Cinema: Mulheres no front

Em Filhas do sol, de Eva Husson, mulheres curdas lutam para recuperar suas aldeias, invadidas pelo Estado Islâmico. Crueza da história impacta e merece ser conhecida, apesar de filmada de modo convencional

Por José Geraldo Couto, editor do Blog do Cinema

Nos conflitos de motivação étnica ou religiosa, a mulher é invariavelmente a primeira e maior vítima. Dos pogroms na Rússia do século 19 aos ataques do Estado Islâmico em nossos dias, sem querer remontar às guerras de conquista ibérica na América, elas foram estupradas, sequestradas, escravizadas, usadas como moeda de troca. Às vezes elas revidam, como mostra Filhas do sol, produção franco-belga-suíça dirigida pela francesa Eva Husson, em torno de uma brigada de mulheres curdas que tenta retomar suas aldeias invadidas e massacradas pelo ISIS em 2014, no Curdistão iraquiano. 

O maior interesse do filme está justamente em revelar essa realidade pouco conhecida, de mulheres endurecidas que reagem pelas armas contra a dor e a opressão numa sociedade dominada pelo macho fanatizado. Falado em quatro línguas – francês, curdo, árabe e inglês –, Filhas do sol concentra sua narrativa em duas mulheres, a repórter de guerra francesa Mathilde (Emmanuelle Bercot) e, principalmente, a comandante de brigada Bahar (Golshifteh Farahani, de Paterson), curda que fugiu do cativeiro e se empenha em voltar a sua aldeia e reencontrar o filho.

“Bela guerreira”

Há um certo desequilíbrio nesse duplo foco: embora comece e termine adotando o ponto de vista de Mathilde (como forma, talvez, de facilitar a comunicação com o público ocidental), é nos pensamentos e sentimentos de Bahar que o filme mergulha, com direito a longos flashbacks, sonhos e devaneios que nos induzem à identificação com a personagem. Aliás, cabe questionar talvez a necessidade de ter como protagonista uma figura que corresponde tão confortavelmente ao estereótipo da “bela guerreira”, reproduzindo uma facilitação praticada pelo cinema ocidental desde sempre.

Os combates propriamente ditos são filmados de modo convencional, alternando a câmera na mão que simula o registro documental com um campo/contracampo criador de suspense inflado pela música. Uma exceção notável é o avanço das mulheres por um túnel labiríntico em que uma mina terrestre pode explodir a qualquer momento. A iluminação oscilante propiciada pelas lanternas dos próprios fuzis produz uma atmosfera fantasmagórica e ameaçadora.

Igualmente eficaz é o aproveitamento da paisagem árida e montanhosa da região, tanto nos planos abertos como nas onipresentes nuvens de poeira, areia e fumaça que turvam a visão, instaurando um quadro atemporal de fim de mundo.

Força do feminino

Uma particularidade interessante, que só está presente nos letreiros iniciais: esse massacre específico empreendido pelo Estado Islâmico tinha como alvo principal a minoria yazidi, uma comunidade étnico-religiosa curda que pratica uma religião sincrética herdeira do zoroastrismo e de outras seitas mesopotâmicas.

Outro detalhe, este sim inserido na narrativa, é que, para os fundamentalistas do ISIS, um homem morto em combate por uma mulher não vai para o paraíso. Dessa suposta inferioridade as combatentes fazem sua força. Seu lema é “Mulheres, vida, liberdade”. Como discordar?

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