Brasil em Transe, um grito que atravessa o oceano

Em meio aos retrocessos de Bolsonaro, artistas plásticos brasileiros expõem, em Paris, obras que tratam desde a cultura popular aos ataques ao meio ambiente e massacre da população negra. Afirmam: resistência também se faz pela arte

Por Rôney Rodrigues | Imagem: Mazé Leite

Brasil em Transe – Pinturas a óleo
Curadoria de Mazé Leite
Abertura da exposição: 4 de outubro, às 19h (horário de Paris). Encerramento: 20 de outubro
Na Galeria Art & Société (19 rue du Pont Louis Philippe 75004 / Paris, França). Entrada gratuita. Acompanhe o site e as redes sociais.

De 4 a 20 de outubro, chega a Paris, na França, a exposição Brasil em Transe – pinturas a óleo. São 12 artistas brasileiros que, em tempos de cortes e censura do governo Bolsonaro às artes, somam esforços e recursos para expor na Galeria Art & Societé, reconhecida por receber artistas contemporâneos de diversos lugares do mundo. Expõem obras que abordam a conturbada política no Brasil e as formas de resistência popular à extrema-direita.

O evento, que mostrará o transe vivido no país, é resultado da curadoria e planejamento de Mazé Leite, artista e professora no Ateliê Contraponto, em São Paulo, grande entusiasta da arte figurativa no Brasil.

“O conjunto das 33 obras reunidas numa galeria em Paris, por si só já é uma espécie de Manifesto”, conta a artista. “É nosso modo de mostrar o quanto estamos incomodados, como pessoas e como artistas, com o retorno da censura, com a pregação conservadora e ultradireitista dos atuais governantes, que ameaçam as nossas vidas e têm sido cada vez mais letais para o povo das periferias, principalmente os negros”.

Há uma riquíssima variedade de abordagens: pinturas que vão desde momentos que representam a cultura brasileira até temáticas mais políticas, como o drama da população de Minas Gerais causado pelo rompimento de barragens, o genocídio da juventude negra, os preconceitos sofridos pela população LGBTI e a liberação de agrotóxicos mortais em nossa agricultura.

A exposição também conta com obras mais pessoais, retratando como parte da população tenta enfrentar os retrocessos, o que gera temores e ameaça as conquistas sociais, econômicas e culturais. Porém, acrescenta a curadora, além de retratar essas barreiras e dores, as obras buscam reforçar que, nesse transe brasileiro, há artistas que resistem e, ao pintar, transformam seus medos em arte. Com suas próprias cores, mostram a beleza e riqueza do país.

“Estamos em transe, somos Bacurau, numa referência ao grande filme de Kleber Mendonça e Juliano Dornelles. Por isso, como diz o personagem deste filme, nós também, que estamos expondo na Galerie Art & Societé, ‘estamos sob o efeito de um poderoso psicotrópico’ de criatividade e fé em um outro Brasil”, destaca ela.

De acordo com ela, o mercado das artes plásticas, nas últimas décadas, movimentou bilhões de dólares em casas de leilões, em um sistema que inclui galeristas, marchands e operadores de Bolsas de Valores, muitas vezes usado para lavagem de dinheiro. A exposição, no entanto, visa mostrar que artistas e galerias independentes podem se organizar e conseguir espaços de projeção para a arte brasileira, até mesmo fora do país.

A efervescência da arte figurativa

Os trabalhos selecionados para a exposição seguem um conceito fundamental, o da luz, e seus efeitos sobre a realidade observada. Ao usar “a luz, mais abstrata que a matéria, para ir além do superficial”, segundo a curadora, os trabalhos seguem a tendência da arte figurativa, que retoma fôlego no país, mas já muito praticada em diversos países, com destaque para os EUA com artistas como David Leffel, Sherrie McGraw, Burton Silverman. 

“A busca pela representação do Real, ao longo de toda a história da arte, tem sido permanente”, explica Mazé Leite. “Na verdade, mesmo no período de maior domínio da arte abstrata e conceitual, mesmo assim inúmeros artistas ao redor do mundo, em especial nos Estados Unidos, jamais abandonaram a pintura realista. Mas de algumas décadas para cá, novamente ela vem retomando fôlego, um pouco pelo esgotamento da arte da academia e do establishment que inclui o mercado, a conceitual”.

A pintura figurativa tem o mesmo tempo histórico que a própria história da arte, lembra a artista. “Num certo sentido, abandonada durante algumas décadas do século XX por uma grande parte de artistas, volta a atrair a atenção de inúmeros pintores, jovens ou experientes”, analisa ela. Em São Paulo, nos últimos dez anos, diversos novos ateliês foram formados e são procurados por pessoas interessadas em aprender desenho e pintura figurativos, como o Ateliê Contraponto de Arte Figurativa, fundado em 2014.

Mazé Leite é artista plástica, professora e fundadora do Ateliê Contraponto de Arte Figurativa. Bacharel em Letras pela Universidade de São Paulo e pesquisadora em História da Arte, sua formação em desenho e pintura a óleo vem sendo realizada em diversas escolas e ateliês do Brasil e do exterior, desde 1980. Autora do livro As Artes Plásticas na Formação do Professor – uma perspectiva interdisciplinar (Editora Plêiade, 2012), Mazé também mantém desde 2010 o blog “Arte & Ofício” (www.artemazeh.blogspot.com.br).

A exposição “Brasil em Transe – pinturas a óleo” contará com as pinturas de Ana Maria de Sousa Pereira, Ana Suitsu, Carlos Alberto Tozzi, Guilherme Martinez, Luciana Fortes Balam, Mazé Leite, Nathalia Lopes, Roque Magalhães, Rubi Conde Ferreira, Sarah Hounsell, Taïs Isensee e Virgínia de Morais.

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