Corrupção nossa de cada dia: mudanças à vista?

Estudantes que compram trabalhos. Professores que faltam a aulas sem razão. Esses atos não ser mais sendo: algo parece mudar na cultura em que estamos mergulhados

Estudantes que compram trabalhos. Professores que faltam a aulas sem razão. Esses atos deixaram de ser admitidos: algo parece mudar na cultura em que estamos mergulhados

Por Débora Nunes | Imagem: Blessing Ngobeni

Pode-se ter a sensação de que a corrupção atingiu níveis inimagináveis nos últimos anos, pois esse tema tornou-se tão presente na mídia que parece que nunca tinha havido antes tanta roubalheira no âmbito público. Ok, nem vou citar inúmeros escândalos desde a época da ditadura até antes da Lava Jato pra dizer que o que tivemos nos últimos tempos foi apenas investigação e punição. Nem vou entrar na discussão sobre as disparidades entre os crimes, a parcialidade ou não de certos juízes, etc. etc., a perseguição de uns e as vistas grossas para outros, temas sobre os quais já se gastaram muitas palavras. Vou falar de nós, pessoas comuns, honestas e que se deliciam ao lembrar que Cunha, Maluf e Geddel estão presos, na companhia de muitos outros notórios corruptos.

O que observo, feliz? Uma intolerância cada vez maior com os pequenos crimes que nos rodeiam. Quem não percebeu o quão é comum hoje falar criticamente sobre as “pequenas corrupções”, desde subornar um guarda de trânsito até ter carteira de estudante falsa? A sociedade está evoluindo muito para perceber o caráter cultural e sistêmico da corrupção e também para combatê-la nos microespaços. Acompanho nos últimos tempos verdadeiras rebeliões pela ética até mesmo nos rincões mais privados e corporativos da sociedade. Posso citar as mulheres que denunciam sem cessar os abusos masculinos, sejam eles sexuais ou puro machismo “ordinário” de homens que consideram que tudo lhes é devido. As manifestações contra o racismo estrutural se multiplicam assim como contra o racismo “ordinário”. Mas vou terminar focando no ambiente das Universidades, que é onde estudo e trabalho desde meu vestibular, há mais de três décadas.

Estudantes que compram trabalhos em plataformas na internet? Que copiam trabalhos já publicados em suas dissertações e teses? Estão sendo denunciados e punidos pelas bancas de avaliação. Professores que colocam informações falsas na plataforma nacional de currículos do CNPQ? Que acumulam horas em contratos múltiplos que lhes fazem ter até 80 horas remuneradas por semana? Que faltam aulas injustificadamente e que não honram a profissão por não dedicar-se seriamente à formação de seus alunos e alunas? Estão sendo denunciados pelos próprios colegas que abrem processos muitas vezes unânimes e assim rompem com uma prática corporativa que vi por décadas. Talvez as reações à corrupção no país devessem estar sendo mais públicas, sobretudo quando malas de dinheiro vão e vêm. Mas a reação fulminante da sociedade brasileira em face do assassinato de Marielle Franco e os processos que tenho acompanhado em torno de mim mostram que podemos ficar otimistas com o futuro. Nossa sociedade está mudando em profundidade.

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3 comentários para "Corrupção nossa de cada dia: mudanças à vista?"

  1. Concordo com a Débora, embora eu esteja no lado oposto do Brasil, tenho notado uma conduta mais íntegra dos motoristas no trânsito, muitos evitando de ultrapassar limites de velocidade e parando em placas e sinaleiras. Claro que não são todos e muitas vezes observo que os apressadinhos do trânsito (ou talvez mais adequadamente projetos de corruptos) ficam dando sinal de luz para o automóvel da frente que está “só” a 80 km/h e não 120 ou mais. Talvez o brasileiro de um modo geral finalmente tenha percebido que os políticos nada mais são que nossos representantes, se somos corruptos, ele também, serão. Se formos honestos, provavelmente nossos representantes também sejam. Realmente não adianta nada falar de políticos com malas de dinheiro quando avançamos sinais fechados, jogamos papel na rua, ou ficamos calados quando o troco vem em valor maior do que o correto. Antes dos políticos aprenderem, o povo precisa aprender, não existe diferença ética entre quem rouba 50 milhões e quem anda a 120 numa via de 80 km/h (só uma diferença de grandeza, mas quem se corrompe por coisa pequena, logo percebe que pode ter mais lucro com coisas maiores). Se nós mudarmos, nossos representantes também mudarão.

  2. José Karaja disse:

    Fiquemos atentos às universidades e faculdades privadas. A mercantilização da educação!

  3. josé mário ferraz disse:

    A elevação mental é inevitável. A História mostra esta realidade. Se atualmente pode-se declarar descrente em divindades, em outros tempos esta descrença era punida com morte dolorosa na fogueira. Lamentável é que se demore tanto para subir cada degrau da evolução espiritual.

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