Desterrados e desaparecidos

Que permite aos oprimidos tirar o sono de seus algozes mesmo liquidados? Será a teimosia em não aceitar que estamos todos aprisionados? E é por isso que nos esquecemos de sua existência – para que a chama subversiva não se espalhe?

Por Priscila Figueiredo

Cena de Los Silencios, filme de Beatriz Seigner

Os versos de Francisco Alvim “A [cobra] que mesmo depois de morta,/pica mais forte” poderiam explicar a ameaça, já expressão idiomática, contida em “sua boca vai ficar cheia de formiga”. A brutalidade desse veredito, dos mais sádicos, aponta para o que de pior pode acontecer ao ameaçado, o qual no entanto se continuará a temer mesmo quando já for matéria inerte, por isso a cautela suplementar: “Você não apenas estará morto em breve, mas sua boca, pela qual você se tornaria sujeito, se confundirá com a terra, será invadida por ela e seus bichos”. A integridade do cadáver se desfará antes do tempo, e melhor ainda que isso, o órgão pelo qual se afirmaria no mundo o humano vivo que o antecedeu. A frase ameaça com a possibilidade de ainda produzir dores em um morto e um novo sufocamento, ao mesmo tempo que também alude a temores antigos, como o que se tinha (e ainda se tem) dos mortos e de toda fala engasgada. Que as formigas comam logo a sua língua para garantir que ela não volte a se mexer. Mas a paranoia do carrasco sabe que o ódio de sua vítima não tem fim. Mesmo que ela seja desmanchada com ácido, se desantropomorfize ou vire pedra não é certo que ele consiga relaxar. Haverá sempre algo anterior, como se o terror sofrido no suplício adquirisse autonomia, e esse algo fala, nem que seja pelas plantas ou pelo ar (como no conto tradicional da enteada morta pela madrasta e enterrada sob uma árvore que pelo vento nas folhas cicia seu nome), e pela palavra volta a se antropomorfizar. Será ouvido? No que diz respeito aos torturadores, estes aprenderam a conviver com suas próprias assombrações, devem ouvi-las, mas seguem a vida ainda que meio mortos.

A separação rigorosa entre morte e vida pode parecer formal quando se trata de desaparecidos (políticos ou não), na vida de exceção dos guetos, comunidades e periferias, ou sob regimes políticos que a generalizam– essa é uma verdade a aprender com o filme Los silencios, de Beatriz Seigner, em que refugiados colombianos carregam seus desaparecidos para uma zona de fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru. A única ligação que ainda têm com o mundo de onde fugiram é dada pela expectativa de achar os restos mortais. Só assim todos, desaparecidos e familiares, poderão buscar desaparecer em paz e além do alcance letal de quem os oprimiu, deixando definitivamente seus domínios. Os parentes e amigos se querem restituir as ossadas ou obter justiça não o fazem para assentar a alma no mesmo mundo, mas para começar uma fuga, e estão juntos, nadando ou remando à noite, para fora da visão que mata até onde ela abrange. Submergem unidos, morrem para certo mundo, tornam-se invisíveis para em outro lugar fazer a vida viver. Mas em certa altura do filme vemos que pode estar ameaçado mesmo o lado para onde escaparam, mesmo o pouso dos fantasmas, que cercam os parentes que os procuram ou já deixaram de procurar, pois na ilha fronteiriça e quase espectral avança a especulação imobiliária para a provável construção de um resort.

Talvez não haja mais terra onde se possa repousar (como aprenderam os refugiados sírios) e onde quer que parem ou sejam aceitos será uma prisão, como as ilhas em que esses mesmos refugiados foram detidos. Descansar seja no sentido dos vivos, seja no sentido dos mortos – que no entanto são por esse verbo considerados em atividade porque se projeta neles o prazer de largar o corpo, assim como o de cessar o trabalho e o desejo sempre insatisfeito. Requiescat in pace, mas não será hoje. Não é mais factível a construção de um mundo novo, como a Terra Prometida ou a América para os religiosos ingleses em fuga. Ao contrário, só na fuga permanente se conserva alguma vitalidade, como era o caso do judeu errante, impedido de ter veleidade de terra e nação e por isso fora obrigado às abstrações do pensamento e da interpretação e à volatilidade do comércio. “Ser judeu é ter uma mala pronta e a cultura dentro de si”, disse certa vez George Steiner, formulando como que um imperativo categórico moral próprio para os de sua condição no passado, que vem a ser a de quase todos agora.

O número hoje de refugiados no mundo sugere que vida e terra firme não se implicam mutuamente. Ou desaparecem, primeiro no mapa e depois em carne e osso – como se projetou em Bacurau, que deixa de existir porque não existiriam mais os que a habitavam, mas decerto o sítio voltaria a ter representação cartográfica sob outro nome e o domínio de outra classe – ou estejam preparadas para um desterro sem fim. A verdade não vai estar com os sedentários, mas com os sem-terra universais, os que não têm onde cair mortos nem vivos, zanzam em toda parte e assombram, formando todo o som ao redor. No filme (ou nos filmes) de Kleber Mendonça, no entanto, os moradores batem o pé para ficar no que é seu e o fazem com as armas, e em Los silencios por tentativas de diálogo com os invasores, cujo assédio está apenas começando. Ambas as formas de enfrentamento se sucederam na resistência dos camponeses em Trombas e Formoso, em Goiás, no início dos anos 50 da década passada, e antes mesmo que as Ligas Camponesas indicassem que surgiam no campo novos sujeitos políticos. Agricultores migrados do Nordeste para o sudeste de Goiás instalaram-se na região relativamente próxima de onde seria construída a nova capital federal e na qual, além de latifundiários e políticos locais, empresas americanas também tinham interesse:

“Eles não sabiam, mas estavam entrando num território de conflitos potenciais, já com alta incidência de grilagem de terras, falsificações de documentos de propriedade e especulação imobiliária. Os migrantes transformaram-se em posseiros. Os grileiros tentaram convencê-los a assinar contratos de arrendamento, o que viabilizaria posteriores expulsões por via judicial. Os posseiros se recusaram, o que deu início à violência. A repercussão do caso levou à região uns poucos militantes do Partido Comunista, que ensinaram aos camponeses modos de organização e resistência. Em Trombas, os posseiros rapidamente se organizaram em conselhos políticos, os chamados ‘conselhos de córrego’ e organizaram grupos armados de autodefesa. De certo modo, constituíram um território autônomo, no qual não se podia entrar e do qual não se podia sair sem salvo-conduto. Nos jornais, mas aparentemente também nos meios militares, começaram a circular notícias sobre a chamada ‘República Socialista de Trombas’, que, aliás, seria militarmente ocupada apenas no início dos anos 1970, seis anos depois do golpe de Estado. Portanto, durante cerca de vinte anos os camponeses de Trombas estiveram politicamente organizados num território próprio, imune ao poder do Estado. Tratava-se da tática política usada na Guerra da Coreia, da mesma época que foi a de conquistar e liberar territórios, ali instituindo a presença organizada de camponeses armadosi“.

Com a espécie de república originada da Revolta de Trombas e Formoso, em que as mulheres não raro se armavam e substituíam os homens nos piquetes e postos de vigilânciaii, tivemos algo muito próximo do que seria a partir de 1994 o autogoverno zapatista em Chiapas, no México, mas mal o lembramos — apesar de ter resistido quase duas décadas antes de sua diáspora –, talvez porque se suspeite que esses revoltosos, como a cobra de Chico Alvim, possam picar mais forte mesmo depois de mortos.

iJosé de Souza Martins, A política do Brasil lúmpen e místico, São Paulo, Contexto, 2011, p.110. Quanto à memória da lutas camponesas em Bacurau, leia-se, de Pádua Fernandes, “O filme Bacurau e a memória como arma” (disponível em http://opalcoeomundo.blogspot.com/, 2//09/2019).

ii“A Revolta Camponesa de Trombas e Formoso e a contribuição da teoria anarquista”, Leon Martins Carriconde Azevedo (cf. Portal de Periódicos, Em Debate: Rev. Dig Florianópolis, n. 11, p. 68-89, jan-jun, 2014).

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