Carta aberta a Bill Gates

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“O Windows 10 não me fará voltar aos braços da Microsoft. Não quero ser controlado por uma empresa ou a NSA. Aderi ao software livre, construído e compartilhado por milhares de seres humanos como eu”

Por André Solnik

Bill Gates,

Sei que você já largou a direção da Microsoft faz um tempo e agora paga de bom moço doando seus bilhões a causas sociais e pulando cadeiras de escritório (?), mas recentemente fiquei sabendo do lançamento do Windows 10 e seu nome rondou – e perturbou – a minha mente mais uma vez.

Também larguei a Microsoft faz um tempo e confesso que não estou por dentro das novidades da nova versão do seu sistema operacional, mas posso dar alguns palpites: mais rápido, mais bonito, mais intuitivo, mais seguro, mais integrado. Acertei? Bom, pelo menos é isso vocês vêm prometendo há um tempão…mas digamos que finalmente isso aconteceu. O Windows 10 é o suprassumo dos sistemas operacionais: estável, elegante, robusto, inteligente, veloz. Isso faria com que eu reconsiderasse a minha decisão e, finalmente, retornasse aos seus braços?

Não adianta, Bill…não tente me conquistar com amenidades. A Apple já fez um sistema com todas essas vantagens práticas e mesmo assim não me conquistou. Sabe por quê? Porque o grande problema do Windows – e do OS X – é estrutural. Ele é proprietário e, justamente por isso, desrespeita a liberdade dos usuários. Todo mundo deve ter a liberdade de executar, copiar, estudar, distribuir, mudar e melhorar um programa. Essa liberdades garantem que não existe ninguém controlando as coisas de um degrau mais alto do que o meu: o controle agora passa para as mãos dos usuários.

Admito que eu mesmo não consigo interpretar o código-fonte de um software, mas isso pouco importa. O fundamental é que ele esteja disponível pra quem quiser e que centenas de programadores estejam constantemente buscando por falhas, fazendo mudanças e liberando atualizações. E não venha me dizer que só porque eu não sei programar estou sendo dominado por quem sabe. Se um software é livre, qualquer um tem a liberdade de aprender e fuçar, e essa diferença é importante. Além disso, mesmo pra um usuário que não tenha vontade alguma de se aprofundar no assunto, o leque de escolhas no mundo do software livre é praticamente infinito. Aqui chegamos em outro ponto crucial: um software livre, ao contrário do seu monstro em forma de sistema operacional, estimula o conhecimento compartilhado: aprendemos, copiamos e criamos todos juntos. Ele conecta pessoas do mundo todo, criando um senso de comunidade muito forte.

Sei exatamente o que você retrucaria agora: “mas esse controle é essencial pra segurança e pra usabilidade do sistema”. Você deve enganar muita gente com essa, né? Um software proprietário não assegura nada disso. Se ninguém sabe como funciona seu programa, o que me garante que ele não é malicioso, não rouba, repassa e vende meus dados, não acessa meu computador sem minha permissão e não segue meus passos? Nada! E isso acontece – e muito – na prática (aliás, como andam seus amigos da NSA?). A chance de essas coisas acontecerem com um software livre é muito pequena, exatamente porque seu funcionamento não é nenhum segredo guardado a sete chaves.

Quanto à usabilidade, talvez você tenha razão. Afinal, o Windows é utilizado por 1 bilhão e meio de pessoas no mundo todo! É…mas vamos com calma. Quem realmente escolheu o Windows? Quantas pessoas sabem que existem outras opções além dele? Pois é…seus acordos milionários com fabricantes de computadores e de hardwares fizeram a diferença. Praticamente todos os PCs que chegam às lojas já vêm com o Windows instalado. Você convenceu o planeta inteiro de que computador era sinônimo de Windows e desse jeito conseguiu empurrar esse sisteminha ingrato pra todo mundo. Até a liberdade de escolher o sistema operacional que queremos usar você quer cercear…assim já não dá. Tenho muito mais pra te falar, mas fica pra outra hora. Enquanto isso, que tal você dar uma lida sobre o GNU/Linux e aprender com um sistema operacional que respeita a liberdade dos usuários?

Passar bem,

André Solnik

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10 comentários para "Carta aberta a Bill Gates"

  1. J3232 disse:

    DIscurso lindo, mas o foda é que pra se manter por longa data usuário de software livre o fulano precisa manjar relativamente BASTANTE de código e o caramba. Usei Ubuntu até poucos meses atrás durante pouco mais de seis meses, no início tudo lindo e maravilhoso -nem acredito que vou me livrar do windows- programas a milhão e começaram meses depois as atualizações mais drásticas, programas que paravam de funcionar, sistema que dava problemas cada vez mais constantemente, busca e busca atrás de soluções em fóruns… esquece. Não tem como, é por isso que a maioria esmagadora usa windows ou mesmo o sistema da apple, porque continuam funcionando.
    Me chamarão de preguiçoso, certamente, mas peço que entendam que a mesma maioria esmagadora que mencionei acima está pouco se lixando para ter que aprender códigos e artimanhas pro seu OS feito por humanos benevolentes continuar funcionando depois de longos meses.
    Realidade horrível, concordo, espionagem, backdoor, nsa, mas continuar tendo um acesso rápido e sem perrengues ao que se quer -ainda que vulneravelmente exposto ao grande olho, coisa que nem o onion se mostrou tão eficiente- continua sendo a prioridade.
    Shitstorm in 3… 2… 1…

    • Oryan disse:

      Uso o UBUNTU e, realmente, no começo eu gostava mais.
      Agora o sistema vive congelando, me obrigando a forçar a reinicialização. Pra mim, faz muito sentido o seu comentário, amigo! Estou procurando uma forma de corrigir o problema, mas ainda não encontrei. Penso em voltar pro Windows, mas também sei que ele possui muitos problemas que não preciso me preocupar enquanto usuário Linux.
      No fim, prefiro a liberdade proposta pelo Linux à prisão imposta pelo Windows.

  2. Lenara disse:

    Belíssimo texto!
    Acho que o essencial da mensagem não é que todos se tornem hackers, o importante é essa sacada do quanto este uso pode ampliar nossa liberdade. Ainda que EU não saiba utilizar o código, o fato de ele ser aberto torna viável que UMA PESSOA possa acessá-lo, conhecê-lo, modificá-lo, replicá-lo! Essa transparência é fundamental e ela toca em outro ponto que é o de liberdade e coletividade, não importa exatamente o que eu faço com a minha máquina, mas sim que, caso alguém queira, possa fazer uso livre do seu código-fonte. Liberdade só existe quando coletiva!!
    Parabéns, André!

  3. Andre Andrade disse:

    Me diga apenas qual meio de comunicação você usa, meu xará: Fumaça? Código Morse? Telepatia? Hummmm….Um smartfone? Acertei? Qual sistema operacional seu aparelho usa? Android? IOS? Windows Phone? Qual o mecanismo de buscas você usa? Google? Bing? Yahoo? Você acha mesmo que, ao deixar de usar especificamente o Windows, estará protegido dos olhos da Nova Ordem Mundial? Seja honesto consigo mesmo e reveja seu conceito de privacidade. O que você tem a esconder? Nada? Então pra que a preocupação? Reveja melhor sua argumentação, meu amigo, pois esse seu proselitismo tá muito prosaico.

  4. leandro silva disse:

    Cara, muito bonito seu texto, muito ideológico, mas não me leve a mal…o cara nem tá mais pensando na Microsoft…o cara, como vc disse, doa seus bilhões, e vai doar todos o resto de vários bilhões pra causas nobres…é nisso q ele ta pensando agora….e cá entre nós, já ta fazendo infinitamente mais bem pra humanidade do q nós contribuidores do software livre…. Sim, sou usuário linux a bastante tempo,contribuo com o desenvolvimento da comunidade, e trabalho em ambientes de missão crítica, ( acredite, ambientes bem grandes) gosto pra caralho desse tal linux e já deixei de usar o windows a algum tempo…agora, demonizar o cara por mais uma versão do Windows ( que deve ser bem user friendly diga-se de passagem), pelo simples fato de não ser livre e bla bla bla…na minha humilde opinião não vai acrescentar em nada….

  5. Mara disse:

    Oi, J3232!
    Também tive dificuldades para conseguir me adaptar ao GNU/Linux, há 7 anos, quando comecei a utilizar o UBUNTU. Eu persisti, e tenho uma certeza na vida: nunca mais volto para o windows.
    Testei outras distribuições Linux, mas me adaptei bem ao Ubuntu.
    Não utilizo meus PCs para jogos, no mais, funciona absolutamente tudo, inclusive a chatice que é acessar o site da CEF… mas sempre tem um tutorial prá ajudar.
    Sou uma entusiasta do software livre!!
    Abraço!!!

  6. André Tocantins disse:

    Bom artigo, comentário um tanto quanto fora da realidade em um aspecto. Para um usuário regular, o Ubuntu atende todas as expectativas, inclusive aquelas do mais preguiçoso e leigo. A questão maior está no fato que a maior parte de nossa geração quer tudo pronto e mastigado, não quer nem pensar e se dar conta que existem outras alternativas, sejam elas melhores ou não, até porque cada um que defina o que é melhor para sí mesmo. Mas esta liberdade de escolha não pode ser sufocada, e tenho que dizer que a MS o faz, e as pessoas indiretamente gostam…
    Abraços, André

  7. Cristian disse:

    O principal empasse para a massificação do software livre é justamente algumas coisas ainda terem que ser resolvidas no terminal. Eu que trabalho com TI, mais com Linux que com o Windows, sei bem como é isso, o usuário muitas vezes não consegue nem executar funções básicas no Windows como imprimir no Word ou salvar um documento, compilar software ou pesquisar soluções em fóruns se torna bem complicado. Já ouvi muitas vezes: “eu não trabalho com TI, quero solução e não pensar nela”, partindo desse principio que é o que pensa a grande maioria, é praticamente impossível massificar o uso de Linux, aliado à isso também há às questões de jogos, que alguns hoje saem para Linux graças ao Steam, porém as grandes franquias ainda saem somente para Windows. Linux é software livre e seguro, porém ter que se ter perseverança e gostar de aprender à mexer no sistema operacional. Caso contrário será uma grande frustração.

  8. Fernando MS disse:

    Sobre o texto do André, compartilho da mesma ideia quanto ao meu direito de não ser bisbilhotado por nenhuma empresa ou órgão de governo tanto nacional como internacional.
    Já alguns que postaram sobre as dificuldades sobre a substituição dos SOs e em especial ao Ubuntu, digo que o Ubuntu de fato anda dando “mancadas”, no entanto, há outras distribuições igualmente fáceis e menos traumáticas como Fedora, MintDebian, Suse, Mandriva entre outras não tão HardFuckerBrain.
    Eu gosto do Debian por hoje estar bem mais amigável na instalação que facilitaram muito. A exceção é quanto aos drivers para os hardware. Os integrantes da comunidade Debian são extremamente rigorosos – e chatos pra cacete – quanto a isso e só admitem por padrão firmwares de código aberto, auditado e testado por eles tornando chata as vezes a instalação. Mas mesmo assim eles tem disponível o driver-firmware no “debiapackges” non-free.
    Essa suposta chatice da comunidade ´Debian é o diferencial e ao meu ver a principal características que as pessoas tem de atentar: a segurança da sua privacidade e integridade.

  9. Tahirbutt disse:

    This ariclte is a home run, pure and simple!

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