do dito cujo na Presidência, o que se viu foi que a implementação da flexibilização das regras de acesso à arma está fortalecendo milícias. No poema Os homens, Vagner apresenta um flagrante da ação paramilitar ou militar que encurrala um trabalhador (“Disse que fazia uns bicos de pedreiro”) numa esquina em uma noite fria na quebrada. Ouviram-se dois estouros que selaram o destino da vítima. Num outro poema, sem título, é denunciado o padrão de suspeição que recai sobre jovens negros, especialmente se estão em grupo dentro de um carro, senha que dá à Polícia licença para matar.

Os dois poemas que fecham esse bloco da denúncia, têm um tom de revolta que leva a um impasse. Um é o que dá título ao livro: De lágrimas, revides e futuros, no qual expõe com vigor poético a exaustão do corpo em face do sofrimento histórico. “Quem convidou o corpo para o último suspiro?” questiona o verso em forma de pergunta. “A caneta, parceira do jaleco branco/ Ou o dedo babando sangue de farda cinza?”. Um é o militar (farda cinza) e o outro seria o Juiz que costuma atuar em conluio com a repressão? Jaleco, porém, é indumentária de médico que talvez seja o mais razoável supor, pois se trata de um corpo agonizando. Mas como diz um verso do primeiro poema do livro: preto morre “na bala ou na caneta”, então fico com o magistrado.

Associar a caneta de um Juiz como símbolo de opressão da classe dominante ajuda a interpretar o poema Sofrimento De Fátima. Um texto em primeira pessoa, no qual o eu lírico não é o do autor.O ponto de vista é de uma mulher (de nome Fátima) que vive na rua, supostamente usuária de droga (“se alimentava na fumaça de cachimbo de lata”) em frente a uma Igreja de onde vê Jesus pregado na cruz, a quem lhe parece um covarde: “pensou que melhor seria ele ter lutado”. Detona também os sabidos com suas teorias, poemas e partidos revolucionários. “Por aqui a palavra Direito não se fez por inteiro”. Alega que a igualdade só virá “quando eu puder engatilhar na cabeça do promotor”. Tal ato de violência seria o revide que lhe traria conforto diante da “vida de merda” que leva.

Os poemas de traço mais pessoal e reflexivo são quase todos breves e sem título, aos quais pode ser incorporado o pequeno texto de apresentação do livro que mais parece uma dedicatória. Nele, o autor dá uma pista importante para a leitura desses poemas, especificamente, mas do livro como um todo: “não se preocupem com essas coisas que falo ou escrevo. Pois essas, de alguma forma, eu já consegui elaborar e dar movimento. O que é realmente preocupante é essa angústia que me pressiona os pulmões e eu nem sei ao certo o que é”.

Vagner expõe recorrentemente a tensão causada pelas pressões exógenas que sofre um sujeito periférico.“As margens/quando forte/ditam os rumos dos rios”, é um poema que sinaliza essa angústia. É quase uma paráfrase de um poema famoso de Bertold Brecht: “dizem violentas as águas do rio/Mas não dizem violentas/ as margens que o comprimem”. Num outro vai na mesma direção: “Dizer que o outro não voa, é simples/Difícil é saber porque lhe faltam as asas”.

As perturbações da mente e do coração, embora para Vagner não haja essa separação, está presente no poema Amarguras que trata da angústia de uma mulher que guarda para si sua dificuldade de se libertar de um passado que a perturba, do qual quer se desvencilhar, mas não encontra forças para tal superação. A ansiedade também é abordada no poema Memórias no qual discorre sobre a superficialidade do mundo em função da demasiada quantidade de informações que faz tudo ser fugaz.

Patologias da mente são fonte de inspiração para o autor. Num poema em que trata da loucura, faz uma reflexão inquietante: “essa angústia frente à loucura/ nada mais é do que nosso medo/ de que ela nos possua de tal modo/ que dela nunca mais nos livremos”. Num outro ele encara a morte no mesmo diapasão: “o medo da morte/nos leva/ a uma morte lenta”. Há um texto no qual explica por meio do paradoxo, como alcançou uma consciência de si mesmo: “no meio dos brancos/ reconheci-me homem negro/ ao ganhar o mundo/ enxerguei a beleza da minha casa/ repleto de materialismo/encontrei minha fé ancestral”. Seguro de seu lugar no mundo, anuncia: “que venha a tempestade/ levando tudo que o corpo não precisar…”

O bloco de poemas de combate guarda textos em forma de manifesto. Três são assim. Vamos falar sério! Posicionamento contundente contra a redução da maioridade penal e o encarceramento de jovens. Um combate à hipocrisia da sociedade e a “mídia indigesta” que difunde a criminalização dos adolescentes. Não silenciem os tambores é um poema manifesto no qual saúda a luta de seu povo, mas alerta aos que se iludem com pequenas vitórias, especialmente uma certa “esquerda destra”. “Os avanços são só migalhas”, adverte. O terceiro poema – manifesto é Decreto, texto que encerra o livro como sinalização do futuro que está no título da obra. Uma declaração em defesa da liberdade de gênero e de crença; em favor das crianças; contra a fome; contra a espoliação capitalista.

Dois outros enaltecem o homem e a mulher negra. Um deles tem uma formatação complexa. O autor chega a uma elaboração poética abstrata para tratar de uma situação que se passa numa rua. O poema tem título em espanhol: Ruedas e cria uma imagem de um jovem negro que “Balançava seu corpo com mandinga/ Mas mandinga não era/ Era ‘Aire’”. Indica que a performance do dançarino remete à mandinga, elemento da tradição religiosa de matriz africana, mas na África não estava, era “Aire”, o que permite supor que tal situação se passava na cidade de Buenos Aires. Ele cita Lorca, famoso poeta andaluz que esteve na Argentina na década de 30 corroborando a associação com a capital daquele país. Termina o belo poema com um anúncio: “segue seu movimento e firma teus pés na vida/como firmas naqueles momentos”. No outro poema de exaltação da negritude, Nega, ele é mais direto, porém, não menos poético e assertivo: “Nega, levanta porque você não é mais moreninha, nega” e exalta a luta do povo preto que não será nunca mais escravizado.

O conjunto de poemas de afirmação do sujeito negro e periférico se completa com dois textos associados às raízes do seu território, bairro da Brasilândia, e que falam de dois griôs. Um tem o título Mancha, Papagaio, Tião Tiãozinho e é dedicado ao seu pai que veio criança para aquele bairro que fica no pé da Serra da Cantareira, que sempre trabalhou e a mais valia de seu trabalho era tomada por um irmão mais velho que lhe oprimia. Livrou-se do primogênito e seguiu sua luta sozinho. O outro poema é Dona Nenê que parece ser uma personagem mítica da Brasilândia, figura sobre a qual há histórias de tragédias e glórias transmitidas pela oralidade.

Dente de Leão

Classifiquei os poemas de Andrio Candido de uma forma semelhante à de Vagner Souza. Há um bloco de combate no qual exalta o povo negro e periférico com doze textos. Há também um, cujos poemas são reflexões pessoais, muitos deles de autocrítica e que somam dez textos. Por fim, um que destoa do poeta da Brasilândia que é formado por sete poemas de amor com versos lascivos, luxuriantes, porém, não de sexo explícito. Comecemos pela parte mais picante do livro.

Pré eliminar é o título de um poema que vai às vias de fato. Narra o sexo entre um homem e uma mulher negros. O delírio sexual se estende madrugada a dentro e só acaba quando toca o celular: “despertador vai tocá/ preto não tem tempo para amar/ levanta pra trabalhá”. Já no poema Peripécias, as tais preliminares acontecem, mas o sexo não. Em versos marotos e lânguidos, descreve a tensão e o tesão da fase inicial de uma transa na casa da mina, mas que no fim não rolou. Esse subgrupo de poemas sexuais termina comPara falar de amor, texto no qualparafraseia Camões: “é fogo que arde sem doer/contente descontentamento/ ferida que dói e não se sente/ brisa que te deixa no relento”. Discorre sobre o sexo com picardia e sutileza. Lascivo e amoroso, se rende aos encantos da “mina de pé de favela”. E se declara: “[…] todo bom malandro vira otário quando ama” e reitera: “[… ] todo Don Juan se aposenta quando ama”.

No tema do amor, Andrio é mais cândido do que erótico, contrariando um pouco o gingado do poeta sedutor. Ele exalta a beleza da mulher negra em três poemas: Flores e Fênix, Santa de Salto e Flor de Oxum. Neste último faz uma declaração de amor com versos singelos como: “Clareia o dia ao seu desabrochar/ nascem estrelas ao seu sorrir/ alumia minh’alma ao seu olhar/te fazer sorrir me faz feliz”. Em Dos espinhos das rosas fala da emoção excitante diante da iminente chegada dela. Cita o solstício, supostamente o de inverno que ocorre em junho. Expressa-se como leão: “a tremer as patas/continua pedra o coração do leão/continua pedra/mas é coração”. Na continuação deste poema com título (ou subtítulo) …. a visita das fadas revela a chegada de uma fada que fez cair “lascas de cimento” do peito do homem que estava “fechado para balanço”. Fecha esse subgrupo o poema Noite do Coração Vadio. Narrativo e alegórico, o texto cria uma imagem na qual um homem se dá ao sexo com uma mulher majestosa em cuja cama (e palácio) se vê aprisionado. O final é enigmático: “se deitou com a dor de quem foi comido/ com a esperança que de entre 6 e 3/ ganhe o maior, pra passar o pior depressa”

As reflexões pessoais estão apresentadas em poemas líricos de forte impacto. É nesse bloco que estão os dois poemas que dão título ao livro: Dente de Leão. No poema I justifica o desprendimento amoroso “dela”, por ser poesia e não uma flor: “é dente de leão voando…”. Já no poema II é alegórico, carregado de imagens silvestres, campestres, no qual o autor parece se dirigir a uma criança Nina (pequeNINA) que está florescendo; “quando amadurecer será palavra”, substância do poeta. Apela aos quatro elementos: “água, luz, vento e ar”. Na página seguinte ao poema há uma foto do autor acompanhado de uma mulher e duas crianças em primeiro plano, um menino e uma menina. Imagem que corrobora a interpretação de que se trata de um poema dedicado à menina, possivelmente sua filha.

Bússola solar, poema também alegórico discorre sobre o coração (punho no peito) como copiloto que define a direção, embora seja a mente a pilota que “toca o bonde”. Um coração calejado já meio cansado, quase aposentado que renovou suas esperanças diante do “sorriso-sol”: “tirou meu medo de voltar a ser criança”.Já emCoração de vagabundo, o coração do poeta é diferente do que vinha expressando como um punho: “Meu coração é um oceano, um oceano calmo”. Num dia cinzento, o coração ficará seco “como o asfalto e a cidade”. Se recusa a ir à praia em dias de julho nos quais o mar é imprevisível. Resignado, define: “melhor cimentar o oceano (o coração) do que deixar chover pelos olhos” (chorar).

Em cinco poemas, Andrio busca refletir sobre sua trajetória pessoal diante dos desafios da vida madura. Garoto Alcool faz um balanço e mira o futuro: “correr agora é a meta pra depois descansar”. Em Caminhos faz uma autocrítica parodiando seu nome: “seja menos Cândido/ não se perca na própria imagem do espelho/ e sobretudo; seja mais ligeiro!”. Em Sozinho, sente a solidão em meio à multidão ou em casa acompanhado-o. Em Às vezes se faz necessário ou Eu e Eu (vulgo KPG), discorre em tom ameaçador sobre o reconhecimento de que nele habita um outro eu: “hoje dois seres moram em mim/ isso pra mim é o natural”. Finalmente, em Timoneiro, afirma sua altivez frente os desafios da vida e da responsa que carrega no peito. As estrofes são intercaladas por versos da canção homônima de Paulinho da Viola: “não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar”.

Os poemas de combate dão o tom do livro. Peregrino é a armadura: “Por onde vou, deixo pistas, rastros/desato nós, faço laços”. Com o coração do tamanho de um “punho cerrado”, vive o outono: “morro em junho, renasço em março”. Apresenta-se como o palhaço Bobo Plin, de Plínio Marcos. Lírico, viril, visceral e suicida: “dinamitei meu teto de vidro/ agora são só estilhaços”. Mas caminhar é a sina do palhaço que anseia por pousar, desatar nós e “no seu punho cerrado, faço um laço” que juntaria com o seu próprio punho num ato de irmandade.

A lança é a negritude, expressa em vários poemas, especialmente o A coisa tá preta no qual ressignifica a expressão racista usual na fala cotidiana. Intercala estrofes com o verso: “Porra parece que vai escurecer o fim do túnel, finalmente uma Ode à sombra, à noite, à lua”. O verso, porém, está organizado como uma fala em texto dramático, antecedido por travessão e é repetido outras duas vezes, dando um efeito de reiteração que acentua a ênfase no anúncio em forma de alarde. Os versos discorrem sobre a grandeza épica do povo negro pronto para o combate. O rapper Rincón Sapiência tem uma canção homônima, lançada na mesma época e que tem abordagem semelhante: “Abre alas, tamo passando/Polícia no pé, tão embaçando/Orgulho preto, manas e manos/Garfo no crespo, tamo se armando.”

Na busca pela ancestralidade, Andrio leva o leitor a um passado distante, mas que ecoa até os dias de hoje. Devolva-nos Jerusalém é um poema manifesto que alerta para a insurgência iminente do povo preto dizimado há séculos no Brasil e no Oriente Médio remetendo à Cruzadas que foram recuadas pelo “imperador negro – Saladino”. Mas também localiza a questão na contemporaneidade no poema Introdução à verdade afro, um protesto contra a elite branca encarnada no estereótipo do “homem, branco, hétero, rico”. Exalta o povo preto, mas critica os traidores definidos como “Casa Grande”: Pelé, Alexandre Pires e Fernando Holiday. E segue em tom ameaçador e premonitório: “louco seu jogo, perverso o desatino/mas suponhamos que exista um vírus…”. Vamos escurecer as ideias, Soul Minha e Negação e o Direito de Imagem, completam os poemas de afirmação da negritude.

Encerra esse bloco de protesto, dois poemas manifesto que localizam o combatente na periferia em três camadas: uma mais profunda chamada Ururaí que remete ao século XVI e se refere à aldeia indígena que deu origem à Vila de São Miguel (segunda camada) que se transformou na terceira camada que é bairro de São Miguel Paulista atualmente. Um é Manifesto de Loren, um protesto contra os que fazem as crianças sofrerem: “venho por estes versos/reclamar a infância pedida de várias crianças”. Prepara a vingança contra os algozes: “a gente tira você do seu sono profundo/nós, A periferia”. O outro é Vai Levante, poema que é um chamado à luta. Explora o duplo sentido da palavra levante: referente ao ato individual de levantar-se e levante como movimento coletivo, um motim. Faz referência a citada Ururaí e por meio dessa citação enaltece os povos indígenas.

Punho cerrado e sorriso no rosto

Os livros de Andrio Cândido e de Vagner Souza são um chamado à luta, mas não são panfletários. Longe disso. São obras densas, cujas mensagens aguerridas, se apresentam com um vigor poético que confere encantamento ao texto e uma fruição agradável. Os títulos das obras já respaldam esse argumento. Vagner oferece uma variação de tom que vai do sofrimento (lágrimas), passa pela reação (revide) e a esperança (futuro). Andrio escolheu como título o nome de uma planta delicada e com formato de flor, cujo nome, porém, remete a uma imagem muito oposta associada à mandíbula do leão. Os dois, carregam o punho cerrado e o sorriso no rosto, como diz o poeta Sergio Vaz. Não por acaso, ambos dedicam especial atenção às crianças tanto na denúncia, quanto no anúncio.

No poema Não silenciem os tambores, Vagner expressa um anseio de se manifestar não por versos, mas “por uma H – K”. Mas reconhece que seria abatido se assim fosse lutar. Todavia exclama que os tambores não podem silenciar, pois, mesmo que o inimigo vença, “ele me verá dançando, cantando e saudando o nosso movimento”. Esse poema evidencia aquilo que Raymond Williams denomina como consciência prática: impulso, contenção e tom por meio da qual é possível observar uma estrutura de sentimento. O impulso é de matar, a contenção é o reconhecimento da fragilidade perante o inimigo, o tom é de resistência, da quilombagem, uma acumulação de força para um combate futuro.

Já Andrio Cândido, no poema A coisa tá preta, arregimenta o povo negro para uma insurreição: “homens de manto preto, martelaram e vociferaram gritos de guerra”. Mas o motim não se realiza. Ele apela para as leis: “constitucional, o governo vai ter que começar a pagar pelos sequestros, estupros, surras, e genocídio-étinico-cultural”. E termina dizendo que a coisa não ficará preta: “ela é”/ e a coisa preta é linda”. O impulso aqui é de rebelião, a contenção é a defesa do direito à reparação e o tom é da exaltação da beleza e grandeza do povo negro. Um chamado a afirmação da autoestima, da ancestralidade e da cultura, como sugere também Vagner ao proclamar que os tambores não parem de tocar.

Os dois poetas periféricos são combativos na denúncia, pois são conscientes dos mecanismos sociais que geram a desigualdade, pobreza e violência que assolam os arrabaldes. Estão prontos para o combate, mas sabem com que arma podem lutar: a defesa do direito. Uma luta conflituosa, principalmente para quem defende os adolescentes contra a redução da maioridade penal. Os poemas que encerram ambos os livros dão esse tom. Vagner assina o Decreto e Andrio convoca o Levante. Na lei de Vagner criança não passa fome, mulher não apanha de homem, Maria pode virar João e “quem trabalhou na terra é dono daquilo que come”. O Levante de Andrio é para assegurar o “direito da criança a ter infância”. “ilegal é passar fome”, diz em um verso. E anuncia: “da confraternização marginal/sairá a raíz pra confrontar o verdadeiro mal/que é político, social, ideológico/ é o capital”.


1 O exercício consiste em mapear as recorrências de abordagens que estabelecem aproximações entre as obras. Para se chegar a essa compreensão procuro perceber o pensamento como é sentido e o sentimento como é pensado. Tal percepção é possível de se alcançar observando o movimento da consciência prática que é o impulso, contenção e tom na fala dos personagens e dos narradores. Este procedimento foi criado pelo sociólogo britânico Raymond Williams (1920 – 1989) autor dedicado aos estudos da cultura, do teatro e da literatura, fundador dos Estudos Culturais e expoente do movimento New Left que renovou o marxismo na metade do século passado. Sua obra mais conhecida no Brasil é Cultura e Sociedade, publicada pela Editora Vozes.

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