Olívio: "Esquerda precisa compreender seu papel"

Ex-governador gaúcho, criador do Orçamento Participativo, sustenta, em longa entrevista: “devemos ao país um novo projeto estratégico”

Por Ana Ávila, no Sul21

Por Ramiro Furquim/Sul21

Ex-governador gaúcho, criador do Orçamento Participativo, sustenta, em longa entrevista: “devemos ao país um novo projeto estratégico”

Por Ana Ávila*, no Sul21

Não é de hoje que Olívio Dutra instiga a criação de um ambiente favorável ao debate aprofundado sobre os papéis do PT e da esquerda. Aos 73 anos, Olívio Dutra, ex-governador, ex-deputado federal constituinte e ex-prefeito concorria a uma vaga no Senado, depois de oito anos fora de disputas eleitorais. Acabou derrotado por Lasier Martins, em uma votação apertada: 37,42% a 35,31%.

Sem mandato para o próximo ano, ele retorna à militância, pela qual tem tanto apreço, disposto a trabalhar pela reeleição de Tarso Genro e Dilma Rousseff. Diz que não pensa em voltar a se candidatar. Prefere pensar sobre troca de experiências e sobre como criar ambientes e situações capazes de melhorar a vida de todos, com ou sem mandato.

“Perdi a eleição, mas ganhei um livro”, brincou, durante entrevista ao Sul21, no apartamento onde mora, na zona norte da capital, exibindo um exemplar de El hombre que amaba a los perros, do escritor cubano Leonardo Padura. A obra de 600 páginas foi a mais recente leitura do ex-candidato e sua companheira, Judite Dutra, durante a campanha eleitoral. Na sala de paredes cobertas por livros, ele falou sobre o papel da esquerda, a interferência da religião na política e os desafios para os próximos capítulos das disputas eleitorais. Lamenta, sobretudo, a impossibilidade de ler tudo o que gostaria e conta um sonho: que os livros estivessem na cesta básica dos brasileiros.

O senhor poderia fazer uma avaliação do resultado da eleição para o Senado?

Olívio Dutra – A eleição para o Senado está inserida na eleição para o governo Federal e estadual, a reeleição da Dilma, a reeleição do Tarso. A conquista daquela cadeira no Senado era para dar força ao projeto e reforçar o trabalho do (Paulo) Paim, que está lá, mas acrescentar o debate sobre as grandes reformas que o Brasil precisa que aconteçam para ele se tornar uma nação. A reforma política, a reforma agrária, a reforma urbana, a reforma tributária. O quadro politico que temos é um quadro em que há um desgaste do nosso projeto do campo democrático popular, que não se articula nunca o suficiente, que não define seus contornos. Com isso está sempre com a guarda aberta para o avanço da centro-direita.

Eu acho que foi uma disputa que demarcou um campo de ideias. Assumi ser candidato por conta disso. Evidentemente, não ganhamos a cadeira e isso não é pouca coisa. Ela vai ser assumida por alguém que não tem um projeto nacional, tanto que nem candidatura à presidência da República teve, e travestido de trabalhista, que nunca foi, mas está decidido pelo voto da maioria da população. Pelo jeito que se desenvolveu a campanha, o vitorioso vinha de mais de 30 anos de palanque montado pela empresa do monopólio regional da mídia aqui, em que ele falava praticamente sozinho, era um defensor dos interesses privados, particulares, dos seus grandes anunciantes e patrocinadores, e se travestiu de trabalhismo.

Acho que o PDT em crise viu nele a oportunidade de ter alguma expressão e está dado o quadro. Isso não quer dizer que nós tenhamos abrandados as nossas convicções, a defesa de um projeto coletivo, solidário, que está fazendo bem para o Brasil e para o Rio Grande, mas que tem problemas e precisa ser revigorado, aperfeiçoado e eu continuo na luta. Temos um desdobre dessa luta agora no segundo turno, para a presidência da República e para o governo do Estado.

 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

O senhor acredita que se o seu nome tivesse sido definido antes para a disputa, o resultado poderia ter sido ser diferente?

Não. Eu nunca postulei, não queria ser, nem achava que deveria ser, mas uma vez decidido pelo conjunto de forças que constituíram a Unidade Popular pelo Rio Grande, nas condições em que isso foi colocado para mim, eu não abdiquei e nem entrei forçado como gato em canoa ou como pau de arrasto.

Eu fui com convicção, com coração, com consciência. Faz parte da luta você enfrentar as forças que enfrentamos, não conquistar aquilo que era o objetivo eleitoral, mas afirmar um ideário, articular relações com o que se está fazendo em nível federal e estadual, inclusão social e protagonismo político e com um projeto estratégico para o país. Acho que não é porque entrou depois ou entrou antes ou entrou naquele momento.

Tem um quadro que exige reflexão do campo democrático popular da esquerda brasileira e evidentemente o PT tem que saber trabalhar isso, ter instâncias e espaços próprios para fazer essa discussão, que o revigore, que não o faça um partido de governo, um partido conformado, um partido domesticado, um partido gerente do capitalismo, que não resolve os graves problemas do ser humano.

Sobre essa reflexão sobre o PT que o senhor menciona, como ela deveria acontecer?

Isso não é novidade. Eu sou crítico de atitudes que o partido já tomou coletivamente e outras que pessoas, grupos, áreas do partido têm tomado e que merecem uma apreciação. Eu não sou o sal da terra, eu também tenho as minhas limitações, certamente um monte de equívocos. Estamos sempre fazendo alianças muito em cima de episódios eleitorais, com um quadro de partidos que estão esgotados ou esgotando-se ou existem por conta de uma oportunidade por interesses pessoais ou grupais. Nós precisamos de uma reforma política verdadeira, essa que a presidente Dilma propôs no ano passado conquistada através de uma assembleia nacional constituinte. Isso é uma luta que tem que ser travada de baixo para cima na sociedade brasileira, no agito, na provocação cidadã, nas grandes mobilizações que envolvam muitos sujeitos sociais coletivos e movimentos das entidades nesse sentido. Acho que temos problemas, não exclusivamente o PT, mas a esquerda. A esquerda deve para o país um projeto estratégico de como transformar o país democraticamente, de resolver os problemas da democracia com mais democracia, radicalizar um processo de mudança na sociedade e no Estado brasileiro com o povo sendo protagonista. Nós não fizemos isso como esquerda, nem sequer definimos quais são os reais contornos de uma esquerda popular, democrática, socialista, humanista. Aí nós vamos para episódios eleitorais disputando entre nós mesmos, às vezes, quem é mais palatável para a direita e para a centro-direita. Isso é um problema não exclusivo do PT, mas o PT tem muito a ver com isso, afinal de contas é o maior partido da esquerda. É evidente que tem partidos à esquerda do PT, mas sem viabilidade de poder. Acho que ter viabilidade política não pode significar um pragmatismo ou um esboroamento de princípios e conteúdos. Como resolver isso é uma questão de um bom e profundo debate e não episódico, ocasional. Nós temos questões sérias, estratégicas para pensar uma ação continuada na execução de um projeto de transformação para o país levado pelas forças do campo popular democrático se alternando na execução desse projeto, mas comprometidas com o programa. Não fizemos ainda isso e não sei se não está passando o tempo por demais para que a esquerda brasileira, na sua pluralidade, compreenda o seu papel e não fique se estilhaçando a cada episódio eleitoral e a centro-direita ganhando, inclusive, culturalmente na sociedade brasileira.

 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

O senhor acredita que a esquerda tenha condições de, a curto ou médio prazo, se articular para desenvolver esse projeto de governo?

A curto prazo, não tem. Nem estou propondo articulação a curto prazo. São 500 e tantos anos que o Estado é uma cidadela dos grandes interesses, das grandes corporações, das famílias da aristocracia, dos metidos a sabidos, dos entendidos e o povo mais objeto do que sujeito da política. Não é uma coisa para ser resolvida a curto prazo, ou por um partido, ou por uma messiânica figura ou meia dúzia delas. Isso é um processo, demanda tempo, mas precisa ter iniciativas coletivas de desenvolver um processo de debate aprofundado que tenha a ideia de um aprendizado permanente e também da transmissão das experiências que o campo desenvolveu, não só aqui, mas na Latino-América, no mundo.

É como enfrentar novos desafios. A ciência e a tecnologia nos trazem novos desafios. Nós temos que lutar, por exemplo, pela redução da jornada de trabalho sem redução de salário. O que isso significa culturalmente? A ciência e a tecnologia, para que servem? Para aumentar o lucro, a produção em grande quantidade, em menor espaço, para acumular para alguns? Não. A ciência e a tecnologia têm que servir para a humanidade, para a vida ser mais prazerosa, mais prolongada, mas vivida prazerosamente, fruída no cotidiano, na solidariedade, no intercâmbio das coisas culturais, das coisas que não são vendidas na prateleira do mercado, mas são substanciais para o ser humano ser dignificado na sua plenitude. Isso é sonho, é utopia? Bueno, tu abdicou disso por conta de ter que administrar uma máquina do Estado que só administrando não se transforma, não desenvolve.

Isso é uma questão séria. Eu não tenho nenhuma formulazinha mágica e nem digo que isso é uma solução de curto prazo, imediata. Acho que assim como está, no entanto, não pode. Um partido como o PT, que não surgiu de cima para baixo, nem dos gabinetes executivos e legislativos, estar numa conformação, numa acomodação, num grau de pragmatismo como está não é bom, não reacende esperança, não reilumina o caminho da utopia, de um mundo de justiça, igualdade e fraternidade. Um partido como o nosso tem que ser um provocador permanente do protagonismo, da criatividade, da criação, da indignação, da juventude na sua rebeldia, e tendo causas para levar essa rebeldia às consequências, às transformações.

Temos um segundo turno daqui a 19 dias.

Qual será o seu papel no segundo turno?

Olívio – O de um militante político que defende uma causa, um projeto que está fazendo bem para o Brasil e para o Rio Grande, pelo menos para a maioria da população. Evidente que estamos contrariando interesses, tinha que contrariar mais interesses dos que estão aí se banqueteando. Nenhum rico neste país deixou de ser mais rico. Ao contrário, acumularam mais riquezas, mais expressão, mais capacidade de influir, de impor políticas, de abocanhar recursos do Estado. Mas nós incluímos mais de 40 milhões de pessoas num padrão de vida digna – isso não é pouca coisa – sem fazer uma revolução social sangrenta. Falamos de políticas públicas no espaço democrático de grande protagonismo, pensando num plano nacional de participação social, com os conselhos, as conferências, o Orçamento Participativo.

Acho que temos uma eleição importante para ser ganha, porque pode possibilitar um avanço maior de conquistas. Ou significar que: “não, agora o que o povo conquistou já é suficiente, o Estado tem que funcionar mais como empresa, com os grandes interesses ainda com mais força do que hoje, na definição de linhas políticas para dentro, para fora, as relações internacionais do país”.

Então, está em jogo uma visão de projetos que têm conteúdos bem diferenciados. O projeto de Lula, da Dilma já deixou marcas significativas de transformação da realidade do Brasil para melhor. O país saiu do mapa da fome da ONU porque garantiu no mínimo três refeições diárias para milhões de pessoas que não tinham esse direito há séculos. E temos acesso a emprego formal, geração de empregos numa época de crise mundial, a menor taxa de desemprego, distribuição de renda e redução das desigualdades. O Brasil nunca esteve em condições tão favoráveis, sendo respeitado internacionalmente, não por um rompante dos governantes, mas porque o povo brasileiro ascendeu como sujeito social. O projeto vem sendo vitorioso, pode fazer mais, corrigir-se inclusive, qualificar-se, ser radicalmente democrático, mais do que tem sido. Temos problemas de corrupção não só no PT, mas a corrupção espraiada, enraizada na sociedade, no empresariado, na comunicação, na estrutura de diferentes ramos. É um processo que está no DNA (dizem), coisa nenhuma. Tem que ter instrumentos sociais, públicos para garantir transparência, eficiência do funcionamento da máquina.

Instrumentos para conter a corrupção?

O estado democrático de direito está em pleno funcionamento para julgar, prender. Acho que tem que ir mais longe. A corrupção tem que ser atacada embaixo. Por isso, o Orçamento Participativo, além de garantir o conhecimento do funcionamento da máquina pública, também coloca o cidadão lá na origem do levantamento das receitas e da aplicação dos recursos. Que interesses se atendem com a política de investimentos, por que a estrutura tributária está montada assim, por que tem uma enorme renúncia tributária? Os favores tributários, a progressividade de tributos sobre as grandes fortunas e heranças, o capital especulativo – isso tem que ser discutido no OP, não só a aplicação dos recursos que sobram. Já se estaria eliminando o fio da corrupção.

Estou lendo um livro do senador Daniel Krieger, político da minha região das Missões, presidente da Arena, foi conspirador no golpe, depois líder de Castelo Branco. Ele conta sobre um episódio de1966, em que se prometia eleição, mas se atravessou Costa e Silva para ser o sucessor. Castelo, para garantir a sucessão tranquila, precisava cassar três senadores. Estava fazendo uma seleção e consultou Daniel Krieger. Citou José Ermírio de Moraes, apanhado com um saco de dinheiro comprando votos. “Presidente, o senhor tem que levar em conta que é um grande empresário e ele tem facilitado coisas no Congresso. E, depois, esse negócio de corrupção vem de muito tempo…” E ele não foi cassado. Daniel Krieger, representante da moralidade, da revolução, conta isso com a maior naturalidade.

Esse troço de corrupção… Figuras do PT jamais deviam ter cometido o que cometeram. Gente dentro e fora do governo, historicamente. É um tema tomado como principalidade, para desviar a atenção de um projeto efetivo para o país, que mexa com nas estruturas econômicas, que coloque o Estado sob o controle público efetivo. A corrupção é uma luta de bugio (quando lançam excrementos uns nos outros). Esta não resolve o problema sério das raízes da corrupção, as quais estão lá embaixo, além da falta de cidadania lá na origem. Como é o sujeito não ter que pagar imposto, ter privilégio? A fonte não é o deputado ou senador, que fazem parte, mas a corrupção que está dentro das empresas, no jogo de interesses dos caciques políticos. Então, acabar com a corrupção é ampliar o controle público sobre o Estado. Aí é uma luta política. Dilma propôs o sistema nacional de participação social. O projeto adversário impediu, quer uma democracia sem povo. Acham que o povo está se metendo demais, acham que estamos entregando o Estado para essa turma…. Como aquele deputado, que falou dos índios, quilombolas, homossexuais, “tudo o que não presta”. Esta elite que não tem nada a nos ensinar. É uma luta que vale a pena porque não é pequena.

A que atribui esta onda de conservadorismo observando-se os novos eleitos?

Não é caso isolado. Internacionalmente se vê este ressurgimento do pensamento de direita, especialmente na Europa. Falso moralismo, frieza na concepção materialista da vida no sentido pior, consumismo, comunicação instantânea, em que se diz o que bem entende sem se responsabilizar. Aliás, Dilma estabeleceu medidas de controle na internet para todos. Sobre o Conselho Nacional de Comunicação, os grandes grupos empresariais de comunicação se levantam, alegando que é uma tentativa de controle e censura. Aquele parlamentar que falou “tudo de ruim aqui no Rio Grande” teve uma das maiores votações para a bancada de centro-direita. Isso ocorreu em outras regiões, com a eleição de representantes do pensamento homofóbico, repressivo, que prega a redução da maioridade penal. Reconheço que temos problemas de segurança, acho que a polícia tem que ter qualificação permanente. Sou favorável à desmilitarização da polícia. Os problemas da democracia têm que ser resolvidos com mais democracia, não é estreitando espaços. Há um ressurgimento dessa coisa messiânica, uma coisa religiosa estreita. Temos que garantir a pluralidade. Mas a visão conservadora das bancadas religiosas, fazer da religião um comércio religioso, vira tudo uma picaretagem.

Além do pensamento reacionário, não só aqui como na Europa, há uma crise de valores. Existem interesses concretos em vários setores, não só da indústria armamentista, mas de medicamentos, laboratórios estão fazendo experiências com ser humano.

É preciso elaborar uma síntese nova. Eu gostaria que fossem as dores do parto, significa que está nascendo uma coisa nova e boa. Não tenho certeza com essas contorções, com guerras localizadas religiosas, miséria, fome, homofobia, erupções de violência. Pensamos no famoso e sonhado ser humano novo.

Critica essas alianças com representantes religiosos?

A democracia precisa de partidos; partido quer púlpito? A pregação religiosa não cabe em um estado democrático laico. Os partidos, em geral, no Brasil, estão desgastados por conta das articulações que fazem sem compromissos estratégicos – são compromissos imediatistas e passageiros. Ou porque assim como está, está interessando a grupos bem localizados para fazer mais dinheiro.

O senhor acha que a posição vai bater na tecla do antipetismo no segundo turno?

É, e isso vem de longe em outras regiões do mundo. Tem a demonização da política e a tentativa de colocar na testa de alguém a minimalização, que identifica: isto aqui é o culpado, é o grupo dele, ou o pai dele, ou o avô dele. Essa lógica é uma lógica do absurdo, do autoritarismo, da verdade única, do retrocesso. Pensamos nas universidades: qual o papel delas neste mundo globalizado da comunicação ampla e imediata? Qual o papel das instituições mais duradouras? Estamos repensando isto? Acredito que tem fontes de geração de conhecimento e de reflexão que não são de internet, tão massificadora. Acredito num pensamento que, longe de ser conservador, reflete sobre heranças e possibilidades ainda mais novas, de criar relações humanas mais ricas.

A votação do candidato José Ivo Sartori lhe surpreendeu?

Não, nada me surpreende nesse jogo, na forma como se dão as eleições, as meias verdades, as aparências, a superficialidade, onde a verdade nunca aflora, a capacidade de dizer a verdade pela metade e que dá uma vantagem a mais ou a menos sobre o adversário. Não trouxe nenhuma novidade, um pensamento novo: “que bom, a gente ser desafiado, que nos instiga a ver o que estamos fazendo, para fazer mais e melhor”. Não tem novidade nisso. Se não provoca uma meditação, apenas cria o ambiente do jogo da esperteza, do faz de conta. Midiaticamente tem vantagem. Não me espanta.

No primeiro turno, o candidato do PMDB usou a questão do não partidarismo, do “meu partido é o Rio Grande”.

Isso é uma bobagem, dizer que os outros partidos são estreitos e ele faz parte de uma visão aberta… Ele é um partido como qualquer outro, o PMDB, cheio de interesses pessoais, grupais. Então, é desconversar, é uma esperteza, uma simbologia que não diz bem a realidade. “O Rio Grande para mim não é um partido, é uma paixão”. Acho uma pobreza essa figura por parte de seus autores e usuários. É o mesmo que dizer que “Deus é fiel”, estão reduzindo Deus a um torcedor do Corinthians. É um reducionismo. A mesma coisa com “meu partido é o Rio Grande”. A gente é candidato de um partido, são facetas, estilhaços que se articulam. É uma pobreza, mas uma esperteza. Nem literariamente é algo que pode merecer atenção.

 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Antes dessa, o senhor disputou a última eleição em 2006?

Nem me lembro. Nunca participei de eleição por desejar, mas precisava ser candidato por defender o projeto coletivo de muita gente. Acho que o partido tem que ter mais capacidade, ser mais instigador. Podia contribuir bem mais no contexto com os demais partidos, para demarcar um programa transformador. O PT se transformou, reduzindo a sua potencialidade inicial. Mas não perdeu o seu cerne. É um projeto que não se esgotou, está passando por uma crise que merece atenção de todos os seus militantes e do pensamento progressista. Não pode ser um partido que vá se adaptando tão fácil à engrenagem. Não sendo o partido da transformação, mas da acomodação. Evidente que tem que ter capacidade de governar, de administrar, não ser elefante numa loja de louças, mas ser elemento fermentador da mudança permanente, ser uma escola de formação política. Os movimentos sociais já tomaram iniciativas muito importantes na história do Brasil. Política como construção do bem comum. Tenho afinidade com essa ideia. Mas não prego solução mágica. Muitas verdades precisam ser ditas cruzarem-se entre si para formar uma verdade síntese.

Se o partido precisar, o senhor concorreria de novo?

Não cogito. Não sou candidato, nunca fui, não quero ser.

E agora, qual o projeto?

Acho verdadeira a frase clássica do latim cogito ergo sum (penso, logo existo). Não penso ser candidato a isto ou aquilo, mas penso na questão política, na cidadania, na comunidade, no país que temos. Pretendo organizar as leituras, tenho déficit de leitura histórico. Se eu puder, fico um ano só lendo. Percebi que o pessoal preso na repressão não perdeu tempo, fez leitura. Eles leram. Acho que fez um bem enorme para a maioria deles, o livro deveria estar na cesta básica do brasileiro.

*Colaborou Lorena Paim

 

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3 comentários para "Olívio: "Esquerda precisa compreender seu papel""

  1. Jorge Alves disse:

    Muito do que Olívio Dutra diz é verdadeiro, e, independentemente de serem utópicos, como ele mesmo reconhece por coloca-los distantes no tempo e tendo caracter mundial, seus objetivos tornariam o mundo melhor.
    No entanto deixa de assumir que o PT, como partido, se tornou igual ou pior do que os demais, e palco para um lider messiânico e egocêntrico que elimina qualquer possibilidade de contestação interna alem de usar os metodos que condena para se manter com o poder.
    Não vê que para uma verdadeira democracia republicana os meios não podem contrariar os fins, principalmente quando os meios beneficiam desde logo uma elite politica e seus “companheiros”, e os fins são promessas de longo prazo, quando, como disse Keynes, todos nós estaremos mortos!

  2. Luiz Carlos Ramos Cruz disse:

    Olívio Dutra – Certa esquerda, realmente, precisa compreender seu papel.Fica evidente que o partido dos trabalhadores (PT) permitiu a perpetuação desse modelo.Hoje a esperança se encontra no Judiciário e na reforma política, de forma a eliminar a excrecência que nos encontramos, e grantir a governabilidade sem se sujar.

  3. Da vitória do justiçamento meritocrático dos eleitores do PSDB e de suas consequências para os trabalhadores e para a militância política de esquerda
    O tema é tão abrangente que eu poderia começar tratando-o de diversas maneiras. Opto por ir direto ao âmago.
    Refiro-me ao exercício inconsequente de um certo justiçamento meritocrático, de motivação heterogênea e pouco sensata, contra o atual governo do Brasil. Exatamente aqui, no início, emerge a primeira irracionalidade dos engajados nessa causa: ainda que os justiçadores realmente creiam, de boa ou má-fé, o justiçamento não é contra o governo, mas contra o partido que está à sua frente, o Partido dos Trabalhadores. Isso evidenciar-se-á adiante.
    O PT atraiu para si o ódio de parcela considerável da população. Como o ódio não pode ser um instrumento de atuação política, notadamente nas democracias modernas, cabe investigar sua origem nesse processo, sua motivação e, principalmente, seu objetivo.
    É sabido que o PT, dado a sua origem, nasceu odiado pela direita fascista, o que não é de se estranhar.
    Em adição a esse ódio, surgiu, quase naturalmente, aquele advindo das elites reacionárias brasileiras, motivado pelo preconceito de classe, resquício de um passado discriminatório e com vigência no presente pelo aval de uma certa moral e de um modelo econômico estruturalmente excludentes, que explicita, por si só, a demagogia de seu discurso liberal.
    O acúmulo de ódio continuou, ainda nessa mesma linha, com diferenças bastante tênues, emanado pela classe média real, aquela que, de muito perto, tanto física como ideologicamente, dá sustentação às elites em troca de elevados salários e sonha diuturnamente tornar-se parte delas.
    Até esse nível, fundando a análise na diferença de interesses de classe, o bom analista deveria considerar previsível e até mesmo aferir o número, em torno de 15% da população que odeia o PT. Entretanto, a inflação do ódio vai além.
    Descendo pela pirâmide social, pode-se sentir a presença do ódio na parcela mais bem remunerada da classe trabalhadora, a parcela que, mesmo não o sendo de fato, orgulha-se da mesma classificação daqueles que lhe pisam as cabeças. Contudo, além das diferenças econômicas, culturais e sociais de toda ordem, também as motivações do ódio da chamada “classe média-baixa” são outras.
    Por sua própria condição, numa ordem que ela mesmo defende até a morte, onde separa com seu próprio corpo, de um lado as elites econômicas e políticas, e do outro os trabalhadores e excluídos do sistema, a classe média-baixa restringe-se aos seus papeis de isolante socioeconômico, contribuinte e consumidora, sendo ignorada pelas elites quanto às suas demandas.
    Ignorada porque não representa qualquer ameça às elites econômicas; antes constitui, precisamente, em virtude de sua ignorância política, os defensores junto à classe trabalhadora da legitimidade das posições das elites e do liberalismo econômico, modelo que tanto prejudica a si própria e aos trabalhadores menos remunerados.
    A classe média-baixa não tem rumo nem organização política, porque não tem causa para além de seu duvidoso e egoísta bem-estar social sempre cambaleante; porque defende em sua consciência vacilante os poderosos e suas políticas de exploração do trabalho, inclusive do seu próprio, na maioria dos casos; porque lhe atordoam as contradições entre as ideias que defende por osmose e a realidade que a martiriza; porque não consegue agir politicamente, pois não sabe o que fazer.
    Como julgo desnecessário elencar todos os atributos dessa parcela da sociedade nem pretendo passar a impressão de que zombo dela, levo o raciocínio ao ponto que importa: a classe média-baixa é moralista.
    Como não sabe agir politicamente, age moralmente, e odiosamente. Ela precisa de um culpado, de um agente externo a si, para a justificação do pecado de sua situação caótica, pois não percebe que é sua própria inércia política que a mantém estacionada e chorosa, como ficam os abandonados.
    Não por incapacidade, mas por ser isso característica dessa classe, ela não entende de política. Quando toca no assunto, restringe essa gigantesca categoria ao binômio governo vigente e oposição a ele. A classe média-baixa não faz discussão política, nem entre seus membros, nem com aqueles de outras classes. Suas decisões eleitorais se dão no campo da moral, de uma moral contraditória. Acredita, inclusive, que as questões econômicas são objetos de decisão autônoma do governo, ou, mais precisamente, da classe política no governo; ou mais precisamente ainda, do partido que está à frente do governo; no extremo, da pessoa eleita para o governo: a figura do Presidente da República.
    Tanto que é à democracia representativa em vigor no sistema político brasileiro que ela confia a atuação política que não tem por si própria. A representação política é a única coisa que ela conhece, ou acha que conhece, e, por isso, confia e se frustra a cada 4 anos com seus representantes, pois eles não governam para ela.
    A classe média-baixa não sabe sequer distinguir o que é atribuição e responsabilidade dos municípios, dos estados e da União. Não conhece exatamente as diferenças entre os três poderes.
    Há na chamada classe baixa, entre os trabalhadores e excluídos, muitas pessoas que se deixam conduzir à mesma ilusão de que só é possível o sistema vigente, portanto o único existente, mas é no seio da classe média-baixa que os prestidigitadores obtêm o melhor resultado, tanto na aceitação quanto na transmissão dessa ideia. E é junto a ela que, a cada pleito, os discursos demagógicos, envoltos estrategicamente em grande apelo moral, reacendem a esperança em um novo representante que lhe salvará a vida.
    É, finalmente, por isso que a classe média-baixa odeia o PT, pois é o partido que está agora à frente do governo.
    Diferentemente das classes abastadas, a classe média-baixa odeia qualquer governo, de qualquer partido ou tendência política. Não porque não gosta de ser governada, pois é exatamente isso o que deseja, mas porque não é atendida por nenhum, pois não sabe o que quer.
    Dito isso, engana-se quem pensa que eu me refiro a todas as pessoas que compõem essas classes. Embora não fosse necessário dizer que há também em todas elas pessoas que escapam a esta análise: eleitores e defensores do Partido dos Trabalhadores, além dos indiferentes à política, é prudente fazê-lo a fim de tentar escapar ao ataque de juízo moral.
    Suponho ter expressado a origem e a motivação do ódio ao PT. Agora resta tratar de seu objetivo na atual conjuntura e das consequências da vitória dos justiçadores sobre a classe trabalhadora.
    Estamos às vésperas da escolha do próximo dirigente brasileiro. As ideias de mudança e continuidade surgem evidentemente, mas em nível tão rasteiro que causa constrangimento.
    Como se pode notar na atmosfera, o único argumento “forte”, pois está presente em todos os debates e embates, é o do “combate à corrupção”. O que deveria ser uma política permanente de qualquer governo, o combate a um problema endêmico, inerente ao sistema político-administrativo em vigor, tornou-se agora o principal objeto dos programas a fim de agradar os que operam no campo da moral e esvaziam o confronto político tão necessário a descortinar as intenções de uma e de outra candidaturas. Isto é, houve uma conformação das campanhas à demanda mais latente da sociedade, ou de boa parte dela. Daí a decisão do próximo dia 26 vir a ser a mais moral de todas as decisões recentes, em prejuízo da discussão e decisão política sobre propostas e projetos viáveis e eficientes para tratar de todos os problemas da sociedade, ainda que num contexto reformista, logo, nada transformador. Problemas esses que tendem a piorar nos anos do próximo mandato com o advento da nova crise cíclica do capital.
    Chegamos, finalmente, ao ponto nevrálgico de nossa análise.
    Para todos os que fazem análise de conjuntura, inclusive os candidatos a Presidente, o cenário do próximo mandato já está traçado. Na melhor das hipóteses, haverá recessão. Consequentemente, haverá medidas de austeridade. O próprio candidato Aécio Neves tocou no assunto no encontro com a Maçonaria na semana passada. O vídeo está na internet.
    Quem analisa a economia, com ou sem diplomas – muitas vezes melhor sem eles, sabe perfeitamente que a candidatura mais eficiente para o setor empresarial nesses momentos de crise é a do PSDB. Pois é a que defende a implementação irrestrita das políticas do liberalismo, que aqui sintetizo sumariamente: investimentos públicos para alavancar o setor privado e reformas que aumentam a exploração da classe trabalhadora, além, é claro, de sobrecarga tributária sobre a classe média e a pequena burguesia.
    O grande problema da disputa desesperada da candidatura do PSDB é que a classe trabalhadora sabe disso.
    Contrariamente ao que apregoam os preconceituosos de classe, e diferentemente da classe média-baixa, muitos trabalhadores tem formação política. Por mais servis que possam ser algumas, as instituições trabalhistas funcionam relativamente bem no campo da formação política dos trabalhadores. Obviamente, as estruturas são insuficientes, mas os trabalhadores formados são, eles mesmos, formadores de opinião no chão da fábrica, no ônibus e onde moram.
    É risível a conclusão dos “sociólogos de gravata”, inclusive do ex-presidente FHC, de que quem vota no PT são os menos informados. Na realidade, os trabalhadores votam no PT porque são eles os atingidos pelas medidas de austeridade que o PSDB implementa com tanta eficácia. Os que não sabem disso por formação política, sabem por experiência de vida. A pequena parcela que não tem acesso a qualquer análise vota, por isso mesmo, no seu algoz, o PSDB, ao contrário do que defende Fernando Henrique Cardoso.
    Muitos sabemos as consequências de uma crise econômica, mesmo os que não sabem o que é o liberalismo do PSDB: mutilação do setor público; demissões em massa e aumento da taxa de desemprego no setor privado; arrocho salarial generalizado – inclusive das aposentadorias; esvaziamento dos cofres públicos para salvar empresas privadas; corte de direitos trabalhistas; aumento de juros e tantas outras coisas que não cabe listar aqui.
    Mas, e quanto ao PT? Seriam diferentes as suas políticas?
    Fora do lamaçal da disputa eleitoral, a honestidade intelectual exige que se reconheça que o PT, se um dia objetivou de fato, abandonou a causa revolucionária. Quem ainda o considera um partido de esquerda, está certamente se referindo a algumas políticas específicas. Como qualquer partido que alcança o governo pela via eleitoral no Brasil, o PT tem a obrigação de implementar as políticas do liberalismo. A diferença está apenas na disposição e na maneira dessa implementação.
    O desespero das elites brasileiras, que lançam mão de toda fisiologia para atrair votos para o PSDB, se dá justamente porque o PT não é tão eficaz na implementação das políticas desejadas pelos que se beneficiam do capitalismo. Mesmo a anos-luz dos processos revolucionários, a identificação entre o PT e a classe trabalhadora ainda não se esvaiu completamente. Consequência disso, os programas sociais do PT, como reflexo dessa identificação, constituem um obstáculo ao êxtase do liberalismo econômico. O temor das elites e a esperança dos trabalhadores é que o PT não implemente as medidas de austeridade com a mesma intensidade que o faria o PSDB, caso eleito.
    Escolher entre PSDB e PT, não pela perspectiva moral, mas pela político-econômica, significa esmagar respectivamente mais ou menos as classes mais baixas, incluindo a classe média-baixa que sequer faz ideia disso.
    Por todo o dito, a destilação do ódio contra o PT pode ter consequências desastrosas no cenário econômico do próximo mandato, inclusive para uma parcela dos odiosos: a classe média-baixa. E o motivo da assunção desse risco, ainda que inconscientemente, é uma só: o justiçamento meritocrático contra o PT.
    Se realizado tal justiçamento moral, se o PSDB puder finalmente implementar o paraíso liberal na terra brasileira, muitos justiçadores irão para os corredores continuar reclamando às paredes, e quem vai às ruas lutar contra essas medidas é, como sempre, a militância de esquerda e os trabalhadores menos remunerados.
    Agradecemos desde já a oportunidade.

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