Cine Marrocos: Ocupação do cinema… e das telas

Sala histórica de SP é tema de documentário de Ricardo Calil. Nele, sem-teto recriam cenas de clássicos – em meio a ameaças de reintegração de posse. Um filme sobre o poder transformador do cinema, em confronto com a realidade bruta

Por José Geraldo Couto, no Blog do Cinema do Instituto Moreira Salles

Cine Marrocos, de Ricardo Calil, que estreia nos cinemas nesta quinta-feira (3 de junho), poderia ser apenas um documentário sobre o antigo Cine Marrocos, no centro de São Paulo, com ênfase em sua ocupação por trabalhadores sem-teto em 2013 e sua reintegração de posse pela prefeitura em 2016. Já seria uma obra útil e necessária. Mas um artifício aparentemente simples o transformou em algo muito maior: um filme sobre o poder mágico e transformador do cinema em confronto com a realidade bruta.

Esse artifício consistiu em mostrar para os ocupantes do prédio, nas ruínas da sala de exibição, um punhado de clássicos, e depois fazer com que alguns moradores reencenassem trechos marcantes dos mesmos filmes.

Real e imaginário

Desde o início o contraste está dado: imagens do prédio deteriorado atual se contrapõem a flashes de cinejornal que mostram astros como Errol Flynn e Joan Fontaine, cineastas como Abel Gance e Erich von Stroheim, chegando ao Marrocos para uma noite de gala de um festival internacional de cinema, em 1954.

A célebre cena final de Crepúsculo dos deuses (1950), de Billy Wilder, nos transporta imediatamente para a grandeza dessa arte que Gance chamou de “música da luz”, ao mesmo tempo em que introduz o tema da transcendência do real pela alquimia cinematográfica. A recriação desse momento emblemático por moradores será o desfecho perfeito do documentário. A alucinada Norma Desmond, de certo modo, somos todos nós.

A tessitura de Cine Marrocos se dá então em várias linhas: a história da ocupação propriamente dita, relatada por reportagens televisivas e pelo depoimento de um dos líderes dos sem-teto; as pungentes histórias de vida contadas por alguns moradores (boa parte deles imigrantes da África ou da América Latina); a preparação do elenco que vai atuar nas recriações, sob as instruções do ator Ivo Müller; e as cenas cinematográficas propriamente ditas, tanto as originais (de Bergman, Renoir, Wilder) como suas versões reencenadas, filmadas num preto e branco que mimetiza o dos clássicos em questão.

Reintegração de posse

Esse entrelaçamento de registros heterogêneos poderia apontar para uma falta de foco, um conjunto desconexo, mas o que ocorre é o contrário: uma coisa potencializa a outra, como se no duro dia a dia daquelas pessoas o cinema estivesse contido em potência. Bastou um gatilho, um rastilho, para que o imaginário tomasse conta do real. É como se os fantasmas de um século de cinema se apossassem de novo de um espaço que sempre foi seu, numa verdadeira reintegração de posse.

Claro que o filme seria desonesto se terminasse com um final feliz, alheio à história real do lugar e das pessoas que o habitavam. E o episódio foi rude: a prefeitura paulistana mandou a tropa de choque desocupar o prédio, e mais de trezentas famílias juntaram suas coisas e “foram pro meio da rua apreciar a reintegração”, conforme o célebre samba de Adoniran Barbosa declamado na calçada por um dos despejados.

Mas aí entra a sacada poética do filme: depois das cenas do despejo, relatadas cruamente num telejornal, vem o gran finale de Norma Desmond, reencarnada numa moradora do Marrocos, descendo a escadaria mourisca para o close-up do diretor De Mille/Ricardo Calil. Na vida real, o cinema perde. Mas no cinema a vida vence, ainda que irreal, onírica, ensandecida.

Cine Marrocos é uma celebração do cinema como espaço físico e como espaço imaginário. Remete, assim, a um ótimo documentário híbrido sobre ocupação de moradia, como Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé, mas também, e principalmente, a obras mais ambiciosas, sobre o trânsito de mão dupla entre o cinema mais sublime e as mais duras condições da existência humana.

Apropriação popular

Penso, por exemplo, em César deve morrer, dos irmãos Paolo e Vittorio Taviani, em que detentos de um presídio de segurança máxima encenam a tragédia Júlio César, de Shakespeare, ou em Salve o cinema, em que o cineasta iraniano Mohsen Makhmalbaf entrevista anônimos de todos os cantos de seu país para formar o elenco de seu filme seguinte. Ou ainda em Ladrões de cinema, de Fernando Coni Campos, em que marginais cariocas roubam o equipamento de uma equipe estrangeira que documentava o carnaval e resolvem fazer seu próprio filme. Em maior ou menor medida, são todos casos de uma apropriação popular das ferramentas do imaginário cinematográfico. E o resultado é, sempre, explosivo e transformador.

Vencedor do festival de documentários É Tudo Verdade, de São Paulo, Cine Marrocos foi premiado também nos festivais de Leipzig e Guadalajara.

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