Cinema: O novo velho oeste pelo avesso

No streaming, dois filmes revisitam os westerns pela poesia e política. Um desfaz fronteiras entre o “civilizado da cidade” e o “macho cowboy”. O outro, estrelado por negros, propõe saquear a memória branca e colonial, ao som de jazz e raps

Por José Geraldo Couto, no Blog do Cinema do Instituto Moreira Salles

Ataque dos cães, de Jane Campion, que está estreando na Netflix, é um ponto alto no processo de releituras poéticas e políticas que o gênero western vem recebendo nos últimos anos. O fato de ser dirigido por uma mulher, ainda por cima neozelandesa, corrobora a ideia de que é a partir das bordas que essa mitologia fundadora da cultura mainstream norte-americana vem sendo questionada mais agudamente.

Igualmente significativa é a emergência de um filme como Vingança & castigo, também disponível na Netflix. Seu diretor, o cantor, compositor e produtor musical negro inglês Jeymes Samuel, é mais conhecido pelo pseudônimo The Bullitts. Vingança & castigo, seu segundo longa-metragem, é um faroeste com elenco quase exclusivamente negro. O velho oeste, como se vê, não é mais feudo de homens brancos cis, para usar a linguagem corrente.

Mas vamos aos filmes. Inspirado em romance de Thomas Savage, Ataque dos cães ganhou uma porção de prêmios mundo afora, incluindo o de melhor direção em Veneza. É, de fato, um belo filme. Narra, em linhas gerais, o drama de uma viúva, Rose Gordon (Kirsten Dunst), que se casa com o criador de gado George Burbank (Jesse Plemons) e vai morar com ele em sua fazenda, nos confins desérticos de Montana. O ano é 1925.

Desde o início, o problema de Rose é com o cunhado, Phil Burbank (Benedict Cumberbatch), um homem rude que comanda a fazenda segundo as regras tradicionais do velho oeste e a vê como uma arrivista. Um ponto de atrito que parece irremediável é a presença ocasional do filho de Rose, Peter (Kodi Smit-McPhee), estudante de medicina de modos delicados.

Eis o conflito dramático central: a presença de Peter, motivo de chacota entre vaqueiros e peões da fazenda, por vias tortas acaba por perturbar e colocar em xeque toda aquela escola de macheza. Mas não vamos nos adiantar. O importante é que Jane Campion desenvolve esse drama com segurança e sutileza, como quem desdobra aos poucos uma tapeçaria, revelando novos detalhes e fazendo o espectador repensar o que foi visto antes.


Selvagem por opção

Para começar, a contraposição entre os irmãos, que inicialmente parecia um tanto esquemática (George, o civilizado; Phil, o bruto), adquire matizes surpreendentes: a certa altura ficamos sabendo que George não conseguiu entrar na faculdade e que Phil formou-se em filologia em Yale. (“Para xingar as vacas e cavalos em grego ou latim”, graceja o governador do estado num jantar.) A opção de Phil pela vida selvagem tem, portanto, raízes mais obscuras do que uma suposta insuficiência cognitiva ou intelectual. Do mesmo modo, o delicado Peter não hesita em desventrar um coelho para estudar sua anatomia.

O apuro estético com que Jane Campion filma a magnífica paisagem de Montana, com as montanhas nuas recortadas ao fundo, bem como as cenas noturnas internas, com uma iluminação digna de pintura barroca, beira o excessivo, como se a beleza plástica ameaçasse se sobrepor ao drama narrado. Mas, de algum modo, o foco acaba sempre voltando para os personagens e seus dilemas, revelados em pequenos detalhes.

A atenção aos detalhes poéticos e significativos é, aliás, uma das virtudes da diretora: gotas de sangue num ramo de flores silvestres, o dedilhar nos dentes de um pente, o monograma revelador num lenço puído. Do close extremo ao enquadramento mais amplo, Jane Campion domina com segurança as transições e impõe um ritmo envolvente ao seu relato.

Numa sociedade que se modernizava e urbanizava, questões como o lugar da mulher, as relações com os indígenas e o papel do conhecimento científico são abordadas de modo lateral, mas incisivo. O que é central é a ideia de que por trás de toda macheza ostensiva palpita uma sexualidade mal resolvida.

Vingança & castigo

O curioso em Vingaça & castigo é que não se trata propriamente de uma abordagem do conflito racial no velho oeste, como se poderia esperar de um filme concebido, dirigido e protagonizado por negros.

À parte uma sequência dedicada ao assalto a um banco numa cidade de população branca, quase um interlúdio cômico, quase não há referência ao racismo ou à opressão racial no filme, que narra basicamente conflitos entre bandoleiros negros. No entanto, é uma obra de vigorosa afirmação política e cultural afro-americana. Como se dá isso?

Por uma operação dupla. Por um lado, Vingança & castigo se apropria antropofagicamente da tradição e dos códigos do western por várias vias. Canibaliza a encenação operística de Sergio Leone (que por sua vez já era uma reinterpretação do gênero), a violência explícita de Sam Peckinpah, os malabarismos circenses do faroeste espaguete, o humor sádico de Tarantino, etc.

Por outro lado, ou de modo complementar, Jeymes Samuel atualiza vertiginosamente temas, personagens e situações característicos do western dando-lhes uma roupagem de cultura negra pop contemporânea. Não só na trilha musical saborosamente anacrônica de black music, que vai do blues ao hip hop, passando pelo reggae e pelo jazz. Também no linguajar, nos trejeitos e no comportamento os personagens do filme parecem saídos de um videoclipe atual. Tirando a paisagem, poderia ser um filme de gangues negras de hoje.


O branco e as cores

Mas tirar a paisagem seria fatal, pois um dos encantos de Vingança & castigo é justamente sua cenografia. Ao contrário da white city, em que tudo é branco, das paredes aos cavalos, das roupas às carroças, as cidades “negras” são feéricas e multicoloridas, quase como num parque de diversões.

Se Ataque dos cães tenta nos apresentar um minucioso e escrupuloso realismo na reconstituição de época, Vingança & castigo nos brinda com um descarado irrealismo, como se declarasse que a memória histórica é um território a ser saqueado e remodelado a nosso bel-prazer. A “terra dos livres e lar dos bravos”, cantada no hino norte-americano e em grande parte inserida no imaginário mundial pelo gênero western, é invadida e reconfigurada pelo vigor da cultura negra de nossa época. Se “toda história é história contemporânea”, como dizia Benedetto Croce, por que a do velho oeste não haveria de ser? O passado é um eterno campo de batalha.

Uma última curiosidade: para quem não sabe, Jeymes Samuel, The Bullitt, é irmão do cantor e músico Seal (Henry Olusegun Adeola Samuel). Ambos são filhos da nigeriana Adebisi Ogundeji e do brasileiro Francis Samuel. Mundo pequeno.

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