Assim Guimarães Rosa viu nossas águas e gente

Vaqueiros que atravessam o riachinho xexe; a imensidão do São Francisco; capim, buritis e codornas; brejos como imensas esponjas. Em 12 trechos com viés ecológico, o escritor mostra que o Sertão — e o mundo — têm unidade e conserto

Artigo publicado originalmente na revista Estudos Avançados, nº 69, 2010

Em matéria ambiental, o principal legado do século xx foi a poluição intensa e extensiva, que comprometeu irremediavelmente a paisagem, os recursos hídricos e a saúde das populações. É certo que houve o extraordinário avanço da cibernética, com o encurtamento das distâncias e a instantaneidade do acesso à informação. Essas conquistas se deram por conta de processos bipolares ao longo do tempo: guerra e paz; ditadura e democracia; crescimento econômico e desigualdade social; desenvolvimento e destruição do meio ambiente.

Já no século xxi, a julgar pela primeira década, o planeta torna-se perigoso; a destruição do ambiente parece coisa inevitável, apocalíptica. A velocidade da comunicação intensifica-se, mas a mensagem é concentrada em bordões e clichês monocórdicos, agoniados. É um vocabulário de poucas palavras e locuções: aquecimento global; efeito estufa; mudança climática; risco climático; sustentabilidade; desenvolvimento sustentável; economia de baixo carbono; sociedade de risco; governança; com certeza.

Parece que estamos num tablado e o que está em via de decisão é, de um lado, o destino da humanidade e, de outro, a transformação da Terra. Antes não havia essa apartação; os processos eram mediados por certa dose de dialética. Agora, é tudo ou nada; é o perigo e o medo. Não adianta buscar culpados: grupos econômicos predadores; manutenção de tecnologias obsoletas; relações de produção atrasadas; disputa pela água. Nada disso; todos somos culpados, com certeza.

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Nestes tempos de confusão e medo, convém recorrer a outros espíritos iluminados, para além dos cientistas do clima. Ao longo dos séculos, são os escritores os que melhor entendem os sinais dos tempos, as revoluções e a alma humana. No caso, a literatura de Guimarães Rosa é um antídoto contra os males do mundo; proporciona a introdução de uma dose de humanidade na relação das pessoas com o meio ambiente.

Água, gente e ambiente formam uma cadeia universal. As pessoas, por mais simples que sejam, têm sua dignidade reconhecida – o vaqueiro Zeguilherme, o vaqueiro Mainarte; a água escoa num “riachinho xexe”, antes de chegar ao São Francisco; e o ambiente é povoado por buritis, capim sempre verde, a codorninha-buraqueira e os bandos de araras que parecem “um pano azul ou vermelho, desenrolado, esfiapado nos lombos do vento quente”. O mundo tem unidade e tem conserto. Chega de terrorismo.

A seguir, oferecemos ao leitor 12 trechos das estórias do grande escritor, selecionados pelo viés ecológico.

1

“Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme. Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d’água,
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir.”

(Magma / Sono das águas)

2

“E assim seguiam, de um ponto a um ponto, por brancas estradas calcáreas, como por uma linha vã, uma linha geodésica. Mais ou menos como a gente vive. Lugares. […] Queriam subir e ver. O mundo disforme, de posse das nuvens, seus grandes vazios. Mas, com brevidade, desciam outra vez. Saíram a onde a estrada é reta, bom estirão. Até que, a pouco trecho, enxergavam, adiante uma pessoa caminhando.”

(Corpo de baile / O recado do morro)

3

“Porque, dantes, se solambendo por uma grota, um riachinho descia também a encosta, um fluviol, cocegueando de pressas, para ir caindo, bem em baixo, no Córrego das Pedras, que acabava no rio de Janeiro, que mais adiante fazia barra no São Francisco. Dava alegria, a gente ver o regato botar espuma e oferecer suas claras friagens e a gente pensar no que era o valor daquilo. Um riachinho xexe, puro, ensombrado, determinado, com regojeio e suazinha algazarra – ah, esse não se economizava: de primeira, a água, pra se beber.”

(Corpo de baile / Uma estória de amor)

4

“Boiada boa …
[…]
As ancas balançam, e as vagas de dorsos, das vacas e touros, batendo com as caudas, mugindo no meio, na massa embolada, com atritos de couros, estralos de guampas, estrondos e baques, e o berro queixoso do gado junqueira, de chifres imensos, com muita tristeza, saudade dos campos, querência dos pastos de lá do sertão…”

(Sagarana / O burrinho pedrês)

5

“Gritos: eleleia dos vaqueiros, terminando a apartação. No eirado, são vistos: o vaqueiro Cicica, o vaqueiro Tadeu, o vaqueiro Doim, o vaqueiro Pedro Franciano, o vaqueiro Sãos, o vaqueiro Noró, o vaqueiro Abel, o vaqueiro Mainarte. os vaqueiros Calixto, José Uéua, Raymundo Pio, Zeguilherme, João Jipió, José Proeza, Zazo […].”

(Corpo de baile / Cara de bronze)

6

“[…] Ela me acordou, tava me cheirando. […] aí eu fingi que tava morto, podia fazer nada não. […] Muito tempo ela não fazia nada também. Depois botou mãozona em riba do meu peito, com muita fineza. Pensei – agora eu tava morto: porque ela viu que meu coração tava ali. Mas ela só calcava de leve, com uma mão, afofado com a outra, de sossoca, queria me acordar. eh, eh, eu fiquei sabendo… Onça que era onça – que ela gostava de mim, fiquei sabendo… Abri os olhos, encarei.”

(Estas estórias / Meu tio o Iauaretê)

7

“Sua fúria e ira derramaram-se tão prontas, que as escamas do corpo, que nem arroz em casca, ramalharam e craquejaram, num estremeção escorrido até os ocos apêndices córneos da cauda, erguida a prumo, que tocaram sinistramente. […] Uns homens, que trabalhavam mais abaixo, não tinham escutado o crotalar da tétrica fanfarra, não podiam saber da presença de Boicininga, latente na erva, junto da lata d’água. […] E sendo pois assim, seis homens e uma cobra; e o daqueles que tivesse sede primeiro, provavelmente teria de morrer.”

(Estas estórias / Bicho mau)

8

“­­— E os capins, os capins bonitos, que os boizinhos e os cavalos pastam?
— Sempre verde, aristides, luziola, maquiné, zabelê, cobre-choupana, dandá, cortesia, mimoso-de-cacho, frei-luiz, major-zé-inácio, pernambuco, cocorobó, são-carlos, marianinho […]”

(Corpo de baile / Cara de bronze)

9

“— E os bichos, os bichinhos, os pássaros?
— Seriemas gritando e correndo, ou silenciosas. Emas correndo às tortas. Seriema voando. Os anús, pretos e brancos. A alma-de-gato. A codorninha–buraqueira. Os joãos-de-barro. A maria-mole. A pomba-do-ar. A juriti-do-peito amarelo. A doidinha. A maria-faceira, em beira de lagoa. O sofrê, veredas dos Gerais avante.”

(Corpo de baile / Cara de bronze)

10

“Pelas frinchas, entre festões e franças, descortino, lá em baixo, as águas das Três-Águas. Três? Muitas mais! A lagoa grande, oval, tira do seu polo rombo dois córregos, enquanto entremete o fino da cauda na floresta. Mas, ao redor, há o brejo, imensa esponja onde tudo se confunde: trabéculas de canais, pontilhado de poços, e uma finlândia de lagoazinhas sem tampa.”

(Sagarana / São Marcos)

11

“Se viam bandos tão compridos de araras, no ar, que pareciam um pano azul ou vermelho, desenrolado, esfiapado nos lombos do vento quente. Daí, se desceu mais, e, de repente, chegamos numa baixada toda avistada, felizinha de aprazível, com uma lagoa muito correta, rodeada de buritizal dos mais altos: buriti-verde que afina e esveste, belimbeleza.”

(Grande sertão: veredas)

12

“Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; […] Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa. […] E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta. Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalçou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. […] Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: ‘Cê vai, ocê fique, você nunca volte!’ […] Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais.”

(Primeiras estórias / A terceira margem do rio)

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2 comentários para "Assim Guimarães Rosa viu nossas águas e gente"

  1. Maria José Castro d'Almeida Lins disse:

    Ôxe! Que belezura de texto… um mergulho no Rosas pela escrita bonita desse Geroncio Rocha. Bom demais

  2. José Armando Rodrigues Reis disse:

    Gostei muito,um texto muito bem elaborado,que vai fundo na questão hambiental,no sistema político e na situação atual do desastre em andamento…

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