Teatro Commune: a rebeldia de manter-se aberto

Companhia paulistana completa 15 anos e, em 17/10, lança livro sobre sua trajetória. Mesmo sob o desmonte das políticas culturais, mantém viva proposta independente e combativa que, inclusive, já formou mais de 1500 jovens das periferias

O Arlecchino Teatro Commune – Foto Augusto Paiva

Lançamento do livro Commune: 15 anos 
17 de outubro, às 20h, no Teatro Commune: Rua da Consolação, 1218 (ao lado do metrô Higienópolis – Mackenzie – Linha 4 – Amarela), com estacionamento ao lado.
Entrada gratuita. Mais informações: (11) 3476-0792
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“Uma loucura”, resume Augusto Marin, diretor da companhia de teatro Commune, que completa 15 anos de existência, quando inquerido sobre os percalços de produzir cultura no país. “Uma aventura quixotesca. Uma roda-viva”, completa.

Marin explica que, sem apoio do setor privado nem sólidas políticas públicas para o setor, o resultado é, inequivocamente, a instabilidade de iniciativas culturais, principalmente das similares a Commune: independentes, formadoras e inclusivas. Tarefas simples como pagar aluguel e manutenção da companhia, nesse contexto, transformam-se uma odisseia. “Em alguns momentos podíamos respirar, contando com projetos que nos permitiam subsistir, leis de fomento, premiações e alguns editais. Mas, nesses 15 anos, sempre estivemos em penúria e sob ameaça de fechamento”, conta o diretor da companhia. “Dá uma pena porque é um sonho, realizamos um trabalho conceituado, mas o momento que o país enfrenta é tão ruim, difícil e complicado. E, também, sobreviver no cenário cultural nunca foi fácil para ninguém, mas estamos enfrentando uma tempestade que não sabemos, ao certo, quando vai passar”.

Porém, enquanto as tormentas não cessam, a companhia mantém suas portas abertas em resistência, aproveitando para celebrar sua trajetória com o lançamento do livro Commune: 15 Anos, no dia 17 de outubro, às 20h, no Teatro Commune. Haverá uma cerimônia com coquetel, exposição de fotos na galeria do espaço, exibição de vídeos e um bate-papo com Augusto Marin e Michelle Gabriel, cofundadora da trupe, e outros convidados, entre eles, Célio Turino (idealizador dos Pontos de Cultura), Esther Góes (premiada atriz), André Sturm (ex-secretário da Cultura da cidade de São Paulo) e, inclusive, o editor de Outras Palavras, Antonio Martins.

A publicação registra o processo de criação, pesquisa e formação da companhia, contando histórias como a da construção do teatro em um terreno abandonado na rua da Consolação; a criação do centro de aprimoramento da Funarte (CAT) para jovens artistas, o programa Escola na Cena para a formação de jovens espectadores na era digital, a criação da REDE de Teatros e Produtores Independentes e uma retrospectiva — incluindo engraçados causos de camarim — dos espetáculos apresentados pelo grupo. O livro, patrocinado pelo Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo, tem tiragem de 500 exemplares e será distribuído gratuitamente e enviado para bibliotecas públicas, escolas de teatro, teatros, pontos de cultura e outros espaços culturais.

Juventude no teatro

Uma das iniciativas mais instigantes da Commune, também relatada no livro, é o Projeto Teatro Cidadão, surgido em 2005 e que conta com financiamento do Ministério da Cultura do Brasil (MinC) via Ponto de Cultura. Atendendo jovens em situação de vulnerabilidade social, fornece ajuda de custo com transporte e alimentação e ministra aulas sobre o universo cênico, com técnicas de atuação e noções de cenografia, figurino, sonoplastia e iluminação, produção e técnicas de palco. Ao final, os participantes do programa, juntamente com um diretor profissional, montam um espetáculo para curta temporada.

Ao todo, foram mais de 1500 jovens formados pelo programa, vindos de diversas regiões de São Paulo, principalmente de bairros da periferia da cidade. Muitos deles, hoje seguem carreira como atores, músicos ou técnicos, seja no Commune ou em outras companhias.

Foto Formação de Espectadores – Bianca Vasconcelos

Portas abertas em resistência

Fundada em 2003, a Commune é formada por artistas produtores que criam espetáculos a partir da pesquisa sobre a comédia física e visual, investigando os cruzamentos e as sobreposições entre a tradição renascentista da Commedia Dell’Arte e os matizes e personagens do teatro popular brasileiro – o que, segundo Marin, “coloca em prática um diálogo entre o saber erudito e o saber popular, na qual a poética resulta de um olhar crítico sobre a realidade”. O nome da companhia surge em referência ao grupo La Comune, fundado por Dario Fo nos anos 1970, em Milão, Itália, que criava peças de teatro denúncia – e, também, pelo desejo dos fundadores em desenvolver um projeto comunitário, que verse sobre os problemas e as pessoas comuns.

“Ao longo de 15 anos de trajetória, a Commune tornou-se um importante núcleo de pesquisa, produção, formação e intercambio teatral na cidade de São Paulo, com foco na linguagem das máscaras, na formação de jovens espectadores, no uso da improvisação, na comicidade física e na montagem e adaptação de obras clássicas”, explica Marin.

Considerada patrimônio imaterial de São Paulo, desde 2015, pelo Conpresp, a companhia sempre apostou nas trocas de experiências e residências com artistas internacionais, já recebendo personalidades como Enrico Bonavera (Itália), Donato Sartori (Itália), José Sanchis Sinisterra (Espanha), João Garcia Miguel (Portugal), Sonia Daniel (Argentina) e John Mowat (Inglaterra).

“O livro consagra nossa história, mas temos muitas questões ainda para resolver na prática, como evitar o fechamento de nossas portas. Estamos em uma grande batalha por novas parcerias, seja com grupos artistas ou de outras áreas como o jornalismo, o empresarial e ONGs. Estamos usando o espaço para cursos e formações e tentando editais, visando tentar mantê-lo em funcionamento. Nossa ideia é fazer circular mais gente por aqui, trazer outros públicos e chamar a atenção da comunidade, não só a teatral, para a importância do nosso projeto”.

O Mentiroso de Goldoni, Commune, 2011. Foto Fernanda Zaborowsky

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