Um poeta-cismador sonda sua arte, em era audiovisual

Seu divagar vagaroso traz destroços de naufrágios — os próprios e os do país. No método de criação, o hábito caipira de cismar, com cafés e manhãs. Em lucubrações, a busca pela palavra justa e o trabalho de cão, mesmo em tempos difíceis para a Literatura


Por Aírton Paschoa | Imagem: Carl Spitzweg, O poeta pobre (1839)

[Entrevista dada a José Nunes, revista e aumentada, em seu projeto “Como eu escrevo”. As 12 pecinhas afins com que originalmente a recheei denunciam a esperança de torná-la mais agradável. Espero tenha logrado o intento… não os leitores]

Como você começa o seu dia? Você tem uma rotina matinal?

Velho, aposentado, preguiçoso e indisciplinado, não há rotina que sobreviva. Minha rotina única é cismar, esse divagar vagaroso que traz os destroços do naufrágio.

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Meu primeiro livro de poemas, perdido, levava o título de Naufragmentos

Talvez não tenho feito outra coisa além de tentar resgatá-lo.

[achados & perdidos]
Faço saber, a quantos interessar possa, que nos rendemos à velhice, que é quando desembarcamos de mãos abanando. As malas seguiram com o comboio, e a gente pode sentir falta ocasional de um e outro artigo, mas suspeito que não foram elas que extraviaram. Por que mandariam lembranças.

Em que hora do dia você sente que trabalha melhor? Você tem algum ritual de preparação para a escrita?

Ah, de manhã! e não há preparo melhor que um bom café e uma boa cismada. Servisse oração, orava.

Jangada
Dai-nos algumas palavras, ô minha Nossa Senhora dos Navegantes, e nem precisa ser todo dia, um ou outro mais pesado apenas, algumas palavras que amarrar, ou nos amarrar, e nem precisamos de sereia, minha Nossa, baixa que anda a audição, nem de farol, conhecidas que são as costas — algumas palavras e corda.

Você escreve um pouco todos os dias ou em períodos concentrados? Você tem uma meta de escrita diária?

Não praticando romance, o gênero hegemônico, que exige disciplina tensa, minha meta diária é continuar escrevendo, sem pressa nem pressão, ou previsão.

[fase de efeito]
Faço saber, a quantos interessar possa, que a gente vive de fases: tem fase que a gente não escreve nada, tem fase que a gente dispara, não para de escrever, e tem fase que regula. Tem fase eclipsada, que a gente escreve demais e nada, e até mesclada, fase que a gente escreve pouco e muito. Agora, esta, tão defasada, pode não passar de fase de efeito.

Como é o seu processo de escrita? Uma vez que você compilou notas suficientes, é difícil começar? Como você se move da pesquisa para a escrita?

Formas breves que são, não me exigem pesquisa nem notas, à diferença do romance, do ensaio, da poesia épica (sic), de gêneros de largo fôlego, enfim.

No meu caso é só ficar cismando…

A uma moça que quer saber por que não cultivo o gênero hegemônico
Dárlin querida, podia dizer que me falta tanto apetite quanto aptidão, porém a polidez recomenda ser menos seco: em primeiro lugar, não se cultiva, se pratica romance; depois, já percorreram todas as veredas e amarelinhas do mundo, sobrou o inferno e o sertão, só. O caudal, cá entre nós, de entupir pias e pias de páginas, corrente, montante, vazante, enchente! refresca? mata a sede? vira mar? Não que fazendo o que eu faço se chegue ao céu, longe de nós, mas a diferença, por meia cabeça que seja, é que, com exibir a arte rupestre, pedestre e equestre de enfiar as mãos pelos pés e pisar na trama, a gente inda ganha uns trocadilhos.

Como você lida com as travas da escrita, como a procrastinação, o medo de não corresponder às expectativas e a ansiedade de trabalhar em projetos longos?

Tenho projeto longo não, tampouco trava, portanto.

Quanto às expectativas, posso dizer que aprendi a reduzi-las ao humanamente possível, por assim dizer, acostumado que fiquei ao famoso “silêncio eloquente”. E plenamente justificável, aliás; primeiro, porque vivemos uma era audiovisual, em que a literatura perdeu a reputação que gozava; e, segundo, e mais importante, porque poesia e gêneros afins, quais os que pratico, nunca desfrutaram de público amplo no próprio âmbito literário. Não há que reclamar. (E olha que reclamamos!)

Claro que não há só silêncio. Seria injusto com meu pequeno e honroso círculo de leitores generosos.

Assim, Rodrigo Naves me publicou pela primeira vez (“O trono”) em 1988, na Revista Novos Estudos Cebrap.

O saudoso Zé Paulo Paes gostou de um dos meus ataques postais e bancou no antigo suplemento “Cultura” do Estadão nosso “Pedro Orior”, ambos incluídos nos Contos tortos.

Acerca ainda do “Pedro Orior”, devo ao escritor Nelson de Oliveira o patrocínio de sua publicação numa revista eletrônica mexicana, Argos, n.º 20, enero/2002, com tradução para o espanhol de Gabriela Hernández.

(E que evidentemente sucumbiu após tamanho atentado literário.)

Valentim Facioli, professor de Literatura da USP aposentado e dono da Nankin, me socorreu em 2007, ao publicar o Ver navios (com orelha do Rodrigo Naves), época de minha mais funda crise literária, quando, tentando encaixar negativa sobre negativa, de editoras de todos os portes e matizes, grandes, médias, pequenas, de direita e de esquerda, pensei seriamente em fazer outra coisa na vida… isto com quase meio século no lombo e nada sabendo fazer além de escrever.

(Claro que mais dolorosos foram os golpes das editoras de esquerda…)

Priscila Figueiredo, poeta, ensaísta e professora de Literatura na USP, fez uma notável resenha crítica na Novos Estudos Cebrap do Ver navios, hoje integrada ao livro Caminhos da lírica contemporânea: ensaios, organizado por Simone Rossinetti Rufinoni e Tercio Redondo (Nankin, 2013).

Ver navios também foi simpaticamente resenhado na Cult pelo Reynado Damazio, poeta e editor, a quem devo a publicação dos Poemitos (juvenília) pela Dobra Editorial em 2013.

Mario Sergio Conti me publicou algumas pecinhas quando esteve à frente da revista Piauí; dose repetida depois por Fernando de Barros e Silva, acatando indicação de Roberto Schwarz.

Professores de Literatura da USP me abriram espaço em revistas acadêmicas, Cilaine Alves Cunha (Teresa), Ana Paula Pacheco e Marcelo Pen (Literatura e sociedade), Norma Goldstein (Linha d’água), ou orelharam livrinho, como Andrea Saad Hossne (Dárlin).

Milton Ohata bancou continho nosso na Revista do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB/USP)

Manuel da Costa Pinto aceitou pecinha nossa quando editor da Cult, bem como Alvaro Comin, Flávio Pierrucci, Flávio Moura e Joaquim Toledo Jr. (Novos Estudos Cebrap), e o Rodrigo Naves, antes de todos, o qual, editor primeiro e por longos anos, sempre me estimulou, com diversas publicações.

Em jornal de circulação nacional, a par do Estadão, me editaram também Hélio Schwartsman (o velho “Folhetim”) e Marcos Flamínio Peres (antigo “Mais!”) da Folha de S. Paulo.

Antonio Martins, editor do combativo Outras Palavras, volta e meia estampa publicações nossas.

Também preguei pecinhas em revistas políticas, a memorável praga, a teoria & debate, a margem esquerda, e num ou noutro tabloide, à semelhança do nicolau, de Curitiba, ou revista literária, como a 34 Letras, do Rio.

Maria Rita Kehl me orelhou o Levante (2017), e os dois próximos livrinhos, Polir chinelo e Cinema & literatura, portam orelha de Iná Camargo Costa.

Professor de Sociologia da USP, Ricardo Musse e sua equipe do blogue A Terra é redonda acolheram amistosamente proposta nossa de coluna mensal, na qual venho estampando pecinhas sob o título de “Fragmentos”.

Daniel Brazil, artista multicultural, pespegou no mesmo blogue deliciosa minirresenha poética da Dárlin, por ocasião da recente edição em ebook, pela e-galáxia, do Tiago Ferro.

O famoso “silêncio eloquente”, pra ser franco, ultrapassa de longe ambições pessoais e toca, sem exagero, num dos nervos do nosso tempo: a morte da crítica literária, cujo exercício intelectual sempre me pareceu imprescindível, visto que avaliar obra contemporânea significa por tabela avaliar a quadra histórica em que vivemos.

O passamento da crítica, todavia, não se dá só pela perda de centralidade das letras ou pela insegurança de critérios pra ajuizar do valor de qualquer obra, seja pelo avanço do pós-modernismo, que mistura e iguala tudo, seja pelo avanço do multiculturalismo, que tudo separa e isola.

Tais avanços, em verdade, cifram a própria morte da literatura, ou do que pelo menos conhecíamos por Literatura, quando todo mundo, cotovelando daqui, dali, queria um lugarzinho no cânone, local, nacional, internacional, ocidental, universal, fosse qual fosse.

Agora, na melhor das hipóteses, só resta, a quem interessar possa, buscar colocação, ou na sociedade do espetáculo e sua cultura industrial, ou na franquia departamental da literatura feminista, ou negra, ou gay, ou lésbica, ou trans etc. ou — modernista-passadista (que nem este escriba). Senão em ambas, podendo.

Não vamos, porém, pelo amor de deus! que também morreu, chorar o leite derramado, dado que acontece com as letras o que, mutatis mutandis, aconteceu com a música clássica, com a pintura, com todo aquele sistema das artes, nobre e burguês, que veio sendo construído desde o Renascimento e a dita Modernidade. Estamos diante de outra coisa; em suporte novo ou velho ou parecido, não nos enganemos: não é mais a mesma coisa. O fenômeno é novo. E inelutável. E inexorável. Não adianta orar.

De todo modo, o Acervo dá pra deleitar até o fim dos tempos…

[brutucur]
Faço saber, a quantos interessar possa, que mister é confessar nova incomunhão e receber portanto o justo óbolo do ostracismo: em matéria de letras, somos conservador… quem sabe mesmo reaça. Não ligo se é mulher ou pobre ou preto ou pardo ou gay quem escreve, amarelo, albano ou albino, cigano ou marciano, marginal, marcial, a tropa toda; não ligo pra artes nem ares de combate. Vão me objetar, os polidos, que não existe mais literatura tout court, e menos ainda, com maiúscula — Literatura, de gênio e genuflexão. Decerto lhes cabe de cabo a rabo razão, mas não ligo também (e nisso ao menos parecemos contemporâneo). Viemos do pó e ao pó voltamos, dia após dia, a espancá-lo, servo que somos do Acervo.

Hoje meu único drama literário, confesso, eu que já curti tantos, ocorre quando preciso recolher as pecinhas em livro. Selecioná-las e ordená-las, de modo a armar certo conjunto, com ressonâncias próprias, é que são elas.

Espécie de montagem cinematográfica, ora se aposta no ruído, no choque, na contradição e/ou contradicção, na passagem de um quadro a outro, de uma página a outra, ora na transição suave, de mesmo tom e/ou tema; ora antecipando novas páginas à frente, ora evocando quadros atrás…

Trabalho de cão, em suma. (Acaso pelo tanto que implica de faro poético.)   

Palco
Me augurei um futuro brilhante e acreditei em mim. O futuro veio e mal o destaco do presente. Não brilha, nem é de todo breu. Carrega a cor e o incolor do dia a dia. Antes assim; e falo do fundo do alçapão. As luzes cegam e a penumbra, se não aguça a visão, aguça o sono. Reparador quase, não tivesse que recolher os papéis picados.

Quantas vezes você revisa seus textos antes de sentir que eles estão prontos?

Ai de mim! escrevo e reescrevo até a exaustão, o enjoo, ad nauseam, como se diz ad nauseam. Pois a questão como sempre é topar a palavra justa — entendendo por Palavra o todo poético.

[poética]
Faço saber, a quantos interessar possa, o que sabe todo poeta digno do ofício: sinônimo é ficção. Cada palavra comporta peso, pele, carne, cara, carma, drama, aura, unha — singulares, por mais aparentada que pareça da prima. Ilustremos com exemplo caçado do reino estético, ou selvagem, se preferirem, observado o óbvio, a saber, que a mulher é o mais belo animal que já pisou esta terra desolada. Quando a dizemos linda, não estamos afirmando que paira acima de bonita; estamos sublinhando que é encantadora. Mais: que tampouco precisa ser bonita. O encanto, bem imaterial, alude a propriedade interior que se exterioriza em riso, largo, vasto, devastador. Em bela não ver como, chocante, o contraste! Puro exterior, pode ser entojada, enjoada, megera, medusa, fera, fúria, bela, simplesmente. Sinonímia é coisa de dicionário; e dicionário coisa de mercado, onde se trocam linda e bela por formosa, palavra a cuja sombra quem não vê baixar os olhos a timidez mesma? Na semântica da poesia, da verdade, solitário sinônimo, toda palavra trai seu sopro solo — que é o que chamam canto, cosmo, criação.

Você mostra seus trabalhos para outras pessoas antes de publicá-los?

Desde jovem, a.C., antes do computador, promovia ataques postais, distribuindo via correio poemas e contos a amigos, críticos e/ou escritores. Depois do computador, d.C., o email facilitou minha vida, pois continuo a aborrecê-los, propínquos e longínquos.

Post Striptum
Na impossibilidade de fulgurações literárias, por falta de gênio e lâmpada, só me resta fazer figurações, jogos de cena mínimos em meio aos mal iluminados corredores e cacos em que mal nos juntamos. Como se sabe, pelo ruído, pelo silêncio, alguma coisa quebrou, e é preciso reparar, não sei bem por quê, menos ainda como. O restaurador é chinês e a urna grega.

De ângulo mais calórico, digamos do da pole dance ou do pau de selfie, são estripitismos o que faço, ora mais, ora menos estrepitosos.

Um amigo meu certa vez me disse que tinha um irmão igual, e passou a falar mal do ausente. Custei a lembrar que aludia ele à série literária a que volta e meia retorno e abre quase invariavelmente com “Meu irmão”… Pensei em desfazer o equívoco e ato contínuo repensei: pra quê? Se até pessoas mais cultivadas, mais versadas na dita arte literária, incorrem na mesma inocência, por que deveria eu desapontá-lo? Quem sabe se o irmão dele, e nosso, não nos oferecia mais uma filipeta…

Há muito tempo, quando ainda éramos jovem, a.C., antes do computador, numa época em que meu ataque literário tinha de se valer do correio, uma professora de literatura alemã, a cujo endereço tive acesso por meio de um conhecido, me perguntou se se tratava de “corrente”. Falava ela de um dos meus sonetos em prosa, os quais expedia a Deus e ao mundo naqueles idos, com apenas meu nome e telefone, fixo. Quem me dera inaugurar uma nova corrente poética! cogitei em responder-lhe. E recuei, temendo melindrá-la com meu humor em guarda. Era um simples “soneto elisabetano”… à moda da casa. Ah!

Não sei, com exatidão, por que encho esta página. Porque estamos ficando velho talvez e queiramos simplesmente puxar assunto, na esperança que continuemos, sabe deus, a falar mal do “nosso irmão”.

Como é sua relação com a tecnologia? Você escreve seus primeiros rascunhos à mão ou no computador?

Primeiro rascunho à mão, pra sentir a pulsação do rebento; depois, sim, controlado um pouco o tremor, passo ao computador o manuscrito.

Desde abril de 2018, um avanço na minha idade! venho tocando um blogue literário (airtonpaschoa.blogspot.com), de nome “Citações”, em cujo buraco negro regularmente desovo os corpinhos.

Talvez deva dizer mesmo blogueto, confinado que vai a três ou quatro vigias.

Ó himenso e complacente blogueto!
Acoita estes enfermos facetos…
Não hão de durar mais que o cantor,
Muito em breve a estrear andador.
Dava a vida por tapear com peã
O peão que se atrevia campeão.
Melhor fora quando não campeava
Mo’de contornar o fim da picada.
Sabe ele quanto é isto de corar,
Mas nunca soube guardar o decoro.
Baldes de odes cansou de corar
E só topou vara, em vez de varal.  
Oh, himenso e complacente blogueto,
Consola-te com blague sobre blague!
Se mal e mal alimentam blaguetes,
Aurora a hora do orado bloqueio.

De onde vêm suas ideias? Há um conjunto de hábitos que você cultiva para se manter criativo?

Vêm da cisma — esse hábito caipira de ficar pensando na morte da bezerra.

Calendas
Este minuto este minuto aqui agora
em que a manhã martela pregões
este minuto aqui agora
em que a cavaleiro andante Mozart
sinfonia desconcertante e barriga pro alto rende
quatro patas cardeais
este minuto aqui agora
em que ela sai às compras e a casa pousa
como pouso o livro e toco a cismar
tantos vezos repetindo
  este minuto aqui agora
não há de passar nem de voltar
tampouco valsar
há de vacilar
(como vacila a luz torando tronco)
na lapela do eterno
(este minuto aqui agora)
em que escrevo e cravo
nem senhor nem escravo
torso

O que você acha que mudou no seu processo de escrita ao longo dos anos?

Comecei, jovem, escrevendo poemas, e o que sobrou deles de legível e inteligível reuni nos Poemitos (juvenília), de 2013.

Dos poemas de juventude caminhei aos contos e continhos. Meu primeiro livro, os Contos tortos, de 1999, por cuja publicação sou grato a Fabio Weintraub, o poeta, (nada que ver com o atual sinistro da Educação), que era quem tocava então as edições literárias da Nankin, — Contos tortos recolhe o que se salvou de 10 anos de produção, e de cujas páginas inda participam “Uma visita de Machado”, lido antes da defesa de dissertação, constrangendo banca e auditório, naturalmente, e dois contos eróticos destinados a concurso literário da Playboy, “Olímpia” e “O anel de Isadora”, que figuraram entre os 10 escolhidos pela revista para publicação oportuna.

Por que não foram publicados — desenrolo a trama num dos artiguetes de Cinema & literatura (em breve nas melhores lojas do ramo).

Em seguida ao primeiro livrinho escrevi uma noveleta pornopolítica, Dárlin (2003), ilustrada com desenhos deslumbrantes de um velho amigo nosso, Mauro Bellesa. Foi esta a minha tentativa mais comercial, digamos, e fracassei — não digo estrondosamente porque já seria alguma repercussão; fracasso rotundo, não ganhando merreca de réis ou alô de loa.

Daí desisti de vez de fama & fortuna e me recolhi em definitivo à poesia doméstica.

Me vi, então, com Ver navios (2007), Banho-maria (2009), A vida dos pinguins (2014) e Levante (2017), a lapidar formas inda mais curtas que o conto e a novela, como narrativas mínimas e poemas em prosa.

A propósito, hoje considero tudo quanto escrevo poema em prosa; por isso a identificação de poemista em prosa, em lugar de poeta e escritor. Poderia, mas já seria poesia, falar em filipetas largadas ao mar em garrafas foscas…

Donde resultar do conjunto, nossa modesta contribuição literária, a justa impressão de “miscelânea”, aquele famigerado gênero de espólio, quando os amigos juntam tudo de atropelo e jogam a público, com não mais critério que o afã de homenagear o pranteado.

(Eis não faço senão poupá-los do trabalho… De nada, não por isso, ora, bobagem.)

Como quer que seja, o fato é que se impôs a forma breve — e lapidar, por que não? no sentido primitivo, de atirar pedra.

Airton Paschoa
(1977-2017)
O resto é déficit da Previdência.
Que a Providência,
Em Sua infinita sabedoria fiscal,
Ajude nossos austeros governos,
Exarando logo a reintegração de posse.
Amém.

Variante dentro da mudança é meu livrinho Citações (2016), quando cheguei a uma solução literária que me permitiu tratar do… do mais imediato, por assim dizer.

Mediante a fórmula liminar das citações judiciais [“faço saber, a quem (ou quantos) interessar possa”] desdobro intimações que vão do lírico ao sardônico, transitando pelo cômico, pelo sério, e pelo sério-cômico, as mais das vezes.

Fui alguns anos, terminada a faculdade de Jornalismo, revisor do Diário Oficial, com sua carrada de citações, coisa que decerto explica a exumação da dita fórmula liminar pra fins literários.

O que você diria a si mesmo se pudesse voltar à escrita de seus primeiros textos?

Diria o que disse escarninho em minha orelha dos Sonetos em prosa & Poemicos, ambos publicados num só volume em 2015:

Quem na mocidade não se entregou ao prazer solitário de disseminar mitos, nomeando-os ou não, de procriar toda uma prole, esfarrapada embora, na esperança de merecer, uma vez destinada, o belo batismo de “mitologia pessoal”? Até estampá-la mais tarde, descaradamente, tem gente que arrisca, que tudo parece perdoar o verdor da idade, como fez o autor com seus Poemitos (juvenília), publicados pela Dobra Editorial em 2013.

Corridos os anos, entretanto, pejado de cãs e cãibras, enterrados os mitos de ontem, em suma, não há fugir à autópsia literária: morremos com micos nas mãos… Micos então os mitos de antanho? Pode ser, não sei. O pouco que sei é que, se se trata de alguma coisa o que exibe com despejo o segundo livrinho, não passa de micologia pessoal. Senília?    

Que projeto você gostaria de fazer, mas ainda não começou?

Comecei este ano com Dárlin a revisão dos livrinhos e sua reedição, em ebook, pela e-galáxia, do Tiago Ferro. A ideia é editar pelos menos dois por ano. Em um lustro penso que estarão todos revistos e republicados em segunda edição, digital.

Na Nankin, editora dos nossos livrinhos impressos, está no prelo, como se dizia, Polir chinelo, nova reunião de pecinhas, e Cinema & literatura, nossa incursão no campo da crítica, o qual deve sair provavelmente ano que vem (2021), — que foi o que restou dos meus anos de mestrado sobre Machado e doutorado sobre Joaquim Pedro de Andrade, culminando, inacabada a tese, em três artigos em três revistas (Cinemais, Novos Estudos Cebrap e Revista USP).

Que livro você gostaria de ler e ele ainda não existe?

Oxalá lesse, como o li pela primeira vez, arrebatado, Olhai os lírios do campo, do Érico Veríssimo, cujos protagonistas, Eugênio e Olívia, aos 13 anos, na 7.ª série do antigo ginásio, acho que tentei reproduzir em minha primeira rasura de conto, uma história de amor entre Marcos e Ângela.

O relato não terminou, terminou o ginásio, o colégio, veio a faculdade, a juvenília…

Quanto ao livro que ainda não existe… não existe mesmo?

Polcas e boas
Às vezes dá uma gana danada de sair expirraçando obra alentada, como dizem, além da sentada, e — ai de nós, às vezes em meio ao próprio tropel do atropelo recaio nos versinhos e revesinhos. Falta de vocação, vocação da falta, pouca cavação, cavação da polca? sabe deus, ou o diabo do Machado! O bruxo velho, fingido, fingindo, decifrou a esfinge. Polca alentada? Não há duvidar. Está longe de pouca coisa a polca do célebre homem. A nós — e não é brinde, não há que celebrar, tampouco pilhéria, que não descem mais os neoliberais, do Grande Gago só sobra a casquinada com a acalentada polca

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