Assim nasceu Pela Janela

O feminino. O trabalho e o desamparo. A viagem como forma de enxergar e transformar a si mesma. Diretora de filme brasileiro premiado em Roterdã conta o que a inspirou a escrever a história

A026

Por Caroline Leone

A primeira vontade de filmar o Pela Janela surgiu em uma viagem que fiz à Argentina, logo após o lançamento do meu curta Joyce. Era 2006, e eu, recém formada decidi fazer uma viagem pelo país. Viajar sempre foi um dos meus maiores prazeres, e sempre gostei muito de viajar solo.

Na volta peguei um ônibus de Buenos Aires até São Paulo. A viagem dura três dias, e ao meu lado sentou-se uma mulher que havia viajado com o marido, de carro, pra Buenos Aires. O marido era motorista, tinha conseguido um trabalho com uma família argentina pra levar o carro da família até uma fazenda nos arredores de Buenos Aires, e ela o acompanhou. Eles tinham por volta de 60, 70 anos. Ela tinha cabelos longos grisalhos, saia cinza, blusa de botão com flores bordadas. Não me lembro do nome deles, e nem de nenhuma informação especial, mas é só fechar o olho que consigo vê-los com a perfeição das memórias importantes. Ela começou me contando de sua vida em São Paulo, depois da viagem de carro e seus percalços, e finalmente dos dias que tinha ficado passeando sozinha em Buenos Aires, já que o marido tinha ficado trabalhando o tempo todo.

Ela nunca tinha saído de seu bairro em São Paulo, era uma mulher muito humilde, nunca tinha sequer imaginado poder fazer algo assim um dia, era uma costureira que tinha dedicado a vida aos filhos, ao marido e ao trabalho. Eu e ela passamos os três dias da viagem de ônibus conversando sobre a vida, sobre bobagens, sobre ser estrangeira e sobre esse enorme privilégio de poder viajar e ver a vida é a si mesma de fora. Me impressionou como com muito pouco nos ligamos tão fortemente, eu com uns 26 anos, e ela com quase 70, gerações de mulheres tão distantes não só pelo tempo, mas por toda a diferença social e cultural entre nós.

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Na volta da viagem escrevi sobre esse encontro e só alguns anos depois, em 2009 escrevi o primeiro tratamento do filme baseado nessas primeiras anotações.

Fiz a viagem de carro entre Buenos Aires e São Paulo três vezes, pesquisando locações, histórias, e escrevendo as cenas pros lugares que ia encontrando. Conheci muitos personagens do filme nessas viagens também. Aproveitava muito do que acontecia comigo nas viagens para desenvolver as cenas, e voltava com muito material para trabalhar. O filme foi crescendo e em 2011 fechei a primeira versão do roteiro. De 2011 até 2015 foram longos anos de espera pra captação, e uma época um tanto nebulosa pra mim por conta disso.

O filme renasceu quando conheci uma outra mulher que me inspirou e transformou ainda mais a história: Maria, chefe de produção de uma fábrica de reatores em Pirituba (que é a fábrica em que filmamos). Eu usava meu tempo livre para vivenciar a fábrica e a vida de Maria. Ela é uma mulher forte, independente, de 65 anos, uma vida de sobrevivência em São Paulo. Chegou a chefe de produção sem ter qualquer formação pro cargo, ela dizia ser a fábrica, ela se sentia a fábrica.

Re-escrevi então o roteiro, e ao ganharmos o primeiro edital de produção refiz mais duas vezes a viagem de carro com esses novos olhos. Pesquisei as músicas de fronteira, conheci as guarânias, Cascatinha e Inhana, me lembrava da mulher do ônibus que havia nascido nas plantações de café, e de como a vida dela e de Maria iam se cruzando com a minha, de como éramos muitas mulheres unidas por um certo fio de resistência.

Assim nasceu a história de Pela Janela. As filmagens só aconteceram em Outubro/Novembro de 2015, e a montagem terminou em Abril de 2016. 2016 foi mais um ano de espera para a captação de fundos de finalização, e o filme ficou realmente pronto só em Janeiro de 2017, um pouco antes da estréia em Rotterdam.

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3 comentários para "Assim nasceu Pela Janela"

  1. Ana Maria Matos de Sá disse:

    O cinema brasileiro agradece,bonito texto. espero que venha logo para Cps.

  2. Locelso disse:

    Mulher TRABALHADORA.
    CLASSE TRABALHADORA.
    Obrigada a vender sua força de trabalho para sobreviver.
    Explorada, pois produz as mercadorias que ela mesma não tem condições de consumir.
    Produz, com seu trabalho, o valor que circula na sociedade.
    Nada dessa porcaria de classe média de “empoderamento”, “lugar de fala”.
    Essa porcaria da esquerda Rede Globo.
    Aquela esquerda obscurantista que diz que apenas determinadas pessoas podem falar sobre determinados assuntos: o que vale não é O QUE se diz e sim QUEM DIZ O QUE.
    Um total retrocesso. Reabilitando a validade do argumento de autoridade.
    Não importam os argumentos e nem as evidências.
    Importa se quem diz algo passou por experiências subjetivas.
    Gostaria de fazer uma pergunta aos obscurantistas do “lugar de fala”.
    Caso você sofra de câncer de mama ou câncer de próstata, você realiza seu tratamento sob a supervisão de pessoas que passaram pela experiência subjetiva de ter sofrido de câncer de mama ou de próstata ou preferem fazer seu tratamento com especialistas em câncer de mama ou próstata, mesmo que nunca tenham sofrido com essas doenças??
    Já que o que vale é a experiência subjetiva para falar sobre algo, e não conhecimento teórico, argumentos e evidências, por que não o fazem?
    Claro que essa minha questão baseia-se no argumento de Sócrates sobre os especialistas em administração, mas não é disso que estou falando e sim em conhecimento sobre como funciona a realidade.
    Em relação a política, acho que todos tem o direito de participar da mesma, por mais mal informados que sejam.
    Mas voltando, a ciência moderna foi construída sobre uma base importantíssima: não importa quem argumenta sobre o quê. Importa o que se argumenta. Importa se o argumento apresentado se sustenta. Importa se, quando necessário, aquele que defende uma ideia é capaz de apresentar evidências que sustentem o que ele diz.
    Mas não… agora a esquerda obscurantista inventou que não. O que importa é quem argumenta. Claro que isso é falácia ad hominem. Falácia de apelo à autoridade.

  3. Locelso disse:

    E essa baboseira está calcada numa falácia ainda maior: a ideia de que para falar de algo, aquele que fala sobre tal assunto tem de ter passado por alguma experiência envolvendo aquilo do que ele fala
    Ora essa, um especialista em câncer de mama tem de ter sofrido de câncer de mama para falar sobre câncer de mama? Um especialista em Egito Antigo tem de ter visitado o Antigo Egito para falar sobre Egito Antigo? Eu poderia dar mais centenas de exemplos, mas só esses dois já bastam para mostrar o quanto essa mulher é cheia de mer**.
    É isso que dá.
    Quando a esquerda resolve abrir mão do debate e da razão em nome de teorias da moda.
    Sim, amigo que está lendo isso aqui, você tem o direito de falar sobre o que quiser sem pedir permissão ou se desculpar.
    Basta que utilize bons argumentos e mostre evidências que corroborem o que diz.
    Você é livre para expressar suas ideias desde que não violente a dignidade de indivíduos ou grupos sociais.
    Quem tenta podar esse direito só pode ser chamada por um nome: fascista

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