Cinema: a epifania que vem das águas

Após 15 anos, uma sequência do festejado Árido movie, de Lírio Ferreira. Acqua movie retrata um Nordeste violentado pelas oligarquias, mas também vai além do mundo rude e reacionário: mostra a beleza da ancestralidade e dos afetos

Por José Geraldo Couto, no Blog do Cinema do Instituto Moreira Salles

Acqua movie, de Lírio Ferreira, mais do que uma mera continuação do longa-metragem Árido movie (2005) do mesmo diretor, é o seu reverso, como se os dois formassem um díptico, ou as duas faces da mesma medalha. O filme está entrando em cartaz nos cinemas nesta quinta-feira, 10 de junho.

Recapitulando: em Árido movie, Jonas (Guilherme Weber) era o urbano e cosmopolita “homem do tempo” de um telejornal que voltava à cidade onde nascera, no semiárido pernambucano, para o enterro do pai. Encontrava ali, além da permanente escassez de água, um mundo rude, reacionário e violento com o qual queria romper de vez.

Em Acqua movie, mais de uma década se passou e Jonas mora em São Paulo com o filho adolescente, Cícero (Antonio Haddad). A mãe de Cícero, Duda (Alessandra Negrini), está na Amazônia, filmando aldeias indígenas. Não será spoiler dizer aqui que Jonas morre logo nos primeiros minutos, fazendo com que Duda volte às pressas do mato para ficar com o filho.

Depois da cremação de Jonas, Cícero convence a mãe a ir com ele a Rocha, a cidade do pai, para enterrar ali as suas cinzas. Segundo ele, esse era o desejo expresso de Jonas. Ali o garoto conheceria a família do pai.

Essa viagem é o filme. Há, por um lado, uma tensão crescente entre a altiva Duda, defensora dos indígenas e da ecologia, e os parentes de Jonas e Cícero, oligarcas que dominam há séculos a região à base de corrupção e brutalidade. Múcio (o excelente Augusto Madeira), tio de Cícero, é agora o prefeito de Nova Rocha, cidade que surgiu depois que a velha Rocha foi inundada por uma represa.

No princípio era a água

Assim como a vida no planeta começou provavelmente na água, toda vida humana tem início no líquido amniótico. Significativamente, o pano de fundo imediato dessa história é o da transposição do São Francisco e da abertura de canais para levar água a regiões do agreste e do sertão.

A água, tema do filme desde o título e das primeiras imagens, é aqui signo da origem, do nascimento, da própria vida que flui. “Água que corre é água viva; represa é água morta”, diz um personagem. Ao mesmo tempo,  Acqua movie recicla o tema secular do “sertão que vai virar mar”. Analogamente, há os indígenas, os habitantes originários, que antecedem em séculos os europeus que aqui vieram instalar seu sistema de exploração.

Cícero vai ao Nordeste em busca das raízes do pai naquela terra seca, e acaba imergindo no elemento líquido como quem volta ao útero materno. Em vez de raiz, encontra a fonte. Nessa operação, todas as camadas do filme dialogam entre si: a política, a social, a afetiva. A cena central desse processo, verdadeiro momento epifânico, é o mergulho do garoto nas águas que inundaram a velha cidade de Rocha.

O irônico é que Cícero mergulha em busca do celular – objeto que concentra em si as noções de contemporâneo, imediato, descartável – e se depara com um mundo muito mais profundo e ancestral. É uma viagem iniciática e ao mesmo tempo uma volta ao princípio de tudo. Talvez não seja uma forçação de barra à la Damares ou Zezé Macedo notar que a forma ogival da igreja submersa em que o garoto penetra lembra a de uma vagina estilizada. Certamente a linda locação não foi escolhida por isso, mas, querendo ou não, as formas criam sentidos possíveis.

Barroco contido

O roteiro de Acqua movie, escrito pelo diretor em parceria com Paulo Caldas e Marcelo Gomes, recorre a uma astúcia interessante para fazer a ponte com Árido movie: a personagem Duda é claramente inspirada na da jornalista Soledad, vivida no primeiro filme por Giulia Gam, assim como o mameluco Zé Elétrico, que era encarnado por José Dumont, reaparece aqui como Zé Caboclo (Aury Porto).

No mais, há as já habituais participações afetivas no elenco, com os cineastas Edgar Navarro e Claudio Assis interpretando, respectivamente, um dono de bar e o governador de Pernambuco (numa piada interna para quem conhece o ingovernável Claudio Assis).

Tudo somado, Lírio Ferreira fez seu filme mais maduro, enxuto, superando uma certa dispersão de foco que se pode encontrar em trabalhos anteriores. Os primeiros dez minutos são um primor de concisão e de velocidade narrativa, com elipses precisas, sem deixar de atentar para as imagens poéticas (como a taturana que Cícero observa numa coroa de flores) e sem abrir mão de um certo gosto barroco pelos enquadramentos incomuns, pelas câmeras oblíquas, pelas imagens espelhadas, pelos quadros dentro do quadro. Não por acaso, um dos cineastas favoritos do diretor é Orson Welles.

Já o primeiro plano, depois do prólogo “aquático” narrado por um indígena em sua língua, é a imagem vista por um buraco de fechadura coberto por uma renda, sugerindo segredos a ser desvendados. Recusando quase sistematicamente o comodismo do campo/contracampo, Lírio busca sempre o ângulo original, a montagem inesperada. Essa inquietação aparece aqui contida, sem exibicionismo, orientada para o sentido emocional das cenas. O resultado é um grande filme.

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