João, o bilionário ilustrado

Frente ao superávit de mediocridade entre as elites brasileiras, vale conhecer as ideias de um herdeiro da família Moreira Salles. Dono de uma das maiores fortunas do país, ele edita uma revista refinada e antibolsonarista e é mecenas nas Ciências

Esse perfil foi publicado no livro recém-lançado da autora: Perfis no jornalismo: narrativas em composição, pela Editora Insular.

Por Marta Maia

Essa é uma história de descontinuidades, por isso segue em partes, como momentos de uma vida que merece ser contada. Segue com lacunas porque assim é a vida e assim são as narrativas – incompletas. Sei que seu nome é João, mas não é um João qualquer, até porque “João ninguém”, como dizem, não existe; todos têm história. A dele, talvez, mais conhecida, afinal não é todo dia que nasce um Moreira Salles nesse país de desigualdades chamado Brasil.

1ª parte:
Um narrador

Uma das minhas lembranças de criança sou eu e meus irmãos vestidos de copeiro, com uma bandeja na mão, entre convidados, brincando de servir. Nessas ocasiões, quem punha a bandeja na minha mão e me ensinava a equilibrá-la sem derrubar os copos era Santiago, o mordomo da casa.

Suas palavras surgem devagar, como se fossem pensadas uma a uma. Sem pressa. Seu jeito discreto de ser, em todos os sentidos, desde a vestimenta até o sereno tom de fala, pode confundir quem o vê, mas suas ideias desenham uma espécie de galáxia semântica habitada por significados bem pouco usuais. Metáfora que ajuda a entender por que sobre ele é melhor escrever do que filmar. Lembrando o que ele mesmo disse diversas vezes: “Algumas coisas nasceram para serem filmadas, outras para serem escritas”. Falarei, inicialmente, sobre os dois últimos documentários dirigidos por ele, e narrados em primeira pessoa, que apresentam indícios e vestígios que nos ajudam a vê-lo mais de perto: Santiago e No intenso agora. O primeiro, que pode ser considerado um metadocumentário, tem parte de sua narrativa contemplada, em itálico, ao longo desse perfil. O segundo, daqueles difíceis de serem definidos, radicaliza o conceito e a prática do documentário ao trazer imagens de origens diversas, mas dado o seu caráter indicial, passíveis de serem esquadrinhadas.

Santiago, o documentário que mais assisti em toda minha vida, expõe o diretor de forma inexorável. João já disse, e mais de uma vez, que esse filme o deixa um pouco constrangido. Afinal, o uso da primeira pessoa autocrítica, ao mesmo tempo que pode representar um ato de humildade, pode comportar também uma atitude de relativo orgulho justamente pela postura benevolente. Ele diz, não para mim, mas em uma de suas inúmeras entrevistas, que, ao admitir certa “insensibilidade social” no trato com o personagem do filme (no caso, com o mordomo), “isso também é narcísico, de alguma maneira… olha, como ele é bacana, pois ele deixou de ser aquela pessoa porque agora expôs isso publicamente e agora está fazendo expiação…”. Manifestação hermenêutica de quem está sempre tensionando experiências e ideias.

Nesse documentário, João oferece ao espectador a oportunidade de conhecer um pouco sobre sua história de vida por intermédio do ex-mordomo da família, mas especialmente sobre seu processo de filmagem. O filme, rodado em 1992 e com 8 horas de material bruto, foi retomado em 2005 e finalizado em 2006. Muito já foi falado sobre Santiago, eleito um dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), mas por aqui, o me interessa é o que ele pode oferecer sobre a vida do João, visto que ele não gosta de falar sobre si mesmo nas entrevistas. Fico sabendo, pelo filme, que ele nasceu [em 1962], no Rio de Janeiro, e viveu na imensa casa que aparece logo no início, morando nela até os 20 anos. Que tem três irmãos, Pedro, Walter e Fernando. Sei também que vem de uma família de muitas posses e influente – afinal seu pai foi embaixador e ministro -, com muitos empregados e um mordomo.

O documentarista busca então, nas gravações de 1992, contar a história desse mordomo a partir de suas próprias lembranças: “Uma das minhas memórias de infância é Santiago rezando em latim…”; “Minha memória de Santiago se confunde com a casa da Gávea. Ele sempre esteve lá, do dia em que nasci ao dia em que deixei a casa, em 1982”; “Foi de Santiago que ouvi pela primeira vez a história de Francesca da Rimini [Dante]”. Outras memórias, em itálico, seguem ao longo desse texto, como já falado.

Sua maneira de criticar alguns (muitos) documentários que buscam retratar o exótico e o desvalido, em geral, de forma exógena, de um outro lugar – e em terceira pessoa -, é produzindo outro tipo de narrativa. E ela toma corpo na primeira pessoa nessas duas últimas produções. Para ele, uma saída natural a partir de suas concepções sobre documentários, que tem como referências os dois Eduardos, o Coutinho e o Escorel, referências também de amizade; e dois outros, estrangeiros, o Chris Marker e o Harun Farocki. “Tudo que eu tenho a oferecer sou eu mesmo”, essa frase de Marker o “autorizou” a seguir esse caminho No intenso agora.

Um e-mail enviado para Eduardo Escorel tenta resolver o impasse sobre um “filme” muito aberto: “O fato é que precisarei de supervisão adulta. Dentro de um mês ou dois você poderia ser impiedoso?”. E assim João o convoca como uma espécie de “superego” do filme – originalmente com cinco horas -, que acaba sendo vertido para duas horas e sete minutos. Esse movimento de interlocução parece ser uma constante em tudo que faz.

No intenso agora traz imagens de arquivo, em sua maioria de 1968. João explica, em maio de 2019, em outro debate com Eduardo Escorel no Instituto Moreira Salles sobre a obra de Farocki, que isso “significa que as imagens foram retiradas do seu tempo e trazidas para o presente [2017]. Com esse movimento sofrem uma transformação… Mais do que um repositório da memória, o arquivo é aquilo que está sempre pronto a dizer coisas diferentes do que dizia antes. Em outras palavras, o arquivo é aquilo que nunca esgota o que tem a dizer – No intenso agora é baseado nessa ideia”. Nesse movimento assíncrono, nota-se o processo de montagem do documentário. Duas questões, de acordo com ele, estão na origem do filme: os sentimentos de felicidade da mãe, que outros também comungavam à época, e a possibilidade de deslizar pelas imagens. Uma obra aberta a inquirições. Não sem sentido, no começo do filme, João (o narrador) diz: “nem sempre a gente sabe o que está filmando”, frase de Chris Marker. Vale dizer que em entrevista para a Trip TV, João assim justificou a opção por esse tipo de filme ao dizer que “não existe tema novo. Injustiça, violência, fome, guerra, amor; esses são os temas. A questão é como contar de outra maneira”. E, nesse caso, como os “intensos” se constituem para cada um, como a alegria aparece e desaparece; é possível recuperá-la?

João se diz tributário de Harun Farocki ao dizer que esses dois últimos documentários não existiriam sem as questões levantadas pelo cineasta, mesmo considerando as dificuldades encontradas em suas produções. Essa aproximação o fez rever as imagens dezenas de vezes. Essa atitude, que exige disciplina, pode promover deslocamentos e descobertas que levam a novos modos de ver e enxergar os elementos visuais que, de alguma forma, já estão dados. Mas justiça seja feita, esse filme é tributário também de sua convivência (de 12 anos) com Coutinho: João diz que a reflexão sobre por que as pessoas filmam como filmam sempre foi uma questão constantemente colocada pelo cineasta, para quem, inclusive é dedicado o documentário.

Como nem tudo é passível de filmagem, ele resolve criar, em 2006, a revista piauí, que surge com o objetivo de contar muitas histórias, com mais tempo para a apuração e a escrita, ou seja, ela não precisa ficar “urrando” ou “gritando”, segundo ele mesmo (embora reconheça a importância desse tipo de imprensa). A origem do nome escapa aos mais curiosos; “porque a esse respeito ainda não chegamos a um consenso”, estampa o “sobre nós” no site da revista. Porém, João já falou, em entrevista, que “piauí é uma palavra sonora e é um lugar não mapeado – como as pautas que precisam ser feitas e ninguém tá cobrindo”.

Um de seus primeiros textos para a revista é o do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Em 2007, durante onze dias, ele acompanhou FHC em suas viagens para os EUA e Europa. Aquele tipo de texto aberto, extenso, em que ao leitor é dado o privilégio de tirar suas próprias conclusões a partir do relato. Outro perfil, que também está publicado no livro “Vultos da república: os melhores perfis políticos da revista piauí”, é o do caseiro de Antonio Palocci, Francenildo dos Santos Costa, um dos responsáveis pela queda do ex-ministro da Fazenda. Esse perfil, que, invariavelmente, mostro para meus alunos, começa de maneira absolutamente descritiva: “Francenildo dos Santos Costa era caseiro, tinha 24 anos, quatro bermudas, três calças jeans, cinco camisetas, três camisas, cinco cuecas, três pares de meia, dois pares de tênis, um sapato e um salário de 370 reais quando tudo começou, em março de 2006”. Para a produção desse texto, João chegou a ler mais de 2 mil páginas de relatórios, processos e transcrições de CPI, além de conversar com o caseiro mais de 20 vezes.

Publicou também o perfil do matemático Artur Ávila, em 2010, assim como o perfil de Três Corações, em 2018, pequeno município mineiro que, assim como milhares de cidades brasileiras, cresce muito pouco, com loteamentos não ocupados e miséria crescente. Embora tenha demonstrado interesse em deixar a redação da piauí, ele segue redigindo ensaios, fazendo entrevistas e reportagens para a revista, ou respondendo a seção Carta do Leitor da publicação, sentindo a necessidade ou “a vontade” (talvez dissesse ele) de escrever o que não se pode (ou não se deve) filmar, afinal ele já dirigiu 8 filmes e produziu outros 17, embora tenha se formado em Economia na PUC-RJ, instituição, aliás, onde trabalhou como professor durante alguns anos.

Meu pai deu início à construção da casa em 1948. Ele era um homem de negócios e, mais tarde, foi embaixador e ministro. Era um homem público, e a casa refletia isso. Santiago era o senhor dos salões, a pessoa que lhes dava vida nos dias de grandes jantares.

2ª parte
Instituto Serrapilheira

Em 2010, quando o conheci, pedi a ele um autógrafo na cópia de um texto publicado na Ilustríssima (Folha de S. Paulo) sobre a desvalorização das ciências. Na época, ele escreveu que, se precisasse de abrigo, tantas as críticas, ele iria se “refugiar” em Ouro Preto. É que muitos não entenderam esse material publicado no jornal, mostrando a cisão entre humanidades e as ditas ciências duras. Ao me responder, por e-mail, sobre essa questão, ele diz: “Sempre me espanto com a presença cada vez maior de projetos sociais que levam dança, música, teatro e cinema a lugares onde falta quase tudo. Nenhuma objeção, mas é o caso de perguntar por que somente a arte teria poderes civilizatórios. Ninguém pensa em levar a esses jovens um telescópio ou um laboratório de química ou biologia? Centenas de estudantes universitários gostariam de participar de iniciativas assim”.

E não são palavras em vão, já que, em 2017, João e sua esposa, Branca Vianna, linguista e professora da PUC-RJ, lançam o Serrapilheira, a primeira entidade privada dedicada ao fomento de pesquisa e à divulgação científica do país, em especial nas áreas de matemática, ciências físicas, ciências da vida e engenharia. Sua motivação? “Aconteceu quando escrevi o perfil do matemático Artur Ávila, que fazia suas pesquisas no Instituto de Matemática Pura e Aplicada, o IMPA, um centro de excelência construído a duras penas por matemáticos brasileiros que podiam ter tido uma carreira brilhante fora do país mas decidiram voltar para cá em nome dessa ideia meio doida de criar uma instituição de qualidade excepcional num país sem tradição científica. Conseguiram, mas eram quase invisíveis para a maioria dos brasileiros”.

Serrapilheira foi o nome escolhido porque, além de ter uma sonoridade agradável, significa a camada de folhas, ramos e matéria orgânica que fica sobre a superfície e que, de alguma maneira, acaba devolvendo os nutrientes para o solo. E é o que está fazendo o Instituto, hoje já na terceira Chamada pública, convidando jovens cientistas nas áreas de Ciências Naturais, Ciência da Computação e Matemática a desenvolverem projetos de pesquisa fundamental. A iniciativa pioneira foi laureada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em 2019, na categoria “Amigos da Ciência”. E a “amizade” aos cientistas vai além ao trazer novidades em seus editais, já que no caso de mulheres com filhos, por exemplo, há uma extensão do prazo de um ano em relação ao término do doutorado.

Mais um argumento para mostrar a emergência desse Instituto são os resultados da prova aplicada por amostragem pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), em 2018, entre estudantes do ensino fundamental na faixa etária de 15 anos. Ele identificou a desconfortável situação do Brasil que está em 70º lugar entre os países avaliados na área de matemática. Situação não muito diferente das ciências, já que o país ficou entre os cinco piores. A presença do Serrapilheira nesse cenário tão inóspito, areja um pouco o ambiente. Em especial, nessa época que o governo despreza tanto as pesquisas científicas, como me fala João: “Hoje, e é essencial que se diga isso, temos um governo liderado por pessoas que são contra a ciência e contra as humanidades, que se opõem ao pensamento lógico e ao pensamento crítico. São incapazes de compreender tanto um como o outro. E isso por duas razões. A primeira, mais óbvia, é o reacionarismo e a estreiteza ideológica; a segunda, menos falada, deve ser creditada à notável indigência intelectual dessa gente. A mediocridade também é um motor da história”. Agregando vozes e ações, muito do que se pensa pode ser implementado, mesmo sob a esteira das incompreensões e dissensos, afinal o que é novo, muitas vezes, incomoda. Sendo poucas as oportunidades para o campo das humanidades, menos ainda para as outras áreas. Tudo pouco.

Tive vontade de voltar à casa, e por isso retomei o filme.
Gostaria que essa história fosse de meus pais e também de meus irmãos, Pedro, Walter e Fernando. A memória de Santiago e da casa da Gávea é nossa.
Minha mãe morreu alguns anos antes de Santiago. Meu pai morreu poucos anos depois.

3ª parte
Ponto de vista

Em texto no Portal Brasiliana Fotográfica, João, ao analisar uma fotografia do italiano radicado no Brasil, Vincenzo Pastore, associa a imagem de uma mãe e filha, que olham atentamente para algum lugar, à Virgem Anunciada, de Antonello da Messina (quadro do Quattrocento italiano). Não que as duas cenas sejam parecidas, mas trazem, paradoxalmente, algo que não se deixa ver. E é por intermédio desse “extracampo” que João faz a associação das imagens. Falo sobre isso porque também deixei de fora muitas histórias sobre ele. Algumas por não saber, outras por tê-las ouvido/lido por demais.

Essa parte final funciona também como um making of. Seu filme, “Entreatos”, foi objeto da minha primeira pesquisa realizada na UFOP, em 2009. Nesse projeto analisamos (eu e minha bolsista de Iniciação Científica) esse documentário em diálogo com “Peões”, de Eduardo Coutinho, produzido no mesmo ano. A minha curiosidade sobre sua obra e pessoa começava ali. Mas foi no Fórum das Letras, em 2010, que pude conhecê-lo pessoalmente. Minha primeira impressão: ele parecia estar ensimesmado, traduzindo alguma questão, revirando as palavras em todos os sentidos. Sim, ele estava em Ouro Preto, mas suas ideias pareciam estar em algum outro lugar, em algum novo projeto, em algum desvão do pensamento.

João Moreira Salles habita outros. A variedade de suas obras parece indicar essa máxima e seu discurso também. Nesse dia, ele falou para uma plateia composta, em sua maioria, por estudantes de jornalismo. Em pleno domingo de manhã, eles e elas lotaram o pequeno Anexo do Museu da Inconfidência de Ouro Preto para a mesa do Fórum das Letras de 2010 intitulada “A construção dos Perfis no Jornalismo”; além dele, Ubiratan Brasil, Jornalista e crítico literário. Fiz a mediação de um debate que já me agencia há muitos anos. Perfis e histórias de vidas cruzam minha existência o tempo todo.

De maneira tranquila, começou a falar: “existe o mau e o bom jornalismo. No Brasil, não temos as condições adequadas para a produção de perfis”. Segundo ele, precisaríamos de tempo, introspecção e convivência para conseguirmos produzir um perfil que pudesse revelar as experiências e as peculiaridades da pessoa ou objeto. Anteviu, nessa mesa, o que a revista piauí se tornaria posteriormente, a principal referência nacional nesse formato (contando com o privilégio de ter mais tempo para a apuração). Sua maneira de ver é estranhamente diferente, aquele jeito introvertido de olhar assim, de soslaio; paradoxalmente, quando olha, encara.

Nesse dia, ele comentou sobre a impropriedade do uso do termo “jornalismo literário”, já que esse jargão pode levar a uma hierarquização estética artificial; o mais adequado é o deslocamento da discussão para o processo de captação e escrita. Disse ainda que as técnicas de entrevista podem ajudar o repórter, mas não podem, e nem devem, sobrepujar a interação do encontro. Há sempre uma tensão narrativa em sua fala; percepção subjetiva, eu sei. Aciono então Ferreira Gullar: “uma parte de mim pesa e pondera: outra parte delira… Uma parte de mim é só vertigem: outra parte, linguagem”.

De alguma forma, acho que tentei responder, ao escrever esse (quase) perfil uma das perguntas que fiz a ele por e-mail em outubro de 2019: “Se você não tem ‘graças sociais’ (como o Lula, por exemplo – em sua própria visão) por que agencia tanto as pessoas? Por que você acha que elas querem te ouvir?”. A resposta dele, embora desconcertante, foi apropriada: “Admitindo-se, por hipótese, que a premissa está correta, não cabe a mim responder”. Tentei respondê-la, ao menos em “partes”, nesse texto.

Tentei trazer outros aspectos de sua trajetória ao perguntar a ele, por e-mail, qual o lugar dos amigos em sua vida, mas a resposta foi evasiva: “Essa é uma pergunta muito pessoal. Há uns anos, um amigo observou que o Brasil sofria de evasão de privacidade. Não costumamos perder a oportunidade de tornar público o que é pessoal. Na época da observação ainda não existiam as tais mídias sociais, então você pode imaginar como a coisa se agravou. Pra não contribuir ainda mais para o problema, pulo a pergunta”.

O título dessa parte final (Ponto de vista) corresponde a algo que sempre falo na primeira aula das minhas turmas de redação, ao citar o verso “se eu morrer, morre comigo/um certo modo de ver”, do Drummond. E é o próprio João quem me ajuda nessa perspectiva ao dizer que “ou um documentário tem um ponto de vista ou ele não é nada. Contudo, ter um ponto de vista não significa exigir que o espectador compre um pacote fechado, sem brechas para a sua imaginação. Certa vez, um documentarista americano disse que seus filmes aconteciam em algum lugar entre a tela e a plateia, ou seja, no meio do caminho, um lugar que não pertence a ninguém. Gosto dessa ideia”.

Outra questão que deixo para o final, embora seja algo que reflito há bastante tempo, refere-se a literariedade de um texto. Apoiando-me Terry Eagleton, perguntei a ele sobre a visão de que a literatura depende menos de características estéticas intrínsecas de um texto, ou mesmo de seu propósito inicial, do que de sua recepção e sobrevida. A resposta tem como base a experiência de um documentarista que lhe é muito caro: “Quando, no fim de um período de grande angústia, Coutinho decidiu fazer um filme que só ele queria assistir, e que viria a ser Santo Forte, não estava dado que aquilo seria reconhecido como cinema. Por que diabos uma sucessão de pessoas que falam para a câmara deve ser chamada de filme? Só quando Santo Forte foi projetado para uma plateia no festival de Gramado é que a invenção de Coutinho foi posta à prova. Se a estreia tivesse sido um desastre, a carreira dele teria se encerrado ali e não teríamos a segunda parte da carreira dele, a meu ver a mais rica de todas. Eu não estava presente, mas me dizem que a sessão foi consagradora. O que significa que, sim, concordo com a premissa da pergunta. No fim das contas, um filme é consequência de quem o faz e de quem o assiste”.

No intenso agora é dedicado a Coutinho. Acho que não é preciso dizer muito mais. Pergunto a ele então que palavras não poderiam faltar em um “texto” réquiem para Eduardo Coutinho. Sua resposta me comove; e com ela termino esse quase perfil, quase narrativa, quase entrevista: “Que ele foi um homem íntegro”. Penso que só reconhece a integridade quem a possui.

Durante os cinco dias de filmagem, eu nunca deixei de ser o filho do dono da casa, e ele nunca deixou de ser o nosso mordomo.


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3 comentários para "João, o bilionário ilustrado"

  1. Cecília Vaz Pupo de Mello disse:

    “Nem toda a elite brasileira abraçou a indigência intelectual do fascismo”.
    O que define uma “elite”? Dinheiro, preparo intelectual, poder, ética ?
    Podem surgir milhares de questionamentos contra o “bom mocismo” de João: possibilidade de acesso, recursos, disponibilidade de tempo etc etc etc. Mas acontece que nem todos que usufruem desses privilégios estão alerta para os problemas sociais do país e dispostos a denunciá-los e se moverem no sentido de minimizá-los, dando chances aos inúmeros e brilhantes jovens ocultos nas dobras do território.
    Se há mais desse tipo de ricos/ milionários/ bilionários no Brasil, por que praticamente não se fala sobre eles e por que a mídia, formadora de opinião, sempre apresenta, nas novelas, por exemplo, as pessoas de famílias ricas tradicionais (vide seus nomes e sobrenomes) como vilãs insensíveis, escravocratas, patrões desalmados; arrancadas pelos autores de seu contexto histórico-social?
    Com que objetivo se faz isso? Acirramento do conflito de classes? Recuperação histórica? Vingança tardia dos descendentes, agora com acesso e poder?
    Acho que esse assunto merece pesquisa e livro.

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