A filha, um pai. O vazio e o desespero

Entre referências aos clássicos do gênero e uma mitologia brasileira, diretora ousa, ao inserir o terror no cotidiano de pobreza e morte vivido por uma família proletária na periferia

Por José Geraldo Couto, no Blog do Cinema

Por uma dessas coincidências que devem ter um significado maior, estão chegando às telas dois filmes brasileiros de terror dirigidos por mulheres. Vamos comentar um deles, A sombra do pai, de Gabriela Almeida, que entrou em cartaz ontem (2 de maio). O outro, Mormaço, de Marina Meliande, estreia na semana que vem, e falaremos sobre ele oportunamente. Não convém misturar os dois porque, apesar dos vários pontos em comum, são olhares diferentes e marcadamente pessoais sobre o gênero, sobre o cinema e sobre o mundo.

O longa de estreia de Gabriela Almeida, o ultraviolento O animal cordial, chamava a atenção pela extrema concentração: toda a ação se passava numa única noite, no interior de um restaurante paulistano de classe média alta. Agora, os desafios são de outra ordem: trata-se de narrar, basicamente pelos olhos de uma menina sensível e sensitiva, a filha única Dalva (Nina Medeiros), o esfacelamento de uma família operária.

A mãe de Dalva morreu há alguns anos; o pai, o pedreiro Jorge (Julio Machado), ainda desnorteado, vive e trabalha como um sonâmbulo, ou melhor, como um zumbi. Para piorar, a tia (Luciana Paes), que cuida da menina em substituição à mãe, arranja um marido e vai morar em outra cidade.

A presença dos mortos

A partir dessa situação básica, com poucos personagens e dois ambientes principais – a casa da família, na periferia, e um grande prédio em construção –, a diretora constrói uma narrativa tensa sobre a presença dos mortos no mundo dos vivos e, mais que isso, sobre a presença da morte num corpo vivo.

Já as primeiras cenas, aparentemente banais, são eloquentes e antecipatórias do que virá depois: no quintal da casa, Dalva desenterra uma boneca. A cena é filmada de muito perto, com a câmera revelando pormenores: a terra nas mãos da menina, uma saúva passeando por seu pé descalço. Em seguida um túmulo é destruído a marretadas, para a exumação de restos mortais que serão transferidos para outro lugar. De certo modo tudo está condensado nesses primeiros minutos: vida, morte, ressurreição. Do pó ao pó.

A predominância dos planos aproximados, enquadrados a partir da altura dos olhos da menina (a exceção, obviamente, são as cenas em que ela não está presente), intensifica ao mesmo tempo a subjetividade do olhar e o sufocamento da atmosfera.

A montagem ousada e precisa, feita de cortes secos contrapondo drasticamente planos abertos e fechados, claros e escuros, sem transições, mantém a tensão do início ao fim.

Mas o que há de mais notável em A sombra do pai, a meu ver, é o modo como se apropria de um repertório universal do cinema de terror para inseri-lo organicamente numa situação social e num imaginário fantástico profundamente brasileiros.

Para além da citação direta de filmes como o primeiro Cemitério maldito (Mary Lambert, 1989) e A noite dos mortos-vivos (George Romero, 1968), vistos na televisão por Dalva, há a influência visível do terror italiano de Mario Bava (inclusive na trilha sonora), dos filmes de Frankenstein e, em mais de um aspecto, de O iluminado (1980), de Kubrick.

Mitologia brasileira

Mas toda essa tradição e todo esse instrumental expressivo estão, por assim dizer, a serviço de uma brasileiríssima mitologia feita de sincretismo religioso, de “simpatias” e crenças populares que roçam o fetichismo e o animismo. Do Santo Antonio colocado de ponta-cabeça ao pacto de amigas feito com sangue, da “brincadeira do copo” para a invocação de espíritos ao enterro de dentes dos mortos, tudo é arraigada e profundamente brasileiro.

Para construir esse seu universo altamente pessoal, Gabriela contou com uma equipe afiada e coesa, majoritariamente feminina, incluindo a diretora de fotografia uruguaia Barbara Alvarez, a montadora Karen Akerman e duas atrizes excepcionais: Luciana Paes (já presente em O animal cordial) e a pequena Nina Medeiros, uma das presenças mais fortes das telas nos últimos tempos. A atuação ensimesmada de Julio Machado (o Tiradentes do filme Joaquim, de Marcelo Gomes) é igualmente digna de nota: lacônico, tenso, soturno, é um homem na fronteira imprecisa entre a vida e a morte. Em todos os sentidos da palavra, uma figura sombria.


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Um comentario para "A filha, um pai. O vazio e o desespero"

  1. C. Olive disse:

    Maravilhoso este acesso aqui à produção do cinema brasileiro! Valeu, Outra Palavras!!!

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