O cinema no olho do furacão

No Festival de Brasília, às vésperas de eleições decisivas, torna-se quase impossível discernir política e arte, cinema e ação política

Ambientado na casa de fazenda de uma família gaúcha, em 1º de janeiro de 2003, “Domingo” aborda de maneira mais ou menos oblíqua a desestabilização do arranjo social que imperava até a eleição de Lula

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Por José Geraldo Couto

“Esse é tempo de partido,/ tempo de homens partidos.” Os versos de Drummond poderiam servir de epígrafe à 51ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o mais antigo do país, e o mais imbricado, desde suas origens, com as vicissitudes políticas nacionais. Nesse ambiente altamente inflamável, é difícil, para não dizer impossível, discernir política e arte, cinema e ação política.

Exemplo extremo dessa simbiose ou contaminação foi a sessão de sábado (15/9) à noite, a primeira da competição. O documentário Torre das donzelas, de Susanna Lira, colocou na tela – e no palco – um punhado de mulheres, hoje veneráveis senhoras, que estiveram presas na ala feminina do presídio Tiradentes, em São Paulo, durante a ditadura militar.

A presença, no espaço do cinema, daquelas sobreviventes da barbárie conferiu à sessão uma carga emotiva que dificilmente será igualada ao longo do festival. Os muitos minutos de ovação ao final dirigiam-se ao filme ou a elas? Impossível dizer. Para quem quiser ter uma ideia do clima da noite, aqui vai um vídeo da apresentação do filme no Cine Brasília:

Abalo do arranjo social

Já a noite de abertura do evento, sexta-feira, com a exibição hors concours do longa Domingo, de Clara Linhart e Fellipe Barbosa, deixou evidente a alta voltagem política desta edição. Ambientado na casa de fazenda de uma família gaúcha no dia 1º de janeiro de 2003, dia da posse do presidente Lula para o seu primeiro mandato, o filme aborda de maneira mais ou menos oblíqua a desestabilização do arranjo social que imperava até então.

Como nos longas anteriores de Barbosa (Casa grande e Gabriel e a montanha), opera-se uma desconstrução autocrítica de nossa elite dominante, com uma abordagem coral que remete ao Renoir de A regra do jogo, à Lucrecia Martel de O pântano e ao Robert Altman de Cerimônia de casamento. Um tour de force fascinante, ao qual retornaremos oportunamente.

Por recusar um final apoteótico, optando por um anticlímax que deixa tudo em aberto – e literalmente no escuro –, Domingo suscitou ao final aplausos respeitosos, mas não entusiásticos. Sinal de que a plateia estava ávida de catarse – e esta veio em dose generosa no dia seguinte, na exibição de Torre das donzelas.

Cenografia da memória

O documentário de Susanna Lira constrói um dispositivo narrativo engenhoso: a partir das lembranças, sempre parciais e às vezes contraditórias, das próprias ex-presas entrevistadas, criou-se um cenário que remete ao espaço da “torre”, que já não existe, pois foi demolida nos anos 1970. Elas se reúnem nessa “cenografia da memória” e vão reconstituindo na conversa como era seu dia a dia na prisão, que tinha seu lado terrível (de quando em quando uma era levada para sessões de tortura; volta e meia chegavam notícias de companheiros mortos etc.), mas tinha também a beleza e a alegria da solidariedade, do afeto compartilhado, do intercâmbio de conhecimento.

Paradoxalmente, mas não tanto, transparece por vezes nos relatos uma certa nostalgia daqueles tempos tão duros. Um humor desconcertante marca vários dos depoimentos, até mesmo os da supostamente carrancuda ex-presidente Dilma (“Todo dia tinha ginástica e trabalhos manuais; eu preferia jogar vôlei quinze dias seguidos a fazer trabalhos manuais.”), uma das “donzelas” presas na torre. O próprio apelido da prisão, dada pelo marido de uma das presas, é desconstruído ao final do documentário. “Não tinha nenhuma donzela ali”, brinca uma delas.

Se há algo que enfraquece um pouco a contundência desse belo filme, é a introdução de momentos de encenação do cotidiano prisional por jovens atrizes. Disse a diretora no debate pós-filme que sua intenção era mostrar a energia de corpos jovens interagindo naquele espaço de constrição. Mas talvez fosse mais eficaz deixar que a própria imaginação do espectador cumprisse essa tarefa, a partir das evocações tão vívida das mulheres.

Mas há momentos de uma extrema felicidade dramática e estética. Por exemplo, quando as ex-prisioneiras lembram que o grupo cantava para cada companheira que saía da cadeia, à maneira de despedida. Uma delas canta então, com voz afinadíssima, a pungente “Suíte dos pescadores”, de Dorival Caymmi, seguida depois pelo coro das outras, com o auxílio luxuoso de Alice Caymmi, neta do compositor. É uma encenação também, mas inteiramente justificável, um fecho perfeito para um belo filme, do qual é difícil sair com os olhos enxutos.

Os vivos e os mortos

Depois da apoteótica recepção a Torre das donzelas, seria de se esperar que o delicado Los silencios, de Beatriz Seigner, exibido quase em seguida, fosse prejudicado, dado o adiantado da hora e o esgotamento das emoções. Mas o filme é tão bonito e envolvente que conseguiu a proeza de cativar o público com sua história de refugiados na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru.

Fronteira, aliás, é a palavra que melhor define as várias dimensões de Los silencios. Há, claro, a fronteira física: a história se passa num lugar chamado Isla de la Fantasia, no rio Amazonas, que não pertence a nenhum dos três países limítrofes, e onde vive uma comunidade administrada por um “presidente”. Um lugar tão incrível que a diretora precisou explicar, no debate do dia seguinte, que ele existe mesmo, e exatamente com esse nome.

Mas há outras fronteiras mais sutis: entre os vivos e os mortos (que se misturam com os vivos na condição de fantasmas), entre a fala e o silêncio, entre o registro documental e o realismo fantástico. Com elenco composto por pessoas da região (a exceção é o brasileiro Enrique Diaz), o filme tira proveito estético e expressivo de características locais muito fortes: as cheias e vazantes do rio, a iluminação por lampiões e velas, o ruído ritmado de remos e canoas singrando as águas, o uso de cores fosforescentes em roupas e pinturas corporais. Uma cena em especial, um ritual de cremação dos mortos, com dezenas de canoas iluminadas por lamparinas, é de uma beleza inexcedível.

Falou-se, com razão, na proximidade desse filme tão profundamente latino-americano com o cinema do tailandês Apichatpong Weerasethakul, o do filipino Brillante Mendoza e o de tantos japoneses, em que os vivos interagem com os fantasmas dos mortos. Mas a maneira sutil e surpreendente como esse convívio se dá em Los silencios é única. Bem recebido na Quinzena dos Realizadores do festival de Cannes deste ano, o filme só deve entrar em cartaz no Brasil em janeiro do ano que vem, depois de cumprir uma maratona de festivais. Voltaremos então a falar sobre ele.

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