Mulheres com um jeito vagalume de ser

Dez Luas, de Carolina Peixoto e Buraco, de Pam Araújo, expressam a força poética do feminismo das periferias. Autoras integram o Slam das Minas, vivem em SP e escrevem contra o patriarcado. Uma olha céu e futuro; outra, ventre e sexo

Por Eleilson Leite, na coluna Literatura dos Arrabaldes | Imagem: Carolzinha Itzá

Compartilho neste texto a leitura que fiz dos livros Dez Luas, de Carolina Peixoto e Buraco, de Pam Araújo, ambos publicados em 2017 (o livro da Pam teve uma segunda edição em 2018) pela Conecta Brasil, porém, a editora, hoje chamada de Baderna, só é identificada na ficha técnica do livro da Pam e não é mencionada no livro da Carol que, inclusive, não tem ISBN, mas consta no catálogo daquela editora. As duas autoras têm trajetória semelhantes: são dos Coletivos Poetas Ambulantes e Slam das Minas e moram na periferia da Zona Sul de São Paulo, embora Pam tenha origem na Zona Leste.

Sendo mães, as autoras enaltecem essa dimensão de suas vidas. As duas são jovens: Pam tem 26 anos, cinco a menos que Carol. Ambas são produtoras culturais. Carol é pedagoga e Pâmela ainda não tem formação acadêmica, pelo menos concluída até a data da publicação do livro, mas parece ser muito estudiosa tamanha a sofisticação de seus textos. As duas participaram de antologias e Carol tem um livro solo anterior. Já Pam estreou com Buraco, mas publicou Hídrica em 2020 pela Philos. Finalmente, ambas se definem com muita ênfase como feministas.

E é essa afirmação política de gênero que unifica os dois livros que são muito distintos entre si apesar das muitas semelhanças das autoras conforme destacado. A distinção reside no projeto editorial e na proporção dos livros e também no estilo. Carol publicou 10 poemas, como o título indica, enquanto Pâmela imprimiu 37 textos em seu livro. Buraco como sugere também o título, é um livro para dentro com textos introspectivos, reflexivamente densos e por vezes, rebuscados. Dez luas é noturno, mas enluarado muito bem elaborados com versos que têm uma cadência melódica, além de acessíveis. Mas são livros em que as mulheres estão em primeiro plano, mesmo quando são expressas por meio de metáforas de semente ou de lua. São textos que iluminam, posto que são mulheres com jeito vagalume de ser, como diz Pâmela em um verso que me serviu de inspiração para o título deste texto.

Dez Luas

O livro de Carolina Peixoto tem poucas páginas, precisamente 23, o suficiente para abrigar dez poemas todos eles enluarados. Porém, o astro noturno tem diferentes papéis nos poemas e, na maioria das vezes, não é protagonista. A lua só tem centralidade nos poemas nos quais ela é o tema como o primeiro que fala do poder arrebatador da lua capaz de nos encantar sempre que nela se prende o olhar como se fosse a primeira vez. Assim também sãos os poemas IV e V nos quais a lua é “malandra”, pois, se faz mais bonita quanto mais gorda está e permanece eternamente jovem em contraposição ao inexorável envelhecimento que nos é imposto pelo tempo ao qual ela parece ser imune.

No poema VII a lua passa a ter um papel mais ativo para os que da Terra lhe contemplam. Em duas páginas pretas (14 e 15), no canto superior direito, está camuflado o poema escrito em tom desbotado: “No escuro/ mesmo que escondida/ a Lua/ sempre é boa companheira”. No poema II ela é uma metáfora feminista num texto de motivação que convoca a moça para respirar “essa primavera do nosso tempo”. A lua aqui é inspiração expressa belamente no verso: “no eclipse ela ocupa seu lugar ao sol”. Já no poema III, ela é uma medida do tempo para uma mulher grávida que, já no final da gestação, vive a iminência da chegada do rebento, com quem se comunica em pensamento. A passagem do tempo é fracionada em semanas que ela associa às fases da lua, companheira de noites insones. Ansiosa se vê interpelada: “falta pouco”. “Só mais uma lua?“, indaga a gestante.

Nos poemas IX e X a Lua interage com os personagens criados pela autora. No primeiro ela aparece como um refúgio de paz e encantamento necessário para acolher uma trabalhadora depois de um dia estressado. A autora fez um poema tenso e apressado sem pontuação para acentuar a rapidez do cotidiano de uma funcionária de empresa de telemarketing que sai de casa atrasada, logo depois das 6:00, passa por uma rotina pesada e enfadonha de problemas recorrentes desde condução lotada, a chefe folgado, cliente chato, café frio. Sai do trabalho e a volta para casa é o mesmo calvário. Chega em casa, janta, toma banho e quando parece que seu dia vai terminar, a autora recomenda à personagem de seu poema: “mas sempre que puder/pare/ para ver a lua”.

O texto seguinte é o único poema de amor do livro e um dos poucos que têm título: Amor à Lua. O poema fala de um relacionamento que foi feliz enquanto durou. Um romance que não quis ser duradouro: “O melhor de nós/ que por falta de nós/ entrelaçou, mas não laçou”. Aqui ela faz uso de uma metáfora que tem sido recorrente entre as poetas que é esse duplo sentido da palavra “nós” que pode ser pronome ou laço. Na impossibilidade de viver uma história longa, ela entregou essa expectativa frustrada à lua para que ela, generosa, entregasse a um outro casal mais promissor.

O ponto mais marcante do livro de Carol Peixoto está nos dois poemas nos quais a lua é testemunha do sofrimento (e de pequenas alegrias) das pessoas em situação de rua. Ambos têm título. O primeiro (e sexto poema do livro) é Filho da lua, um poema longo no qual há um personagem: João, um homem, aparentemente jovem que vaga nas ruas e que tem a lua como companheira em noites de solidão em meio à miséria material e existencial na qual está imerso: “na sua ignorada existência/era verso concreto/da poética da miséria: o nada? Do centro de tudo”.

João parece ser alguém que teve um passado fora desse contexto: “ foi infeliz/todos os dias que fraquejou/na mentira do mundo mudar/ sequer venceu um vício/ ou seu próprio egoísmo”. A hipótese é corroborada nos versos: “teve a solidão como companheira/desde que fez da rua o seu lar”. João tem uma trajetória marcada pelo alcoolismo: “Não se lembrava de quem era/ se um dia teve família/ ou do porquê bebia”. A esperança de mudar ele escondia de si mesmo para justificar a inviabilidade de assumi-la. João nunca roubou; preferia pedir: “sempre preferiu cara de pena do/ que de medo”. Vazio de alma, lágrimas e coração, João se buscava em outros que não preenchiam seu vazio, sua sina: “ser poema triste/de um maior abandonado/ que a lua adotou”.

Apaga a lua é o outro. O título faz nítida referência ao famoso haikai de Giovani Baffô: “em casa de menino de rua/ o último a dormir/ apaga a lua”. Narrativo, esse poema fala dos meninos de rua que têm com a lua e as estrelas uma relação direta, posto que não há entre eles e os astros noturnos a mediação de um teto. Inspiração para os apaixonados, a Lua para esses garotos não tem a mesma sedução: “a luz da lua/tão bonita/de tão distante/ já não mais encanta”. A autora passa a discorrer sobre o flagelo dos meninos de rua tentando associar a vida deles à lua. Imagina como seria bonito se “ir à lua fosse fácil/ como jogar bolinhas no semáforo”. Ou então, imagina ela, se a situação de viver na rua fosse como a chegada do homem à lua, algo que aconteceu uma vez só e há tanto tempo que muitos duvidam de que fato tenha ocorrido tal façanha.

O movimento cíclico da lua é associado à inércia que pesa sobre “os meninos/ obrigados a amadurecer/ são impedidos de crescer”. Na parte final do poema a poeta se posiciona politicamente frente à mazela que lhe serve de inspiração poética, criticando a piedade dos que lembram do sofrimento dessas criaturas somente nas noites de frio: “os meninos querem cobertor/sapatos, casa/Comida, mãe…/ o ano inteiro”. Politizada, Carolina Peixoto entende o que está por trás do sofrimento: “O governador sabe disso/ mas prefere a repressão/ do que a educação” e completa: “a verdade é que falta muito/ mais pros meninos de pés/descalços que os sapatos”. Ela também estende sua crítica à sociedade: “a verdade é que os meninos/ de pés descalços atingem as/pessoas: umas pela emoção/ outras pela violência/ mas ninguém pensa/ nos roubos que levaram tudo dos/ meninos antes”. Esse trecho remete a Bertold Brecht nos versos:” dizem violentas as águas do rio/ mas não dizem violentas/ as margens que o comprime.”

Buraco

Os 37 poemas do livro de Pam Araújo têm como títulos os versos iniciais de cada texto. Uma obra cuja proporção física é inversamente proporcional à densidade poética nela contida. Os textos são, na maioria, narrativos, em terceira pessoa. Ela faz uso desse mecanismo de distanciamento para ser enfática sobre o que sente e pensa e não há dicotomia aqui. Pam é visceral, mesmo não sendo lírica. Agrupei seus textos em três vertentes, todos com oito poemas, ficando assim, treze textos, fora dessa classificação, porém, não são alheios às temáticas mapeadas, apenas escaparam da minha limitada percepção.

No primeiro bloco estão os poemas de afirmação quase todos ancorados na metáfora do buraco, nos quais se mostra como semente: “buraco fundo é bom para semente/plantou-se/um/livro”. O segundo grupo é formado pelos poemas de ativismo feminista nos quais ela enaltece as mulheres que lutam manifestando sua identificação com elas. Fala das mulheres da América Latina ou de sua bisavó cearense, “a maior das feministas”. Por fim há os poemas da sexualidade ou do útero. Esses são os mais íntimos, portanto, mais líricos e são também os mais marcantes e que nos conduzem ao universo profundo da autora.

Os poemas de afirmação são aqueles que dão um contorno à personalidade da autora e sua formação como mulher que, embora demasiadamente jovem (tinha 22 anos na época da primeira edição do livro) parece muito madura. Numa coleção de nãos fiz minha terra é o segundo poema do livro e se apresenta como um desacato. Um poema da negação do que estava destinado a ela e com eles (os nãos) fez a terra (o buraco) na qual semeou a si própria. Nãos manifestados em versos como: “tantos nãos nas minhas poesias leves”, nos quais ela parece ocultar seus sentimentos mais agudos. Tal percepção ocorre também em versos como: “os redemoinhos marcantes por trás de cada verso plumado”. Em Semente, poema narrativo, mas que parece falar de si própria, o texto é acompanhado da ilustração de uma mulher jovem sentada com a vagina exposta (o oco) e os pés fincados no chão como raiz. Um desenho que complementa o texto no qual se expressa como semente “caída entre as frestas do concreto”. Situa-se assim como uma pessoa do meio urbano sem perder seu vínculo com a terra que é a representação de sua bisavó (homenageada no poema que veremos em seguida). Mas ela é metrópole: “criou raízes na vida cinza”/ desabrochou:/ mulher, flor”.

À bisavó, a autora dedicou o poema Mulé, que ceará é esse que te trouxe no qual celebra a linhagem matriarcal da qual faz parte. No texto ela narraos perrengues de uma retirante: “na chegada a são Paulo, pela mesma/orelha que ouviu as boas da cidade grande/ouviu as portas fechadas…”. Lembra que ela é tataravó de seu filho (ou filha): “é mãe, vó, bisa e tata do meu grão de gente”. Já em Taurina, ela faz um autorretrato poético: “só uma menina/ cantando ou catando o / próprio coração de /ser”. Poema da porta pra fora: “andarilha de calçadas curtas/ uma pomba em são Paulo/ toda lua/ garimpeira de sorrisos/ sentimento na cidade…”
Curiosamente não há referência a buraco, semente, germinação nesse texto.

Esse grupo de poemas se completa com três textos em tons bem distintos. Em Quem cai no buraco dela ela decifra quem dela pode se envolver. Em treze versos a poeta define a razão pela qual caíram no buraco dela: isca/ carrossel/ pássaro de casa/andarilha, pista, asfalto/ser agudo, voz baixa… E conclui que quem cai no buraco dela, mesmo que a b e r t o (escrito assim), “só cai se ela quiser”. Já em Eu sei que no seu ouvido é sobre gritar: “sou objetiva/ nunca mais objeto!”desejo desejar/ e se dói seus ouvidos/ é porque a explosão/ desse coração/ já tão cheio/é grito alto!/ e tem potência para ferir a sua terra de ego”. Por fim, Sopra esse corpo é um poema meditação guiado pelo vento que mobiliza uma embarcação sobre um rio: ”sopra esse barco peito/ navegante nesse corpo chei d’ água/num corpo rio”, transpondo assim para a água e o barco as metáforas da terra e da semente com um efeito poético igualmente forte.

Os poemas feministas de Pam Araújo discorrem sobre os abusos que as mulheres sofrem, sejam na relação doméstica, no buzão ou na rua com assobios cretinos. É nessa chave que ela ergue sua bandeira de luta para qual o poema O coro da língua já calejado de tanto corte serve de manifesto: “no caminho da mulher tem sempre um…um…/homem, em sua mão um fio dando nó em nossas/pedras vidas”. Anima as mulheres a romperem o silêncio que as oprime: “cuspa de volta Geni” em referência à personagem da canção de Chico Buarque. “Cuspa esse enorme patriarcado, essa vida que não/ te cabe…” Na poesia feminista de Pam o corpo fala: “ser poeta e querer falar de boceta!”.

O chamado da poeta pela libertação pressupõe a tomada de fala e não apenas de consciência: “ninguém deve falar por você (…)/basta uma boca aberta, fale sem parar!fale/alto”. Dessa forma os homens não interromperão, diz ela, “quando entende que o buraco é mais embaixo”. Já em Nesse céu vermelho, a autoradiscorre sobre a mulher e seu trabalho doméstico no contexto de uma relação machista: “na cozinha encarcerada/sem voz na frente das garras/pedinte de suspiros/ dona de casa fora reformada, agora exílio”. Fala do desejo da mulher de se libertar, porém, a relação não lhe dá possibilidades de ação: “ele tanques/ ela barricadas diárias/ tão frágil implora para perder a guerra/ ele acha gozo/ ela nojo”. Define a mulher nessa relação como “dano de casa”

Em outros dois poemas a denúncia é ainda mais explícita. O ilustre patriarca cismou é umpoema em seis estrofes que trata do assédio de um homem para com uma menina miúda. Em progressão tensiva descreve a evolução da abordagem: “cismou com o seio de azeitona/ com a boca pequena/um sorriso de lado/ com o grito de não… Em Existe uma pergunta que não deixa respirar, o protesto é contra o abuso sexual de homens com mulheres no transporte coletivo: “desculpa o jeito, não é por nada não, mas estar/ em um banco de ônibus público e sentir o gozo/escorrendo pelo meu pescoço ou no transporte/ privado e o dedo enfiado vagina a dentro/ sem consentimento é estupro”

Em Quem ouviu falar delas? A autora estende sua bandeira feminista para a América Latina:
“as pernas cortadas pelo estatuto da dependência/ nos fez latinas”. “Meu corpo, sin perder la lucha” (…) “Nossa fala não é feminina/ é bicho/ feito de riscos de caneta e memória/ por que é tão difícil de entender/ américa a baixo da sua não é escória/ minha vagina não pede escolta/e a história do mundo saiu de um útero”. Já em Um dia própria ela volta seu olhar para uma intrigante mulher que vive na rua: “morderia a todos que lhe olham, torto/ de lado/ vem de frente/ cansa verbos pelas costas/ela falaria cores/mas depois de coçar a bunda e tirar a calcinha/ do cu/ com esse olhar precisa de nada não”. Ela vê em tal personagem uma feminista. Certa vez se dirigiu a ela: “falamos, eu via uma planta, ela só me/disse:/ samambaia não se poda, deixa crescer”. Desde então ela passou a “vê-la para além da calçada que dorme”. Também na rua ela se revolta com as cantadas e assovios no poema Pela calçada mal vestiu-se. E o ciclo de textos feministas se encerra com o sugestivo poema A mulher deve ser, no qual emmantra ela ressoa o ideal de que a mulher deve apenas ser o que bem entender.

Os poemas da sexualidade se dividem entre os vaginais, uterinos e sexuais. No texto Entre as pernas um buraco negro, a boceta é metáfora para exaltar a “mulher livre/encontra raiz/ poda, arranca e diz:/ nada brotará se eu não desejar plantar”. Em Tem um bicho aí a narrativa é sobre a descoberta do corpo quando chega a menstruação: ”dia desses descobriu entre as pernas, quando tocada um arrepio/toda, ela e nem precisava gerar/ entendeu que boceta é acesso, gosto”. Presa a um útero segregado trata da consciência de si a partir da compreensão de que é dona de seu útero. Fala da emancipação da mulher: “com a quebra de um contrato firmado/ entre a lei de existir, a lei de ter uma vagina/invadida, a lei de ficar calada/ mesmo cansada e pesada voou, movida/ por ser”. Para que “todas as mocinhas/ sejam donas de seus (respectivos)/ buracos”. Por fim, em O que cabe num útero? trata do aborto: “sujaram, mas não abortará?”. E conclui: “ainda há mistério na morte das/mulheres/ que escolheram no útero não ter/ nada/ assim como no estômago”. Este texto me remete ao poema de Angélica Freitas Um útero é do tamanho de um punho.

Os poemas sexuais têm variações de abordagem. Em Me gritaram: exagero! A autorafala de relação sexual violenta, mas, aceita socialmente na qual a mulher não tem prazer e é submetida: “foi corrompida, posta à morte/àquele das mãos grossas. Forte/ encaixa o oco mas não faz gozar/ matas, deixa medo”. E ela almeja: “conto os dias onde tecidos não serão forçados/ rasgados, onde o oco será ocupado por dedos, falo/ língua ou qualquer tesão escolhido”. E assim defende em Do toque ao gozo poema de dois versos que defende a masturbação: “mulher que escorre para si, vive”. E avança nessa direção no poema Tempo de amor pouco que fala de amor intenso e lânguido que parece se dar entre mulheres: “o teu toque, me escorre/ entrelaçadas as pernas/como uma estrada turva/nos alagamos”. Em tal contexto, ela crava o verso: “Todo amor é revolução”. E em Faça visita, ela diz: “se for amor pode entrar, sem bater”, um poema curto que, estando logo após aquele que fala de estupro no casamento (Me gritaram…) , ganha uma sutileza muito inteligente brincando com o letreiro que anuncia permissão de acesso a determinados espaços.

A história do mundo saiu de um útero

Na orelha do livro da Pam Araújo, a também poeta e parceira de Slam, Luz Ribeiro afirma: “é preciso ouvir mulheres e seus buracos”. Luz capta, com a sensibilidade poética que lhe é própria, a questão que a autora explora intensamente no livro: buracos, lacunas, vãos, poços, furos. O buraco não é uma metáfora para algo que deve ser superado. Ao contrário, é um espaço para ser preenchido permanentemente. O buraco é o centro do mundo. A genitália da mulher, por meio da qual se acessa o útero, é esse furo, o oco. Na nota que serve de prefácio, Pam se coloca como semente que se realiza no buraco. No fundo do peito um buraco ( livro): “vi que era semente crescer e se transformar/ em uma planta forte” e sintetiza: “Ao enxergar o útero como sagrado me ergui mulher”. E assim ela afirma-se feminista. Pela poesia, pelo corpo, pelos buracos.

Carol também ouve os seus vãos e busca no eclipse uma imagem que revela o feminismo, pois é nesse fenômeno que a “a lua ocupa seu lugar ao sol”. A lua da autora é mãe que zela pelos que têm na sua luz o único abrigo para a penumbra noturna. É também o alento para uma trabalhadora absorvida por uma rotina exaustiva, companheira da gestante em noites insones e cúmplice de uma frustração amorosa. A lua, cuja superfície é esburacada, é uterina e vaginal também. É eternamente jovem e lindamente gorda. Ou seja, por meio da lua, ela descreve uma mulher encantadora.

As autoras, uma olhando para o céu e outra para o ventre, expressam em seus poemas uma apologia à mulher e seus buracos. E fazem isso com intensidade e leveza, coisa de mulher, por certo. Ler os livros de Pâmela e Carolina nos ilumina feito vagalumes em noite de lua minguante e nos dá a convicção de que “a história do mundo saiu de um útero”. Uma expressão muito potente que se soma a tantas outras que na contemporaneidade ressalta a centralidade da mulher no mundo, como “Deus é mãe”; “Dias mulheres virão” ou “Lute como uma mulher”. Por certo não haverá nenhuma revolução realmente transformadora que não seja liderada por mulheres.

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