A barca furada de Noé

Vítima do abuso de efeitos digitais e de sua própria inanição artística, filme de Aronofsky é banal, desinteressante, paupérrimo

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Vítima do abuso de efeitos digitais e de sua própria inanição artística, filme de Aronofsky é banal, desinteressante, paupérrimo 

Por José Geraldo Couto, no blog do IMS

O cineasta Julio Bressane disse uma vez numa entrevista que a indústria do cinema é a maior fábrica de lixo do mundo. Depois de assistir a Noé, de Darren Aronofsky, é difícil não lhe dar razão.

O filão dos épicos bíblicos é um dos mais antigos e prolíficos do cinema, tendo produzido ao longo de mais de cem anos algumas obras-primas e incontáveis abacaxis. Mais do que avaliar a qualidade dessa produção centenária, seria interessante observar que, mesmo girando em torno dos mesmos episódios, cada filme traz as marcas da época em que foi feito, reafirmando a frase de Benedetto Croce segundo a qual “toda história é história contemporânea”.

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Noé de Aronofsky é um produto típico da cultura de nossa época, no que ela tem de pior, conforme procuraremos mostrar mais adiante.

O problema não é ter acrescentado algumas coisas e mudado outras tantas em relação ao texto do Gênesis. A literatura bíblica, em particular o Antigo Testamento, é marcada pela concisão, pelas elipses e lacunas, conforme aprendemos com Erich Auerbach. Portanto, é natural que, nas versões pictóricas, teatrais, cinematográficas ou mesmo literárias, essas zonas de sombra sejam preenchidas pela imaginação dos artistas. Do episódio de José e seus irmãos, que não ocupa mais do que uma página da Bíblia, Thomas Mann produziu um caudaloso romance em três volumes.

A questão é: o que se acrescenta? O que se modifica? Com que intuito?

Espetáculo sem espetáculo

Noé paga tributo a inúmeras pragas de nosso tempo, a saber: o primado dos efeitos sobre a consistência narrativa; a infantilização do imaginário do público (como justificar de outro modo aqueles risíveis gigantes de pedra?); a adoção de temas e dramaturgia de seriados de TV; uma escolha de elenco que busca menos a eficácia dramática do que a conquista prévia de públicos diversos (incluindo um constrangido e constrangedor Anthony Hopkins para o necessário verniz “cultural”); a composição de uma natureza inteiramente artificial, sintetizada em computador, que lembraria O senhor dos anéis se não fosse pela falta de gosto, de poesia e, paradoxalmente, do sentido do espetáculo.

Quanto a esta última questão – o sentido do espetáculo – chega a ser uma façanha que Aronofsky tenha despendido US$ 150 milhões sem criar uma única imagem memorável, uma única cena comovente, coisa que os filmes kitsch americanos dos anos 1940 e 50 produziam em profusão (o Mar Vermelho se abrindo aos pés de Moisés em Os Dez Mandamentos, Sansão derrubando as colunas do templo em Sansão e Dalila).

Monotonia ruidosa

A meu ver, isso se dá, por um lado, devido à facilidade trazida pelos efeitos digitais, que gera uma espécie de “vale tudo” em que a sucessão de sustos e prodígios em 3-D acaba por fazer com que eles se anulem uns aos outros, numa ruidosa monotonia. Por outro lado, é inanição artística mesmo. Um exemplo: na cena dos animais afluindo para a arca, os quadrúpedes são todos meio cinzentos, numa pobreza cromática que faz com que tudo pareça o rebanho de uma única espécie. O mesmo vale para os pássaros. De que adianta, no caso, usar os recursos digitais para a multiplicação do mesmo, para a reiteração do feio e do monótono?

Quanto ao drama vivido pelos personagens, salta aos olhos a ausência de grandeza humana (da sagrada, então, é melhor nem falar). A cena em que Noé (Russell Crowe, pior do que nunca) hesita com um punhal diante das duas netas recém-nascidas poderia ter a dimensão trágica de um “sacrifício de Isaac”, mas se dilui num sentimentalismo de novela do SBT ou programa religioso da Record.

Mil vezes a grandiloquência cafona em tecnicolor de um Cecil B. DeMille:

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10 comentários para "A barca furada de Noé"

  1. adriana avellar disse:

    Tá. escreveu bastante. mas não disse absolutamente nada que valesse a pena.

  2. Thiago Lanza disse:

    Bem, respeito a opinião do crítico, mas discordo. Achei o filme bem feito e emocionante. E não eh porque ele eh cheio de efeitos especiais que isso desqualifica o filme. Particularmente acho a crítica de Pablo Villaça.

  3. Thiago Lanza disse:

    Errata: prefiro

  4. Reis disse:

    Julio Bressane já apostou em muito lixo pior que este! E para um filme hollywoodiano… até que o enredo ficou legal. Fala a verdade você já pagou para ver bostas piores que essa… pega leve!

  5. Gustavo Costa disse:

    A história de José não ocupa apenas uma página da bíblia; ocupa várias, a depender da edição. A não ser que vc esteja falando de alguma edição GIANT, com meio metro de comprimento, ou algo assim….
    Vá ler a Bíblia.

  6. Giordano disse:

    apenas uma pagina da historia de Jose kkkkkk sao varias amigo, umas cinco

  7. Leonardo disse:

    Mitologia por Mitologia prefiro mil vezes a grega, lá quando os deuses tinham ataques de piti eles só destruíam no máximo uma cidade ou outra.

  8. Jane disse:

    Parabéns pela análise…Assisti ao filme e saí com uma imensa vontade de ler as críticas..por que em si..você bem traduziu..foi de uma pobreza de espírito!!!!…Sem contar o imenso desprazer de comparecer a uma sala de cinema e assistir ao filme diante de um monte de gente…debatendo a biblía…a tradução bíblica…o pastor disse isso..e outro aquilo..Meu…de uma falta de educação típica das salas de cinema brasileiras!!!Serviu de lição pra mim,para evitar ao máximo comparecer aos lançamentos…Principalmente diante de apelos de natureza polêmica…porque são tantos comentários pueris…Como se na saída do cinema não houvesse uma pracinha..ou uma praça de alimentação pra debater depois!…Enfim,interessantes reflexões!!!

  9. osvaldo disse:

    Fui ao cinema meio a contragosto ver Noé, passar o tempo. Não deu outra. Saí depois de 20 minutos. O filme é uma desgraça. E não sou só eu que estou falando não..

  10. wanderley gradela filho disse:

    filme muito chato, impossível de assistir

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