Rondônia: índios atacados em nome de Bolsonaro

Encorajados por declarações do presidente, dezenas de bandidos invadem território dos Uru-Eu-Wau-Wau e prometem matar quem resistir. Confinado a sua aldeia, grupo pede socorro

Mulheres Uru-Eu-Wau-Wau em 1985. Relatos sobre existência dos índios datam do início do século XX, mas só em 1976 as primeiras aldeias foram localizadas (Foto: Jesco von Puttkamer)

Uma organização criminosa sediada no município de Jaru, Rondônia, está organizando invasões a terras indígenas. Seu objetivo é a grilagem das terras para ocupação por colonos brancos, inspirados por declarações do presidente Jair Bolsonaro. No dia 11 de janeiro último, um grupo de 40 homens invadiram a Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau, no município de Governador Jorge Teixeira, na região central de Rondônia, próximo a aldeia conhecida como Linha 623, às margens do Rio Campanito.

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Os invasores abriram um picadão de cerca de 25 quilômetros, com o objetivo de dar acesso às terras. Segundo Boatuto Wau-Wau, liderança indígena do povo Uru-Eu-Wau-Wau, um homem conhecido com o Davi, respondeu à solicitação para que saíssem da Terra Indígena da seguinte maneira: “não ia sair porque o Bolsonaro ganhou e não tinha nenhum órgão para ir lá defender os índios”. Disse ainda que “se a gente continuasse a pedir pra sair, eles sabiam onde a gente morava e iam lá matar até as crianças pra gente ver como dói”, disse Boatuto Wau Wau. Os indígenas gravaram um vídeo com parte da conversa com os invasores. Veja abaixo:

Awapu Wau-Wau, presidente da Associação Jupaú, que também estava presente durante a conversa com Davi relatou que os invasores disseram que “nós não tem direito a mais nada na nossa terra por causa do presidente que ganhou. Que nós vamos viver igual eles vivem lá fora (nas cidades).” E acrescentou: “Eles estão muito confiantes.”

Ao terminar de abrir o picadão os invasores deixaram a área prometendo voltar com mais 200 pessoas para tomar posse. Os líderes da aldeia Linha 623 se socorreram na Associação de Defesa Étnico-ambiental Kanindé, que enviou a coordenadora Ivaneide Bandeira para área invadida. As lideranças Uru-Eu-Wau-Wau se dividiram, uma parte voltou para as suas aldeias com medo de ataques a suas famílias. Outros acompanharam a Ong Kanindé para buscar apoio das autoridades em Porto Velho.

Awapu Wau Wau a caminho do local invadido pelos grileiros. Foto: Kanindé

A Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau foi homologada ainda no governo de Fernando Collor, em 1991. A Funai iniciou o contato com esse povo apenas em 1980. Antes disso sua história é de muito conflito com brancos invasores. Apesar da demarcação e homologação das terras, elas continuaram a ser invadidas.

Além dos Uru-Eu-Wau-Wau, os Karipuna, no norte do estado, tem sofrido ataques semelhantes provenientes do mesmo grupo criminoso. Ali os conflitos já estão em um estágio mais grave. Em janeiro de 2017, madeireiros e grileiros incendiaram o posto de vigilância da Funai para intimidar os índios e a instituição. Em setembro do mesmo ano perseguiram um carro com missionários do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e lideranças indígenas por 30 quilômetros com o objetivo de assustar e intimidar. De 2017 até agora já foram registrados 5 boletins de ocorrência na polícia por ameaças aos indígenas e aos missionários do Conselho Indigenista Missionário (CIMI). A fiscalização dos parques e Terras Indígenas está paralisada desde primeiro de janeiro, com isso grileiros aumentaram sua presença na área. O antigo Posto da Funai incendiado serve de base para o trabalho deles. Desde a semana passada pode-se ouvir os tratores dos madeireiros e grileiros trabalhando para desmatar a floresta.

Alguns dos invasores conseguiram registros falsos no Cadastro Ambiental Rural, cedido pela Secretaria de Meio Ambiente de Rondônia e um dos documentos que comprovam posse de áreas devolutas a fim de dar entrada na regularização fundiária. Isso para áreas situadas em uma Terra Indígena homologada.

Por causa da presença dos madeireiros e grileiros, os indígenas estão constantemente ameaçados de morte. “Eles ficam sem poder andar pelo território por medo dos invasores. Não podem caçar e estão confinados em suas aldeias”, relata um agente do CIMI que pediu para não ser identificado.

Onde antes havia a floresta e o território do Povo Karipuna hoje já pode-se ver um início de ocupação se estabelecendo, com plantações de macaxeira e banana. Os líderes da invasão não se identificam pelos nomes, mas seus apelidos ecoam: Jiraia, Baleado, Bodão, Preto e Polaco.

Juruna Uru-Eu-Wau-Wau e sua família dentro da área invadida. Foto: Kanindé

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