Por que a direita escolheu Olavo de Carvalho?

Pesquisador que acompanha há anos a atividade do “guru da direita” destaca: ele tornou-se herói dos medíocres ressentidos com a modernidade; mas desprezá-lo é academicismo elitista e impotente

Olavo se faz presente também nas faixas dos protestos da nova direita | Foto: Douglas Cometti/ Folhapress

Fabrício Pontin, entrevistado por João Vitor Santos, na IHU

Até bem pouco tempo atrás, Olavo de Carvalho era um dos articulistas nacionais que vagava pelas sombras das editorias de opinião. Entretanto, a eleição de Jair Bolsonaro trouxe ainda mais luz aos movimentos de Carvalho, tomado por muitos como um dos centrais pensadores da extrema direita brasileira. Afinal, ele foi capaz de capitanear uma legião de seguidores que o guindaram às seções dos mais vendidos nas livrarias. Mas não é só isso: ele também é mais assistido, twittado, comentado e capaz de inspirar o presidente eleito na formação de seu ministério, inclusive com a indicação direta de nomes. Diante desse fenômeno, é inevitável que se questione: afinal, quem é esse intelectual que se populariza e leva para a pauta o ideário da extrema direita? “’Intelectual’ é um termo estranho para usar com o Olavão, ao menos em qualquer acepção convencional do termo”, destaca o professor Fabrício Pontin. Para ele, Carvalho está muito mais para um polemista. “Ele apela para uma narrativa conspiratória que dá um curto-circuito na tentativa de crítica. Se você diz que o Olavo não entendeu ou está errado, você é parte da conspiração e na realidade sabe que ele está certo, mas está trabalhando para manter todos iludidos”, define.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Pontin observa que Olavo de Carvalho assume uma espécie de posição marginal quando o assunto é mainstream da intelectualidade nacional. “As discussões intelectuais no Brasil nos últimos anos se tornaram uma grande câmara de eco, onde cada rolê intelectual se isola em núcleos de discussão específicos que só dialogam em situações específicas e extremamente codificadas”, observa. Ou seja, a academia se fecha na sua hermeticidade e quase “prega para convertidos”.

É justamente nesse “filão” que ele vai apostar. “O Olavo tem explorado esses delírios da ortodoxia da academia brasileira de forma brilhante nos últimos cinco anos”, constata. E questiona: “nós vamos seguir fingindo que não existe uma ortodoxia fechada dentro dos grupos que impede uma discussão franca de problemas?”

Para Pontin, enquanto a academia se fecha nos debates, Carvalho se alastra em rede. “O Olavo ao menos pode dizer que oferece um bom retorno ao investimento feito pelo sujeito que admira o trabalho dele. Responde e-mail, faz conferências com os admiradores, faz podcasts e videocasts periódicos, escreve colunas, faz análises que respondem às ansiedades das pessoas que gostam e admiram ele. Quantos membros de grupos de trabalho em universidades brasileiras podem dizer o mesmo sobre os seus respectivos grupos?”, acrescenta.

Entretanto, compreender esse fenômeno é apenas parte dos movimentos que constituem Carvalho como um grande influenciador da atualidade. Nesse vazio ou recusa deixados por intelectuais vai haver uma série de pessoas que não vão se sentir representadas nem pelas forças políticas, nem pelos pensamentos correntes. “O Olavo não é o grande autor da extrema direita brasileira. Ele se tornou o grande intérprete das ansiedades de massa no Brasil, um cara que foi capaz de ler as vulnerabilidades e demandas sociais muito melhor que muito crítico cultural marxista que insiste em achar que Adorno vai nos ajudar a explicar esse ou aquele aspecto do problema de classe”, analisa Pontin.

Assim, Carvalho mergulha de cabeça nas redes e apreende uma linguagem que “capilariza” uma série de discursos de descontentes. “Quem ouviu o Olavo nos últimos seis anos não se espantou com a linguagem do plano de governo do Bolsonaro, mas o problema é que grande parte dos núcleos intelectuais simplesmente não entenderam que esse cara tinha organizado um movimento de base que explorava essas ansiedades sociopolíticas de parte da população, e dava uma explicação fácil e direta para as mudanças dos últimos anos”, acrescenta. O resultado? “Olavo zombou de toda essa empáfia da alta intelectualidade da Universidade de São Paulo – USP, que achava que era dona da interpretação cultural no Brasil – e que não se deu conta que o Superpop é muito mais importante que o Roda Viva para o brasileiro médio”, resume o professor.

Fabrício Pontin é professor assistente de Direito e Relações Internacionais na Universidade LaSalle, em Canoas, no Rio Grande do Sul. Graduado em Direito, também é mestre em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS e doutor em Filosofia pela Southern Illinois University (Universidade de Illinois, Campus Carbondale), com estágio de pesquisa no Instituto de Pesquisas Avançadas em Filosofia Social e Política da Universidade de Bergen. Ainda realizou estágio pós-doutoral no Centro Brasileiro de Pesquisa em Democracia. É membro do Phenomenology Research Center, na Southern Illinois University e atualmente coordena um projeto de pesquisa sobre empatia, cognição e percepção. Confira a entrevista:

Fabrício Pontin

IHU On-Line – Olavo de Carvalho é tomado como um dos principais intelectuais da chamada extrema direita nacional. Mas o que é essa extrema direita e no que consiste o pensamento desse referencial? Como compreender essa ascensão? E em que medida essa ascensão está relacionada com uma inabilidade da esquerda?

Fabrício Pontin – Parte do que dificulta o entendimento do Olavão [1] nos círculos intelectuais é a tentativa de interpretar ele dentro destes quadrados convencionais. “Intelectual” é um termo estranho para usar com o Olavão, ao menos em qualquer acepção convencional do termo. Ele está muito mais próximo de um polemista, que tem uma atitude entusiástica com a história da filosofia – e uma leitura bastante peculiar dessa história.

E aqui também acaba sendo difícil falar de uma “base teórica” para o Olavão. A gente pode dizer que ele admira várias figuras da história da filosofia ocidental. Ele diz ter especial predileção por Aristóteles[2], Schelling [3], Husserl [4], pelos místicos neo-Aristotélicos árabes e por Aquino [5]. Certamente são referências de peso, intimidadoras até para quem já é iniciado em Filosofia. Essas escolhas, por parte do Olavão, são estratégicas. Ele sempre foca em aspectos particularmente impenetráveis de autores que são conhecidos por sua dificuldade – e ele consegue usar esses aspectos de forma sedutora, apontando para polêmicas atuais.

Quando o Olavão quer falar de filosofia mesmo, e tem uns cinco livros nos quais ele tentou fazer isso, vai focar nessas referências mais consagradas e cruzar elas com algumas figuras que não são exatamente célebres no pensamento conservador convencional. Por exemplo, a gente nunca vai ver o Olavão falando do Alexander Hamilton [6], ou do Burke [7] (para usar dois pilares do conservadorismo moderno); prefere focar em autores como o Renè Girard [8], o Otto Maria-Carpeaux e o Mário Ferreira dos Santos, por exemplo, fazendo uma interpretação alinhada com o que eu chamaria de um “conservadorismo místico”, que é bem vinculado à discussão do problema da gnosis entre o final do século XIX e o início do século XX.

Seu contexto, na discussão filosófica, é o contexto do “Pêndulo de Foucault”[9], do Umberto Eco [10] – é uma narrativa que busca algo escondido, misterioso, que ninguém nunca havia pensado antes, dentro dos pensadores clássicos –, isso aliado com uma loucura por referenciamento e uma ansiedade enorme por demonstrar sofisticação. Inclusive, a grande missão do Olavão nos livros dele da década de 1990, e em boa parte da produção onde ele ao menos tenta fazer Filosofia, é provar que, por um lado, tem uma sofisticação enorme e uma capacidade incrível de interpretação dos trabalhos mais clássicos da Filosofia Ocidental, e, por outro lado, provar um grande complô dentro dos departamentos de Filosofia que está impedindo o acesso do grande público ao “verdadeiro” sentido dos textos desses autores.

Aqui, Olavão vai mais uma vez nos lembrar do “Pêndulo”, ele é uma figura que tenta provar que existe algo escondido e misterioso dentro dos clássicos, mas que também existe uma grande conspiração para evitar que a gente descubra o que está escondido. Esse elemento é absolutamente fundamental para compreender o crescimento do Olavo nos últimos anos: ele apela para uma narrativa conspiratória que dá um curto-circuito na tentativa de crítica. Se você diz que o Olavo não entendeu ou está errado, você é parte da conspiração e na realidade sabe que ele está certo, mas está trabalhando para manter todos iludidos.

Os departamentos e a intelectualidade

Aqui entra a questão dos departamentos de Filosofia e da intelectualidade. Eu disse antes que o Olavão não é um intelectual no sentido convencional do termo. Isso trabalha a favor dele. As discussões intelectuais no Brasil nos últimos anos se tornaram uma grande câmara de eco, onde cada rolê intelectual se isola em núcleos de discussão específicos que só dialogam em situações específicas e extremamente codificadas. Muita gente critica o Olavão por ter criado uma espécie de seita, mas o funcionamento dos nossos núcleos de pesquisa e discussão não está muito longe disso e tem pouca legitimidade para criticar a postura do Olavo.

Inclusive, o Olavo ao menos pode dizer que oferece um bom retorno ao investimento feito pelo sujeito que admira o trabalho dele. Responde e-mail, faz conferências com os admiradores, faz podcasts e videocasts periódicos, escreve colunas, faz análises que respondem às ansiedades das pessoas que gostam e admiram ele. Quantos membros de grupos de trabalho em universidades brasileiras podem dizer o mesmo sobre os seus respectivos grupos?

Ao mesmo tempo, nós vamos seguir fingindo que não existe uma ortodoxia fechada dentro dos grupos que impede uma discussão franca de problemas? Que não existe uma padronização do modelo de leitura e de crítica das grandes “tradições” dentro dos círculos intelectuais e mesmo uma padronização do modelo de leitura dos fenômenos políticos por parte dos articulistas acadêmicos no Brasil?

Fingir que não existe um problema aqui, ou mesmo celebrar esse problema como uma qualidade da “real discussão acadêmica” é parte do que permitiu ao Olavão subir na cadeia alimentar da discussão política no Brasil. Até poucas semanas antes do final do primeiro turno, alguns dos principais articulistas de esquerda no Brasil seguiam dizendo que o Bolsonaro não iria sequer participar do segundo turno, por este ou aquele delírio analítico. Que legitimidade esse tipo de analista tem para criticar a postura do Olavão? Mais importante, como esse analista vai falar para qualquer pessoa que ela deve ouvir ele e não o Olavo depois de insistir em interpretações delirantes simplesmente porque a interpretação delirante era o que a ortodoxia dentro da academia brasileira exigia?

Portas abertas por Olavo

O Olavo tem explorado esses delírios da ortodoxia da academia brasileira de forma brilhante nos últimos cinco anos. E a reação da academia ao fenômeno Olavo não sugere que a coisa vai melhorar. Já vi intelectuais criticando o Olavo por ter a formação só até a quarta série (sei lá se isso é verdade) ou por não ter diploma em Filosofia, ou por fazer uma interpretação equivocada do livro Zeta da Metafísica e portanto não entender esse ou aquele aspecto do problema do signo em Aristóteles. Ou, ainda, por usar muitos palavrões no seu podcast e ter fascinação por sexo anal. Francamente, e daí? O ponto está longe de ser esse. Mesmo que tudo isso seja verdade, não importa nem um pouco no final das contas – especialmente para o sujeito que está vendo no Olavo de Carvalho uma via de entrada para discutir questões que ele nunca imaginou antes que ia conseguir discutir. Onde a ortodoxia fecha portas com exigência de discursos padronizados e testes de pureza, o Olavão abre uma grande porta e diz: olha, pode entrar, mas cuidado com os comunistas.

O curioso é que o Olavo, durante muitos anos, foi apenas mais um articulista polemista de direita, mais ou menos como um cara para ocupar espaço editorial no jornal falando isso ou aquilo sobre a perda dos nossos valores tradicionais. Mesmo figuras como Percival Puggina [11], por exemplo, tinham mais exposição que o Olavo – até por terem mais vínculo com setores tradicionais do conservadorismo no Brasil, como a Opus Dei [12]. O Olavão fez um processo longo, começando totalmente na periferia do discurso conservador, e gradualmente indo além dele. Foi fundamental para o crescimento do Olavo ir além da direita conservadora brasileira convencional. Muitas das pessoas que o seguem não teriam interesse nele se ele se colocasse, inicialmente, como mais um articulista de direita. Se tivesse se mantido nesse nível, nunca teria conseguido sair do lamaçal em que ele estava no início dos anos 2000, quando perdeu boa parte dos convites para editoriais que ele recebia no Brasil, depois de fazer inimizade com dois terços da imprensa brasileira.

O Intelectual da extrema direita?

Ver o Olavão como um intelectual da ‘extrema direita’ brasileira, nesse sentido, me parece um pouco simplista – e um pouco daquela insistência em ler o Olavão pelas lentes da ortodoxia. O Olavo não é um “intelectual da extrema direita” na medida que ele percebeu que a linguagem da internet e o perfil dos brasileiros jovens que gostam dele não tem muita paciência para esse papo de “intelectual” e “extrema direita”. É evidente que existem pessoas que se caracterizam dessa forma e procuram o Olavão por identificar uma afinidade dele com temas da extrema direita, mas não acho que essa é a melhor chave de leitura.

Exploração da vulnerabilidade do sistema educacional

O Olavão explora vulnerabilidades do nosso sistema educacional, ao mesmo tempo que se posiciona de forma ativa e irreverente nas redes. Esse combo botou ele na posição de profeta de uma espécie de guerra cultural. Olavo explora a incompreensão que parte do público tem das novas dinâmicas sociais de gênero e de organização política, e trabalha em uma nostalgia e uma vontade de desaceleração da pauta progressista que é comum até entre pessoas que não se identificam como de “direita”.

Como os setores da ortodoxia intelectual se recusaram a perceber esse fato (o desconforto de parte da sociedade com a aceleração da pauta progressista no nível cultural), o Olavo explorou. Ao explorar, ele também vinculou mais gente ao lado dele nessa disputa cultural – isso é fundamental para entender o país hoje. Não é, necessariamente, uma questão de aderência a um pensamento de extrema direita, mas o vínculo com elementos de uma pauta antiaceleracionista nas questões progressistas.

É óbvio que o Olavo faz uma caricatura dessas questões culturais. Mas até essa caricatura é feita para explorar o aparente consenso que a pauta progressista adquiriu dentro do mainstream político-cultural brasileiro. Daí o discurso sobre a tal da ditadura gayzista-abortista, e a grande conspiração gramsciana que irá, invariavelmente, levar o Brasil na direção do tal marxismo cultural. Quem ouviu o Olavo nos últimos seis anos não se espantou com a linguagem do plano de governo do Bolsonaro, mas o problema é que grande parte dos núcleos intelectuais simplesmente não entenderam que esse cara tinha organizado um movimento de base que explorava essas ansiedades sociopolíticas de parte da população, e dava uma explicação fácil e direta para as mudanças dos últimos anos.

O intérprete das ansiedades

Meu ponto aqui é que o Olavo não é o grande autor da extrema direita brasileira. Ele se tornou o grande intérprete das ansiedades de massa no Brasil, um cara que foi capaz de ler as vulnerabilidades e demandas sociais muito melhor que muito crítico cultural marxista que insiste em achar que Adorno [13] vai nos ajudar a explicar esse ou aquele aspecto do problema de classe – ou em escrever colunas lastimáveis nos grandes jornais sobre o fato de que ninguém mais escuta Chico Buarque ou que ninguém se importa com música atonal. O Olavo zombou de toda essa empáfia da alta intelectualidade da Universidade de São Paulo – USP, que achava que era dona da interpretação cultural no Brasil – e que não se deu conta que o Superpop é muito mais importante que o Roda Viva para o brasileiro médio.

IHU Online – De outro lado, que críticas Olavo de Carvalho tem recebido de setores da extrema direita?

Pontin – Olha, eu vou ser franco e dizer que não consegui ter estômago para ver o debate dele com o Dugin  [14] – sobretudo por não ter nenhuma condição psicológica de aguentar as coisas que o Dugin escreve e diz. Eu sei que gerou algum mal-estar com o pessoal que defende o arianismo, especialmente nos círculos portugueses de extrema direita (esses sim, extrema direita MESMO) que às vezes querem discutir e surfar um pouco na notoriedade do Olavão.

Entretanto, de forma geral, creio que a questão do Olavão com a extrema direita é que ela requer uma inflexibilidade ideológica que não fecha com o comportamento do Olavão. Ele, nesse sentido, é uma espécie de símbolo de uma direita pós-moderna, que não fecha bem com uma leitura de extrema direita convencional, ou sequer com a alt-right nos moldes norte-americanos. 

A postura do Olavão precisa ser híbrida para funcionar. Se ele for identificado com esse ou aquele grupo específico, seja a extrema direita, seja a alt-right, seja mesmo a ultradireita católica, ele vai perder apelo. Eu creio que o Olavão sabe disso, e usa isso inclusive para fomentar debate com os membros mais extremos desse círculo, conseguindo apelar ao mesmo tempo para certas questões comuns, como o anticomunismo, o antiprogressismo e o antiateísmo.

No fundo, a postura do Olavão tem uma irreverência e maleabilidade que é incompatível com um discurso extremista convencional, e tem uma pretensão de sofisticação e intelectualidade que não fecha com o discurso da alt-right. Isso acaba tornando o Olavo uma figura difícil de engolir para esses caras, porque o tipo de heterodoxia que o Olavo propõe, em última medida, não vai servir para a visão de mundo profundamente unilateral e radical dos ideólogos mais racistas e violentos da extrema direita convencional e da alt-right.

Além de se filiar a uma perspectiva teórica e filosófica, Olavo de Carvalho se apropriou da internet e das redes sociais como principal canal para propagação de suas ideias. Como observa essa relação dele com as ditas novas tecnologias? Pode-se considerar que desde muito cedo ele foi capaz de capturar o potencial dessas ferramentas?

O Olavo estava na hora certa e no lugar certo. O Curso Online de Filosofia surgiu junto com a maior popularização da internet no Brasil, e o Olavo sempre esteve muito de olho no pessoal da direita norte-americana que trabalhava com rádio e TV, e nos articulistas que começaram a explorar isso em canais como o youtube. Creio que o Olavo, desde que foi para os EUA, olhou muito para o Glenn Beck [15], o Rush Limbaugh [16], o Michael Savage [17], e tentou imitar o modelo que esses caras criaram, de articulação populista na web, com imagens, divulgação e tudo mais. É interessante porque o cara que traz o Olavão para a frente do debate é o Rodrigo Constantino [18], com quem o Olavão depois brigou feio. O Constantino usa o Olavão para se promover, e até validar alguns pontos de vista dele como pontos de vista “intelectuais”, e o Olavo começa a aparecer um tanto no buffer de influência do Constantino.

Hoje, é claro, o Olavão tem muito mais aderência que o Constantino. Isso é porque ele consegue fazer muito bem o jogo da gritaria e da mobilização on-line, e também usar as redes de apoiadores para divulgar o trabalho dele. Outra coisa que a gente deixa de mencionar é o quanto o pessoal que odeia o Olavo foi importante para o crescimento dele. Muito do crescimento do Olavão é predicado em gente que acidentalmente divulgou o trabalho dele ao tentar zombar do que ele dizia.

Algo parecido aconteceu com o próprio Trump: pessoal usava declarações do Trump como exemplo de algo burro e estúpido, e pessoas que pensavam parecido ou achavam as opiniões do Trump ao menos razoáveis se sentiam atingidas pelo que era dito. Não existia, de fato, propaganda negativa – existia apenas propaganda. O Olavo se beneficiou por aparecer dizendo algo diferente em um universo de opiniões mais ou menos homogêneas, que sugeriam que quem tivesse reservas com o mainstream era ou burro ou monstruoso. O tiro acabou saindo pela culatra.

Olavo de Carvalho vai aglutinando um público jovem de direita, mas também jovens em geral. Como analisa essa adesão dos jovens ao pensamento de Carvalho? Qual é a sua estratégia para conseguir essa adesão?

Inicialmente, o Olavo apelou para jovens conservadores de direita, especialmente jovens religiosos. Isso é resultado de uma saturação da linguagem da Teologia da Libertação [19] dentro dos círculos católicos, que resultou na formação de vários jovens em uma linguagem teológica um tanto mais conservadora, mas igualmente populista. O populismo do movimento neocarismático e neotradicionalista dentro da igreja (que são forças diferentes, mas igualmente conservadoras) emprestou uma geração de jovens que estavam querendo ouvir discursos mais alinhados com o conservadorismo religioso. Embora o Olavo esteja muito longe da ortodoxia da Opus Dei, ele conseguiu um espaço aí graças à irreverência e ao carisma que ele inegavelmente tem. Isso é outro fator que o pessoal não se dá conta: o Olavo é um sujeito extremamente carismático. É fácil gostar do Olavo, especialmente se o camarada se depara com o discurso dele sem uma resistência prévia. 

Mas, mais uma vez, só com os jovens católicos e conservadores o Olavão não teria ido muito longe. Creio que 2013 foi fundamental, especialmente o uso do Olavão já na comunidade Revoltados On-line, e depois pelo MBL, os cartazes “Olavo tem Razão”, e outras “cositas más”, que geraram um interesse enorme no trabalho do cara. Creio que é nesse momento, por exemplo, que o Eduardo Bolsonaro começa a frequentar o Curso On-Line de Filosofia – COF (mas pode ter sido antes, não tenho certeza absoluta disso).

De qualquer forma, o Eduardo Bolsonaro [20] é um bom exemplo paradigmático do tipo de jovem que acaba curtindo o Olavo: um cara de família conservadora, que está bem de vida, teve uma educação boa, mas nunca foi particularmente brilhante na faculdade ou na escola, tem um interesse por política e não se identifica com o mainstream cultural – ao mesmo tempo que curte elementos da cultura mainstream. O Olavo conseguiu apelar para esse cara ao oferecer uma contracultura de consumo inicialmente rápido, mas com uma opção de imersão. 

Não adianta, por exemplo, o Ruy Fausto dizer que o Olavão apela aos jovens por usar frases curtas. Isso é parte do motivo que estamos onde estamos nessa questão. O Olavo começa com um apelo mais rápido, mas existe uma possibilidade de imersão – e isso é parte do produto que é oferecido. Muita gente escolheu entrar de cabeça em toda narrativa, e eu acho que estamos recém começando a ver os efeitos disso a longo prazo. 

Em que consiste a crítica de Olavo ao marxismo cultural? De que forma sua crítica ao marxismo é fundamentada? Como compreender a aderência dessa sua visão?

A questão do marxismo cultural é uma reedição do pânico anticomunista, que o Olavão usa como chave de leitura, basicamente, para o mundo. O Marxismo Cultural explica desde a vitória do PT nas eleições até as mudanças de atitude sexual, e funciona como uma nuvem que paira sobre toda a contemporaneidade. É engraçado, porque o Olavo vê toda essa eficiência da doutrinação da esquerda (pela via do Marxismo Cultural) ao mesmo tempo que alega que as escolas são inefetivas, e daí a culpa da inefetividade das escolas é do Marxismo Cultural – que quer deixar nossas crianças doutrinadas e burras para serem dominadas pela grande conspiração marxista (que inclui, é claro, educação para a homossexualidade e normalização do aborto, na narrativa do Olavão).

Para quem vê de fora, a aderência dessa visão é inexplicável. Mas o problema é que ela se tornou uma forma de organizar um sentimento antiprogressista que parte da população já tinha. Aqui, mais uma vez, vem a genialidade do Olavo em ler as ansiedades culturais e demográficas bastante prevalentes no Brasil, e de dar uma via de explicação fácil, e contra-mainstream, para isso.

Guerra cultural

A questão da guerra cultural é outro elemento que o Olavão fagocita dos americanos. Em grande medida, o Olavão pega emprestada a retórica do Pat Buchanan sobre a “maioria silenciosa”, e usa essa retórica para incendiar aquelas ansiedades culturais que mencionei ali em cima. Aqui, é interessante ver o jogo de antagonismos que o Olavo precisa jogar: a população “de bem” está sendo esmagada por uma retórica “maldosa” que quer “destruir” a civilização, uma grande conspiração quer acabar com qualquer sentimento conservador e tradicionalista, e precisamos nos organizar para nos proteger dessa conspiração que irá vitimar, nas palavras do Olavão, a própria civilização ocidental.

Tudo é uma grande bobagem, claro. Mas o Olavo manipula isso muito bem, e manipula muito o sentimento de alienação que parte da população tem diante das demandas mais progressistas. A principal força propulsora da aderência ao discurso do Olavo aqui é, mais uma vez, um receio diante de mudanças culturais – que passa desde a ver beijo gay na novela das oito, até a paranoia sobre a Pabllo Vittar [21] se materializar todo dia na TV e convencer o sobrinho da dona Maria em Campinas a virar cantor de funk feminista.

Olavo também é contumaz crítico do setor acadêmico brasileiro, alegando que as universidades estão contaminadas com a ideologias de esquerda. De outro lado, a academia não reconhece a produção dele, desconsiderando qualquer possibilidade de diálogo por não serem essas reflexões acadêmicas e científicas. Em que medida essa cena, já retratada por você aqui na entrevista, revela a inabilidade e a falta de conhecimento de um sobre o outro? Nessa disputa, ele parece sair vitorioso?

Em primeiro lugar, eu não tenho a menor dúvida que o Olavão guarda um grande rancor dos anos que ele passou sendo achincalhado pelo establishment universitário brasileiro. Ele pode argumentar que nunca queria ter tido esse reconhecimento, que ele sempre foi mais feliz independente, mas isso é uma grande bobagem. Tanto que toda vez que ele pode apelar para um reconhecimento eventual de um grande nome da filosofia brasileira que emprestou legitimidade para ele, ele faz isso com todo orgulho.

Só que todo mundo sabe que essas grandes figuras não dão a menor bola para o que o Olavo tem para dizer sobre Filosofia. Se dessem, teriam citado o Olavo em alguma das centenas de papers e livros que eles produziram nos últimos 20 anos. Não citaram. Não citaram porque sabem que o Olavo tem absolutamente nada para adicionar para a forma que eles fazem Filosofia. Isso não é uma questão de “falta de reconhecimento”, mas de falar o óbvio: o Olavo não faz Filosofia acadêmica, e se a gente for julgar ele pelos parâmetros da Filosofia acadêmica, qualquer profissional da área que for minimamente honesto consigo mesmo vai dizer que ele é no máximo um entusiasta, amador, sobre o campo.

Como disse antes: e daí? Eu acho essa questão do Olavo ser um entusiasta que, do ponto de vista da ortodoxia da Filosofia faz um trabalho horrendo, completamente irrelevante. O pessoal da Filosofia ignora ou o avacalha, ou eventualmente vê nele alguém interessante do ponto de vista político – como é o caso de vários desses professores, que parecem ter visto no Olavo alguém que divide preocupações do professor sobre a aceleração da pauta progressista e do “movimento de esquerda”.

Sem diálogo com grandes públicos

O que ninguém na Filosofia faz, no entanto, é dialogar com o público em geral da forma que o Olavo tem se proposto a fazer. Ouvi colegas dizendo que o Olavo é “o filósofo que o Brasil merece” ou que “chamar o Olavo de filósofo é absurdo”. Eu acho as duas afirmações absolutamente condescendentes e ridículas. Se o Olavo quer ser chamado de filósofo, para mim, tanto faz. Que seja. Acho bizarro partir do princípio que chamar alguém de filósofo é elogio, ou um reconhecimento de algo místico e incrível – e acho significativo que o grupo reaja ao Olavo nesta questão específica, porque já indica uma prepotência muito estranha.

Ninguém quer reconhecer que o Olavo entrou em um vácuo público deixado pelo pessoal da academia. E isso é um fato consumado. O pessoal ficou dialogando dentro de suas câmaras de eco, para os iguais, e perdeu uma oportunidade de sair dos seus respectivos castelos de cristal.

O debate

Com isso não quero dizer que alguém tem a obrigação de debater com o Olavo. Via de regra, o pessoal acaba sendo derrotado por simplesmente não conseguir responder ao tipo de provocação e discussão que o Olavo propõe, muito por estar acostumado com os debates ultracodificados e herméticos da universidade, e muito por desprezar o Olavo e assim abrir um flanco para ele atacar. Houve vários casos de professores consagrados na Filosofia brasileira que, ao tentarem atacar o Olavo, acabaram sendo desmoralizados, porque acharam que o Olavo não ia responder ataques condescendentes à altura – e ele é muito bom em desmascarar a postura condescendente dos avatares da nossa cultura acadêmica.

Isso significa que ele venceu? Não sei. Eu acho que tem uma probabilidade muito grande do Olavo perceber bem rápido que ficar conhecido pode ter efeitos inesperados. O Olavo agora vai estar na posição estranha de ter que dialogar para fora da bolha que ele mesmo criou – e é curioso, nas últimas semanas tive muito diálogo com alunos do Olavão que já se comportam como membros de uma ortodoxia. Diante de qualquer crítica, a resposta deles não é diferente da resposta de membros acríticos da ortodoxia hegeliana, por exemplo: “Você leu TUDO do professor Olavo?” “Você acha que consegue compreender os anos de estudo do professor Olavo sobre gnosis?”.

Se a gente substituir o nome do Olavo pelo nome de algum figurão da ortodoxia foucaultiana no Brasil, a conversa seria igualmente plausível – e igualmente indicativa que o Olavo, agora, vai ter que se acostumar a ser parte de uma realidade diferente, com expectativas diferentes. Não sei se ele vai se adaptar bem nesse cenário, minha aposta é que o Olavo vai começar a deixar todo mundo um tanto saturado do discurso que ele tem para oferecer, e bem rápido. 

Aquecimento global e outras perspectivas ambientais com comprovação científica são negados por Olavo de Carvalho sob o argumento de que são construções, ideologizações. O que está por trás dessas suas contestações à ciência?

Mais uma vez, a questão do anti-establishment é um pacote completo. O Olavão não pode ceder um espaço para a grande conspiração comunista – ela precisa estar presente em todos os aspectos da vida quotidiana. Daí a questão do questionamento de questões de fato, como a mudança climática, a evolução, a morte cerebral, e o heliocentrismo – que Olavo critica desde uma perspectiva que é, francamente, tão hilária que vale a pena conferir.

O jogo do Olavo é plantar algum tipo de dúvida sobre uma questão consolidada no discurso público, e usar essa dúvida para desqualificar todas as inferências sobre fatos consumados no discurso. Ele sempre vai começar por questões culturais que são mais consolidadas, e partir dessas para criar dúvidas sobre a narrativa geral. É uma estratégia clássica em dialética erística, que é o uso de generalizações e argumentos retóricos alternados com asserções parcialmente verdadeiras. Funciona como uma forma de estabelecer uma narrativa ampla e total sobre o mundo, uma forma de fornecer uma chave de leitura conspiratória para a realidade.

Como compreender a centralidade da religião nas acepções de Olavo de Carvalho? É possível, a partir da centralidade que a religião assume em seu pensamento e a crítica ao cientificismo, apreender uma crítica de Olavo de Carvalho à Modernidade, que seculariza o divino?

Acho que religião não é o melhor termo. Misticismo, sim. Religião me parece vincular o Olavão com um tipo de discurso sobre Deus que seja consolidado e estabelecido. Eu não acho que o Olavão faz isso. O Olavão precisa apelar, com o discurso dele, para pessoas de diferentes denominações que, isso sim, tem em comum certas reservas ao discurso moderno e liberal – ao mesmo tempo que faz uma associação do discurso moderno e liberal com o comunismo (ao menos no caso brasileiro).

Então existe um misticismo de fundo comunitário do Olavo, que em muitos momentos lembra mesmo algumas coisas do período onde o Schelling escreve um trabalho chamado Weltalter, que é um texto impenetrável, inacabado, onde ele trabalha as diferentes facetas do místico e da formação da comunidade moral. Eu não tenho a menor ideia se o Olavão teve contato com esse texto, mas quando ele menciona Schelling ele faz bastantes referências a questões da Gnosis, e da espiritualidade, que são elementos que o Schelling, num período obscuro da filosofia dele, usa para criticar a Modernidade e falar de uma espiritualidade gnóstica que está perdida na Modernidade. 

Não é estranho que o Olavo escolha esse caminho. É um caminho que o Eric Voegelin [22] também escolhe – e, em alguma medida, um autor que eu nunca vi o Olavão citar, o Max Scheler [23]. É evidente que todos esses autores fazem isso de forma mais sistemática e menos conspiratória que o Olavão, que faz uma leitura, para dizer o mínimo, aberta dessa questão da Modernidade, do comunitarismo e da questão da espiritualidade. 

Aqui, o Olavo vai se afastar de autores do mainstream filosófico e apelar para figuras periféricas e vinculadas à explosão do misticismo e antimodernismo do final do século XIX e início do século XX, figuras como Schuon [24], Lavelle [25] e Lonergan [26] – essas são figuras que desaparecem do debate filosófico acadêmico, mas se mantêm na periferia, na discussão entre entusiastas, e dentro de círculos bastante específicos do pensamento conservador. Evidentemente, se você vê um vídeo do Olavão falando sobre esses caras, ele vai dizer que todos eles foram excluídos do debate pela mesma conspiração comunista que diz que o aquecimento global existe e que o planeta terra não é o centro do universo. 

Gostaria de tratar alguns conceitos: o humanismo é um conceito que aparece em Olavo de Carvalho? Qual é a ideia de democracia para Olavo de Carvalho? Como Olavo compreende o papel das minorias numa sociedade?

Eu não sei te responder nenhuma dessas perguntas de forma direta – e até acho que talvez fosse o caso de perguntar para o próprio Olavão. Mas nas últimas entrevistas que vi dele, percebo que ele vem focando muito na questão da necessidade de um governo de direita que vá representar a verdadeira postura da maioria da população brasileira que foi massacrada por uma pós-constituinte que foi marcada por governos de esquerda (de Lula até Dilma/Temer) sem oferecer alternativas reais de projetos conservadores.

Evidentemente, a questão da alternância de poder é legítima, e acho saudável que o Olavão coloque a discussão nesses termos. Verdade seja dita, o Olavão não vai se alinhar com discursos antidemocráticos ou totalitários, não obstante o número de viúvas e viúvos de regimes autoritários que admiram o Olavão. Acho injusto condenar o Olavo por associação com esse ou aquele filhote, ou exigir dele mais coerência do que exigimos de nossos pares vinculados à esquerda histórica e que várias vezes falam barbaridades sobre figuras do calibre do Fidel Castro ou do Maduro, apenas para ficar em dois exemplos.

Inclusive, o Olavão vai usar isso muito para descaracterizar os ataques feitos contra ele. Cada vez que um membro do establishment de esquerda ataca o Olavão por relativizar a ditadura militar, o Olavo mobiliza a rede de apoio dele para começar uma pesquisa enorme para encontrar alguma declaração desse mesmo membro relativizando a ditadura em Cuba, na Venezuela ou falando de forma elogiosa de alguma figura mais controversa da esquerda histórica brasileira. Quase sempre, ele acaba encontrando alguma coisa. Isso acaba sendo usado como uma estratégia para deslegitimar a crítica ao autoritarismo de direita por parte de intelectuais de esquerda – e ele não deixa de ter um ponto sobre as inconsistências dos argumentos de alguns colegas.

Minorias

Sobre as minorias, do que eu consigo inferir, o Olavão nunca teve um problema com minorias de forma específica. A questão do Olavão é com a pauta identitária de esquerda, e a forma como essa pauta identitária vai usar a questão das minorias – daí sim, o problema vira associado com a questão do marxismo cultural, com a dominação hegemônica da cultura, e outras coisas do tipo.

Humanismo

A questão do humanismo, me parece, vai ser dividida pelo Olavo em termos seculares e não seculares. Creio que o humanismo liberal, de linha social-democrata, pode ser facilmente encaixado ou como uma linha auxiliar, uma espécie de “idiota útil” para a dominação comunista, ou um instrumento franco da dominação marxista-comunista-gayzista-abortista da sociedade, especialmente quando é usado como veículo para a afirmação da pauta identitária em termos “progressistas”…

Inversamente, o humanismo secular-religioso me parece até ser visto com simpatia pelo Olavão, desde que não seja o humanismo da teologia da libertação (que é um instrumento de dominação interna da igreja pela pauta marxista-comunista, na leitura do Olavão). Creio que o humanismo na via do Zubiri [27], por exemplo, é totalmente compatível com a visão de mundo do Olavo – o que não é dizer que estou colocando o Olavão no mesmo nível de reflexão e sofisticação do Zubiri, inclusive, acho que o próprio Olavão ficaria chateado com essa sugestão.

Como conhece Olavo de Carvalho e se aproxima de seu pensamento?

Conheci o Olavão na época que eu comecei a entrar dentro dos fóruns on-line de discussão de Filosofia Política, Filosofia Moral e Filosofia do Direito. Isso nos idos de 2004-5. Sempre tinha um colega mais conservador, meio estranho, com tendências monarquistas, para falar do Olavão. Na época era muito periférico, mas já existia algo aquecendo pelas beiradas. Ali comecei a me interessar em acompanhar esse pessoal, até por me interessar na construção de comunidade que rolava entre a galera – um lance de redes de autoajuda, de suporte, e de reação on-line que me pareceu impressionante na época (e que desde então só aumentou).

Sobre minha proximidade com o Olavão, do ponto de vista intelectual: acho que a gente só divide um interesse em Filosofia e uma certa indiferença com relação aos aspectos mais codificados da discussão filosófica. Ele diz que se interessa por Husserl, e eu fiz meu PhD dentro de uma discussão superespecífica da filosofia husserliana – mas não acho que qualquer coisa que o Olavão faz com a filosofia me interessa, e tenho certeza que a recíproca é verdadeira. E também acho que está tudo bem que as coisas sejam assim.

Deseja acrescentar algo?

Apenas que eu acho que toda essa polêmica ao redor do Olavo é uma excelente oportunidade para o pessoal nas universidades acordar e começar a pensar, sobretudo a Filosofia Política e Moral, para além das bolhas e câmaras de eco da universidade. A entrada de um público mais diverso no ensino superior, algo que é inegável nos últimos 20 anos, já deveria ter forçado a mão do nosso discurso sobre política e moral para além das velhas ortodoxias sobre arte e comportamento – e, no entanto, parece que boa parte da nossa discussão não evoluiu e segue com os mesmos ranços epistemológicos de sempre. 

É óbvio que muita gente está fazendo um trabalho de sair da toca, de usar esse espaço que o Olavão ocupou para tentar criar contrapontos. Tem muita gente boa criando canais de discussão on-line, participando da construção de redes de apoio e de divulgação de trabalhos mais voltados para o grande público, e saindo daquela panelinha dos grandes intelectuais e seus herdeiros que pautou a discussão sobre Filosofia nos últimos 30 anos no Brasil.

Também acho importante destacar o que falei anteriormente: o Olavo agora vai ter que ser vidraça, e deixar de ser pedra. Ele vai perceber que oferecer respostas é muito mais do que ficar repetindo uma ladainha tediosa sobre dominação marxista. Por enquanto, o Olavão se beneficiou de conseguir fazer um truque de mágica bem impressionante e cativante para uma audiência atenta de fãs e curiosos, só que é muito mais difícil manter o truque quando tem gente te olhando por todos os ângulos, determinada em mostrar onde é que está a ilusão de ótica.

Notas:

[1] Vou chamar ele de Olavão, na medida que depois de anos lendo o sujeito, vendo os vídeos e como membro honorário da ditadura gayzista-abortista, que o Olavão tanto critica, acho que já somos um pouco íntimos. (Nota do entrevistado)

[2] Aristóteles de Estagira (384 a.C.–322 a.C.): filósofo nascido na Calcídica, Estagira. Suas reflexões filosóficas – por um lado, originais; por outro, reformuladoras da tradição grega – acabaram por configurar um modo de pensar que se estenderia por séculos. Prestou significativas contribuições para o pensamento humano, destacando-se nos campos da ética, política, física, metafísica, lógica, psicologia, poesia, retórica, zoologia, biologia e história natural. É considerado, por muitos, o filósofo que mais influenciou o pensamento ocidental. (Nota da IHU On-Line)

[3] Friedrich Schelling (Friedrich Wilhelm Joseph von Schelling, 1775-1854): filósofo alemão. Suas primeiras obras são geralmente vistas como um elo importante entre Kant e Fichte, de um lado, e Hegel, de outro. Essas obras são representativas do idealismo e do romantismo alemães. Criticou a filosofia de Hegel como “filosofia negativa”. Schelling tentou desenvolver uma “filosofia positiva”, que influenciou o existencialismo. Entrou para o seminário teológico de Tübingen aos 16 anos. (Nota da IHU On-Line)

[4] Edmund Husserl (1859-1938): Edmund Gustav Albrecht Husserl, matemático e filósofo alemão, conhecido como o fundador da fenomenologia, nascido em uma família judaica numa pequena localidade da Morávia (região da atual República Tcheca). Husserl apresenta como ideia fundamental de seu antipsicologismo a “intencionalidade da consciência”, desenvolvendo conceitos como os da intuição eidética e epoché. Influenciou, entre outros, os alemães Edith Stein, Eugen Fink e Martin Heidegger e os franceses Jean-Paul Sartre, Maurice Merleau-Ponty, Michel Henry e Jacques Derrida. (Nota da IHU On-Line)

[5] Tomás de Aquino (1225-1274): padre dominicano, teólogo, distinto expoente da escolástica, proclamado santo e cognominado Doctor Communis ou Doctor Angelicus pela Igreja Católica. Seu maior mérito foi a síntese do cristianismo com a visão aristotélica do mundo, introduzindo o aristotelismo, sendo redescoberto na Idade Média, na escolástica anterior. Sistematizou o conhecimento teológico e filosófico de sua época em suas duas Summae: Summa Theologiae e Summa Contra Gentiles. (Nota da IHU On-Line)

[6] Alexander Hamilton (1755 –1804): foi o primeiro secretário do Tesouro dos Estados Unidos. Estabeleceu o Primeiro Banco dos Estados Unidos e teve influência no desenvolvimento das bases do capitalismo americano. Morreu em 1804 num duelo com o então vice-presidente Aaron Burr. (Nota da IHU On-Line)

[7] Edmund Burke (1729-1797): filósofo, político e advogado irlandês. Escreveu o tratado de estética A Philosophical Inquiry into the Origin of Our Ideas of the Sublime and Beautiful (Investigação filosófica sobre a origem de nossas ideias do Sublime e do Belo), publicado em 1757. O livro atraiu a atenção de autores como Denis Diderot e Immanuel Kant. Iniciou a carreira política em 1761, como primeiro-secretário particular do governador da Irlanda. Em 1765, foi nomeado secretário do primeiro-ministro britânico. Seria depois eleito para a Câmara dos Comuns, onde tornou-se conhecido por suas posições economicamente liberais e politicamente libertárias. Mostrava-se favorável ao atendimento das reivindicações das colônias americanas e à liberdade de comércio, era contra a perseguição aos católicos no Reino Unido e denunciou as injustiças praticadas pelos ingleses na Índia. Criticou os excessos cometidos pela Revolução Francesa na obra Reflexões sobre a revolução na França, de 1790 – Burke considerava a revolução um marco da ignorância e da brutalidade, tendo em vista o terror colocado em marcha pelos revolucionários. No século XIX Burke inspirou tanto conservadores quanto liberais. Subsequentemente, no século XX, Burke foi amplamente reconhecido como o fundador do conservadorismo moderno. (Nota da IHU On-Line)

[8] René Girard (1923-2015): filósofo e antropólogo francês. Partiu para os Estados Unidos para dar aulas de francês. De suas obras, destaca-se La Violence et le Sacré (A violência e o sagrado), Des Choses Cachées depuis la Fondation du Monde (Das coisas escondidas desde a fundação do mundo), Le Bouc Émissaire (O Bode expiatório). Todos esses livros foram publicados pela Editora Bernard Grasset, de Paris. Ganhou o Grande Prêmio de Filosofia da Academia Francesa, em 1996, e o Prêmio Médicis, em 1990. O seu livro mais conhecido em português é A violência e o sagrado (São Paulo: Perspectiva). Sobre o tema desejo e violência, confira a edição 298 da revista IHU On-Line, de 22-6-2009. Leia, também, a edição especial 393 da IHU On-Line, de 21-5-2012, sobre o pensamento de Girard, intitulada O bode expiatório, o desejo e a violência. (Nota da IHU On-Line)

[9] Best Seller, 2009. (Nota da IHU On-Line)

[10] Umberto Eco (1932 —2016) escritor, filósofo, semiólogo, linguista e bibliófilo italiano de fama internacional. Foi titular da cadeira de Semiótica e diretor da Escola Superior de ciências humanas na Universidade de Bolonha. Ensinou temporariamente em Yale, na Universidade Columbia, em Harvard, Collège de France e Universidade de Toronto. Colaborador em diversos periódicos acadêmicos, dentre eles colunista da revista semanal italiana L’Espresso, na qual escreveu sobre uma infinidade de temas. Eco foi, ainda, notório escritor de romances, entre os quais O nome da rosa e O pêndulo de Foucault. Junto com o escritor e roteirista Jean-Claude Carrière, lançou em 2010 “N’Espérez pas vous Débarrasser des Livres” (“Não Espere se Livrar dos Livros”, publicado em Portugal com o título “A Obsessão do Fogo” no Brasil como “Não contem com o fim do livro”). (Nota da IHU On-Line)

[11] Percival Oliveira Puggina (1944): é um político, arquiteto e jornalista brasileiro. Criou a Fundação Tarso Dutra de Estudos Políticos e Administração Pública, órgão do Partido Progressista. A partir dos anos 80, dedicou-se, também, à atividade literária e à crônica política, escrevendo, semanalmente para centenas de jornais, revistas, sites e blogs em todo o país. Tem milhares de textos e ensaios publicados desde então. Em 2002, criou a empresa Texto e Contexto Comunicação Ltda., da qual é diretor. Em 2014 desfiliou-se do Partido Progressista. (Nota da IHU On-Line)

[12] Opus Dei: prelazia da Santa Cruz e Opus Dei (em latim, Obra de Deus). Instituição hierárquica da Igreja Católica, uma prelazia pessoal, composta por leigos, casados, solteiros e sacerdotes. Tem como finalidade participar da missão evangelizadora da Igreja. Concretamente, o Opus Dei procura difundir a vida cristã no mundo, no trabalho e na família, a chamada universal à santidade e o valor santificador do trabalho quotidiano. Monsenhor Josemaría Escrivá de Balaguer fundou a Opus Dei em 02-10-1928, na Espanha. (Nota da IHU On-Line)

[13] Theodor Wiesengrund Adorno (1903-1969): sociólogo, filósofo, musicólogo e compositor, definiu o perfil do pensamento alemão das últimas décadas. Adorno ficou conhecido no mundo intelectual, em todos os países, em especial pelo seu clássico Dialética do Iluminismo, escrito junto com Max Horkheimer, primeiro diretor do Instituto de Pesquisa Social, que deu origem ao movimento de idéias em filosofia e sociologia que conhecemos hoje como Escola de Frankfurt (Nota da IHU On-Line)

[14] Aleksandr Gelyevich Dugin (1962): um cientista político russo cujo viés político vem sendo classificado como fascista. Dugin é um teórico da escola contemporânea de geopolítica russa Neo-Eurasiana, ideólogo do movimento eurasiano e autor de A Quarta Teoria Política e da Teoria do Mundo Multipolar. Ao lado de Eduard Limonov, foi um dos criadores da ideologia nacional-bolchevique. (Nota da IHU On-Line)

[15] Glenn Edward Lee Beck (1964): personalidade midiática norte-americana, produtor e apresentador de televisão, radialista, autor de livros, empreendedor, ativista social e comentarista político. Ele apresenta diariamente o Glenn Beck Radio Program, um dos programas de rádio mais ouvidos nos EUA, e o Glenn Beck Program, em seu próprio canal de televisão via internet, o TheBlaze TV (também transmitido via satélite pela DISH Network). De janeiro de 2009 até junho de 2011, ganhou popularidade ao apresentar o programa Glenn Beck, no canal de tv a cabo Fox News, quebrando recordes históricos de audiência para o horário.[6] Beck é o autor de mais 15 livros, sendo seis deles best-sellers do New York Times.[7] Ele é o fundador e CEO da Mercury Radio Arts, uma companhia multimídia que produz conteúdo para o rádio, televisão, o meio editorial, os palcos e a internet. (Nota da IHU On-Line)

[16] Rush Hudson Limbaugh III (1951): radialista e comentarista conservador norte-americano. Ele atualmente reside em Palm Beach, onde ele apresenta o programa The Rush Limbaugh Show. De acordo com uma estimativa feita em dezembro de 2015 pela Talkers Magazine, Rush Limbaugh teria uma audiência semanal acumulada em seu programa de rádio de aproximadamente 13,25 milhões de ouvintes únicos (que ouviram o seu programa ao menos por 5 minutos consecutivos), o que coloca o seu programa de rádio, de estilo talk show, entre os de maior audiência em todo os Estados Unidos. (Nota da IHU On-Line)

[17] Michael Alan Weiner (1942): mais conhecido por seu nome profissional Michael Savage , é um radialista norte-americano , autor, ativista, nutricionista e comentarista político conservador. Ele é o apresentador do The Savage Nation , um talk show nacional que foi ao ar na Talk Radio Network nos Estados Unidos até 2012, e em 2009 foi o segundo talk show de rádio mais ouvido no país com uma audiência de mais de 20 milhões de pessoas. ouvintes em 400 estações nos Estados Unidos. (Nota da IHU On-Line)

[18] Rodrigo Constantino (1976): economista e colunista brasileiro. É graduado pela PUC-RJ e possui MBA pela Ibmec. Foi articulista da revista “Voto”e escreveu regularmente para os jornais “Valor Econômico” e “O Globo”. A partir de agosto de 2013, passou a escrever também para a revista semanal “Veja”. Presidente do Instituto Liberal[6] e um dos fundadores do Instituto Millenium, foi considerado em 2012 pela revista “Época”, como um dos “novos trombones da direita” brasileira. Atualmente tem um blog onde escreve diariamente[9] e é colunista na “IstoÉ”. (Nota da IHU On-Line)

[19] Teologia da Libertação: escola teológica desenvolvida depois do Concílio Vaticano II. Surge na América Latina, a partir da opção pelos pobres, e se espalha por todo o mundo. O teólogo peruano Gustavo Gutiérrez é um dos primeiros que propõe esta teologia. A teologia da libertação tem um impacto decisivo em muitos países do mundo. Sobre o tema confira a edição 214 da IHU On-Line, de 02-04-2007, intitulada Teologia da libertação. Leia, também, a edição 404 da revita IHU On-Line, de 05-10-2012, intitulada Congresso Continental de Teologia. Concílio Vaticano II e Teologia da Libertação em debate. (Nota da IHU On-Line)

[20] Eduardo Nantes Bolsonaro (1984): é um advogado, policial federal e político brasileiro, filiado ao Partido Social Liberal (PSL). É deputado federal pelo estado de São Paulo. É filho de Jair Bolsonaro. Em 2018 foi reeleito deputado federal, com 1.843.735 votos, sendo o mais votado da história do país. (Nota da IHU On-Line)

[21] Pabllo Vittar (1994): cantor, compositor e drag queen brasileiro. Em 2015, Vittar começou a ganhar atenção na internet após o lançamento do videoclipe da canção “Open Bar”, releitura em português de “Lean On”, do grupo norte-americano Major Lazer. Em poucos meses, o vídeo atingiu a marca de 1 milhão de visualizações no YouTube, onde ele posteriormente lançou seu primeiro extended play (EP), também intitulado Open Bar. (Nota da IHU On-Line)

[22] Eric Voegelin (1901-1985): estudioso alemão que causou comoção nos meios acadêmicos ao classificar movimentos políticos modernos – como o positivismo e o marxismo – como gnósticos, de modo que não passariam de novas versões de uma velha heresia combatida pela Igreja Católica. Foi aluno de Hans Kelsen, mas acabou emigrando para a Louisiana, no Sul dos Estados Unidos, durante a ditadura de Hitler. Foi lá que escreveu a maioria de seus livros. Em grande parte devido à difusão das teses de Voegelin, inspiradas por autores modernistas, tem havido recentemente uma onda de estudos “revisionistas” sobre gnose, questionando a validade do termo e buscando redefinir seu significado. De suas obras, citamos A nova ciência da política (2ª ed. Brasília : Universidade de Brasil, 1982). (Nota da IHU On-Line)

[23] Max Scheler (1874-1928): conhecido como o filósofo dos valores. Nasceu em uma família judaica. Na sua juventude converteu-se ao catolicismo, do qual se foi gradualmente distanciando depois de 1923, aproximando-se de um panteísmo inspirado em Spinoza e Hegel. Ensinou nas Universidades de Iena, Munique e Colônia. De suas obras destacamos O lugar do homem no Mundo. (Nota da IHU On-Line)

[24] Frithjof Schuon (1907 —1998): foi um metafísico, mestre espiritual e filósofo das religiões. É considerado o porta-voz da Filosofia Perene, juntamente com René Guénon, nos tempos modernos. Os escritos de Schuon, que enfatizam mais o cerne do que a “casca” das tradições, atraem leitores de variados horizontes religiosos. (Nota da IHU On-Line)

[25] Louis Lavelle (1883 – 1951): filósofo da mente (relacionado à ciência cognitiva) e metafísico francês. Lavelle foi membro da Académie des Sciences Morales et Politiques. (Nota da IHU On-Line)

[26] Bernard Lonergan (1904-1984): teólogo jesuíta canadense, provavelmente o pensador mais significativo do século XX, pela amplidão dos domínios investigados, pelos resultados obtidos no campo da teologia, filosofia (teoria do conhecimento e metodologias de vários domínios do conhecimento) e da teoria geral da economia. Entrou para a Companhia de Jesus em 9 julho de 1922. Estudou filosofia escolástica no Colégio de Heythrop, na Inglaterra, e teologia na Universidade Gregoriana de Roma, onde obteve o doutoramento em 1940. Na mesma Universidade, lecionou Teologia Dogmática. A partir de 1965, por causa de uma grave operação cirúrgica, deixou de ensinar em Roma e permaneceu no Boston College, em Massachussets, até 1983, publicando, além de outros escritos, o Método na Teologia, em 1972, e dando cursos curtos nos Estados Unidos e no Canadá. (Nota da IHU On-Line)

[27] Xavier Zubiri (1898-1983): filósofo espanhol cuja pesquisa e reflexão se concentrou, fundamentalmente, nos campos da Teoria do Conhecimento, da Ontologia e da Gnoseologia. Em sua juventude, Zubiri estudou filosofia no Instituto Superior de Filosofia da Universidade de Louvain, na Bélgica. Em 1921, Zubiri obteve doutorado em flosofia pela Universidade Complutense de Madrid. No mesmo ano, foi ordenado diácono. (Nota da IHU On-Line)

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