Encontro póstumo de dois intelectuais brasileiros

Do além-túmulo, Machado de Assis e o professor Moniz Bandeira olham o caos do mundo. Mordazes, vão de Hamlet a pandemia, dos imperialismos ao “ovo frito cósmico”. Da eternidade, concordam: “é preciso sempre lembrar que somos mortais”

Imagem: Alexandre Camanho

Machado de Assis (MA): Prezado Luiz Alberto Moniz Bandeira, você alega existirem três tipos de agentes da CIA. Eu trabalhei muito, como escritor, para delinear perfis humanos considerando a posição que estes ocupavam na sociedade da segunda metade do século XIX e início do XX. Dediquei-me especialmente à caracterização dos tipos humanos associados à exploração estrangeira, relacionando-os às transformações históricas do agitado período em que vivi. São eles, os perfis: 1. O da classe proprietária e escravocrata, herdeira do sistema colonial português; 2. O da classe financista que emergia ocupando o lugar da primeira, referenciada não mais pela metrópole lusa, mas pelo capital financeiro de Londres. Estava, pois, desafiado a registrar a mutação dos perfis no interior da classe proprietária brasileira com o objetivo de mostrar como tal classe tem sido o vetor de traição aos interesses nacionais, deixando na miséria a classe livre, mas sem propriedade; e sobretudo explorando o trabalho de escravizados africanos; ao menos até 1888, embora, como sabemos, a abolição de fato ainda não tenha ocorrido. E as razões são as mesmíssimas: a aliança entre o latifúndio e o imperialismo. Foi essa aliança que tentei fixar ficcionalmente, por exemplo, ao esboçar figuras típicas do ponto 1, como Jorge, de Iaiá Garcia, Brás Cubas, de Memórias póstumas de Brás Cubas, Bentinho de Dom Casmurro; Rubião, de Quincas Borba; assim como não menos típicas do ponto 2, como, respectivamente, Procópio Dias, Cotrim, Escobar e Palha. Tenho muito interesse em conhecer as tipicidades brasileiras ianquizadas, porque biopoliticamente orientadas pela estrutura de dominação estadunidense; essa “Miss Dollar”, para fazer referência a um conto de mesmo título que publiquei no livro Contos Fluminenses em 1870.

Luiz Alberto Moniz Bandeira (LAMB): Boa eterna noite, Machado! É uma alegria inominável encontrar com você direto da morte, de caveira para caveira. Afinal, como no Ato V, cena I de Hamlet de Shakespeare…

MS: Sim, a cena do coveiro em que Hamlet segura a caveira do bobo da corte, Yorick… afinal para nos dizer que somos, todos nós, os bobos da corte neste mundo de reis, banqueiros, déspotas, fascistas, explorados e exploradores, inclusive estes últimos. A morte, nosso destino comum, exige que a vida também seja um destino comum dos viventes. De outro modo, matamos a morte e uma sociedade sem morte é uma sociedade morta. A propósito, quando tive a ideia de escrever Memórias póstuma de Brás Cubas, lia o trecho em que Hamlet, conversando com Horácio, dizia: “…Alexandre morreu; Alexandre foi enterrado; Alexandre tornou-se pó; o pó é a terra; da terra faz-se a argila; por que então não se poderá tapar um barril de cerveja com a argila em que ele se converteu?”

LAMB: Alexandre Magno, o rei da Macedônia, virou argila; é terra dos vivos e dos mortos, sem impérios. No entanto… Alexandre, o Grande, virou um símbolo que inspirou os déspotas posteriores, talvez com a esperança de que, em algum dia, matando a vida, e por extensão a morte, estes últimos não mais se transformassem em argila; não mais morressem. Temos que compreender com todas as letras que as oligarquias de todos os tempos sempre foram genocidas ou, se quiser, sempre foram malthusianas. Qualquer semelhança com o pandêmico malthusianismo atual, tendo em vista a Agenda 2020 do Fórum Econômico Mundial/OMS, não é mera coincidência.

MS: Por isso pensei escrever um romance em que todas as personagens fossem como argilas; a argila estéril representada principalmente por Brás Cubas, caracterização da oligarquia brasileira de todas as épocas: inútil, cínica, oca, presunçosa, perversa, boba da corte dos Alexandres Magnos do passado e do presente.

LAMB: Resulta daí o princípio realista de Memórias póstumas de Brás Cubas, a saber: é preciso sempre lembrar que somos mortais.

MS: Sim, afinal a civilização que mata, as dos Alexandres e Brás Cubas, é também a civilização dos bobos e coveiros das cortes.

LAMB: E por falar em coveiros das cortes, voltemos a atenção para os coveiros atuais, do ultraimperialismo estadunidense; os agentes da CIA. A primeira observação que deve ser esclarecida é: os agentes da CIA não podem jamais revelar a identidade deles. Jamais! Por isso se ocultam como se fossem pessoas normais, como pesquisador ou um cientista de ponta, como feminista, como jornalista, político, como militar, ecologista, líder religioso, um representante de uma ONG. E assim vai. Os três tipos são: 1. aquele que é agente da CIA e sabe que é, recebendo muita proteção e benefícios por ocupar essa função. No geral é um agente da CIA desde muito jovem, como são os casos inclusive de algumas pessoas que chegaram à Presidência do Brasil; 2. aquele que faz de tudo para se tornar um agente da CIA, até mata a sua mãe se for necessário; e no ato de fazer de tudo torna-se um tipo de agente da CIA muito especial para a CIA, porque é facilmente manipulável, além de ser ousado como pretendente à agente da CIA: 3. aquele que é agente da CIA sem saber que é, podendo até mesmo ser um crítico da CIA. É o lado inconsciente da dominação estadunidense. Brás Cubas, a propósito, seria, se fosse vivo hoje, agente da CIA do tipo 1 e 2, mas como nasceu muito antes do surgimento da CIA, em 1947, foi, na verdade, um antecessor de 3. Fundamentalmente, o sistema de agentes da CIA funciona no interior de uma arquitetura de guerras assimétricas em que as células humanas atuam como agentes por procuração da hegemonia estadunidense, ciente ou não do papel que desempenham

MS: Luiz Alberto, quais funções cumprem os agentes da CIA?

LAMB: O ultraimperialismo estadunidense é regido por duas grandes doutrinas justapostas, a James Monroe, de 1823; e a Truman, de 1947. A primeira tem sido o inferno dos povos latino-americanos. A segunda, por sua vez, constituiu-se pelo processo de mundialização da primeira. Se esta, com a doutrina Monroe, pode ser resumida com a frase “a América é dos americanos”; a segunda, dita por Truman, expressou-se pela seguinte sentença de morte: “O mundo é dos americanos”; frase que inaugurou a Guerra Fria. Para levar a cabo essa globalização hegemônica ianque, ergueu-se uma superestrutura de Estado ultraimperialista formada pela Agência Central de Inteligência, assim como pela Lei de Segurança Nacional, pelo Departamento de Defesa, pelo Estado-Maior Unificado e pelo Conselho de Segurança. Nesse contexto, a principal função, sabendo ou não, dos agentes da CIA não é outra senão esta: sabotar a soberania nacional-popular de todos os países do mundo, até mesmo dos países que pertenceriam ao eixo do imperialismo coletivo (para usar uma expressão de Samir Amin), como Inglaterra, França, Alemanha, Japão. De minha parte, penso que a arquitetura do mundo após a Segunda Guerra Mundial tornou-se a seguinte: ultraimperialismo estadunidense; subimperialismo europeu, japonês, saudita, países lúmpens, países que resistem.

MA: E Israel? De minha parte, penso que os sionistas ocupam uma posição diferenciada, confessional, dentro da arquitetura geopolítica e religiosa; uma espécie de Antigo Testamento ocidental-ianque. Mas essa é uma longa história, diria, metafísica, sobre a qual é pertinente uma análise à parte para melhor pensar as funções dos agentes da CIA. Não?

LAMB: Estou curioso, Machado.

MA: Chamo de metafísica a um processo histórico circular em que a origem é replicada no destino, dilatando-se em espiral como uma pedra que se atira em um lago. É uma estrutura parasitária que oculta o trabalho comum por meio de uma fabricação ideológica de uma origem divina para a classe proprietária. Procurei satirizar esse tipo de mentalidade metafísica no capítulo três de Memórias póstumas de Brás Cubas, ao qual dei o título de “Genealogia”. Nele escrevi que o fundador da família Cubas foi o Damião Cubas, que acumulou alguma fortuna trabalhando não apenas como tanoeiro, a sua profissão, para ser irônico, de origem, mas também como lavrador, como comerciante. Deixou assim uma boa herança ao filho, o licenciado Luís Cubas. O narrador do romance, o tortuoso Brás Cubas, assim descreveu o licenciado: “Neste rapaz é que verdadeiramente começa a série de meus avós – dos avós que a minha família sempre confessou – porque o Damião Cubas era afinal de contas um tanoeiro, e, talvez, um mau tanoeiro, ao passo que Luís Cubas estudou em Coimbra, primou no Estado, e foi um dos amigos particulares do vice-rei Conde da Cunha” (MACHADO, 1971, p. 28).

LAMB: Estou sacando aonde quer chegar, Machado. O segredo metafísico está na palavra confissão ou, se quiser, no dispositivo de confissão, para dialogar com um autor francês chamado Michel Foucault.

MA: Na posição em que nos encontramos, não há mais diferença de tempos e todos somos contemporâneos de todos. Foucault está aqui entre a gente e penso que não discordará do seguinte argumento: a metafísica é uma arquitetura parasitária confessional que oculta sempre o trabalho, representado, no caso do capítulo III de MPBC, pelo Damião Cubas. A origem é sempre a origem da genealogia de uma mística divina: o licenciado em Coimbra, que primou no Estado, que é amigo particular do vice-rei Conde da Cunha. Uma estrutura metafísica é, para ser redundante, uma estrutura confessional/ideológica que fixa a origem da riqueza na classe que explora o trabalhador. É por isso que a história autêntica é a história cuja origem é sem origem; a do trabalho comum. Essa é a história secular, sem origem e sem destino; dos povos livres, em igualdade.

LAMB: E Israel, Machado?

MA: Israel se tornou a origem metafísica do Ocidente projetada no Oriente Médio como uma confissão da relação dos sionistas com Abraão e, por meio deste, com a genealogia patriarcal do Antigo Testamento.

LAMB: É por isso que Israel ocupa uma posição diferenciada na estrutura de poder metafísico do Ocidente; estrutura cuja origem da origem é representada a partir da segunda metade do século XX pelo ultraimperialismo ianque, que inventou a genealogia metafísica da Mayflower, o primeiro navio que transportou os peregrinos puritanos para EUA. E quem são os puritanos? Ora, são os que fugiram das lutas de classes na Europa. São a metafisica encarnada; puros e celestiais como o Deus não terrenal do Antigo Testamento.

MA: E os agentes da CIA, Luiz?

LAMB: Ora, são todos os que se colocam na posição de destino da origem de MayFlower. São os novos bárbaros puritanos que se confessam, sopros divinos, fora do trabalho comum dos povos.

MA: Professor, o senhor é o autor também do livro A Segunda Guerra Fria. Isso significa que a Guerra Fria nunca acabou, mas apenas mudou de fase?

LAMB: Exato! Todos que se confessam no interior da estrutura metafísica da dominação ianque são de alguma forma agentes da CIA e, assim, sabotam, mesmo que de forma insciente (tanto melhor, para o poder stay behind ianque) a soberania nacional-popular.

MA: Sei que os Estados Unidos são o imperialismo do imperialismo inglês. Nesse sentido, concordo com a categoria de ultraimperialismo ianque; essa origem divina atrás da origem; um mais atrás e um mais à frente, residindo daí a relação entre Antigo Testamento e a colonização do futuro, via teto sem fim de sua própria dívida tendo como âncora o trabalho dos povos ocultado por golpes e guerras de espectro completo. Já que tenho falado de Memórias póstumas de Brás Cubas, quando o escrevi, percebia nitidamente o papel da imprensa como mola mestra da opinião. Daí, falando do próprio romance, pus na voz de Brás Cubas as seguintes palavras: “Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião” (MACHADO, 1971, p.23). Você não acha que o ultraimperialismo ianque seja um processo sem fim de edição do sério e do frívolo, de modo que a história sem metafísica, que é história da soberania dos povos, é concebida pelos “sérios” como puro romance; e, para os frívolos, um romance estranho, não usual?

LAMB: Machado, compartilho integralmente com você. O ultraimperialismo estadunidense emergiu e se tornou hegemônico ao transformar a cultura em um modo de produção e reprodução da vida social, globalmente considerada.

MA: Interessante. Fale mais a respeito, por favor, Luiz.

LAMB: O crítico literário, antropólogo e romancista inglês, Raymond Williams foi o primeiro a abordar essa questão com a objetividade científica que ela merece. Em livros como Cultura e sociedade, Marxismo e literatura, Cultura, Televisão defendeu uma visão integral e materialista da dimensão cultural. Os Estados Unidos se tornaram a potência dominante a partir da segunda metade do passado século, porque transformaram a cultura em um modo de produção próprio, criador de estilos de vida; dominando a indústria cultural, para usar uma expressão de Adorno e Horkheimer. O que se produz, como meios de produção, desse modo, é a organização de uma superestrutura cultural que edita sem cessar toda a história da humanidade. Trata-se de uma nova forma de colonialismo: o colonialismo de estúdio, a partir do qual tudo tende a virar estúdio, inclusive a esfera econômica. Dois autores brasileiros, nesse aspecto, são de fundamental importância, a saber: o escritor José Agrippino de Paula e o historiador Nelson Werneck Sodré.

MA: José Agrippino está aqui do meu lado com o livro PanAmerica, seu romance de 1967. Ele mesmo lê o capítulo inicial, às risadas.

LAMB: Gosto muito desse capítulo inicial de PanAmerica. Nele um cineasta (brasileiro?), designado como “eu”, dirige o filme que se propõe ser a epopeia da bíblia, a começar pelo Êxodo, com a travessia do mar Vermelho, com Burt Lancaster fazendo o papel de anjo do Senhor; Cary Grant personificando Moisés, com seu imenso cajado fálico em diálogo com Deus; John Wayne no papel do faraó Ramsés II; Marylin Monroe, com dupla personagem, a de Betsabá e de Sara.

MA: O diretor do filme, no romance, é em si um pastiche da cultura neoliberal ianque, centrada no eu. Daí ele dizer eu isso, eu aquilo, eu… eu… eu, em ritmo marcial. Seria uma forma de parodiar os agentes da CIA?

LAMB: Sem dúvida. É um pastiche, por meio de uma imitação paródica, do seguinte e onipresente agente da CIA: a crença puritana no “eu” anarcoliberal, interpretável como Êxodo/fuga da história sem metafísica, da história real, dos povos, para os povos. Tudo em PanAmerica é estúdio, cenário, como é o meio de produção cultural, ancorado na indústria cultural, da estrutura metafísica da dominação ianque. É curioso como o megacenário do set de filmagem do Êxodo, no primeiro capítulo, termina com um acidente em que tudo se desmorona matando muitos coadjuvantes. Mais curioso ainda é, como uma porta-giratória, o fato de a personagem “eu”, o cineasta (José Agrippino de Paula?), sair do estúdio em que estava para, no segundo capítulo, encontrar-se neste outro: a cidade-cenário de Hollywood, estúdio em que se encontra com o crítico de cinema e se enlaça com sua amante, Mary Monroe.

MA: Interpreto essa passagem como uma objetivação de que o modo de dominação ianque, estilo estúdios e cenários, edita sem cessar a própria realidade social urbana, transformando-a também em estúdio e cenário, em filme, em processo.

LAMB: Perfeito, Machado, tirou essa análise de minha boca. Afinal, estamos mortos e mais vale um defunto autor que um autor defunto.

MA: Outro capítulo que me impressiona muito em PanAmerica, porque dialetiza com o primeiro, é o último; o da explosão do ovo frito cósmico, representando a hecatombe atômica ou o Apocalipse. A nuvem em forma de cogumelo caracteriza o que tenho chamado de ultraimperialismo estadunidense, tendo a cultura como meio de produção material, estúdio de estúdio de estúdio; edição sem fim de tudo que existiu e existe, desde as relações escravistas, feudais e capitalistas de produção, esse imenso Êxodo patriarcal como também os fluxos de liberdade, de criação, de amor, de lutas de classes. Tudo vira cenário; sobreimpressão e a explosão atômica, nesse caso, objetiva uma forma específica de dominação: a da fissura do átomo, objetivação da divisão biopolítica igualmente atômica da humanidade.

LAMB: Isso! Essa dominação pela cultura transforma a cultura em um cogumelo atômico sobrepondo-se ao mundo inteiro, ao mesmo tempo que espalha a sua irradiação. Essa é uma metáfora do ultraimperialismo ianque, em diálogo com PanAmerica: um ovo frito cósmico sobre planeta. Em certo sentido, não é à-toa que as bombas lançadas em Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945, podem ser interpretadas, também, como uma questão de estúdio, objetivando o cenário da dominação ianque sob a forma de explosão atômica/biopolítica desta outra questão de estúdio: o autopublicitário estilo ianque de ser.

MA: Foucault está aqui se coçando pra falar, Luiz.

Michel Foucault: Em meu livro História da sexualidade: vontade de saber defendi que a constituição do biopoder se inscreve em duas dimensões justapostas: a dimensão anatômico-política, que é a que demarca a identidade; e a dimensão da biopolítica da população. Os dispositivos que interconectam o corpo individual à biopolítica da população são, sobretudo: o da sexualidade e o da confissão. A vontade de verdade, definida como o conjunto dos saberes institucionais/estatais, como a psiquiatria, a psicanálise, a biologia, a antropologia, por exemplo, são aparelhos epistemológicos constituídos para estimular a confissão de si, de sua sexualidade, em conformidade à ordem dominante. É uma forma de metafísica pois ao se confessar a pessoa se confessa em conformidade com as coordenadas de poder da ciência dominante e assim em convergência à ordem dominante. Por isso ironizei a confissão, dizendo: “Gozado, as pessoas acham que confessando elas se tornam melhores. É o contrário: se confessando a pessoa é capturada e define a sua própria identidade nos termos do padrão confessional da estrutura de poder hegemônica. É, pois, se confessando que a pessoa é capturada pela estrutura de poder do Estado, que tem como desafio a produção da norma comportamental; biopolítica. Sob o ponto de vista do sistema colonial/capitalista/imperialista europeu, centrado na Segunda Revolução Industrial, a norma é a norma disciplinar, pois o que se objetiva é disciplina do corpo, desde a mais tenra idade, fabricando (a palavra fábrica não é casual) corpos dóceis e adaptados ao trabalho fabril.

LAMB: Foucault, pelo que li lamento muito você não ter escrito sobre o sistema biopolítico da dominação estadunidense.

Foucault: Pois é. É verdade. Não escrevi sobre o modelo biopolítico da estrutura metafísica estadunidense, embora tenha tratado do tema da sociedade do controle. E já que estamos falando de confissão, vou confessar o motivo: era e é um tabu analisar a vontade de verdade no interior da hegemonia ianque. Me formei como filósofo tendo em vista uma estrutura de ensino europeia submetida aos EUA. A Europa tinha se transformado em subimperialismo após a Segunda Guerra Mundial; e em certo sentido fui um filósofo subimperialista. Essa é a minha vontade de verdade post mortem.

LAMB: Para mim, a vontade de verdade do ultraimperialismo ianque não se organiza em torno de uma estrutura produtiva disciplinar porque se constituiu por meio da indústria cultural que estimula você a se confessar em tempo real, vendo filmes em Netflix, frequentando redes sociais, aplicativos como WhatsApp, acessando a internet, consultando o Google, realizando um pagamento eletrônico ou uma chamada telefônica. Se a biopolítica de Foucault descreveu o biopoder disciplinar europeu usando como imagem o diagrama, representação das instituições disciplinares, como a família, a escola, o saber, a fábrica, o hospital, o hospício; por sua vez, a biopolítica do ultraimperialismo ianque, esse ovo frito cósmico, constitui-se em rede. É o que Zbigniew Brzezinski, em seu livro Between Two Anges: Americas´s Role in the Technetronic Era, chamou de era tecnotrônica, a do sistema de estúdio e de edição ocorrendo o tempo todo, sendo acionado pelo próprio indivíduo ao entrar na Rede Mundial de Computadores, ao se agitar, como um peixe, no mar irradiado do interior do cogumelo atômico ianque.

MA: Quer dizer que a era tecnotrônica é a origem sem origem? O nome disso não é história sem metafísica? Não é democracia?

LAMB: É evidente que é um pastiche da democracia; uma imitação estilizada que eterniza no seu interior a dominação ianque, pois dentro do ovo frito cósmico, em que tudo é editado sem cessar (um sistema integral de fake news), tudo é ao mesmo tempo origem e destino em tempo real. O centro da vontade de verdade é tecnocrático-matemático e se chama função algoritmo; esse novo soberano que decreta o estado de exceção confessional/estadunidense, pescando peixinhos de gente.

MA: Já que você esqueceu do Sodré, Luiz, vou recuperá-lo. Em seu livro Brasil: radiografia de um modelo, Nelson Werneck Sodré, que também está aqui do nosso lado, desmascarou o chamado milagre econômico do regime militar pós-64, ao evidenciar que se constituiu como um efeito farsesco de uma cadeia de estúdios dos conglomerados, sobretudo ianques, então instalados no Brasil. Deixamos de importar os fetiches da mercadoria do ovo frito cósmico porque passamos a produzi-los aqui, ao mesmo tempo em que, mais do que nunca, desnacionalizávamos economia brasileira, tornando-a ainda mais dependente do poderoso capital financeiro ianque.

LAMB: Quer dizer: o Brasil se tornou um estúdio ianque; uma filial.

MA: Sim.

LAMB: O milagre econômico foi, assim, o destino manifesto dos conglomerados ianques instalados no Brasil, país que foi devorado pelas irradiações sem fim das edições sem fim do ovo frito cósmico ianque. Passamos, pois, a “exportar capitais” para a matriz, a partir do destino metafísico desta última. Nesse sentido, a expressão milagre econômico é precisa. Foi mesmo um milagre de DeusTaDosUnidos.

MA: O Brasil se tornou um estúdio produtivo-cultural ianque e com isso não só aprofundou a desnacionalização da economia brasileira como também o próprio brasileiro, que cada vez mais tem deixado de ser brasileiro; se ianquizando.

LAMB: Sim, o Brasil se ianquizou por ter se tornado um estúdio do modo de produção metafísico-cultural estadunidense. A tragicomédia disso tudo é que o milagre econômico fixou-se no tempo, gerando uma memória econômica territorial; um esboço de brasilidade, acionado sobretudo pelas administrações petistas. Sufocados que estávamos e estamos dentro desse ovo frito cósmico ianque, não deu outra: fomos golpeados novamente. Como reagimos contra o golpe de 2016? Com estilo ianque de ser! Com palavras de ordem do sistema metafísico-confessional ianque: “Machista!”, “Ele não!” e outras que tais. Ora, Bolsonaro não é também um editável estilo ianque de ser? Não foi a era tecnotrônica que o elegeu e o faz confessar ser quem diz ser? Esse é o paradoxo atual: superar a extrema adversidade em que estamos como agentes editáveis da CIA, de um front a outro. Resulta daí a falsa polêmica entre dois tipos de tios Sam: a. o tio Sam da confissão identitária a partir da qual, ao dizermos “eu sou negro, mulher, LGBT”… nos transformamos cada vez mais no padrão biopolítico e metafísico de estilos publicitariamente editáveis de ser negro, de ser mulher, de ser LGBT; de sermos os puritanos estadunidenses replicando MayFlower como se fôssemos, na própria essência identitária, seus barquinhos de papel; b. o tio Sam neopentecostal, editável nos estúdios de cada Igreja – independente de ser católica ou evangélica -, esboçando-nos como destino da metafísica do Deus-patrão estadunidense.

MA: Com isso o cenário da tragédia está instalado pois ninguém é um trabalhador brasileiro. E não há a mínima chance de romper com a estrutura de dependência metafísica em que estamos sem assumirmos, do chão nacional brasileiro, a identidade de trabalhadores brasileiros lutando a luta de classes da emancipação nacional. De outro modo, perderemos sempre o fio da história e nos transformaremos em edições de fios de história alheia.

LAMB: Machado de Assis, e o estúdio atual, o da pandemia, o que pode dizer sobre ele?

MA: De fato, é mais um estúdio confessional da metafísica estadunidense que assume a seguinte particularidade: o retorno da vontade de verdade da medicina como método científico de confissão/padronização do corpo dócil. É o retorno do corpo dócil que alguns destacados críticos da dominação ianque estão chamando de biopolítica do transhumanismo. Sem distanciamento em relação às tecnologias de dominação ianque, somos presas fáceis dilatando mais ainda a espiral da estrutura de dependência metafísica de tio Sam. É o que está nos ocorrendo em um ritmo suicida, ao nos afogarmos na estrutura tecnológica ou tecnotrônica, frequentando como nunca seus Facebooks, seus Netflixs, seus WhatsApps, seus Instagrams…

LAMB: Quando os Estados Unidos da América se apropriaram da tecnologia atômica, não titubearam em experimentá-la nos estúdios do território japonês. Nenhum país do mundo foi tão tirânico e tão cínico ao mesmo tempo. O país do ovo frito cósmico ousou fritar atomicamente Hiroshima e Nagasaki, sem contar que nunca mais deixou de ousar e usá-la, a bomba atômica, embora em escala menor, por meio de bombas contendo plutônio empobrecido. Os ianques, como soberanos que decidem o estado de exceção mundial, fizeram o inominável, o inacreditável e depois editaram tudo, no cinema e também na expansão da tecnologia atômica para o plano da biopolítica irradiada do estilo americano de ser.

MA: E hoje a biotecnologia e a nanotecnologia não podem também ser disparadas como novos estúdios das novas bombas atômicas? Deixariam de editá-las/usá-las contra os povos por algum prurido ético? Os povos não são trabalho acumulado da memória vital da humanidade? Os puritanos não detestam os trabalhos dos povos?

LAMB: A era tecnotrônica de que falava Zbigniew Brzezinski será, hoje, o da reedição do genoma humano? A proteína de pico será a nova versão dos agentes da CIA? A neocolonização pandêmica tornou-se intracelular? Estamos na era do golpe de estado geneticamente mundial?

MA: Paulo Henrique Amorim está do meu lado, Luiz. Quer falar…

Paulo Henrique Amorim: Feche a cortina!

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Referência:

A BÍBLIA SAGRADA. Antigo Testamento e Novo Testamento. Trad. João Ferreira de Almeida. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.

ASSIS, Machado. Memórias póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.

______. Dom Casmurro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: 1977.

_______. Obra completa. 3.ed. São Paulo: Editora Nova Aguilar, 2015 (4 volumes).

BANDEIRA, Luis Alberto Muniz. A segunda Guerra Fria: Geopolítica e dimensão estratégica de Estados Unidos. Das rebeliões na Eurásia à África do Norte e ao Oriente Médio. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.

_______. Formação do império americano: da guerra contra a Espanha à guerra no Iraque. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014.

________. Presença dos Estados Unidos no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

BRZEZINSKI, Zbigniew. Between two ages – America’s role in the Technetronic Era. New York: The Viking Press, 1970

FOCAULT, Michel. História da sexualidade I: Vontade de Saber. Trad. Maria Theresa da Costa Albuquerque. Rio de Janeiro: Graal, 1999.

SHAKESPEARE, William. Hamlet: príncipe da Dinamarca. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011.

SODRÉ, Nelson Werneck. Brasil: radiografia de um modelo. Petrópolis: Vozes, 1974.

WILLIAMS, Raymond. Cultura. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000

_____. The long revolution. Peterborough: Ont. Broadview Press, 2001

_____. Marxismo y literatura. Trad. Pablo di Masso. Barcelona: Ediciones Penísula, 1988.

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