Os desafios de Dilma no segundo turno

Por Paulo César da Rosa, no site Carta Capital

A campanha jogou na retranca, nos quinze dias finais. O novo cenário requer  qualificar a mudança social e incorporar dimensão ambiental

Não tenho ideia do que o comando da campanha de Dilma vai fazer nos próximos dias. Também não tenho nenhuma influência sobre isso, mas como todo brasileiro é técnico de futebol, eu também sou.

Se eu fosse o técnico do time da Dilma, primeiro faria um balanço. O time Dilma jogou os últimos quinze minutos da partida enrolando a bola, cansado, sem iniciativa, torcendo para levar o resultado positivo até o juiz apitar o final. Acabou vindo uma tal Marina pelo flanco e fazendo um gol que levou a partida para a prorrogação.

Faltou iniciativa na reta final. Era só ver os programas de TV repetindo a exaustão as mesmas cenas e as mesmas jogadas do começo da disputa.

Perdoem-me a arrogância. Talvez seja coisa de gaúcho. Não acompanhei atentamente o embate eleitoral nacional no primeiro turno. Ative-me mais à disputa regional, no Rio Grande do Sul. Portanto, além de arrogante, posso estar errado. Mas acho que a campanha Dilma deve compreender que:

1) Não foi a Erenice que tirou votos. Isso ajudou. Mas foi principalmente a falta de projetos de futuro na campanha Dilma, a falta de propostas e iniciativas políticas na reta final. Seguir mudando é bom, mas precisa dizer o que vai fazer, pra que lado vai seguir a mudança;

2) A paralisia permitiu a iniciativa dos adversários. Serra, que não dava uma dentro, passou para a ofensiva, com suas propostas mirabolantes mas capazes de enrolar eleitores desavisados. Marina, que estava num canto, pôde vir para o centro da disputa e dar contornos sociais e éticos ao seu eco capitalismo;

3) Serra, ao atacar Marina no último debate como ex-petista, não errou politicamente. O tucano garantiu com isso que Marina pudesse crescer no território do PT, junto a quem cultiva algum desgosto com o partido.

Se esse balanço guarda uma certa proximidade com a verdade, neste segundo turno, além de mostrar com clareza um projeto de desenvolvimento do País nos próximos anos, de garantir concretamente mais saúde, mais seguranças e mais educação, teria de tratar de:

1) Incorporar o tema do desenvolvimento sustentável na campanha. Dialogar com Marina se houver espaço, mas se não houver é preciso trabalhar o tema de maneira clara e transparente para toda a população. Ou seja, se não for possível trazer Marina para a campanha é preciso incorporar a sua principal bandeira. Não por oportunismo eleitoral, mas porque a bandeira do desenvolvimento sustentável é correta.

2) Dilma não pode ficar na generalidade na questão social. Dizer que vai erradicar a miséria é o mesmo que nada. Aliás, o povo nem sabe o que é “erradicar”. Enquanto Dilma ficou neste discurso elitista, Serra foi pro “promessômetro”: Salário Mínimo de 600 reais, Prouni do ensino técnico, 13º. para o Bolsa Família, 10% de aumento para os aposentados, 400 quilômetros de metrô pelo País etc. A classe média sabe que é demagogia, mas não muda o voto por causa disso. Quem muda é o povão. Dilma não deve cair na demagogia, mas precisa concretizar as suas promessas sociais. Dizer concretamente o que vai fazer para erradicar a miséria. Afirmar quantos empregos pretende criar. Quantos cursos de qualificação profissional vai fazer….

3) O time da Dilma precisa sair da defesa e ir para o ataque. Isso não quer dizer ser agressivo. Mas isso quer dizer pautar o adversário, estabelecer o ritmo do jogo, os temas a serem tratados. Há um grande risco desse segundo turno ter uma pauta conservadora. Para que isso não ocorra, não basta querer repetir o segundo turno do Lula em 2006 e achar que a comparação entre os anos Lula e FHC é suficiente. Não é! Esta comparação já rendeu os votos que podia render. Se quiser crescer no eleitorado que não votou Dilma no primeiro turno, a campanha precisa apresentar outras iniciativas, outra agenda de discussão.

4) É preciso estar atento à grande imprensa. Ela vai para o tudo ou nada neste segundo turno. Não é permitido esperar qualquer benevolência dela com a candidata do presidente Lula. Por isso, se eu fosse o técnico do time da Dilma estaria organizando comícios pelo Brasil para que o nosso centro-avante possa fazer gols. Ah, e colocaria o Lula também em todos os programas de TV. À exaustão.

O segundo turno já começou. Sexta-feira deve começar os programas de TV. Dilma terminou a partida no último domingo muito cansada. Vamos torcer que entre em campo renovada e com gás para enfrentar o tucano de bico comprido e olhar soturno.

Porque o Brasil precisa.

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2 comentários para "Os desafios de Dilma no segundo turno"

  1. Carmen disse:

    Paulo César…acredito mesmo que não acompanhaste a campanha fora do RGS com atenção…e nem recebeste na internet os absurdos que rolaram nos últimos dias da campanha. Algo impressionante pela ferocidade e ausência completa de ética. Mesmo para quem acompanhou a tentativa de fraude da Globo contra Brizola, em 1982, no caso “Proconsult”, as camisetas do PT enfiadas nos sequestradores de Abilio Diniz e a manipulação do debate de LulaxCollor, em 1989, nada se compara ao que rolou na internet este ano. Calúnia e ódio repassados por pessoas absolutamente conscientes do que faziam e seguidas por analfabetos políticos, que nem lembram que Serra foi ministro do planejamento e ministro da saúde de FH. Bastava lembrar sua atuação quando ocupou esses cargos. Quanto ao caso Marina ela simplesmente se tornou “cult”… aqui no Rio era chiquérrimo votar na Marina, principalmente depois que alguns atores “globais” declararam seu voto. Imagina ator global considerando o PT um partido corrupto…dá prá acreditar????? Mas eles são assim mesmo… defendem o seu pão de cada dia sem nenhuma ética mas consideram que o pobre “vende” o voto em troca da bolsa familia. Soma a isso os padres católicos e pastores evangélicos afirmando que Dilma aprova o aborto até os nove meses de gestação!!!!! Cruzes…vade retro, satanás! e ainda declarou que nem Jesus Cristo tirava dela essa eleição…aí então já era o próprio diabo encarnado, rssss
    Enfim, meu caro, lendo hoje as declarações do assessor de Serra (cujo nome nem sei escrever e faço questão de ignorar) e ex-genro de FH comecei a perceber a razão do PIG colocar em dúvida até a credibilidade de seus jornais pela eleição de Serra. Para o capitalismo selvagem imagina o que vai ser colocar as mãos no petróleo brasileiro???? E as empresas estrangeiras alienadas do processo por Lula? e sabendo que Dilma vai tentar tornar a Petrobrás novamente detentora de mais de 50% das ações??? Daí então eles acharam que valia a pena combater o mau combate!!!! Também sou gaúcha… mas vivo na Cidade Maravilhosa. Pode apostar que os cariocas vão viajar no feriadão e justificar o voto. Aliás, penso que toda a classe média assalariada… espero que sejam os eleitores de Serra. E nem entendo porque tanta discussão sobre voto obrigatório… nunca foi para quem quer viajar e justificar a ausência… ou então comparecer depois na Justiça Eleitoral e pagar R$3,50 de multa. abraços

  2. Juliana disse:

    Eu acho que foi uma batalha muito dificil .
    Mais o que mais importa é a vitória da nossa
    Grandiosa DILMA RUSSEF.

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