Em Benzinho, feminismo e amor sem pieguice

Karine Teles, corroteirista e atriz, vive o sucesso do filme que fez com filhos e ex-marido. Agora, finaliza o roteiro de “Machos”, sua primeira direção de longa-metragem

As irmãs Sonia (Adriana Esteves) e Irene (Karine Teles) na formatura de Irene no ensino médio

Por Inês Castilho | Imagens: Bianca Aun

Em tempos de violência sem limites, uma promessa de amor incondicional. E Benzinho, o filme, acerta em cheio o coração de plateias em todo o mundo. O título parece piegas, como a mãe que assim trata suas crias: bem, meu bem. Mas mal também: a mesma mulher que dá colo e alimenta, cura, sustenta – tem momentos de fúria, cansaço, dor. E alegria.

“Um amor sem pieguice, sem romantismo, com potência de enxergar o outro. O filme tem esse amor como resistência, paciência. É a força motriz da maioria das famílias”, diz a protagonista Karine Teles, atriz excepcional que encarna esse amor de mulher e é mãe verdadeira dos gêmeos – os menores dos quatro que tem no filme – e cujo pai é o diretor e ex-marido Gustavo Pizzi. Aos 40 anos, 25 de carreira mas só há sete vivendo de sua arte, ela finaliza agora um roteiro sobre os homens, sua estreia na direção. “A gente precisa falar de machismo, de feminismo, do retrocesso moral que está acontecendo no mundo inteiro. Mas é uma comédia”, ri.

Benzinho conta a história de duas irmãs: Irene (Karine Teles), quatro filhos tipo entre 4 a 17 anos e o marido amoroso, Klaus (Otávio Müller), que sonha ser provedor; e Sonia (Adriana Esteves), que ao ser agredida pelo marido sai de casa com o filho e pede abrigo na casa da irmã. Somam-se, assim, em torno dessas duas mulheres, cinco meninos e dois homens. Alan (o uruguaio Cesar Troncoso) é o agressor – e fala espanhol.

“Irene e Sonia estão cercadas de homens por todos os lados porque nós, mulheres estamos cercadas de homens por todos os lados”, observa Karine. “Aos poucos essa dinâmica está mudando, e em algumas “bolhas” já é possível ver uma diferença enorme. Homens participando ativamente das atividades até então restritas às mulheres na maioria das famílias. Sendo pais de fato (estando presentes na educação e convívio com os filhos) e sendo responsáveis também pelos cuidados com a casa onde moram” –.diz ela, em entrevista a Lígia Gabarra e Thiago Gallego.

Além de infinitos cuidados com a família – trabalho não remunerado de reprodução da vida sobre o qual se assenta o capitalismo, como bem explica a historiadora Silvia Federici – as duas irmãs batalham vendendo roupas e quentinhas pra ajudar em casa. O maior desejo de Irene é se formar no ensino médio e “ter um emprego fixo, ganhar um dinheirinho certo todo mês”. Emprego que busca numa confecção em vias de ser vendida para virar importadora de roupas da China – e onde as operárias são mulheres, mas o chefe é homem.

Karine, Gustavo e mais uma equipe afinada de trabalhadores do audiovisual construíram um filme bem cuidado em cada detalhe de som e imagem, diálogos, atuação. Criaram uma fita colorida, movimentada, em que uma casa vai ruindo enquanto outra é levantada em meio aos corres da vida, precária como ela é. Com imagens de rara afetividade – e beleza! – entre mãe e filhos.

Uma história aparentemente simples, que retrata uma mulher (na verdade duas) que é mãe, esposa e dona de casa de classe média baixa, e fala ao mesmo tempo de trabalho infantil, fuga de talentos esportivos pra Europa, desindustrialização do país. O disparador da narrativa é o convite ao filho primogênito, Fernando (o grego Konstantinos Sarris), para jogar handebol na Alemanha.

Por sua vez, o diretor e corroteirista Gustavo Pizzi conta que “a ideia do filme surgiu a partir do nascimento de Francisco e Arthur, meus filhos com Karine Teles. Tanto eu quanto Karine saímos muito cedo de casa e, tendo um mundo inteiro pela frente, nunca pensamos em como poderia ter sido essa mesma experiência do ponto de vista de nossos pais, e, em especial, para nossas mães. O nascimento dos meninos nos levou para mais perto do que elas viveram.”

REPERCUSSÃO

Benzinho foi lançado dia 23 de agosto em 41 salas de mais de 10 cidades (Brasília, Florianópolis, Fortaleza, Goiânia, Maceió, Niterói, Petrópolis, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador, Sao Paulo e Teresina). Na segunda semana, após a repercussão pelos prêmios recebidos no Festival de Gramado – melhor atriz para Karine e melhor atriz coadjuvante para Adriana Esteves; melhor filme do júri e melhor filme do júri popular – estreou em mais cinco (Aracaju, Manaus, Niterói, Palmas, São Luís) e continuou em cartaz nas demais. Parece muito, mas no mercado neoliberal é feroz a competição pelo olhar do espectador.

Gramado – RS 25/08/2018 – 46º Festival de Cinema de Gramado – Karine Telles, por “Benzinho” – Foto: Cleiton Thiele / Pressphoto

“A Vitrine é uma boa distribuidora, mas a gente precisa da força do boca a boca. Foi o boca a boca que fez Que horas ela volta? aumentar o número de salas na segunda semana” – diz a atriz, que fez a patroa de Regina Casé no filme de Anna Muylaert.

Para chegar aí, Benzinho – uma coprodução Brasil e Uruguai – percorreu uma longa estrada. A começar pelo projeto selecionado por La Fabrique des Cinemas du Monde, no Festival de Cannes de 2013, até a conquista do Ibermedia e outros programas de incentivo a filmes brasileiros e coproduções internacionais. E não para de conquistar plateias: abriu o Festival de Sundance nos EUA, participou do Festival de Cinema de Roterdã, foi eleito melhor longa-metragem ibero-americano no Festival de Cinema em Espanhol de Málaga, entre outros. Acabou comprado por 22 países, e concorre agora à representação do Brasil no Oscar, com resultado na próxima terça, 11.

“Está em cartaz na Espanha, em mais de 40 salas. Vai para México, Polônia, República Tcheca. Vai estrear na Ásia, passou pelo Uruguai. Ele se comunica com realidades diferentes de outros países, emociona além das fronteiras do Brasil”, diz Karine. De fato, terminado o filme, a plateia não se move na cadeira, olhos e ouvidos pregados na tela.

O próximo projeto da atriz é uma série sobre Hebe Camargo, em que faz Lolita Rodrigues. Ela acaba de contracenar com Sonia Braga em Bacurau, novo filme de Kleber Mendonça Filho. E seu novo projeto com Gustavo Pizzi, Os últimos dias de Gilda, vai estrear no Canal Brasil. “É a história de uma mulher que cria porcos e galinhas no quintal de casa para vender carne, ovos. Ela tem um comportamento bem livre… Mora sozinha, começa a ser recriminada pelos vizinhos. Tem uma coisa também de preconceito religioso, porque ela é praticante do candomblé.”

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também: