Ensaio: O bolsonarismo e as subjetividades tóxicas

Presidente move-se pelas lógicas do capitalismo farmacopornô. Mobiliza desejos e afetos em jogo de excitação-frustração, sob um coquetel político. Viagra, para ilusões de “imbrochável” governo, e cloroquina, para capitalizar fé e negação

Imagem: Adams Carvalho/Folha de SP

PÍLULA I: BOLSONARISMO FARMACOPORNOGRÁFICO

Existem múltiplas formas de se pensar uma guinada à ultradireita no Brasil após o ciclo progressista latino-americano. Essa guinada que teve o seu cume com a vitória de Jair Bolsonaro a presidência do Brasil e o fenômeno do bolsonarismo. Uma das chaves teóricas para se pensar a tragédia brasileira, a sua virada para uma feição fascista, é compreender o que se chama de Bancada BBB: a bala, o boi e a bíblia. Trata-se da bancada da bala, a bancada ruralista e, por último, a bancada evangélica. Todos esses elementos nos dão a possibilidade de pensar a relação da família Bolsonaro com a lógica das milícias do Rio de Janeiro, a sua atitude sempre violenta e um discurso anticorrupção hipócrita; a tragédia humana e ecológica com relação a bancada do boi e, também, uma fé totalmente desvirtuada e armada com o gospel da prosperidade e sua produção de um empresário de si religioso. Porém, pensamos o bolsonarismo n’outra tônica. Trata-se de compreendê-lo via fármacos. Trata-se de compreendê-lo via Viagra. Trata-se de compreendê-lo via Cloroquina. Trata-se de compreender a produção de tóxico-subjetividades.

Para pensarmos o bolsonarismo como uma produção em série de sujeitos Viagra e Cloroquina primeiro se pensa a era farmacopornográfia. A farmacopornografia é constituído pela junção da palavra fármaco, que nos remete a processos de governo biomolecular e a palavra pornografia com sua força visual e semiótica. A noção de fármaco tem como o seu paradigma a Pílula, posto que ela representa toda uma mudança no desenvolvimento farmacêutico. A noção de pornografia tem como paradigma a revista masculina Playboy, fundada por Hugh Hefner em 1953. A pornografia se refere a uma tecnologia visual dominante que controla o corpo e a reação sexual. Essa tecnologia visual dominante perpassa a própria indústria farmacêutica no momento em que ela transforma, por exemplo, ereção em Viagra, depressão em Prozac e masculinidade em Testosterona.

A sociedade contemporânea é caracterizada como farmacopornográfica, onde a produção da subjetividade perpassa tanto os elementos da indústria farmacêutica quanto um regime semiótico-pornô. Agora as subjetividades podem ser compreendidas como subjetividades toxicopornográficas, subjetividades formadas por substâncias (sujeito-Viagra, sujeito-Prozac, sujeito-Cocaína) que são inventadas pelo negócio farmacopornográfico e com possibilidade de uma reprodução global.

PÍLULA II:SUBJETIVIDADES TOXICOPORNOGRÁFICAS

O capitalismo farmacopornográfico teria o seu início na segunda metade do século 20, e não estaria no paradigma da produção como no fordismo. Quando se pensa no fordismo e a produção em série o que temos como antessala das máquinas são os matadouros e os corpos dos animais sendo dilacerados de forma serial. Este é o paradigma do fordismo: no matadouro o animal-máquina é desmontado em diversas partes, na linha de montagem o produto-máquina é fabricado.

Todavia, já não estamos no paradigma da produção, mas da invenção, do capital intelectual e da criatividade capitalística. Não se trata de produção de coisas, mas de produção de ideias, desejos, reações químicas e afetos. O biocapitalismo tem no seu bojo um programa farmacopornô, um farmacopornismo.

PÍLULA III: FARMACOPORNISMO

A noção de farmacopornismo vai nos remeter a uma determinada produção de subjetividade na era farmacopornográfica no período do pós-fordismo. Este farmacopornismo e sua nova economia se funda principalmente em dois pontos da farmacopornografia: 1) a indústria da Pílula e a produção de subjetividades toxicopornográficas; e 2) a lógica masturbatória pornográfica onde se tem a relação de excitação-frustração.

O que temos é uma grande produção de subjetividades tóxicas, mas seria necessário pensar que no Brasil existe uma particularidade no uso dos fármacos. Mesmo que a produção dos remédios seja global, a sua utilização e o seu entorno cultural são diferentes.

No Brasil o Viagra se relaciona com uma determinada forma de masculinidade, e a Cloroquina com uma determinada forma de religiosidade. Assim, no núcleo político do bolsonarismo encontramos o coquetel de Viagra (masculinidade) e Cloroquina (religiosidade) misturado com muito conservadorismo.

PÍLULA IV: SUBJETIVIDADES TÓXICAS: VIAGRA E CLOROQUINA

Quando pensamos o sujeito-Viagra no bolsonarismo se trata de ponderar a respeito da produção da masculinidade produzida via tecnologia performativa e usada como valor político. Em ambos os casos nada é compreendido como natural ou inato, mas como produção social e política. Em uma das falas de Jair Bolsonaro ele se coloca como “imbrochável” na política. Ironicamente, Thaís Oyama, no seu livro Tormenta aponta que Jair Bolsonaro usaria remédios para disfunção erétil.

Os fármacos tão utilizados nos filmes pornôs produziriam uma espécie de reafirmação química dessa ideia do imbrochável. Porém, trata-se sempre de uma performance ou um argumento político. Este sujeito-Viagra é um sujeito performático e químico, construção política e química da virilidade. Da mesma forma que uma drag queen se monta, Jair Bolsonaro e o bolsonarismo montam um conjunto de signos para dizer de uma determinada virilidade.

Então, o que significa ser imbrochável na política? Trata-se da afirmação da família nuclear brasileira como unidade primária do social. O pai com a força física e econômica e sua construção no espaço público. A mãe como o sexo frágil e o silêncio do espaço doméstico, ou ainda, do espaço da intimidade. O filho como imagem reprodutora do social, isto é, a reprodução do cidadão de bem e de direito.

Porém, é claro que essa virilidade bolsonarista não é somente fundada na tentativa de conservar uma família nuclear e patriarcal, ela diz respeito de uma virilidade miliciana da violência. Na virilidade miliciana o signo principal é a arma, o instrumento que iria proteger a família ou a comunidade de uma parte incivilizada: pobres, negros e “bandidos”. A construção da masculinidade bolsonarista tem como ideal o policial assassino miliciano que não seria visto como apenas mais um homicida, entretanto como um justiceiro que, por meio da violência extrema, iria trazer a ordem e a paz armada.

Não é necessário dizer que não protegem o núcleo familiar, mas, sobretudo, a si mesmo como uma mônada neoliberal armada. Não é necessário dizer que não é virilidade, mas pura violência policialesca. Não é necessário dizer que não evocam justiça, mas produzem uma série de táticas caça-níqueis que espoliam a vida e o corpo social. Não obstante, todos esses signos seriam sedutores num espaço social em que a política é desacreditada e parece restar relações sempre entre lobos.

***

Se o uso do Viagra como uma imagem da masculinidade no bolsonarismo nos joga diretamente na esfera da família nuclear e de uma fármaco-virilidade miliciana quando pensamos na utilização da Cloroquina e da produção do sujeito-Cloroquina não estamos num solo menos individualista e violento. Assim, é necessário compreender que o bolsonarismo é um neoliberalismo quando afirma a existência como uma mônada armada, o que existe não é o social, mas o individual. Na subjetivação neoliberal e, especialmente, uma subjetivação bolsonarista encontramos uma espécie de empresário de si religioso. Tem-se a junção da lógica empresarial e da teologia da prosperidade. É interessante que os dois elementos são compostos pela crença e a negação da racionalidade. O empresário de si está envolto ao pensamento positivo, o gospel do sucesso está envolto a . O duplo elemento da crença e da negação nos coloca diante do caso Cloroquina no momento pandêmico.

Jair Bolsonaro desde o início da pandemia usou uma espécie de política da ignorância, dito de outra forma, da produção de um governo sem governança. Em nenhum momento houve medidas para conter a pandemia, pelo contrário, a política da ignorância propagou desinformação como, por exemplo, os absurdos de tratar o coronavírus como uma “gripezinha” ou afirmar que a vacina poderia provocar HIV/Aids. Assim, governou-se sem governar no sentido de produzir um macabro neodarwinismo social religioso onde todos são expostos ao vírus e que sobreviveria o mais “apto” ou o que tiver maior fé.

Desta forma, a Cloroquina não é uma questão médica, trata-se de uma questão religiosa. O covid-19 se transformou numa batalha neodarwinista e uma batalha espiritual: o bem contra o mal, os pastores e os seus inimigos, o caubói e o incivilizado. Assim, não importa o composto da medicação, mas, sobretudo, de saber a intensidade alucinatória de sua fé. A fé que se reverbera na produção da saúde e da riqueza. A questão política e pública se transforma numa questão íntima, individual e sentimental. O núcleo do bolsonarismo pode ser compreendido como a produção dessas subjetividades tóxicas, sujeito-Cloroquina e sujeito-Viagra, religiosidade e violência, hóstia e armas, fé e virilidade, pastores e caubóis, devoção e crueldade, igrejas e milícias, fanatismo e ignorância.

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2 comentários para "Ensaio: O bolsonarismo e as subjetividades tóxicas"

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