Literatura dos Arrabaldes: A fratria dilacerada

Em dois clássicos da Literatura Hip Hop, de Ferréz e Sacolinha, o moralismo do narrador – e um retrato das intrigas na periferia, sem maquiagem. Desvelam o sistema desalmado, mas também as traições internas de quem vive “o negro drama”

Marcello Quintanilha em Tungstênio, publicado em 2015 pela Veneta

Por Eleilson Leite, na coluna Literatura dos Arrabaldes

Compartilho neste texto a releitura que fiz dos livros Capão Pecado, de Ferréz (Labortexto, 2000) e Graduado em Marginalidade, de Sacolinha – Ademiro Alves (Scortecci, 2005), dois romances que marcaram época e se tornaram clássicos da literatura produzida nas periferias da Região Metropolitana de São Paulo. Ambos conquistaram prestígio com as referidas obras e com seus títulos posteriores, especialmente Ferréz que teve uma carreira de sucesso ancorada em grandes editoras, enquanto Ademiro seguiu como autor independente, embora tenha alguns livros publicados por editoras comerciais. Ferréz, é do Capão Redondo, periferia da zona sul da Capital e Sacolinha é de Suzano, cidade que fica na Região do Alto Tietê no lado leste da Grande São Paulo.

Sacolinha publicou Graduado em Marginalidade, em 2005, quando tinha apenas 22 anos. Havia completado o Ensino Médio e já trabalhava na Secretaria Municipal de Cultura de Suzano, tendo abandonado a profissão de cobrador de lotação a qual se dedicou desde a adolescência. Encaminhou os originais para mais de 30 editoras; recebeu de 18 delas uma carta protocolar de recusa e das demais o silêncio como resposta. Ademiro Alves resolveu então publicar por meio de editora terceirizada, cujo custo foi pago com rifa de equipamentos domésticos, ajuda de amigos e familiares e com a própria venda do livro. Esgotado em pouco tempo, o livro teve nova edição em 2009, pela editora carioca Confraria do Vento.

Já Ferréz, tinha 24 anos quando seu livrofoi publicado pela extinta Labortexto no ano 2000. A obra contou com três novas edições pelas editoras Objetiva (2005); Planeta (2013) e, em 2020, pela Companhia das Letras, onde o autor passou a publicar suas obras mais recentemente. Capão Pecado é a mais importante obra da literatura periférica e marco inaugural desse movimento. Mas é também um dos mais relevantes títulos da literatura brasileira contemporânea neste século, tendo vendido mais de 100 mil exemplares ao longo de duas décadas.

Sacolinha e Ferréz se filiam à literatura hip hop ou marginal e, fiéis a estética dessa corrente literária, fazem nos livros aqui analisados uma representação marcadamente violenta e sombria da periferia, explorando as intrigas que dilaceram a irmandade na quebrada e enfatizam o quanto o povo, desprovido de estudo, se torna uma massa manipulada pela mídia. Em face de tal situação, pregam, por meio de um narrador onisciente, a leitura e acesso ao conhecimento como uma estratégia de emancipação para esse povo cansado de guerra e castigado pela pobreza.

Capão Pecado

O tema central de Capão Pecado é o bairro do Capão Redondo e as condições sociais em que vive a população dessa localidade situada no extremo da periferia da Zona Sul de São Paulo, em especial, a juventude, afligida pelo desemprego, pobreza, drogas e violência. Tais fatores acabam por desagregar a comunidade representada no romance, colocando seus personagens principais em conflito destrutivo uns com os outros a ponto de, no final do livro, restarem pouquíssimos sobreviventes. Uma história contada por narrador onisciente que emite juízos diretamente ou por meio do protagonista Rael.

Endossam essa percepção da centralidade temática do bairro na história narrada em Capão Pecado os seis textos escritos por autores moradores do Capão Redondo, todos rappers, que escrevem em tom de depoimento e com retórica aguerrida sua visão sobre a realidade local. Cinco desses textos aparecem como vinheta na abertura das partes em que estão agrupados os 23 capítulos da obra. O outro aparece na orelha do livro. O próprio autor também dá sua contribuição escrevendo o prefácio. Ferréz, no entanto, diferente dos outros autores, não menciona o bairro do Capão Redondo nesse texto. Ele fala genericamente sobre as mazelas da periferia a partir do bairro que só é mencionado nas palavras finais do texto, de forma indireta, como um lugar “por Deus abandonado e pelo diabo batizado de Capão Pecado” (p. 18).

Capão Pecado está estruturado em um enredo que gira em torno da relação amorosa entre Rael e Paula, ambos funcionários de uma pequena metalúrgica situada no próprio bairro. Os dois mantém um relacionamento às escondidas, pois Paula é namorada de Matcherros, melhor amigo de Rael. Esse triângulo amoroso começa no capítulo 8 e se arrasta até o capítulo 20 quando finalmente Rael resolve abrir o jogo com o amigo ao mesmo tempo em que vai morar junto com Paula na casa dos fundos da metalúrgica cedida pelo patrão. A esposa, porém, foge com o dono da empresa levando consigo o filho do casal. Atormentado, Rael planeja o assassinato do empresário junto com Burgos, bandido violento do bairro, seu amigo de infância. Rael mesmo se encarrega de matar seu ex-patrão, mas é preso, pois foi identificado por uma vizinha ao sair da firma onde ocorreu o crime. Burgos, a fim de evitar uma delação por parte do companheiro, encomenda sua morte dentro da cadeia. Paula sumiu e Matcherros, que era um vadio incorrigível, torna-se microempresário. Burgos foi assassinado por bandidos ainda piores que ele. E dos demais amigos, o único sobrevivente, além de Matcherros, foi Capachão que se tornou policial militar.

O enredo do livro se baseia numa forma consagrada na literatura, ou seja, um caso de amor proibido que acaba em tragédia, no qual o autor consegue encadear situações que dão uma visão do microcosmo em que se passa a trama, o bairro do Capão Redondo. A representação que Ferréz faz do local é devastadora não só pela situação social de pobreza, mas, principalmente, pela desagregação no interior da frátria. Exceto a mãe do protagonista, ninguém tem comportamento digno na história entre os personagens com alguma relevância. O que se vê ao longo do livro são cenas de traição, violência, desonestidade, vingança, exploração, tudo cometido entre os membros da comunidade, exterminando uns aos outros numa luta inglória do povo contra o povo, um traço que marca definitivamente esta obra.

É certo que Ferréz, ao tomar iniciativa de escrever um romance como Capão Pecado, reverte a tendência histórica de subordinação que tirou do pobre a prerrogativa de escrever sua própria história. Da mesma maneira, a obra é reveladora de uma coletividade, evidenciando a afirmação de um sujeito coletivo que pode ser definido como marginal ou periférico. Por fim, o autor assume perante esta comunidade a missão de retratar essa realidade. Nas palavras do rapper Gaspar, no texto da orelha do livro: “Ferréz é mais 1 Da Sul, e sua missão é retratar a periferia através da sua poesia realista”. Porém, o retrato que o autor faz do povo e da periferia é demasiadamente negativo para alguém que pretende exaltá-lo, como ele afirma no Manifesto da Literatura Marginal: “mostramos as várias faces da caneta que se manifesta na favela para representar o grito do verdadeiro povo brasileiro” (Caros Amigos Literatura Marginal Ato I, 2001, p. 3).

No já citado texto do prefácio, Ferréz enfatiza a alienação do povo: “mentes tristes, porém fascinadas em igual proporção com as ilusões carnavalescas de um país que luta por seus times de futebol, mas não luta pela sua dignidade” (p18). Em outra passagem, acrescenta a manipulação pela mídia que impede o trabalhador de enxergar o inimigo que o mantém encurralado: “Toda uma nação está olhando para uma janela eletrônica; através dela está o passado manipulado, e o que ninguém vê é a porta que fica ao lado, a porta do futuro, que está trancada pela mediocridade dos nossos governantes” (p. 18).

Esse é o tom que predomina no livro. O povo em Capão Pecado só se junta para falar mal um do outro ou para regozijar-se com o sofrimento alheio. Há uma passagem em que uma pequena multidão se frustra ao ver sobre a cama o corpo de uma suicida que se enforcou com corda de varal; queriam vê-lo dependurado (p. 69). Rael critica as jovens que são mães solteiras ao vê-las pela janela logo depois de ter feito sexo com a namorada do amigo sem usar preservativo (p.146). Numa cena em que um personagem entra em um ônibus lotado, ele descreve os passageiros ali aglomerados como o fiel retrato do Brasil: “Entre mulheres, bíblias, crianças, guarda-chuvas, mães de santo, jogadores de várzea…” ( p.138).

Uma passagem representativa da desqualificação do povo está no capítulo 15, todo ele dedicado a Carimbê, tio de Matcherros, que, assim como o pai de Rael e de Burgos, é identificado como mais um “bêbado”. Carimbê, pedreiro, vivia em Belo Horizonte e antes de vir morar com o irmão no Capão Redondo teve uma passagem no Rio de Janeiro onde trabalhou numa grande obra e morava no alojamento que a empreiteira montou no canteiro. Em um dia de folga saiu para se divertir no forró que acontecia num bar de instalações precárias. Lá ele se enamora de uma mulher chamada no livro de “fubanga”. De lá ele sai demasiadamente embriagado com sua companheira igualmente bêbada e vão para seu quarto no alojamento. Ela adormece na cama do pedreiro enquanto ele desmaia no banheiro sobre o chão sujo de vômito. A certa altura, um colega entra no mictório e urina em cima de Carimbê, que está caído sobre o vaso sanitário. Enquanto isso, outro colega abusa sexualmente da namorada dele aproveitando seu estado de inconsciência e ainda rouba o rádio de Carimbê.

Neste capítulo, que é daqueles que não interfere em nada na trama, mas que corrobora a descrição do Capão Redondo e seu povo, tema principal do livro, fica evidente a forma como o autor representa os pobres da periferia. Somada à generalização da degradação pessoal, há nesta passagem do livro inúmeros fatores de desagregação entre os pobres. O primeiro e mais enfático é a bebida alcoólica; depois vem a prostituição; a traição e falta de solidariedade entre os trabalhadores e, por fim, a rejeição da família (uma irmã se recusa a hospedá-lo em sua casa quando ele chega no Capão Redondo).

A condição feminina é também uma questão complicada no livro Capão Pecado e também de outras obras do autor. Além da dançarina do forró, da “velha gorda” do escritório, todas as personagens mulheres, exceto a mãe de Rael, são depreciadas, a começar de Paula. Insinuante, a personagem faz uso de sua beleza para seduzir os homens. Trai seu namorado com Rael, depois trai este com seu patrão. O próprio Matcherro, numa determinada passagem, diz “Mulher é bicho em que não se pode confiar” (p. 61) O sexo que Rael faz com Paula é agressivo como se estivesse maltratando-a conscientemente. Ela, por sua vez, se rende inteiramente aos caprichos do parceiro.

Assim, Paula, a única mulher num contexto dominado por homens, é o fator de desestabilização da frátria. Mas outras mulheres entram em cena somente com a função de conturbar o ambiente. Dona Déia, moradora da Cohab, é tida como cagueta: “tudo que sai da boca daquela víbora é fofoca” (p. 116), diz um personagem. Quem delatou Rael para a polícia foi uma vizinha que “ligou para a polícia e ferrou mais um irmão periférico” (p.165). Nos dois encartes de fotos do livro só aparece uma mulher, não por acaso uma mãe com o filho nos braços. A coletividade de Ferréz é feita de homens e refratária às mulheres. Essa abordagem, como já foi dita em outros textos publicados nesta coluna, é representativa do universo simbólico do RAP dos anos 1990.

Graduado em Marginalidade

A capa do livro na edição original traz uma foto de um homem negro sem camisa, vestido com a calça branca de praticante de capoeira. As mãos deste homem estão estendidas uma sobre a outra com as palmas para cima formando uma concha sobre a qual há uma rosa vermelha. Essa imagem faz referência ao protagonista da história, Vander, jovem negro, 19 anos, segundo grau completo, também chamado de Burdão. Sujeito de caráter exemplar, rejeita drogas, cigarros e a vida do crime, elementos do cotidiano da Vila Clementino, periferia de Mogi das Cruzes, onde a ação se desenrola. Capoeirista e iniciado no candomblé desde os 16, Vander é também um ávido leitor, assim como é Rael, no romance de Ferréz.

Graduado em Marginalidade é uma obra bem articulada e fiel ao gênero do romance. Há uma trama com protagonista e antagonista, muitas cenas de ação permeadas por situações de suspense e algum mistério. Não é previsível, mas é uma obra muito influenciada por livros da mesma época, entre eles o próprio Capão Pecado (2000), de Ferréz, além de Cidade de Deus (1997) de Paulo Lins e Diário de um sobrevivente (2001) de Luiz Alberto Mendes. Seu argumento e estética são marcadamente vinculados à cultura hip hop, especialmente o RAP Vida Loka (parte II) do Racionais MCs, cujo verso: “O cheiro é de pólvora; eu prefiro rosas”, aparece como intertexto nas frases finais do livro: “Amanhece mais um dia. O cheiro de pólvora abafa o perfume das rosas” (p. 167).

Graduado em Marginalidade, seguindo com rigor a tradição do hip hop, é uma história de homens. Não há mulheres com papel importante. A mãe de Vander que surge no momento da morte do marido passa o restante da narrativa a sofrer até alcançar o óbito aparentemente desejado. Rebeca, vizinha evangélica, filha de ex-prostituta, torna-se namorada de Vander e ocupa o lugar da figura feminina dos contos de fadas que é resgatada pelo príncipe. Se Sacolinha é mais delicado na composição dos personagens femininos, por outro lado, endossa a visão machista do RAP que relega a mulher a uma condição subalterna. A obra também se filia à linhagem hip hop por conter os elementos comuns à produção literária associada a essa cultura: um narrador onisciente, presença da coletividade e o sentido de missão do personagem principal.

O livro começa narrando uma fuga cinematográfica de Vander, conhecido como Burdão. Cercado por policiais, ele larga seu carro em plena Avenida São João, no Centro de São Paulo; corre em meio à multidão até que finalmente é cercado por policiais e alvejado pelas costas. Antes de morrer, ouve de um policial: “Mata, deu muito trabalho. Será um troféu e tanto”. Essa cena, porém, não passa de um sonho. Vander é acordado por sua mãe numa manhã ensolarada de domingo. No semblante daquela senhora, a expressão aflita anunciava que o marido dela havia sido baleado durante um assalto e foi encaminhado ao hospital. Antes que saíssem de casa veio a informação da morte de Jorjão. Vander perdeu o pai e testemunharia dali em diante a morte gradativa de sua mãe em decorrência do sofrimento pela perda do marido.

Vander vive cercado de amigos, mas não circula em bares e outros pontos de encontro frequentados por eles. É muito moderado com o consumo de álcool e não usa drogas. De modo que a periferia de Sacolinha, assim como a de Ferréz, não há festa nas ruas, ninguém joga bola, nem torce para time algum. A rua é lugar de trânsito e não de convivência. A casa tem um lugar muito central na vida de Vander. Lá ele passa a maior parte do tempo, cuida da mãe doente, recolhe-se para ler e refletir sobre sua existência no mundo. Interage muito bem com as amigas e parentes da mãe, especialmente Rebeca, a mencionada jovem filha de uma dessas amigas de sua mãe, por quem ele se apaixona, porém, só irá consumar o namoro muito adiante.

Enquanto isso, outro personagem, seu antagonista, Lucio Tavares, policial corrupto, entra em cena tomando o comércio de drogas da mão de Escobar, traficante que atuava na Região. Sob a direção de Lúcio, a economia da droga na Vila Clementino se expande a níveis nunca vistos, tornando-se um polo de venda para toda a Região do Alto Tietê. Certa vez Lucio abordou Vander. Acintosamente, o policial lhe assediou para assumir um posto no tráfico local; Vander não quis. Tavares não se conformou. O destino do rapaz, que, a partir do capítulo 5 passa só a ser chamado de Burdão, fica marcado.

Depois de ver sua mãe e amigos mortos, Burdão consegue um emprego em um lava-rápido. Cumprindo sua rotina de casa para o trabalho, numa manhã qualquer sofre uma emboscada de Lucio. O policial e seus comparsas o prendem e o levam para o presídio sob a alegação de tráfico de drogas. Antes de ser preso, Lucio revela a Burdão ter sido ele o responsável pela morte de seu pai. Está formado o quadro de ódio que vai transformar Burdão num destemido criminoso. Na cadeia, o personagem sofre tortura e diversos maus tratos. Mas também faz amigos, entre eles, João Ligeiro com quem armará um audacioso plano de fuga. Burdão recebe visitas de Rebeca, que lhe traz muitos livros. Na cadeia ele lê sobre a vida de revolucionários, entre eles Carlos Mariguella e Che Guevara.

A fuga acontece. Burdão forma um bando, assalta bancos, levanta dinheiro para tomar o tráfico de drogas da mão de Lucio Tavares. Consegue o feito com relativa facilidade. Passa a dominar o morro da Vila Clementina. Instala-se numa casa com Rebeca. Finalmente uma cena de sexo do protagonista: Burdão e Rebeca passam a noite transando depois de assistirem a um show de Jorge Ben Jor em São Paulo. Aqui nota-se que a abordagem do sexo marca outra diferença de Sacolinha em relação a Ferréz. Além da escassez de cenas eróticas, Sacolinha as narra de uma forma mais delicada, apesar dos clichês comuns aos dois. Há um clima romântico que precede ao ato que, por sua vez, acontece em um ambiente bonito e agradável (um motel de alto padrão) com menções ao Kama Sutra e ao sexo tântrico. A noite de amor se estende por toda a madrugada com muitos orgasmos tanto dele quanto dela, numa luxúria extasiante. Mas fica por aí; não há mais sexo no livro.

Burdão segue sendo o bandido boa praça, bem quisto na comunidade, até que Lucio resolve recuperar o território perdido. O cerco começa com a morte de Rebeca, que estava grávida de dois meses. Depois de muita perseguição, tiroteio e mortes, Burdão é finalmente pego pelos homens de Lucio. Baleado, Vander ainda escuta uma voz falando: “Mata, deu muito trabalho. Será um troféu e tanto”, ou seja, as mesmas frases ouvidas no sonho narrado no início do livro. Na primeira vez, a frase é dita por policiais no cumprimento de sua atribuição de caça a um bandido em fuga; na segunda, um mesmo policial, porém atuando como traficante.

Como se pode notar, o tema central do livro Graduado em Marginalidade é a violência do tráfico de drogas, a corrupção policial e a ligação entre ambos, cujo ápice é a situação em que um policial se torna chefe do tráfico num bairro de periferia. O foco da narrativa conduz para a impossibilidade de uma solução no nível da legalidade, pois o herói épico se converte em bandido (como faz Zé Bonito em Cidade de Deus e Rael em Capão Pecado) em nome da vingança, criando um encadeamento de situações violentas que arrasta para a morte quase todos os personagens que habitam a história. Creio que Sacolinha tentou fugir de um final convencional, no qual a vingança se consumaria e o policial corrupto pagaria pelos males que fez, ou seja, o bem venceria o mal.

O personagem principal da trama de Graduado em Marginalidade é esculpido pelo autor como um herói. Dotado de inúmeras qualidades, Vander que é jovem, bonito, forte, religioso no candomblé (porém de formação cristã como seus pais) é também um leitor e apologista da leitura, sensato, correto, cuida da mãe com um carinho comovente. Flerta delicadamente com uma única mulher, a jovem e linda Rebeca com quem ele só fará sexo bem depois de conhecê-la no contexto de uma relação estabelecida. Quando é preso, resiste a toda sorte de maus tratos, foge da cadeia, vira bandido audacioso, porém, ético; só mata em última instância. Torna-se um benfeitor na comunidade e vive com Rebeca uma vida conjugal harmoniosa e feliz, apesar da tensão inerente à dinâmica do crime. Com tantas virtudes, fica difícil assimilar um destino tão trágico, exceto pela punição divina ao homem pobre e honesto que entrou para o crime para se vingar de um outro bandido.

Narrativas do negro drama

Como já foi dito, os livros Capão Pecado e Graduado em Marginalidade, são muito representativos de um padrão estético vinculado à cultura hip hop. Como citado anteriormente, há três elementos básicos que caracterizam essa corrente literária também conhecida como literatura marginal: um narrador onisciente, uma coletividade e o sentido de missão do protagonista. Em Capão Pecado, especialmente, ficam evidentes os aspectos do narrador onisciente, traço recorrente na obra de Ferréz até os dias atuais. Para Mario Augusto Augusto Medeiros da Silva, trata-se de um narrador moralista: “A esfera moralista está presente também num narrador em terceira pessoa que julga cada ação operada em Capão Pecado, inclusive do personagem principal. Sendo esta, uma característica desse tipo de narrador onisciente, ela se acentua nos julgamentos e ensinamentos que procura passar”1.

E que ensinamentos são transmitidos em Capão Pecado? Neste livro, Ferréz já anuncia a solução que será reiterada em suas obras posteriores: a leitura e o estudo. Ou seja, a apropriação do mecanismo de dominação das elites. Rael é um ávido leitor, adquire seus livros no Sebo do Messias (p.46) e, por conta desse inusitado hábito, recebe dos amigos apelidos como “xarope” e “louco”. Há passagens em que esse personagem faz uma defesa dos estudos como forma de vencer na vida: – “É foda mesmo, no final todo mundo que morre neste fim de mundo é classificado como a mesma coisa. Por isso que eu falo, truta, eu quero continuar a estudar, e se Deus permitir, mano, eu quero ter um futuro melhor (p. 117).

É importante observar como o estudo e a leitura são aqui vistos como uma saída para o pobre, entendendo que a resolução de seus problemas passa também pela superação de um estado de ignorância decorrente da falta de estudo formal. Trata-se de uma visão que sintetiza a estrutura de sentimento que Ferréz, assim como Sacolinha, expressam: a sensibilidade com a pobreza, porém a subestimação do povo para superá-la dada sua falta de conhecimento letrado e sua condição manipulada, necessitando superar individualmente essa defasagem para então se emancipar. Trata-se de uma visão redentora muito presente no RAP da década de 1990.

Já a coletividade que aprece nas obras não é um agrupamento coeso e virtuoso, aqueles “50 mil manos” aos quais se refere os Racionais (Sobrevivendo no Inferno, 1997). Essa legião de homens é tão viril e ao mesmo tempo frágil e se dilacera em meio aos conflitos que emergem no interior da irmandade. Tais conflitos já são abordados nos RAPs do CD Nada como um dia após outro dia também dos Racionais MC’s. Lançado na mesma época em que foram publicados os livros aqui analisados, o álbum tem músicas como Vida Loka (I e II ) e Negro Drama, nas quais, Mano Brown e Edi Rock abrem as comportas de um ressentimento represado no fundo da alma. Uma indignação, cujo alvo não é mais o desalmado “sistema” e sim um perverso inimigo que mora ao lado: o “zé povinho”. Interessante observar que esta expressão já aparece em Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus2, obra na qual as intrigas entre os pobres é revelada sem maquiagem. O mesmo acontece em Graduado em Marginalidade e Capão Pecado. Com isso, por meio desses livros, temos contato com uma periferia não idealizada, na qual as contradições são parte indissolúvel de seu contexto conflituoso. Uma periferia narrada com uma verossimilhança só alcançada por quem vive “o negro drama”.


1 SILVA, Mario Augusto Medeiros da. A descoberta do insólito: literatura negra e literatura periférica no Brasil (1960 – 2000). Tese de doutorado. Departamento de Sociologia, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, UNICAMP, Campinas, 2011 (página 404)

2 ”Quando começa as brigas os favelados deixam seus afazeres para presenciar os bate-fundos. De modo que quando a mulher sai correndo nua é um verdadeiro espetáculo para o Zé Povinho” (p. 46 – 9ª edição, 4ª. reimpressão, 2010, Editora Ática, São Paulo)

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