Literatura periférica, borbulhante e singular

Nova coluna revela fenômeno pouco conhecido: multiplicam-se, nos arrabaldes das metrópoles, editoras, saraus, feiras literárias e slams. São independentes e ousadas. Para potencializar a produção, proposta: Câmara Periférica do Livro

Essa é a estreia de nova coluna de Outras Palavras: Literatura dos Arrabaldes, de Eleilson Leite. Quinzenalmente, às sextas.

A partir de uma iniciativa da ONG Ação Educativa, por meio de um projeto aprovado no Edital do ProAC de Economia Criativa junto à Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, uma ação coletiva foi colocada em curso no início do ano: a Câmara Periférica do Livro (CPL). O objetivo principal do projeto é visibilizar, dimensionar e apoiar o recente movimento de editoras e selos editoriais independentes situadas e atuantes nas periferias de São Paulo, criadas por coletivos e escritores/as, a fim de difundir a literatura por eles/as produzida e fortalecer economicamente os empreendimentos. A expectativa é que tal projeto, que será concluído em novembro com uma feira de editoras periféricas, resulte na articulação de uma rede que dê continuidade ao que será implementado ao longo do ano.

Mais especificamente, o projeto se propõe a criar estratégias (de produção, gestão, comercialização e divulgação) para disponibilizar a um público mais amplo uma produção editorial crescente e de qualidade, que ainda fica restrita, quase que exclusivamente, aos circuitos literários da periferia.

Além disso o projeto pretende promover reflexão e troca de experiências sobre as oportunidades e obstáculos para uma editora independente e periférica publicar, divulgar e comercializar seus livros, organizando fóruns de discussão periódicos.

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Uma terceira ação será de pesquisa, buscando identificar o lugar e a importância do livro e da literatura na economia criativa da periferia, produzindo estatísticas sobre o segmento quanto à produção, consumo e geração de trabalho e renda. Para isso será desenvolvido um estudo baseado em dados a serem coletados junto às editoras por meio dos quais serão produzidas análises que apontem as características em comum, perfil editorial e de negócio, desafios e dificuldades, entre outras informações que irão compor uma publicação com o perfil dessas editoras.

Além dessa publicação que terá impressão restrita, será produzido um catálogo comum com ampla tiragem para uma distribuição de maior alcance. Além de realizar a sua própria Feira, a CPL viabilizará a participação das editoras periféricas em eventos tais como as feiras da USP e UNESP e outros com grande potencial de venda e que mobilizam públicos que desconhecem ou tem pouco acesso à produção editoral periférica.

Focado na viabilização das editoras como empreendimento, o projeto prevê também a realização de dois fóruns de negócios e a formulação de cinco estratégias que beneficiam o conjunto das empresas, tais como venda governamental, gestão de estoques e distribuição, venda pela internet, acordos com gráficas, aquisição conjunta e estoque de papel, entre outras. Participam da iniciativa até o momento 18 editoras – listadas no final do texto.

Produção literária nas periferias

O Brasil vem superando nas últimas décadas o estigma de ser um país de não leitores. A última pesquisa Retratos da Leitura no Brasil CBL/Ibope de 2016 já apontava que 56% da população é formada por leitores1. A mesma pesquisa indica que o hábito de leitura é mais frequente do que a prática de exportes ou mesmo da frequência a bares, cinema e teatro. O índice é ainda mais alto se considerada somente a população das capitais. De acordo com a PesquisaCulturanasCapitaiscomo33 milhões de brasileiros consomem diversão e arte, da J Leiva2, publicada em 2018, 68% da população declarou ser os livros a atividade cultural mais acessada, maior índice entre todas as atividades culturais. No mesmo levantamento, a frequência a Bibliotecas é de 39% e a Saraus (uma novidade em pesquisa do gênero) é de 17%. Esse último número não é desprezível, pelo contrário, chega a ser alvissareiro, pois se trata de uma prática retomada recentemente e com presença importante nas periferias das capitais, especialmente de São Paulo.

E é exatamente a partir da expansão dos saraus que se criou um movimento em torno do livro nas periferias de São Paulo. Surgidos no início dos anos 2000 com a Cooperifa, os recitais de poesias se espalharam a partir da segunda metade da primeira década do século, chegando a mais de 40, de acordo com um levantamento feito pela Casa das Rosas em 2008, número confirmado pela cobertura da Agenda Cultural da Periferia, guia cultural publicado pela Ação Educativa de 2007 a 2017, cuja seção de literatura tinha três páginas, a maior editoria.

Os saraus nas periferias, primeiro formaram leitores. Depois, formaram escritores. Mais recentemente passaram a criar editoras e selos editoriais. Com ajuda de editais públicos, especialmente o VAI3, da Prefeitura de São Paulo e o ProAC, da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, os saraus, que são mantidos por coletivos culturais, passaram a publicar seus livros, sejam por meio de coletâneas ou como autores individuais. Estima-se que 300 livros foram publicados por meio de fomento público entre os anos de 2004 e 2018. Publicados de forma independente, nem sempre registrados na Biblioteca Nacional (registro do ISBN), esses livros são vendidos no próprio circuito de eventos nas periferias, de mão em mão. Normalmente, a obra se esgota em um ano encerrando seu ciclo de existência precocemente. Poucos autores foram para editoras comerciais e estruturaram suas carreiras4.

A fim de promover os poetas de saraus como autores, mas não só, surgiram recentemente editoras ou selos editoriais nas periferias. Uma das pioneiras foi a Ciclo Contínuo que atua há mais de cinco anos e tem catálogo com cerca de 25 títulos. A iniciativa animou outros grupos a criarem suas próprias editoras e hoje há pelo menos 20 empreendimentos do gênero na periferia de São Paulo. Tal levantamento foi feito pela Ação Educativa por conta da realização de uma reunião e feira com essas editoras dentro da programação do Encontro Estéticas das Periferias, evento, cuja nona edição aconteceu em São Paulo entre os dias 25 de agosto e 01 de setembro de 20195.

Essa iniciativa encorajou a proposição de projeto junto ao Edital de Economia Criativa do ProAC, pois foi observado empiricamente que se trata de uma tendência muito promissora. A Ação Educativa percebeu também que são empreendimentos que necessitam de muito apoio, pois são pequenos, dispõe de poucos recursos e com pouca experiência de produção editorial em escala, de gestão e de comercialização em contraste com a alta capacidade de criação literária e criatividade editorial.

Estima-se que essas editoras possuam juntas um catálogo de 250 livros. Se cada livro tiver um potencial de venda de 300 exemplares em média, estamos falando de um público consumidor de 75.000 pessoas. Se considerarmos o preço médio de R$20,00 chegamos a um volume de R$ 1,5 milhão. Não se trata de um número desprezível. A possibilidade de crescimento é visível, pois o movimento literário das periferias vem crescendo em volume de produção e visibilidade em função do aumento de uma nova modalidade de recital de poesia que é Slam – Slam Poetry, que são batalhas de poesia falada. Há no Brasil mais de 100 slams, sendo 40% em São Paulo, conforme divulgado em publicação do SESC produzida em dezembro de 2018 por conta da realização do Slam Br, campeonato nacional idealizado e conduzido pelo ZAP – Zona Autônoma da Palavra, pioneiro no Brasil, criado pela poeta e atriz-mc Roberta Estrela Dalva em 2008 em São Paulo. Ou seja, há uma renovação e expansão, já que o Slam tem atraído um público jovem. A exemplo dos saraus, os Slams estão publicando suas coletâneas e já somam mais de 20 livros do gênero. Somente o Slam da Guilhermina, realizado na Zona Leste, já publicou cinco volumes de coletâneas.

Essa movimentação toda em torno do livro, leitura e literatura nem sempre é capturada pelas pesquisas como as citadas aqui. É possível que, se aferido, o impacto nos índices seria significativo. Por essa razão, uma das principais ações do projeto da CPL é um levantamento dessa produção. Não será surpreendente se concluirmos que esse mercado invisível que movimenta as bordas da grande metrópole, represente números muito mais expressivos que os aqui citados.

O espaço que o livro de periferia pode disputar no mercado

O mercado de venda de livros no Brasil, especialmente em São Paulo e na Região Metropolitana da Capital é pujante e tem margem para crescer. Um certo senso comum se disseminou na sociedade segundo o qual há uma profunda crise do mercado editorial. Tal percepção se baseia principalmente no impacto causado pela notícia de que as duas principais redes de livrarias do país (Cultura e Saraiva) estão sob recuperação judicial.

O segmento editorial sofreu uma retração, como quase todos os setores da economia, em função da severa e prolongada crise econômica que assola o Brasil há praticamente cinco anos. Com uma taxa de desemprego elevada é compreensível a queda de poder aquisitivo, logo o declínio no consumo de vários produtos, entre os quais o livro. Entretanto, contrariando estatísticas e as avaliações catastróficas, o que se vê é uma série de fatores que vem aquecendo e modificando o mercado que ganha novas características.

Há vários sinais nesse sentido como o aumento de pequenas editoras como a Todavia, criada por ex-funcionários da Companhia das Letras e a UBU, criada por profissionais demitidos da Cosac Naify em virtude do fechamento dessa prestigiosa editora, cujo catálogo, em boa parte, foi absorvido pela Cia das Letras. Chama a atenção também o surgimento de selos editoriais voltados a públicos específicos como mulheres, comunidade LGBTQ e população negra. É o caso do Selo Sueli Carneiro criado pela filósofa Djamila Ribeiro6. Mais surpreendente ainda foi a conquista do Prêmio Jabuti, maior e mais importante honraria do livro no Brasil, pelo poeta estreante Maílson Furtado Viana de apenas 27 anos, morador de uma pequena cidade do interior do Ceará, cujo livro À Cidade, foi totalmente produzido de forma independente com tiragem muito pequena. Maílson é a prova de que uma ação independente é capaz de romper a lógica estabelecida no mercado. O desafio é superar a condição de fenômeno e se manter.

Mais um indicador de vitalidade do mercado de livros é o aumento de eventos literários, inclusive na periferia. Para além da FLIP – Festa Literária de Paraty, cuja última edição teve entre seus cinco livros mais vendidos, quatro de autores negros (e um indígena entre os dez) e ampla repercussão de mídia, há outros grandes eventos sem a mesma visibilidade, mas não menos importante. Três exemplos: FARPA – Festival Arte da Palavra que é promovido pelo SESC e se espalha por suas unidades em nível nacional; Abril para Leitura que teve sua edição de 2019 em Salvador, mas é itinerante e a Balada Literária, idealizada e coordenada pelo escritor Marcelino Freire há mais de 10 anos e que no ano passado aconteceu em três capitais: São Paulo, Salvador e Teresina. A LIBRE (Liga Brasileira de Editoras) realiza anualmente a Primavera do Livro há quase 15 anos e o Salão do Livro Político que realizou cinco edições anuais até 2019, sempre na PUC de São Paulo.

E na periferia de São Paulo há três grandes eventos (dois na Zona Sul e um na Zona Leste) que tem o livro e a leitura como centro de sua programação. Um é a Mostra Cooperifa, que é realizada desde 2008 pelo Sarau da Cooperifa e acontece sempre no mês de outubro. O outro é a FELIZS – Feira Literária da Zona Sul, idealizada e coordenada pelo Sarau do Binho e acontece sempre em setembro desde 2017. Esses dois na Zona Sul. O terceiro é o Festival do Livro e da Leitura de São Miguel Paulista que é promovido pela Fundação Tide Setubal há nove anos na Zona Leste, normalmente em novembro. Fora de São Paulo há a FLUP (Festa Literária das Periferias), idealizada pelos escritores Écio Sales (morto em julho do ano passado) e Julio Ludemir, realizada no Rio de Janeiro, mas de alcance nacional.

São eventos como esses que a Câmara Periférica do Livro quer se fazer presente enquanto rede, tanto vendendo livros, quanto colocando e ampliando a participação de seus autores para compor a programação. Pretendemos com esse projeto mapear esses e outros eventos, fazer um levantamento do volume de vendas, circulação e escritores, o perfil desses escritores e escritoras para que possamos ter uma dimensão mais objetiva desse mercado alternativo do livro no qual as editoras das periferias se inserem. As Bienais do Livro de São Paulo e Rio e similares em outras capitais não estão no foco do projeto. Não é esse o mercado que as editoras periféricas pretendem disputar, até porque, não teriam fôlego para participar, exceto de forma subsidiada.

A CPL aposta também na volta das livrarias de bairro. É perceptível que há um esgotamento das megalojas, um dos motivos da crise das gigantes Saraiva e Cultura. Há um movimento internacional nesse sentido. Pesquisa realizada nos EUA pela American Bookseller Association detectou um aumento do número de livrarias naquele país: 1712 em 2015 contra 1410 em 20107. Movimento parecido já pode ser visto no Brasil com livrarias segmentadas instaladas em espaços culturais ou cinemas, por exemplo. Mas uma empresa grande, a Livraria Travessa do Rio de Janeiro que já tem uma loja dentro do Instituto Moreira Salles na Avenida Paulista, instalou uma outra filial na cidade no ano passado, num espaço de 200 metros quadrados, apostando nessa tendência de lojas menores, mais personalizadas, onde o leitor se sente mais acolhido, algo nem sempre possível numa loja de mais de mil metros que mais parece um mercadão de livros. Apesar do avanço da venda online com o advento da chegada da Amazon no Brasil, 44% dos que compram livros preferem adquiri-los em lojas físicas8. A livraria de bairro possibilita uma relação mais afetuosa com o cliente, gerando vínculo, pois começa a fazer parte da vida daquela pessoa em seu território. Os próprios supermercados também já perceberam esse movimento. Hoje, redes como Extra, Carrefour e Pão de Açúcar estão se expandindo como pequenos mercados de bairro.

A Ação Educativa percebeu que esse contexto favorece o tipo de editora e selo editorial de periferia. Mas esses empreendimentos precisam de informação, contatos, orientação. Precisam ser vistos, incrementar sua gestão, controlar os estoques, ter acesso a editais e linhas de crédito, manejar bem a venda online, saber usar as ferramentas de publicidade, enfim, necessitam de suporte, parcerias e articulação conjunta. E é para isso que a Câmara Periférica do Livro, que pode se converter numa Rede de Editoras de Periferia, surge com o uma possibilidade de fortalecer esse segmento de empreendimentos editoriais.

Literatura dos arrabaldes

A novidade da Casa Poética inaugurada neste mês na Zona Leste pelo Coletivo Mesquiteiros, liderado pelo escritor e professor Rodrigo Ciriaco, é mais uma ação que corrobora esse novo momento que a produção literária periférica está vivendo. Além de espaço cultural, a Casa Poética é uma agência literária que representará vários escritores periféricos, profissionalizando a relação de quem cria com quem publica.

Atento a esse movimento, o site Outras Palavras abrirá um espaço regular quinzenal para reflexão sobre a literutura produzida nas periferias. Chamada de Literatura dos Arrabaldes, a coluna, assinada por mim, trará basicamente resenhas de livros com o objetivo de discutir e difundir as obras. Acompanho essa produção há mais de 15 anos e sou um observador atento do que se publica nas periferias e espero colaborar como crítico.

Editoras participantes do projeto ( até março de 2020)

  1. Editora Areia Dourada
  2. Borboleta Azul Selo
  3. Editora Gráfica Heliópolis
  4. Selin Trovoar
  5. LiteraRUA
  6. Edições Me Parió Revolução
  7. Edições do Tietê
  8. Selo Capsianos
  9. Kitembo – Edições Literárias do Futuro
  10. FiloCzar
  11. Baderna Literária
  12. Editora Benfazeja
  13. Editora Dandara
  14. Ciclo Contínuo Editorial
  15. Edições Incendiárias
  16. Elo da Corrente Edições
  17. Selo Sarau do Binho
  18. Edições Mijiba

1 A pesquisa entende que uma pessoa que leu um livro nos últimos 3 meses é considerada leitora.

2 Capitais que fizeram parte da pesquisa: Belém, Manaus, Fortaleza, São Luis, Recife, Salvador, Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre.

3 VAI – Programa de Valorização de Inciativas Culturais, criado em 2003 pela Prefeitura de São Paulo que destina, atualmente, R$ 30.000,00 para financiamento de ações culturais de coletivos juvenis periféricos.

4 A Global Editora, criou em 2007 a Coleção Literatura Periférica que chegou a ter 10 títulos. Atualmente, somente o escritor Sergio Vaz, criador e coordenador do Saraus da Cooperifa é o único remanescente dessa iniciativa mantendo três títulos no catálogo daquela Editora.

5 A relação dessas 18 editoras segue como documento anexado. A referida reunião acontecerá na Casa das Rosas nos dias 31 de agosto e 01 de setembro ( ver divulgação em anexo)

6 Ver matéria publicada pela Revista Carta Capital, edição de 12/12/2018 de Eduardo Nomura sob título: “Os negros escritos”.

7 Publicado na revista Carta Capital de 7 de outubro de 2015, página 40

8 Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil CBL/IBOPE 2016

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