Uma chance para a Política

A História teima em não terminar. Planejado para consolidar poder conservador, julgamento de Lula pode abrir uma nova onda de mobilização popular

Multidão participa de ato em defesa de Lula, em Porto Alegre (23/3). Acuado pelas instituições, ex-presidente precisará recorrer, cada vez mais, às ruas

Por Antonio Martins | Imagem: Ricardo Stuckert, Fotos Públicas

Árdua é a condição dos três desembargadores do 4º Tribunal Regional Federal (TRF) que julgarão, hoje, Luiz Inácio Lula da Silva. Nas últimas semanas, avolumaram-se as evidências de que a sentença do juiz Sérgio Moro, a ser examinada por eles, é uma aberração jurídica. Não apenas por lhe faltarem, além de provas, a boa lógica – mas principalmente por expressar perseguição política e partidarismo. A Operação Lava Jato, lembrava-se ontem no próprio New York Times, tinha a oportunidade de revirar a política brasileira e suas práticas corruptas. Por ela, passaram casos envolvendo os cardeais de todos os partidos. Depois de quatro anos, apenas um campo político foi atingido; e o juiz derrete-se em sorrisos com alguns dos personagens que deveria investigar.

Porém, ao corrigir a sentença, os três desembargadores do TRF-4 produziriam um terremoto político. Massacrado há quatro anos na mídia, Lula lidera por larga margem a disputa para a Presidência. Sua absolvição iria convertê-lo em herói nacional, destroçaria num ato toda a narrativa construída pela mídia, alvoroçaria os “mercados”.

Nada, na biografia dos três desembargadores, indica que tenham estatura para fazer justiça, quando implica contrariar estas forças poderosas. Por isso, o julgamento que terminará esta tarde é um jogo de cartas marcadas, restando talvez alguma tênue dúvida sobre o placar da condenação.

* * *

No entanto, o ambiente político transformou-se totalmente, em relação às tardes paulistanas em que, nos idos de 2015, apareceram os primeiros bonecos do Pixuleco. As ruas começaram a mudar de cor. As multidões verde-amarelas recolheram-se à sua pequenez. Aos poucos, a cortina de fumaça do discurso “contra a corrupção” dissipa-se e vai surgindo a consciência de que o golpe não foi contra Dilma – mas, principalmente, contra as tímidas conquistas obtidas pelas maiorias. Alguns atos toscos construíram a nova percepção. O atual presidente não chegou a decretar que os supermercados são agora “atividade essencial”, obrigando os funcionários a trabalhar aos domingos sem receber horas extras? Escolas e hospitais não começaram a demitir em massa, para contratar os mesmos professores, médicos e enfermeiros – agora sem garantias e direitos? Os preços do gás e da gasolina não dispararam?

É bom não cultivar ilusões. A mudança ainda é tênue. As pesquisas já registram que a população passou a rejeitar as contrarreformas da Previdência e Trabalhista, assim como as privatizações. Mas o arsenal à disposição dos meios de comunicação hegemônicos ainda é robusto. Um estratagema que já se anuncia é esvaziar o debate político nascente, levantando, para amedrontá-lo, um novo espantalho – o da “luta contra a violência”.

Mas a notável surpresa é que o julgamento de Lula – precisamente o ato que deveria selar a restauração dos quinhentos anos de poder conservador – pode marcar a retomada de um debate político em meio ao qual este processo não sobrevive.

Tendente à conciliação, Lula está radicalizando, pouco a pouco. Não lhe dão outra saída. Quanto mais as portas do poder instituído se fecham para ele, mais terá de nadar nas águas em que é peixe – nos braços do povo. Ontem, ao discursar em Porto Alegre, ele não se limitou a zombar do Judiciário, de Washington, da mídia e dos mercados. Prometeu retornar ao Rio Grande do Sul em fevereiro, para desafiar, em caravanas, os políticos conservadores que agora governam o Estado.

Fala-se que lançará, em março, uma nova Carta aos Brasileiros. Desta vez, teria sentido oposto à primeira. Não acenará à aristocracia financeira – mas “ao povo” e em especial à classe média. Comenta-se que, entre as propostas que estuda, está a de isentar de Imposto de Renda os salários até R$ 5 mil, tributando em contrapartida os dividendos sobre lucros e as grandes fortunas.

Chão para radicalizar, ele tem. Os retrocessos atuais são tão ásperos – e mesmo seu primeiro período no poder foi tão tímido, em reformas estruturais – que há uma imensa agenda de mudanças, um enorme território de privilégios das elites a ser conquistado. E se, provocada, a jararaca propuser anular a lei que concede o Pré-Sal às petroleiras estrangeiras? E se mergulhar, de fato, na luta para revogar as leis malditas do pós-2016?

A condenação mais que provável de hoje não interromperá sua caminhada. Ao contrário. Enquanto se vir perseguido, ele terá, além da vocação natural, a necessidade de procurar as ruas, de demonstrar que a mesma (in)Justiça que o condena mantém o Brasil cindido em Casa Grande e Senzala.

Manterá a campanha e as caravanas. As regras eleitorais permitem que sustente a candidatura, que a registre oficialmente em agosto, que conteste no TSE e no próprio STF as tentativas de impugná-la. O TRF-4 pode tentar prendê-lo, o que abriria as portas ao imponderável. Em qualquer caso, algo é certo: quanto mais perseguida, mais a jararaca terá de morder – e morderá.

* * *

“Lula é um homem da conciliação”, disse Dilma ontem, ao discursar, em Porto Alegre. Tudo indica que combinou o discurso com o ex-presidente. Lula é muitos. Ontem, era todo sorrisos: parecia leve, confiante, até alegre. Mas se sua história serve de parâmetro, ela ensina que ele tem tanta desenvoltura nos salões quanto nas ruas. Certamente negocia e busca saídas no plano institucional – inclusive no diálogo com os adversários.

Mas há uma fissura aberta na normalidade opressora do Brasil – entre a ordem que condena as maiorias e o homem que melhor fala com elas. Enquanto esta fratura persistir, haverá espaço para aprofundar o debate sobre o golpe; para expor seu “projeto” absurdo para um país regredido; para tramar alternativas. Nesse espaço avançará, por exemplo, a campanha para submeter a Referendos Revogatórios a agenda de horrores pós-2016. Neste espaço, pode trafegar o que chamamos de Política.

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8 comentários para "Uma chance para a Política"

  1. Thiago Ferreira disse:

    A classe média sabe que não existem provas contra o Lula.
    A classe média sabe que o Bolsonaro é um maluco e que é corrupto.
    A classe média sabe que o PSDB está mais para uma quadrilha.
    Só que a questão para a classe média não é a corrupção.
    Corrupção é só cortina de fumaça.
    A questão para a classe média é manter 80% da população na pobreza enquanto desfruta a vida. E para isso precisa que só ela tenha educação superior e meios cognitivos de tentar uma vida melhor.
    Para a classe média, pobre não pode ser bem alimentado, não pode receber estímulos para se desenvolver, não pode fazer curso superior.
    Para a classe média, lugar de pobre é ou levantando parede por meio salário mínimo, ou morrendo de fome nas ruas..

  2. Rudda Ricci disse:

    Vai ver se esse tipo de coisa rola nos EUA.
    Vai ver se alguém tem coragem de dar rasteira no Trump.
    Sabe por que não?
    Porque se acontecesse, no dia seguinte milhares de rednecks armados até os dentes começariam a meter bala em tudo que é lugar.
    Mas aqui a gente tem a esquerda paz e amor, que gosta da rede Globo porque faz programa defendendo pauta identitária tipo GLBT.

  3. Rudda Ricci disse:

    Eu acho engraçado esquerda paz e love tentar convencer classe mérdia de quem é corrupto e quem não é.
    Veio, enfia na cabeça.
    Classe mérdia não dá a mínima para a corrupção.
    Problema dela é ver pobre melhorando de vida, fazendo faculdade para concorrer no mercado de trabalho.

  4. Antonio Gonzaga disse:

    CASO LULA. PERGUNTAS QUE O TRIBUNAL NÃO RESPONDEU:
    Qual a conduta do ex-presidente em relação ao alegado crime de lavagem de dinheiro ???
    Qual seria a conduta criminosa do Lula de lavagem de dinheiro, mesmo que ele tivesse “recebido” o triplex ???
    Seria um crime de lavagem de dinheiro por omissão ??? Em caso positivo, teríamos um crime permanente e eterno !!!
    O que caracteriza a conduta de “receber” um imóvel, imputação feita ao ex-presidente Lula?
    Como e quando o Lula “recebeu” o triplex?
    Qual o ato ilegal que o Lula, no exercício de uma função pública, praticou e que tornou indevida a suposta vantagem (triplex)?
    Bastaria que o Tribunal Regional da 4a.Região respondesse a estas indagações, com provas, e pronto. Bastariam algumas poucas páginas para a condenação do ex-presidente.Não seriam preciso mais de 400 páginas para tentar justificar a condenação absurda e surreal !!!
    Afranio Silva Jardim, professor associado de Direito Processual Penal da Uerj.

  5. Antonio Gonzaga disse:

    Lembro da maravilhosa época em que delação premiada era aceita como prova.
    Essa época se chamava Inquisição.
    Mas o homem de bem católico brasileiro está acostumado e apoia esse tipo de coisa.

  6. Esquerda querida, essa romantização do Lula, deve parar já! Teve sua importância histórica e só! Quando vamos superar isso? Quando vamos enxergar que ele teve oportunidade para fazer tudo isso e não fez? Ao contrário, como o próprio texto coloca ele se dirigiu a aristocracia financeira. Quando vamos visualiza-lo como a única opção? A esquerda e o PT estão cavando sua p´ropria cova se apegando a esse personagem cada vez mais desgastado tanto pela mídia quanto por sua própria história. Vamos repensar. Somos mais do que seres repetitivos! Somos criativos.

  7. Hugo Camargo Rocha disse:

    Excelente análise da nossa atual situação. A história para boi dormir do discurso golpista “anti-corrupção” (que monopoliza as comunicações e anestesia as mentes brasileiras), precisa urgente descer ao segundo plano para que o debate político possa ressurgir das cinzas a que foi reduzido pelos interesses golpistas da nossa velha e conhecida direita. Quanto à nossa agonizante democracia, ou o povo se levanta e sacode as cinzas fúnebres que a cobrem, ou vamos então amargar anos de ditadura do mercado, da mídia, e deste judiciário com seus meretríssimos juízes engomados.

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